Como acolher algo ou alguém que incomoda?

acolher

Muitas pessoas confundem acolher algo ou alguém como aprovar o ato que a pessoa faz ou a situação ruim causada por um fato. Falo isso nos grupos terapêuticos e respondem: tem que aceitar, não é?

Não. Não é. O acolher não tem nada a ver com aprovação ou desaprovação. As pessoas fazem muitas coisas que nos ferem. Alguns fatos da vida nos machucam. E não seria honesto dizer: eu aceito que você me machuque. Por isso, o primeiro ponto do acolher tem a ver com “verdade”. Não existe acolhimento, sem reconhecer a dor, a mágoa, a raiva, a tristeza que nos acomete. E isso se faz com o corpo. Não com a mente. Para permitir emoções dolorosas, temos que senti-las, e deixar que elas existam. Aí iniciamos o processo do acolhimento verdadeiro. E vou mais longe: da sua própria cura, que irradiará em sua volta. Você já percebeu que, muitas vezes, por não aceitar as dores que algo ou alguém causa, você deseja mudar o outro? Ou mudar a situação? E ainda dá uma boa justificativa para isso? No fundo, a sua atitude é totalmente egoísta. Quer mudar o outro, porque não dá conta dos seus próprios sentimentos. Isso não irá funcionar. O universo colocará situações e pessoas que provoquem aquilo que você não consegue lidar, até o momento em que você amplie sua capacidade de amar, e se abra para o acolher. Que é o início do despertar para a compaixão.

O segundo estágio do acolhimento requer soltar. Enquanto o primeiro movimento é de receber, trazer para dentro do seu coração e sentir a dor – este movimento pode ser incentivado com a inspiração do ar – o segundo movimento é de devolver para o universo. Neste movimento de receber e devolver, você invariavelmente perceberá a dor que o outro provocou em você, como também já sendo existente em si, em outros momentos. Perceberá que o outro ou o fato doloroso foi só um instrumento do universo, para que você acessasse algo difícil, e pudesse se curar. Por isso, ao devolver a energia, que pode ser auxiliado com o movimento da expiração, você devolve agradecendo. Muito obrigado, Deus, por permitir ver a minha dor, e curá-la. Muito obrigado, você que me feriu, e pôde apontar para algo que eu não estava sabendo lidar. Neste momento, você se une ao outro. Se une à situação de dor. E aprende que não precisa carrega-la. Seu coração se amplia. Sua capacidade de amar desperta. E, humildemente, você reconhece o quanto o universo é sábio. Lembre-se, querido. Tudo isso se faz com o corpo e as energias interiores. Inspire a dor, expire gratidão. Faça isso fisicamente. A mente pensa que está amando. O corpo sente amor. O processo do acolhimento é com o corpo…

Experimente. Sente-se quietinho, num lugar onde não possa ser incomodado. Desligue o celular. Se isole. E pense em algo ou alguém que está lhe machucando. Da atualidade, ou do passado. Não importa se é alguém íntimo, um colega, um desconhecido, até alguém da mídia, da política… Ou a situação: pode ser algo que ocorreu com você, com um parente, com um povo distante. Sinta a dor, o medo, a mágoa, a raiva, a tristeza, sensação de abandono… esteja aberto para sentir. Diga a si mesmo: eu estou disposto a entrar em contato. E inspire profundamente. Expire. E inspire. E conforme você se permite sentir a dor, percebendo que ela está dentro de si, quando expirar, agradeça. Eu liberto você. Inspire a dor. Expire gratidão. Obrigado por ampliar minha capacidade de amar. Faça isso várias vezes, até se sentir aliviado. Ou mais leve. Ou até, verdadeiramente conectado, amorosamente, com a pessoa ou fato que anteriormente incomodavam. Assim, um sentimento real de gratidão brotará. Naturalmente. Você deixará de querer mudar o outro. E mudar o mundo. E aos poucos, tudo o que fizer, ou deixar de fazer, virá do coração. Serão atitudes verdadeiramente amorosas. Sem intenção. Na paz.

 

 

Reorganizai-vos, guerreiros da luz!

sombra tempo

Tenho visto muitos irmãos curadores caindo, feridos, pelo campo de batalha. Amigos que compartilham belos trabalhos e são canais verdadeiros de curas e bênçãos… tendo a saúde física, mental e emocional atacadas. Assim o corpo padece e o trabalho não é mais realizado, ou é mal realizado.

Como a sombra está minando a sua resistência, irmão curador? Ela se entrincheirou na sua mente inconsciente, e está trazendo a tona seus medos mais profundos: o medo do abandono, da solidão, da miséria, medo de não dar conta, do julgamento, da punição… A sombra faz com que você trabalhe com culpa, ou sensação de salvador, ou ainda acreditando que precisa dar demais para se salvar, para ganhar dinheiro, ou talvez, salvar a humanidade. Às vezes, tira a sua força de produção. Joga-lhe no sofrimento. No vitimismo. Na guerra contra fantasmas ilusórios.

A compulsão está dominando seus atos. Compulsão pelo sexo. Pela bebida. Drogas. Pelos jogos. Pelo poder. Pela comida. Por relacionamentos. Fofocas e assuntos aleatórios na internet. Pornografia. Cultura. Cursos. Arte. Filmes. Distração. Discriminação política, social, sexual… Pensamentos repetitivos e descontrolados. Culto ao medo, à guerra, à dor e ao sofrimento.

