Terapeuta: auxiliando a olhar para o que incomoda

nuvens

Estivemos ontem em mais um belo trabalho de cura, através da constelação familiar sistêmica. Desta vez, em Formosa, Goiás. Casa cheia, duas constelações intensas… dois clientes desistiram no dia… Coisa que sabemos que acontece, afinal, muitas vezes a pessoa não está ainda preparada para olhar para o conteúdo que irá emergir das profundezas do inconsciente coletivo. E tudo bem: a desistência faz parte! E é muito louvável que somente as pessoas que estão prontas – mesmo sem saber! – para olhar para suas sensações internas, participem do trabalho. Constelação também é “uma caixinha de surpresas”!

A constelação familiar me ensina e meditar ativamente. Estar presente, enquanto diversos sentimentos, sensações mentais, emocionais, físicas e energéticas vão se mostrando. Às vezes, estoura um desconforto no grupo. Outras vezes, o falatório quer dominar. Ainda em outros momentos, peso, tristeza e dor se mostram… O que quero dizer com isso é que aprendo a aceitar as coisas como elas chegam. Tudo o que acontece. Esse é o meu treino meditativo. Ao sustentar inúmeras situações que o grupo – no caso do atendimento em grupo, ou a pessoa – no caso do atendimento individual, não consegue encarar, abro espaço para a inclusão. E a inclusão abre espaço para a cura.

Talvez o grande exercício da constelação familiar sistêmica seja olhar. Olhar para aquilo que ninguém quer olhar. Olhar para uma perda. Uma dor. Uma traição. Um assassinato. Uma violência. Um abandono. Olhar até para o amor – que muitos não conseguem. E quando digo “olhar”, estou dizendo “sentir”. Olhar com o corpo, a alma, tudo! Quantas vezes passamos situações na vida e simplesmente reagimos, sem olhar.

Vejo pessoas se separando, ficando com raiva uma da outra, mas efetivamente não olham o que está incomodando. Não olham para a dor de ser abandonado, traído, sentindo-se usado e também manipulando. Em outros casos, pessoas perderam entes queridos, tiveram abortos, viram seus filhos adoecendo e falecendo, e não olham para esta profunda tristeza. Às vezes, alguém é enganado num negócio ou relação, por alguém muito próximo. E não olha para o sentimento da confiança rompida. Para a sensação de ter servido “de palhaço”. E também não vê a sua responsabilidade em ser traído, afinal, uma parte da pessoa necessitava desta traição, para ver a sua existência validada.

Sim! Você não entendeu errado. Eu disse que uma parte da pessoa precisa da traição. Precisa da dor. Da perda. Do abandono. Se você olhasse calmamente para sua psique, veria inúmeros “eus”, funcionando, cada um querendo uma coisa. Cada um seguindo uma regra, e influenciando a sua vida, as suas relações, o seu comportamento e o seu pensamento. Mas estes “eus” se escondem de diversas formas, para não serem encontrados. Eles sabem que, quando tomamos consciência de quem somos, a maior parte deles perdem suas funções, e deixam de ter domínio sobre nós. Segundo a constelação familiar, estes “eus” são marcados por situações do passado familiar, onde pessoas e fatos que não temos a menor ideia, foram esquecidos. Nós acabamos nos aliando a estas pessoas e fatos do passado, e sem saber, repetimos as dores vividas antes. Repetimos por amor. Para honrar as pessoas e fatos esquecidos. É a tal historinha de querer ajudar aqueles que achamos injustiçados, mais fracos. É uma programação, e ela age inconscientemente. Por isso dizemos constelação sistêmica. Um sistema atua sobre nós.

Quando buscamos uma relação afetiva saudável, honesta, que traga prazer, esbarramos na programação interna que mostra nossos pais não se amando verdadeiramente, traindo, mentindo, engando. Nossos avós, idem. Os diversos amantes também pululam, energeticamente, no nosso sistema que comanda nossos pensamentos, atitudes e emoções a respeito dos relacionamentos afetivos. Os filhos abortados, os filhos ilegítimos, os amores rompidos, tudo isso influencia nossa psique, e nos faz atrair, em primeiro lugar, as dores, os conflitos e perdas, antes que estejamos verdadeiramente preparados para uma relação livre e em paz… Isto é só um exemplo, que é muito comum, mas não significa que aconteça com todos.

