Como ajudar, em meio ao conflito?

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Quando criança, muitas vezes eu olhava uma briga e queria entrar no meio, tentando acalmar os ânimos. Ficava profundamente incomodado com as desavenças, e de alguma forma, acreditava que eu poderia estabilizar a situação.

Em pouco tempo, percebi que,quem mais apanhava, era eu. E fui deixando de interferir explicitamente nos conflitos, até porque, eles não me diziam respeito. Mas aprendi a ser diplomático. A ter tato para lidar com pessoas. E isso se tornou fundamental no meu papel como terapeuta e condutor de grupos de estudo.

Analisando esta vocação que sentia de ser um dos vértices de um triângulo, onde os outros dois vértices estavam em conflito, lembrei-me que eu era o “lado pacífico” nos conflitos de dentro de casa. E por ser pacífico, sempre sobrava para mim as maiores tarefas. Todos brigavam, todos perdiam a linha, menos eu. E isso é muito peso para se carregar. Numa casa de desequilibrados, ser equilibrado é ser anormal. Dói muito. Quando um pouco mais velho, lembro-me que eu era um joguete nas mãos do meu pai. Ele tinha problema com suas mulheres, e eu era levado de uma casa a outra, como uma forma de aliviar a tensão que existia.

Aprendi muito. Fiquei muito forte. Mas durante muito tempo condicionei-me a querer resolver os problemas dos outros, ao invés de olhar o que eu queria para a minha vida. Tinha um faro aguçado: onde alguém sofria, eu apresentava a solução. E acompanhava o caso, como se fosse eu próprio que estava necessitando daquela solução. E como estava programado no mais profundo do meu ser, que no final, a confusão acaba em separação, em mais briga, em desarmonia, pois era isso que ocorria em casa, eu sempre ficava frustrado.

Saia do meio da briga

Quando dois lados estão em crise, é importante entender: são somente dois lados. Você não é o terceiro lado. Você é somente um observador, isento, imparcial. Não há um terceiro lado: entenda isso. Qualquer tentativa de querer fazer parte como um “terceiro”, fará com que você leve porrada… Muitas vezes, os outros dois lados irão descarregar sobre você toda a frustração, raiva, rancor… E estou falando de ser um terceiro numa relação afetiva – ser amante. O amante sempre leva a descarga energética da frustração na relação afetiva. É lógico que quem é amante, está rodando um programa interno de negação a uma relação estável e honesta. Na relação familiar, por exemplo, intermediar a briga do seu pai duro com o vitimismo da sua mãe. Quantos pais ou mães obrigam seus filhos a arcarem com suas dores, impedindo-os de serem livres? Ou querer obrigar alguém a se curar, quer dizer, você se intromete entre uma pessoa e sua doença. Seria bom perguntar-se: qual é a doença, dentro de si, que você não se conforma? Qual é o problema de alguém sofrer e até morrer doente? Ou ainda ficar no meio da disputa entre irmãos devido a alguma herança. São tantos e tantos exemplos…

O que faz um observador? Ele sente toda a energia da raiva, do inconformismo, sente em si mesmo, e não reage. Vê aquilo que não está sendo visto por ambas as partes. Por exemplo, enxerga a mágoa escondida atrás da manipulação. E deixa que a mágoa faça parte. É importante aprender a deixar as emoções escondidas virem a tona. Se tem raiva, ela deve aparecer. Se tem ciúme, ele precisa vir. Se tem inveja, é importante olhar para ela. Dor, tristeza profunda, sensação de abandono… Tudo isso faz parte, e surgirá, quando simplesmente observamos dois lados em disputa.

Quando estas emoções são vistas, abre-se uma possibilidade de conciliação. Antes, não.

O ajudante, no jogo triangular dos que precisam de ajuda

Você será muitas vezes chamado a ajudar, por alguém que, pretensamente, precisa de ajuda. Mas logo você notará: a pessoa quer que você ajude o outro. O outro é que tem problema. Ela não. Nesse caso, é importante você não entrar neste jogo. Ou, no mínimo, pontuar: o que você sente, quando percebe o outro com tantos problemas? E isso que você sente, é seu, não é mesmo? É o seu problema.

Muitas vezes o outro não tem consciência de que está olhando para os problemas de Deus e o mundo, para não olhar para o seu próprio problema. Quando você consegue fazer alguém parar, e olhar para suas questões, talvez já tenha realizado a maior ajuda possível. Mas se você entrar no jogo, e tentar resolver o problema que o outro está apontando, você ficará na posição que eu chamei “vértice do triângulo”. Levará porrada. Pode crer! Mesmo que energética. Você se sentirá sugado, usado, e às vezes, fisicamente, dolorido…

Lembre-se disso: saia desta posição. Se você tem a vocação para ajudar, seja um observador do sofrimento alheio. Não entre em julgamentos, evite sofrer pelo outro. Mas se o sofrimento aparecer, entenda que este sofrimento é seu, não tem nada a ver com o outro. O outro precisa de alguém isento, porque ele mesmo não está conseguindo ver o que é preciso. Se você ficar a favor do outro, ou contra o outro, não poderá servir como ajudante. E o conflito não se resolverá.

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