A sombra dominou a informação. E a informação está sendo usada para dominar você. E você se deixa dominar porque não domina mais seu tempo.

Chegou o momento de parar. Se recompor. Recompor fileiras. Desligar-se dos veículos de comunicação. Mais e mais. E desligar-se dos seus pensamentos compulsivos. E suas emoções distorcidas. Desligar-se das fofocas e maledicências. E das pessoas que cultivam estes hábitos. Se faz necessário silêncio. Meditação. Pare agora! Chega de correr. Trabalhar como louco. Desorganizar-se. Chega de entupir sua mente e seu corpo de porcaria. Busque auxílio. Existem muitos irmãos que podem lhe ajudar. E em alguns momentos, estes irmãos também irão precisar da sua ajuda. É assim que vencemos a batalha. Juntos. Porque somos um só corpo, vibrando a luz que somos. E quando algumas células deste corpo se esquecem disso, o nosso sistema imunológico iluminado se encarrega de lembra-las.

Estando consciente de si mesmo, da sua real natureza iluminada, a sombra perde o poder. A luz é sempre luz. É eterna… e por isso, na luz, não há necessidade de correr. Ela lhe dá leveza. Paz. Sentimento de preenchimento. Proteção. Equilíbrio. Prosperidade. Força. Na luz, não lutamos contra nada. Nem contra a sombra. Somente usamos a nossa força para permanecermos na luz. E não nos desviarmos. A sombra não existe, na luz.

O prazer que a sombra proporciona é fugaz. E vicia. O prazer de estar na luz é perene. E não vicia, porque nos reconhecemos na luz. Não há como nos viciarmos daquilo que somos.

Está na hora, irmão, de escolher para qual lado você quer focar: luz, ou sombra. E usar de toda a sua intenção para perseverar no foco, se a escolha for a luz. Peça ajuda àquilo que você reconhece de mais verdadeiro, profundo e sagrado. Ela já foi dada.

 

Palavras terapêuticas

silencio

 

Minhas palavras não são para convencer sua mente racional de algo. Nem para dar conselhos. Falo, às vezes mansamente, às vezes intensamente, às vezes até duramente, para, vagarosamente, você sair da frente da porta do porão do inconsciente, e deixar que os monstros que estão presos há séculos dentro dele possam sair.

Eles irão sair gritando, porque você nunca quis entrar em contato com eles. Nunca os deixou falar. Uns, devagarzinho. Outros, correndo, como touros indomados. Eles estão feridos, cheios de dor, raiva, medo… E então eu deixo de falar. E entro em contato com a dor deles. Que você não estava suportando. E o auxilio a suportar esta dor. Porque estes monstros também são meus. Aqueles monstros que gritarem, estão gritando dentro de mim. E eu os ouço, com gratidão a eles, e a você, que me permitiu vê-los. Acolhe-los. Respiro. Expiro. Sinto no meu corpo toda a vibração desagradável, e digo, silenciosamente: você faz parte. Esta sensação faz parte. Agora você tem direito a existir. É só isso.

E quando o campo propicia, quando você está razoavelmente mais leve e desarmado, falo mais um pouquinho. Pego em suas mãos e o conduzo às escadas que levam para o céu, que é de onde você veio. Mas esqueceu. Vamos juntos, degrau por degrau. Apreciando as flores, aromas, visões divinas e sensações etéreas. Cada degrau que subimos, você esquece que é você e se une ao Todo. Você percebe que somos todos filhos do mesmo céu. E não há mais nenhuma divisão. As palavras deixam de ser necessárias. Você e eu somos um, e a comunicação é instantânea, dentro do nosso coração.

 

Por que os homens desaparecem

pai

Dias desses vi um video no Youtube que me chamou a atenção: um homem, filho de um pai que teve uma relação casual com a mãe, esta engravidou, e o cara pulou fora. E no video, entre pitadas de bom humor e cutucadas contra homens que não cuidam dos filhos, ficou a mensagem da necessidade de criar mecanismos que auxiliem a cuidar das crianças que crescem nesta situação. Sem pai.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer aos leitores deste texto de que escrevo a partir do olhar de um homem. Um menino que também não foi criado pelo pai. Nada contra as meninas, mas quero falar da minha experiência como homem, ok?

 

Então, prosseguindo… Se uma criança não tem pai, também não tem mãe. Pelo menos não totalmente. Por quê? Porque a mãe precisa se desdobrar para sustentar financeiramente a casa. Precisa dar conta da própria TPM, da variação de humor e emoções… Precisa namorar ou cuidar do trauma de ser uma mãe sem um homem ao lado. Precisa lidar com o seu tesão e com o medo de dar, e ser usada como objeto. Ou ainda com o seu jogo de usar os homens, e descartando-os… para fazê-los provar do próprio veneno. Precisa carregar o fardo de ser mãe sem, talvez, querer ter sido… Ou a culpa de querer ser melhor mãe do que dá conta de ser…

Não gosto de generalizações nem de levantar bandeiras. Vivemos momentos conturbados, onde homens, mulheres, pais, mães, filhos, ninguém sabe qual é o seu verdadeiro lugar. Acreditar que “se” houvesse uma família composta por pai, mãe e filhos, cachorro pulando no quintal ensolarado, a Santíssima Trindade tornada real no almoço do domingo, sob a tela do Faustão, garantiria a felicidade do universo é, apropriando-me da frase que ouvi de Bert Hellinger, um “pensamento mágico infantil”.