Da mesma forma, podemos entender que, quando partimos rumo a um empreendimento, uma carreira, uma vocação, iremos nos defrontar com os medos: pobreza, incompetência, enganos, traições, julgamentos, excesso de responsabilidade, falta de força, etc. Aquilo que está inconsciente aflora, quando queremos o nosso sucesso. E somente após “olharmos” com o corpo, a alma, o coração, para aquilo que aflora, estaremos prontos para tomar posse do nosso verdadeiro sucesso. Da nossa verdadeira saúde. Da nossa verdadeira relação.

Precisamos das pedras do caminho, para fortalecer nossas pernas. Precisamos das nuvens, para saber apreciar o céu azul e a noite estrelada. Após você conseguir passar pelas sensações desagradáveis, você as verá amorosamente. Como saborosas e profundas lições deixadas por uma inteligência maior, que a todo instante nos acompanha, nos orienta, nos ensina e ampara.

Quando estamos trabalhando com terapia, seja em grupo ou individualmente, estamos a serviço desta inteligência. E ela nos preparou para que possamos auxiliar as pessoas a olharem para aquilo que elas não conseguem olhar. Está nos convidando a abrir nossos sentimentos e sair da cabeça racional, que busca explicações o tempo todo. Explicações que de nada servem, porque nenhuma explicação nos leva ao caminho maior de todo ser humano: o amor incondicional. O terapeuta se verá também provocado, porque suas próprias negações surgirão. Quando trabalhamos com constelação sistêmica, todos nós estamos sendo curados. Todo curador, em algum momento, tem que ser “objeto da cura”. Tem que receber o apoio e auxílio de outros curadores. E mesmo após estar “pronto” para o trabalho, será muitas vezes confrontado com o que não aceita. Verá pontos dentro de si onde não consegue manifestar o amor. Talvez manifeste o ódio. A discriminação. A raiva. A exclusão. A loucura. A insegurança. O ciúme. A avareza.

O que podemos fazer com isso? Observar: este ódio é meu. Esta discriminação é minha. Esta raiva e exclusão são minha responsabilidade. Alguém, que não tenho domínio nem conhecimento, está apresentando estas lições no meu caminho, e me auxiliará a integrá-las em meu coração. Assim funciona o trabalho de cura. Sou provocado o tempo todo. E quando não caio na provocação, quando consigo dar um passo e me afastar da sensação que quer me engolir, vejo que tudo é parte do processo. Tenho que dar conta de algo intenso, mas é para isso que fui chamado a ser terapeuta. Este é o meu destino. E este destino é muito grande. Eu me rendo, humildemente a ele. E permito até que ele me fragmente em milhares de pedaços, para que eu posso servi-lo com mais isenção e integridade. Assim é nossa sina: curamos para curar. Somos curados e curamos. Talvez, em algum momento, perceberemos que até essa cura que tanto nos apegamos, são somente nuvens.

O sol continua brilhando, sempre, no céu azul.

Papo de homem

papo de homem

Depois do trabalho de constelação familiar de ontem, onde havia mais homens que mulheres, e fizemos um trabalho de cura para o masculino agressivo, violento, irracional e ferido… este texto caiu como uma luva… Chegou a hora de nos prepararmos para merecermos nossas companheiras, de verdade. Como homens, de verdade… Saindo, definitivamente, da saia da mamãe… Para bom entendedor…

