Eu vejo você. Pela primeira vez

criança sozinha

É bem possível que você veja o meu rosto de contrariedade, agora. E perceba que eu estou lhe cobrando algo. Bem que eu tento fingir que não estou. Mas não tem jeito. Minha mandíbula tensa, dificuldade de olhar nos olhos, respostas rápidas e fugidias não enganam. Eu estou lhe cobrando.

Sabe o que é? Queria que você me visse. Parasse de olhar para todos os lados, menos para mim. Parasse de falar dos problemas do mundo, e dos seus problemas, e me enxergasse. É, eu sei: sou carente! Sou egoísta e quero você só para mim. Ou pelo menos, a maior parte do tempo. Mas sabe qual é a sensação? Que nunca tive você. Mesmo quando estávamos juntos. Mesmo enquanto nos divertíamos… E agora, que percebo claramente que você não quer mais saber de mim, isso dói. Dói muito.

Mas também sou forte, e finjo que sei viver sem você. Dou uma de que não ligo, domino minhas emoções, analiso a minha parte na responsabilidade disso tudo… Fujo para a cabeça, para não acessar o buraco que sinto no peito. Buraco gigantesco. Que nem toda a terra do monte Everest poderia preencher. Até acho que gostaria de cuidar de você… mas começo a perceber que só queria estar perto de você. E para estar perto de você, aceito ser humilhado, pisado, abandonado e esquecido. Mesmo assim, falo para todo mundo: eu estou ajudando! Eu sou o cara! Tudo bem, aceito o que vier…

Um lado bobinho, meio infantil, crê que gostaria de ser cuidado por você. Que nada! Nem cuidar, nem ser cuidado. Só estar ao seu lado é o suficiente. Ainda sonho com o dia em que estaremos andando, lado a lado, nossos olhos se encontrando, e em meu coração a certeza plena: você estará sempre comigo. Eu confio em você! Nunca serei abandonado.

Mas você vem para mim e diz não! De diversas formas. Arruma outro companheiro. Outra distração. Mergulha até o pescoço de trabalho. Distrai-se com diversões, jogos, bebidas, mulheres, homens, televisão, blá-blá-blá. Não desgruda dela. Ou dele. Agride com palavras, ou com o silêncio. Mergulha em sua neurose. E eu, como uma bactéria minúscula em terra de gigantes, sinto-me um nada.

Por isso tudo, eu cobro você. Me dê o seu olhar, por favor. Reconheça minhas dores, e mesmo entendendo que são minhas dores, e que isso não tem nada a ver com você, olhe para mim. Não permita que eu tenha que voltar mais trezentas vezes, para continuar a eterna busca por ti. Estou cansado de busca-la. Deixe-me descansar em seu colo. E se isso não for possível, porque você não consegue me dar mais, além do que já deu, pelo menos diga para mim: eu vejo você. Pela primeira vez. É só isso que preciso.

logo alex possato 4

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