As crianças vivem um mundo dourado de fantasias. O menino olha o seu pai, e mesmo que ele seja o maníaco do parque, para ele, o pai é o herói. O homem mais belo do planeta. Mais forte. Mais inteligente. Até que, em algum momento, o santo despenca do altar.

Às vezes, nem há essa figura masculina para ser colocada no pedestal… O que não impede ao menino de fantasiar… Às vezes, a imagem deste homem é, mílimetro a milímetro, desfragmentada em milhares de cacos, porque ele bebe, ele fuma, ele não tem dinheiro suficiente, ele grita, ele não faz nada, ele bate, ele trai, ele mente, ele some… E em geral, a mãe tem grande colaboração na demonização do masculino: seja ativamente, ou passivamente. E o masculino tem grande responsabilidade em ser visto como uma porcaria… seja pela omissão. Seja pelo excesso de força.

 

Se olhamos com olhos de adultos, facilmente entendemos essa verdade: não há santos nesta história. Não há justos. Ou injustos. Estamos todos no mesmo barco e sofremos igualmente: sejamos pai, mãe, filhos… Mas como é difícil olhar para a própria história, como adulto, não é mesmo? Não se culpe. Robert Bly, autor do livro João de Ferro, um clássico sobre a transformação do papel do masculino na sociedade, já dizia ver, nos anos 70, uma fragilização do masculino exagerada… Homens que despertavam para o lado feminino de si, para o emocional, para a intuição, para a criatividade, a fluidez –  o que é muito bom! – mas ao mesmo tempo, não tinham energia vital. Pareciam mortos, zumbis, sem brilho no olhar, sem a faca nos dentes, sem masculinidade… começavam a falar de si e já entravam num chororô…

Eu diria que falta pai ao homem que se reconhece nesse estado. É o pai que irá dar força. E para encontrar o pai, dentro de si, é necessário olhar para a própria história. Reconhecer o próprio pai, toda a dor e todo o amor que você tem por ele.

 

Filho do homem invisível, precisa desaparecer

 

Tudo o que ocorre na nossa vida é exatamente aquilo que precisava ocorrer para que pudéssemos nos desenvolver como seres humanos. Sendo terapeuta, além das minhas próprias feridas, ouço e trabalho com as feridas de centenas de pessoas. E descobri uma coisa: o problema não é a história que ocorreu no nosso passado. O que nos causa grande sofrimento e perpetua a agonia é a não aceitação do que ocorreu na nossa história. O problema não é não ter pai. O problema é não aceitar que não tive um pai presente. E não aceitar a dor de não ter um homem, adulto, quando precisava de alguém para me defender. Não aceitar que não houve um homem, adulto, para me mostrar como me safar dos perigos da jornada. Não aceitar que não houve um homem para me mostrar como é que um homem procede na cama, como lida com a sexualidade… Não aceitar que não houve um homem na minha formatura, no momento de levantar a medalha do judô, no momento de mostrar a primeira namorada. Não aceitar que não houve esse homem, que me mostrasse o caminho do trabalho, da arte de ganhar dinheiro, de crescer profissionalmente… É não aceitar que não houvesse um homem que me mostrasse, de verdade, como é grandioso ser homem…

 

Tenho certeza de que muitos de vocês tiveram um pai mais próximo, fisicamente dizendo, mas ao mesmo tempo, muito do que escrevo acima faz parte da sua história. Se abandono fosse a causa de todos os males emocionais, eu não receberia clientes de terapia que tiveram pai e mãe dentro de casa. E isso não é verdade. Muitos, muitos mesmos, tiveram um pai em casa. Mas não tiveram. Se é que você me entende…

 

O que acontece, quando não aceitamos a história nossa? A constelação familiar sistêmica demonstra: repetimos. Às vezes, repetimos a história. Você, como homem, se vê compelido a abandonar suas parceiras. É como se uma força invísivel o atraísse para longe do relacionamento. Assim, você se torna igual ao seu pai. Um homem que desaparece. Ou, então, você se torna o homem invisível dentro de casa. Não está disponível para nada. Se esconde atrás do jogo de futebol, dos amigos, dos livros, da cultura, do cigarro, da pornografia, da cerveja, da política, do churrasco… evita o diálogo e não consegue expor uma verdade básica: você não está feliz na relação, com a mulher ao seu lado. Você não se sente bem como pai. Você não dá conta das responsabilidades de casa. Está de saco cheio!

Talvez você não perceba, mas em algum nível, você faz o mesmo que papai. Inconscientemente, está dizendo: “papai, eu sofro o mesmo que você. Eu honro você na sua dor. Sofrendo a mesma dor. Porque eu te amo!”. Vagarosamente, você vai atraindo o destino: deixar ou ser deixado. Sentir-se não visto. Não validado. Não pertencente. Não realizado. Sem força. Sem motivação. E aquilo que você mais quer, que é unir-se a uma mulher e sentir-se verdadeiramente “uno no amor”, nunca ocorre. O vazio irá permanecer indefinidamente.