“A sua namorada levantou uma série de questões pertinentes. O mais fácil seria mudar de namorada, mas sugiro que olhe para esta moça como uma amiga que lhe disse algo absolutamente sincero e autêntico. Sinta-se grato para com ela e comece a mudar. O grande dia da sua vida será aquele em que a sua namorada o considerar substancioso e interessante. Não seja um covarde que muda de namorada cada vez que surge alguma perturbação.
Vocês teve a sorte de encontrar uma moça com bastante compaixão.(…) O que é que você fez para deixar de ser chato? O que é que você fez para declarar a sua independência? O que é que você fez para deixar de ser vítima? Chegou a altura de fazer alguma coisa. Você ficará para sempre agradecido à sua namorada.
Gostaria de dizer à sua namorada “Continue a criticar o seu companheiro até que esteja satisfeita: até ele deixar de ser chato e se tornar bem substancioso, profundamente interessante, divertido e constantemente feliz.Pode perdê-lo em algum momento no caminho da vida, mas ele estará preparado para uma outra mulher. Se ele continuar a ser da maneira que é agora, acabará por se torturar a ele próprio e por fazer o mesmo a muitas outras mulheres.”

Osho – O livro do homem

Firmeza – o mal não é você

firmeza

Em alguns momentos, vejo a sua mente invadida pelo mal. O medo toma conta. A crítica dispara, ensandecida. A comparação vos coloca para baixo ou para cima, encobrindo a igualdade absoluta que é a essência de você, do outro, de todos nós. Seus sonhos se poluem de pesos e misérias. Suas compulsões gritam e você se deixa sequestrar por elas. Suas palavras e pensamentos despejam fel, agitando o mar plácido que reside em seu interior mais profundo.

Eu sei que o mundo está caótico: são épocas de transformação, e a força da mudança necessita chacoalhar as pessoas, as instituições, derrubar crenças, desafiar o poder estabelecido… porém, eu lhe dei o poder de observar tudo isso, sem se deixar afetar. Perceba que o mal que está fora de você, também está dentro de você. E se você puder olhar para aquilo que tanto o incomoda, dentro de você, estará em paz com o externo.

Olhe com o coração, e não com a mente que compara, julga e condena. Olhe para seus medos. Suas neuras. Suas críticas. Suas mágoas. Suas dores. Seus vícios. São somente hábitos. Não é a raiz de quem você realmente é. Como em uma árvore, o vento sopra e as folhas balançam. Se o vento sopra furiosamente, toda a árvores se agita. Mas quando vem a calmaria, lá está ela, firme, plácida, verdejante, abrigando os pássaros e protegendo os frutos.

Seu corpo, sua mente, suas emoções são como esta árvore. Ela pode se agitar ou pode estar quieta. Pode chover, fazer calor ou frio. Vir a estiagem ou enchentes. A vida é assim. A árvore continua árvore. Nem melhor porque está calma. Nem pior porque está agitada. Acostume-se a tirar o foco das folhas que balançam ou estão estáticas. Mergulhe na firmeza do seu tronco. Penetre na nutrição das suas raízes. Vá fundo, onde a sua vida se conecta com a minha. Neste lugar, não há mal. Nem bem. A sua vida é a minha. Aqui, simplesmente, somos.

Confiança

confianca

Quanto mais você pensa em confiar, menos você confia. A sua mente não pode confiar. Dentro do seu sistema, muitos ecos de traições, agressões e abandonos estão gravados, e por isso, você não confia. A confiança não vem da mente. Floresce do coração manso, humilde. Por isso, muitas vezes, a mente precisa chegar no limite da não-confiança e da separação, atravessando o deserto das emoções dolorosas, para se entregar ao coração.

Imagine uma criança muito, muito pequena, que sabe que seu pai está ao seu lado, e somente estende a mão para segurar nas mãos dele. É assim que você irá proceder. Estenda as mãos. Confiança necessita de um gesto. O seu pai está ao seu lado, mesmo que você não o veja.