Até quando? Até o momento em que você, corajosamente, enfrentar a sua história. As suas dores. E aceitá-las. Com todo o fel e todo o mel que ela gerou, em seu fígado. Sim, papai me machucou muito. Machucou muito mamãe. Mas mamãe me machucou muito também. Me transformou numa “mocinha”. Me influenciou a demonizar papai. Esta história é deles. Essa relação foi a relação deles. Eu aceito isso como foi. Hoje, sou um adulto. E não mais aquela criança frágil, que tremia de medo ao soar dos primeiros gritos. E também tremia de medo ouvindo aquele silêncio sepulcral… papai de um lado, mamãe de outro. Ambos fingindo que estava tudo bem… mas eu sabia que não…Tremia só de pensar que papai iria deixar mamãe. Ou chorava porque eles não estavam mais juntos. Chorava de raiva. E disparava essa raiva na rua, no futebol, nas meninas, na desobediência, na indisciplina… Aquela criança que mal respirava, achando-se culpada dos problemas de papai e mamãe.

 

Isso já passou. Eu cresci. E aprendi com tudo isso.

 

Diga para si:

Hoje estou aqui. O homem visível. O homem presente. O homem maduro. Eu posso viver sem papai. E posso viver sem mamãe. Mas honro a ambos, em meu coração. E irei arriscar escrever uma outra história. Do meu próprio jeito. E me abrirei ao Amor. Ao verdadeiro Amor. Que inclui todas as dores. E também inclui todos os prazeres. Eu digo sim ao Pai. Eu digo sim ao Amor. Eu digo sim, à Mãe. Eu digo sim, à mim mesmo.

 

 

O homem sufocado pela mãe

libertando mamae

Eu te amo, mamãe. Mas eu cresci.
Sou um homem adulto, e preciso seguir a minha vida.
Do meu jeito.
Buscarei ser feliz, através das minhas escolhas. Em honra a você!
E em honra ao papai!
Continuarei sempre te amando!
Por favor, me abençoe
se eu fizer algo bom da minha vida!
Eu me liberto, mamãe. E eu te liberto…

 

Em breve estarei iniciando um trabalho com o masculino. Eu e meu amigo Antonio Tuco Gabriel iremos compartilhar questões, problemas e possíveis caminhos para essa masculinidade nossa de cada dia, algo tão estranho de se falar e de se entender. Nós, homens, dizemos que as mulheres são imprevisíveis e difíceis de entender. Mas é lógico que o “ser homem”, nestes tempos, também é uma incógnita. Tanto é que os relacionamentos afetivos passam por grandes transformações. Os modelos familiares, idem. A humanidade em geral está em busca de novos padrões, já que os antigos, já deram…

Por exemplo, recebo hoje mulheres que são mais ou igualmente provedoras que o homem. Até poucas décadas, este papel era fundamentalmente masculino. Assim como recebo homens que são “donos de casa” exemplares, e cuidam dos filhos com um espírito “materno” real e honesto. Vejo mulheres pragmáticas, dinâmicas, regidas por metas e prazos, guiadas por um senso de lógica e produtividade, enquanto sinto homens aéreos, poéticos, lunares, sentindo o fluxo, vivenciando as emoções em todas nuances, acessando a intuição e deixando-se levar pelo fluxo da vida. O que aconteceu para tantas mudanças?

Quero abordar este tema de forma muito prática, sem entrar em história, sociologia, política, antropologia, etc. Quero falar da psique do homem, e para isso, vou usar meu exemplo pessoal e também a experiência que tenho como terapeuta, certo?

O filhinho da mamãe

Fui dominado por mulheres na minha vida. Desde o início. A princípio, minha mãe, abandonada por meu pai, que arcou com a educação dos dois filhos. Passando por inúmeras dificuldades emocionais, cuidou do jeito que pôde, e tenho que dizer que a infância minha não foi nada fácil. Muita briga, muito abandono, muita irresponsabilidade, muitas fugas… sensação de medo constante. E nos primeiros anos, toda essa cena foi agravada pela disputa constante entre minha mãe e avó paterna, que desejava a todo custo tirar a guarda dela em relação a nós – eu e meu irmão mais velho, alegando maus tratos, distorções de comportamento moral, etc.

Onde estava meu pai? Onde estava a figura do masculino? Estava sempre em busca de outras mulheres e cuidando das próprias coisas. Tanto que, certo dia, um homem tocou a campainha de casa. Eu devia ter uns quatro anos de idade. Abri a porta. Não o reconheci. Era meu pai, mas para mim, era simplesmente um homem.

Finalmente, após anos brigando, fui morar com minha avó paterna. E avô. Vovó dominava a cena. Mandava e desmandava, e meu avô obedecia. Muitas vezes beirando à histeria, vovó tinha um jogo muito peculiar: fazia o que queria, gritava, dava as ordens, e se percebia algo que a contrariava, caía na cama, com dores de fígado e vitimismo profundo, evitando assim que alguém pudesse reagir contra sua autoridade.

Costumo dizer que as vítimas conseguem causar danos mais profundos que as pessoas agressivas, que batem, agridem fisicamente, simplesmente porque não há como reagir contra as vítimas. A vítima é socialmente aceita. Se alguém vê uma vítima apanhando na rua, não irá querer saber que esta vítima provocou o agressor durante vinte anos. Irá defende-la. Se esta vítima mora dentro da sua casa, é sua mãe, pai, avô, avó, marido, esposa ou filho – talvez você mesmo seja a vítima, em vários momentos – então, entende bem o que eu falo. A pessoa cai na cama, doente. Se faz de coitada. Dá um passo e na primeira derrota, justifica que o mundo é ruim. O presidente é culpado. A política econômica… a violência… etc., etc., etc.

Mas meu avô também, de certo modo, era vítima. Quando eu interpelava vovô a respeito dos comandos que achava injustos da vovó, ele dizia: não posso fazer nada! Ela é assim. Vovô era submisso à ela. Atraímos um mesmo modelo para a nossa vida, e todos estão amarrados neste modelo. Assim fui criado. Assim aprendi a ser homem.

Um homem fraco, subordinado às vontades muitas vezes absurdas das mulheres.

Bert Hellinger, o criador da terapia de constelação familiar sistêmica, diz: “A ordem do amor entre o homem e a mulher envolve também uma renúncia, que já começa na infância. O filho, para tornar-se homem, precisa renunciar à primeira mulher da sua vida, que é a sua mãe. E a filha, para tornar-se uma mulher, precisa renunciar ao primeiro homem da sua vida, que é o seu pai. Por essa razão, o filho precisa passar cedo da esfera da mãe para a do pai. E a filha precisa retornar cedo da esfera do pai para a da mãe. Permanecendo na esfera da mãe, frequentemente o filho só chega a ser um perpétuo adolescente e queridinho das mulheres, mas não um homem. E persistindo na esfera do pai, a filha muitas vezes só se torna uma perpétua menina e namoradinha dos homens, mas não uma mulher. Quando um filhinho da mamãe se casa com uma filhinha do papai, com frequência o homem busca uma substituta para a sua mãe e encontra na mulher, e a mulher busca um substituto para o seu pai e o encontro no marido.”

O casamento do filhinho da mamãe

Cresci, entrei na faculdade, larguei faltando alguns meses para concluí-la, fui morar no Japão por três anos e lá reencontrei minha autoestima, que estava bem derrubadinha. Ao retornar, durante uma viagem ao Peru, encontrei a mulher que seria minha esposa e mãe dos meus dois filhos. Uma alemã que eu via como uma pessoa com personalidade fortíssima, e aquilo me atraía. Naquele tempo, aos 27 anos de idade, não fazia terapia. Mas depois, muito tempo depois, fui percebendo que ela possuía características da minha mãe e da minha avó. Bert Hellinger tinha razão: o filhinho da mamãe casou-se com a filhinha do papai. E o que eu buscava na minha mamãe/esposa? Segurança. Carinho. Sexo. Proteção. E ela queria que eu provesse financeiramente o lar. Porém, recém chegado do Japão, sem saber muito bem o que fazer, as coisas não foram fáceis. E ela, alemã, num país estranho, entrou em crise. E muito cedo, poucos meses juntos, minha ex engravidou, da nossa primeira filha. Era o princípio do conflito. Ela exigindo segurança financeira que “o papai” não estava dando. Eu exigindo proteção maternal que “mamãe” não estava dando.

No fundo, estava eu repetindo a história da minha avó paterna. E da minha mãe. Mulheres que não tiveram a segurança financeira dos maridos. E eu, como o “homem” da história, sentindo-me inseguro, agredido, pressionado e abandonado pelas mulheres.

Dezessete anos durou o casamento. E posso dizer que foi um período extremamente difícil, mas extremamente rico em vários aspectos. O meu emocional foi totalmente moído e desfragmentado, e somente então pude ver o quanto eu era um homem frágil, adolescente e carente. E o quanto que isso impedia o meu sucesso profissional e minha capacidade de prosperar. Hoje eu sei: dinheiro? Eu não queria isso! Queria somente uma mamãe para cuidar de mim!

Estava começando a repetir a história do meu pai: ele rodou de mulher em mulher, para após estar destruído pela bebida, retornar à mamãe: minha avó paterna, viúva, que o recebeu de braços abertos. A única mulher na vida do meu pai. A mãe que o sufocou, e sufocou a mim e ao meu irmão. Dando o melhor que ela podia dar, sem dúvida. Vovó fora abandonada pelo pai, e inconscientemente, carregou muito ódio em relação ao masculino. E descontou nas figuras masculinas que passou ao seu lado, castrando-os da forma que pôde.

E isso foi ótimo para mim. Porque descobri, após o divórcio, a minha força. Voltei com tudo à vida, comecei a ser um homem como eu nunca fora. Em todos os aspectos. Acho que um carma foi extinto. Tenho hoje amizade e muita gratidão pela minha ex-esposa. E estou numa nova relação onde, embora tenhamos nuances da questão pai-filha e mãe-filho, sabemos lidar com isso, porque temos um diálogo aberto, e buscamos terapia, trabalhos interiores, etc. Temos muitas coisas a aprender – relacionamento nunca é fácil. Mas estamos atentos, e damos um passo por vez, conscientes de que cada um cuida do próprio nariz. Para construirmos uma vida de casal com consciência, liberdade, diversão e amorosidade. E um pouquinho de responsabilidade também.