Você está seguro. Experimente. Estenda a mão. Ele a segurará…

O que o Caminho de Santiago me ensinou sobre parceria e confiança numa mulher

20150515_135837

Acabo de realizar o Caminho de Santiago com minha parceira, companheira, amiga, amada, amante. Embora tudo tenha ocorrido de maneira adequada, confesso que foi um grande desafio me render ao fato de que eu teria alguém para caminhar ao meu lado, já que a ideia inicial era trilhá-lo sozinho. Isso há dez anos atrás, quando ainda estava em outro relacionamento, e me via como um solitário caminhante, perdido em suas próprias neuras.

Por que não fazer o caminho acompanhado? Logo eu percebi que tinha medo. Medo de perder minha individualidade. Medo de ver-me prisioneiro, dentro de uma relação. Medo de viver novamente as dores de algo que se foi, em outra relação. Mais fácil ficar só, não é?

Todo mundo que já viveu rompimentos de relação, sabe o quanto é difícil lidar com isso. O quanto não confiamos no outro, após termos feito de tudo – pelo menos é o que pensamos – para que a relação ficasse confortável. Mais um motivo para eu acreditar que o meu caminho deveria ser a só. Mas existem certas coisas na vida onde a cabeça, com os milhares de traumas inconscientes que ela carrega, não manda. Um caminho de vida já está marcado para acontecer, e somente o nosso coração pode dar indícios de como ele será.

E o meu coração sempre falou: existe alguém com quem você poderá compartilhar muitos e muitos caminhos, aprendendo a desarmar-se, confiar, abrir-se ao amor. Mal sabia eu que o Caminho de Santiago seria um mágico movimento, sabiamente orquestrado, para que eu soubesse me entregar a este amor, e principalmente, reaprender a confiar numa mulher.  Talvez você teve uma ou várias desilusões em relacionamentos, e também queira reaprender a confiar em alguém. É lógico que não posso ensiná-lo como fazer isso. Mas posso deixar algumas brincadeiras para pensar, da minha própria experiência, utilizando as lições que o Caminho de Santiago me ensinou sobre parceria e confiança numa mulher. Vamos lá?

– o sonho precisa ser dos dois. Como saber isso? Sabendo qual é o seu sonho. E perguntando qual o sonho dela. Se o sonho é de um só, realize-o sozinho. E deixe o outro escolher o próprio caminho;

– se o sonho é conjunto, é necessário dar o tempo correto para que ele possa acontecer. Assim como um filho nasce após 9 meses de gestação, um sonho tem o tempo dele para acontecer. Isso não depende dela. Nem de você. O sonho tem vida própria;

– os sonhos mais malucos, quando feitos com consciência e planejamento, são saudáveis e trazem benefícios a todos. Os sonhos inconsequentes trazem sofrimento, bagunça, embora sejam úteis como aprendizado… Não há certo ou errado, mas se você quer sofrer menos, seria importante saber qual via está pegando – lembrando que consequente ou inconsequente é um conceito muito particular;

– toda ação leva a uma reação. Se você semeia organização, paciência e rotina, colherá frutos, no tempo correto. Se você semeia desorganização, impaciência e impulsividade, colherá sementes incompletas, que não puderam germinar completamente;

– o Caminho é o mesmo para todos. Talvez a pessoa que está ao seu lado agora, não poderá completar o caminho. Talvez você não possa completar o caminho. Vocês se afastarão, e encontrarão outros companheiros. As coisas são como elas são, e você aprenderá com qualquer que seja a situação. Aprenda a deixar as pessoas livres, quer elas estejam andando ao seu lado ou não, e o sofrimento não existirá, caso alguém fique para trás;

– em liberdade, talvez você veja, se não estiver com os olhos fechados, que alguém escolheu andar junto com você. E você está junto a ela. Não é necessário forçar, insistir, manipular. Ambos caminham, porque assim o Caminho deseja. Seria até uma boa ideia dizer a ela: que bom ter você ao meu lado!;

– mesmo juntos, você estará sempre só. Esta é a suprema incongruência do relacionamento. Estará consigo mesmo. Com suas loucuras, desejos, impulsos, compreensões. E ela também estará no momento dela. Com as loucuras dela. O caminho se anda individualmente, embora possa parecer conjunto;