No meu trabalho terapêutico, procuro sempre deixar bem clara a necessidade dos filhos afastarem-se (este é um movimento interno) definitivamente dos pais. Com respeito, carinho, mas decisão. E isso não se faz virando as costas – muitos largaram os pais por raiva ou descaso, mas continuam presos a eles: é necessário perceber claramente os jogos de manipulação que estamos envolvidos em relação aos nossos pais, e com muita consciência e sentimento de amor, saber sair disso. O que nos prende aos nossos pais está dentro de nós: são sentimentos e emoções do passado, mal resolvidas. E cabe a nós nos libertar. Porque os pais não fazem estes jogos por maldade, mas porque estão programados, pelos pais deles – seus avós… e os avós, pelos pais deles – os bisavós, e assim por diante. Um homem, para ser homem de verdade, precisa deixar sua mãe. Não deve viver nem confrontando ela, nem querendo ser aceito por ela, nem deixando-se ser manipulado, nem querendo cuidar e fazer tudo por ela. Pode, claro, cuidar financeiramente dela e das necessidades que ela tem, se puder e quiser fazer isso. Mas esse movimento é isento de culpa. De obrigação. É um gesto de absoluta gratidão e desprendimento, que não deve interferir na sua vida pessoal. Caso contrário, é importante buscar ajuda terapêutica. Para se libertar deste emaranhamento, e poder ser autônomo, e forte. Ser um homem de verdade, e não mais um menino mimado.

 

 

 

 

O monstro da Família Julgamento

monstro julgamento

 

A mente está repleta de seres autônomos, verdadeiros fantasmas que, sorrateiramente, se infiltram em seu pensamento e o faz acreditar que “eles são você”. São dezenas, quiçá, centenas de monstros, que tal qual camaleões, vão se transmutando, adaptando-se à sua evolução moral, intelectual e espiritual, mudando o linguajar e os argumentos, com um único objetivo: serem vistos e validados. E para isso, farão de tudo para ocultar a única verdade existente além dos pensamentos: tudo é justo e perfeito. Tudo é amor.

É claro que, se você perceber (eu digo vivenciar!) esta verdade – tudo é amor, nenhum fato que ocorre no seu mundo, nenhuma pessoa e nenhum sentimento e pensamento seus serão vistos como ruins ou bons. As coisas, pessoas, pensamentos e sentimentos podem nos provocar bons estados ou maus estados internos, mas a sua Consciência olhará para tudo com complacência, compaixão. Tudo está certo, seu coração dirá… mesmo para coisas dolorosas, incômodas.

Hoje falarei especificamente do monstro do Julgamento e sua Família. Sim! O monstro do Julgamento anda sempre acompanhado do seu primo mais velho Comparação e dos irmãos gêmeos Condenação e Absolvição.

Essa família se instalou em sua mente vagarosamente, como posseiros. Num tempo muito, muito distante, milhões de anos atrás, você era um ser puro, inocente e amoroso. Você olhava uma pessoa gorda, e sorria. Talvez você fosse gordo, e se divertia com isso. Um sujeito sem perna, ok! Alguém gago, que bom! Suas sardas… que legal, parecem pequenas naves espaciais flutuando na sua pele! Mas, pouco a pouco, você foi sendo ensinado que aceitar tudo não é legal. Papai olhava o sujeito gordo e dizia: veja só, morrerá de ataque cardíaco logo, logo. O professor dizia para o aluno com dificuldade de aprendizado: você não tem jeito! Veja o fulaninho do lado! Um ano mais novo e já sabe a matéria! A TV ensinou: grupo de árabes radicais explodem mesquita! Que horror! A Igreja disse: se você mentir, será condenado. Morte aos mentirosos!

Assim, os posseiros da Família Julgamento, pelo direito do usucapião, se instalam, trazem seus pertences, constroem uma casa sólida e passam a morar no lar da sua mente. E mais: passam a arar a terra, derrubar a floresta, fazem o que querem. O primo comparação é um ser astuto. Olha o que acontece na vida dos outros, na própria vida e na natureza e diz: isso é certo. Isso é errado. Isso é certo. Isso é errado. Isso é certo. Isso é errado. Como ele é mais velho, é um sujeito ouvido pela família. Aí, chegam os irmãos condenação e absolvição. Estes irmãos são rudes, grosseiros, sem nenhuma flexibilidade e não conseguem ver que existem mais de dois lados em uma situação. Então, agem assim: o certo é aprovado, o errado é condenado. Louros para os vitoriosos! Fogueira para os hereges! O certo faz parte, o errado, está excluído. Mesmo que o errado grite: sou inocente! Por favor! Existe uma outra forma de vocês olharem para mim… Não! Não! Não há apelação! Na família Julgamento, o veredito é final. E a pena será cumprida.

Durante estes milhares de anos em que a Família Julgamento tomou conta do barraco, você invariavelmente sofreu. Comparou, julgou, condenou e excluiu pessoas absolutamente iguais a você, porque estava tomada pelas vozes do certo e errado dentro da sua cabeça. Os irmãos condenação e absolvição não brincam em serviço! Você agiu com extrema rudeza com os outros, e com certeza, consigo mesmo. Condenou o seu peso, o seu corpo, a sua aparência, a sua inteligência, a sua capacidade, a sua voz, o seu cabelo, seus pensamentos, suas emoções, suas taras, suas neuras, suas compulsões, o tamanho do seu pênis, bunda, nariz, seios… a quantidade de diplomas, sua conta bancária, o time de futebol, o partido político, os dirigentes da escola, seus pais e família, seu país, o mundo, Deus… Condenou os corruptos, os injustos, os violentos, os infiéis, os desvirtuados… Condenou até pessoas inocentes, honestas, justas, honradas… só porque sentiu seu calo pisado. Sem perceber,  espalhou a sombra por si e pelas pessoas em volta. Pessoas amadas e que nunca fizeram o mal a você. Ou se machucaram, eram porque também eram seres amorosos dominados pela família Ignorância em suas mentes. E espalhou a sombra por cada célula negada do seu corpo. Pode até ser que o seu corpo reagiu com doenças e sintomas… Cegou-se à sua capacidade natural de amar e olhar todos e tudo com compaixão. Lembra-se quando você olhava um gordinho e via apenas… um ser humano, igual à você?

A Família Julgamento destruiu tanto a flora e fauna do terreno invadido e ocupado, que a ecologia se desequilibrou. Você cansou disso. Não se sente mais confortável com tanto julgamento, condenação e exclusão. O terreno do seu coração ficou duro, seco, esturricado. Quer parar com isso, mas não sabe como. O hábito de séculos está criado, não é mesmo?

Um retorno ao Amor e inocência original

Agora o trabalho de desocupação do terreno exige paciência, perseverança e negociação. Talvez seja necessário que você ceda um espaço da sua mente para a Família Julgamento continuar morando. Até porque em alguns momentos, você terá que tomar decisões práticas e o Julgamento ponderado é um bom instrumento de decisão. Mas você é o dono do terreno. E deverá entender que, apesar desta Família estar lá, o nome da sua fazenda é Amor. E nela, onde moram muitas outras Famílias, além dos pássaros, animais, vegetais, e todos os tipos de seres humanos, visíveis e invisíveis, todos são irmãos – absolutamente iguais. Todos fazem parte. Até a Família Julgamento faz parte. Se notar bem, perceberá que, por tanto condenar a tudo e a todos, agora você também aprendeu a perdoar. Tudo bem, aprendeu pelo cansaço… mas aprendeu, não é mesmo? Todo o mundo tem o direito de pertencer. E não dá para mudar as pessoas e as situações. As pessoas são como elas são. As situações são como elas são. Você é como você é. E você pode observar com compaixão a tudo isso. Até a si mesmo. E não se deixar influenciar mais pelas situações e fatos que trazem dor e sofrimento. Olhar com carinho para sua gordura, seu corpo, suas neuras, seus vícios, suas distorções, sua miséria… Gente! Sejam bem-vindos! Há espaço para todos, e eu os acolho em meu coração!

No mundo da mente é assim. Não é possível destruir pensamentos negativos e nem eternizar pensamentos positivos. A única forma de paz é permitir que tudo exista como é, mas perceber que o direito de decisão – nas coisas mais fundamentais da vida – vem do seu coração. Que é cheio de simplicidade, amorosidade e compaixão. Este caminho não parte do Julgamento. Parte da Intuição. É destituído de certezas, comparações, julgamentos. É simplesmente um caminho a seguir. Porque é o caminho que você sabe ser o correto para o momento. Assim como um bando de pássaros migra no outono das zonas mais frias para as mais quentes, você saberá se conduzir das zonas de sombra da sua mente para as zonas de Amor do seu coração, nos momentos de inverno da sua Alma.

 

Você não é responsável! Elimine esse peso de si!

adulto consciente

Quando criança, fizeram de tudo para que você aprendesse a se tornar um adulto. Responsável. Cumpridor de suas obrigações. Que não envergonhasse o papai, a mamãe, a família. Um bom exemplo. Lhe mostraram o caminho de como ser bem sucedido: família, escola, carreira, espiritualidade, conquistas. Em nome das coisas práticas da vida, você foi desaprendendo a brincar. Talvez tenha se tornado um adulto chato. Eficiente, mas chato. Ou talvez, pior ainda: um adulto chato e ineficiente. Fracassado. Hoje, nem sabe ter sucesso, nem sabe brincar. Que horror, não é mesmo?

Bem… a César o que é de César. À criança o que é da criança. Um adulto deveria saber se manter. Deveria saber cuidar de si e de suas responsabilidades. Mas… o que são suas responsabilidades? Será que aquilo que papai e mamãe lhe ensinou tem validade ainda? Será que você não pode deixar pra lá um montão de coisas que só faz porque… porque… porque… você nem sabe, não é mesmo?

Pense bem: quanto tempo sobrará pra quando você cuidar apenas daquilo que realmente é sua responsabilidade? Eu digo: um montão! Sobrará tempo até para, ao invés de passar a vida se martirizando em cuidar, você poder compartilhar sua alegria e paz com o outro. Estar verdadeiramente presente em suas relações, ao invés de estar presente nas crenças e obrigações que nem são suas, e você acaba usando os outros como desculpa para cumpri-las. Sim! Cumprir crenças e obrigações do papai, da mamãe e da família. Muitas vezes você não está nem aí com as coisas que faz, e só faz porque tem um “tenho que isso…” e “tenho que aquilo…” incessante, dentro da sua cabeça. Perceba se isso não tem um fundo de verdade… Se não tiver, ok! Tudo bem! Mas permita-se olhar de verdade: o quanto você dá de si porque realmente quer?

Percebe a diferença? Fazer por obrigação é pesado, duro, dramático, exigente… Estar presente e compartilhar é leve, agradável, sem responsabilidade, sem prazo. Dura o momento que durou… depois… fim! Acabou.