– por isso, é importante aprender a se revelar. O que se passa na sua cabeça? Quais suas expectativas? Quais suas broncas? Quais seus elogios? O Caminho deseja o silêncio, mas a palavra usada para esclarecer, trazer luz, é sempre bem-vinda. Sem paz interior, não existe silêncio. Duas pessoas sem paz interior e de boca fechada são um convite para a guerra;

–  em algum momento, você perceberá que as suas neuras não tem importância. Você perde tempo demais ruminando os problemas que somente a sua cabeça vê, e deixa de ver que, ao seu lado, existe alguém que, muitas vezes, está precisando do seu ombro e silêncio;

– se você não tem este ombro, tudo bem. Aceite que você é humano. E também aceite que ela não poderá lhe amparar todo o tempo que a sua mente carente deseja. Embora você não tenha se dado conta, ela também é humana!

– quem disse que o homem é mais forte que a mulher? Quem disse que ser mais rápido é uma qualidade melhor que a vagarosa constância? Você sabia que o homem vive menos que a mulher?

– quem disse que a criatividade e a intuição são melhores que o planejamento e o pensamento linear? E quem disse o contrário? O Caminho lhe diz quando usar a intuição, e quando é necessário saber exatamente o que se quer, e planejar para conseguir isso. Se o Caminho está traçado – e isto é um fato – para que tanta criatividade em querer inventar novos caminhos? E se o Caminho não vai mudar de lugar, para que tanta pressa e neura em planejamento? Planejamento e intuição andam lado a lado. Ação e descanso se complementam;

Por fim…

– você viu as flores do caminho e os pássaros cantando alegremente?

– o que acha de dar uma destas flores à ela? E convidá-la para dançar?

logo alex possato 4

caminho de santiago de compostela

O foco flui do silêncio

caminho de santiago de compostelaNestes últimos encontros que tive em Brasília e Goiás, e ao voltar à SP e reencontrar algumas pessoas e situações, tenho visto muitos em busca de realizar seus projetos, e ao mesmo tempo, esbarrando na energia da confusão, da manipulação, da desorganização, da insistência… energias estas totalmente desamorosas, porque desrespeitam e machucam, principalmente, a própria pessoa que está emaranhada na confusão. Mas também todos os  outros envolvidos.

Vejo pessoas manipulando outros para começarem projetos, e depois abandonam o barco, causando tumulto e despertando raiva. Outros, não cuidam das coisas em andamento, gerando insegurança e falta de rumo. Lógico que isso significa prejuízo financeiro. Pessoas acabam envolvidas nas ideias de outros, e subitamente se vêem engolidas por responsabilidades que não eram delas. Como se sentir realizado se estou fazendo uma coisa pelo outro, e não por mim mesmo? Alguns partem em busca de algo com tanta, mas tanta obstinação, que agem como um elefante ensandecido dançando samba num jardim de margaridas. Depois reclamam que as pessoas se afastam, não confiam, traem…

Quando temos um projeto, estaremos inevitavelmente envolvendo outras pessoas. Precisamos de apoio, de parceiros, precisamos de dons, bens, energia diferente, que “aparentemente” não possuímos, para que o projeto possa nascer, crescer e se multiplicar. Aí reside um ponto muito importante a ser observado: de onde flui este projeto? Da minha mente carente e reativa, que está em busca de sucesso, dinheiro, poder, status, aceitação, porque se acha pobre, abandonada, solitária, incapaz e medíocre? Ou o projeto flui de um outro lugar, dentro do coração, que sintoniza o poder infinito de se doar ao próximo, e sente (eu disse sente, e não pensa!) que é possuidor de todas as riquezas que possa merecer do universo?

Muitas vezes, o mesmo projeto pode fluir destes dois lugares antagônicos. E apresentarão resultados antagônicos. O projeto que flui do coração, cresce. Porque ele já é grande desde o princípio. Porque você, unido ao seu coração, atrairá pessoas cujos projetos pessoais somam-se ao seu projeto. A energia do crescimento está potencializada.

Já o projeto que flui de uma mente carente, que se vê e se sente separada do todo, irá atrair desgaste, confronto, desunião. Durante um momento, até poderá render alguma coisa, mas como o seu foco é a insatisfação, a carência, a pobreza, a exclusão, em breve ocorrerá algo para provar para a sua mente que ela estava correta: a coisa desanda. As pessoas somem. O dinheiro desaparece. Um parceiro abandona você.

Mesmo dizendo estas coisas, até porque passo pelos mesmos desafios de todos, buscando centrar-me o tempo todo para perceber a minha mente carente e não me deixar guiar por ela, posso afirmar que as experiências de construir projetos baseados no ego, e o fracasso que obtemos disso, são experiências maravilhosas. Quando conseguimos isolar nossas emoções distorcidas – a raiva, a mágoa, a inveja, o vitimismo – e olhar para o que ocorreu, vemos um fantástico laboratório, que está nos ensinando como seguir projetos através do coração, e não criar projetos somente com a mente.

Para quem conhece a constelação sistêmica, entende que já estamos mergulhados num campo onde as informações e energias se encontram disponíveis. Se intuímos um projeto, é necessário sentir. Abrir um espaço de silêncio mental, e ficar em companhia da ideia do projeto, sem querer fazer absolutamente nada. Talvez percebamos como se uma nova vida estivesse querendo se manifestar no plano físico. Esta vida pode estar pronta para vir. Ou ainda necessita de algum tempo. Alguns ajustes.

Quando a ideia está pronta para vir, você faz um movimento em torno da ideia, e o universo responde imediatamente. Eu disse: imediatamente! Você precisa de um lugar? Ele surge. Precisa de alguém que apoia a ideia? Esta pessoa aparece. Precisa de dinheiro? O dinheiro surge.

Mas enquanto está em construção do movimento de fazer a ideia se materializar, aja com o máximo de amorosidade. Nunca force ninguém que não queira participar de algo. Nem se deixe ser forçado. Não pegue a primeira coisa que surge no seu nariz. Da mesma forma, não entre nos planos de qualquer um, a não ser que o seu plano esteja contemplado plenamente. Aquilo que é para acontecer, acontecerá. Afinal, você é só um comandante de um navio que já está lançado ao mar. Um navio celeste, divino, imponente, que requer um capitão a altura para comandar. Então, precisa comandar. Não querer abandonar o navio, para brincar de outra coisa. Se responsabilizar pela segurança e integridade das pessoas que estão dentro da sua embarcação. Se entregar ao comando de Algo superior, porque a mente sempre é viciada, e irá tentar te enganar… porque ela tem medos, carências, distorções… Pergunte-se sempre: para onde estou indo? Meu coração se alegra com este rumo?

O foco surge deste espaço de silêncio, onde você ouve sua mente neurótica, e sente a suavidade do seu coração. E então decide continuar seguindo o coração. Foco é constante e não causa dor. Não cansa. Não exige. Respeita o tempo e os ciclos. Percebe os momentos de acelerar e desacelerar. E até parar. Um foco que vem do coração, engrandece a todos, traz à tona os dons e talentos das pessoas envolvidas. Nutre, alegra, dá prazer. E os desafios que existem e existirão sempre, porque no mundo da matéria ocorrem oscilações, são vividos como fases de um jogo, momentos de uma viagem, mudança de clima numa caminhada. Nada pessoal, somente desafios. Que também passam. Assim como as alegrias.

Tudo passa. Então, poderíamos perguntar: para que viver? Para que construir, projetar, ter metas, ter foco? Eu diria: somente para termos a possibilidade de vivermos plenamente, utilizando da melhor forma todos os recursos humanos que nos foram fornecidos nesta existência. E ao utilizar e despertar o melhor de nós, percebermos o quanto somos pequenos e insignificantes, diante da grandiosidade da existência… assim, humildes, continuarmos a viver. Continuamos a servir a Algo maior. Enquanto nos for permitido.

logo alex possato 4