Assim como existem pessoas com a crença distorcida de que a vida é um martírio de responsabilidades, vejo muita gente com a inocente e infantil ideia de que não deve cuidar de nada, porque a vida é leve, é uma brincadeira… Sim! Verdade! A vida é leve, uma brincadeira. Mas um adulto de trinta e poucos anos, quarenta, cinquenta, sessenta… já viveu muito. Deixou muita coisa para trás. Teve muitas relações. Quiçá, filhos. Empresas. Carreira. Clientes. Amigos. Religiões. A criança-adulta só saberá brincar verdadeiramente leve quando olhar para tudo o que passou e sentir-se igualmente leve. Não houver cobrança. Nem de um lado. Nem de outro. Se alguém está lhe cobrando, é porque você deve. A equação é bem simples. E se alguém está lhe cobrando, você só descansará em paz quando tiver pago o que deve. Quem está lhe cobrando? A ex-parceira? Os filhos? A família? Os amigos? O corpo físico? A conta corrente?

Querido amigo, querida amiga: se alguém está lhe cobrando, não se sinta culpado. Não se sinta em dívida. Neste mundo de Deus, vivemos em relações o tempo todo. Não há como fugir disso. Mesmo assim, é nosso caminho de autoconhecimento procurar aparar as arestas que existem, se possível. Às vezes não é possível. Porém, é nosso dever tentar. Não por culpa, mas somente como caminho de aprendizado. Quem irá fazer isso?

O adulto. O adulto consciente.

Aparar as arestas faz com que você se sinta livre para viver. Para ser alegre. Para ter prazer. Para arriscar. Para fazer diferente! Em suma, é exatamente nos pontos onde temos atrito, que iremos despertar para o maior dom que o Universo nos reserva: o Amor! Uma criança vive o Amor, mas não tem noção disso. Um adulto desconectado da sua criança, não vive o amor: pensa nele, fala dele, mas não vive realmente. É somente o adulto consciente, unido à sua criança saudável, que pode viver o Amor em plenitude. Entregue e inocente. Responsável e de bem consigo e com o mundo. Cheio de prazer. E presença.

 

Iniciação espiritual

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Ontem completou 4 anos que me iniciei espiritualmente na Índia. É uma data que guardo de forma mais carinhosa que meu próprio aniversário, pois, na minha mente mística, iniciação significa um novo nascimento: o nascimento do espírito.

Acredito firmemente que nascemos duas vezes neste planeta. Uma, biologicamente, onde estamos atrelados ao DNA da nossa ancestralidade, carregamos os nossos carmas e os carmas familiares para serem depurados, lições a serem aprendidas e liberadas. Esta etapa é fundamental para que, vagarosamente, percebamos nosso chakra cardíaco ir se ampliando, nossa capacidade de amar, tolerar, ter compaixão ir vagarosamente, despertando. São exatamente as provações físicas, financeiras, de relacionamentos, os descaminhos profissionais… os atritos que temos no nosso dia-a-dia, as incontáveis violências que vivenciamos no nosso desenvolvimento, juventude e até fase adulta que nos prepara para esse renascimento espiritual.

Alguns nunca se sentirão chamados para isso: a busca de “algo além”, da conexão profunda com o próprio ser, com o seu Eu mais divino, pacífico, poderoso e perfeito. Está tudo certo. Mas outros já nascem com aquele comichão de buscador incansável, que não sossegará enquanto não encontrar “o caminho”.

O desenvolvimento do buscador

Para quem nasce com a coceira espiritual no bumbum, terá uma dupla e difícil tarefa: ao mesmo tempo em que se sente provocado pela família, sociedade e mundo moderno a se ajustar aos padrões e “dar certo”, um lado seu sabe que tudo isso não tem a menor importância e deseja ardentemente se entregar a Deus, seja lá o que isso significa.

Assim, ao mesmo tempo em que vai tentando estabelecer uma vida familiar estável, ter sucesso no trabalho, construir seu patrimônio, ouve lá no fundinho da mente intuitiva uma voz: venha! Venha! Eu estou lhe esperando! Se entregue!

Esse duplo desafio também se dá na mente emocional e racional do buscador: enquanto ainda temos apegos emocionais e crenças rígidas em relação ao nosso passado – digo papai, mamãe, infância e ancestralidade – não sabemos confiar. Fomos muito feridos de diversas formas, e não confiamos no nosso pai, na nossa mãe, nas nossas raízes… então, como poderíamos confiar nesse “tal de Deus”, que nem sei como é? Como posso me entregar verdadeiramente em algum caminho espiritual?

Assim foi comigo. Passei por vários lugares: igreja católica, espiritismo kardecista, mahikari, seicho-no-ie, dei uma olhadinha no candomblé e umbanda, flertei com Osho, Krishnamurti, Yogananda, uma verdadeira salada de frutas. Não se exija coerência do buscador! Assim somos!

Mas posso dizer que nunca me entreguei totalmente num caminho. Eu não confio em meus pais. Também não confio em Deus, em sacerdote, em mestre, em guru, em pastor! Esta é a minha mente racional afetada pelo emocional ferido de uma criança que se sentiu abandonada e agredida. Em geral, é somente no desespero da mais gritante dor que, por não ver outra saída, nos entregamos. No momento em que meu casamento desmoronou, minha vida financeira estava um caco, eu estava mergulhado no vício do álcool, sem perspectivas profissionais, gritei: Deus! Se você existe, manifeste-se! Não aguento mais! Mostre-se e guie-me!

Não foi um pedido humilde. Foi uma intimação. Com toda a força que a dor me despertara. Eu nunca ousara falar com Deus desta forma. Forte e direta. Antes, era somente um jogo… como um adolescente tímido que não consegue pedir a mocinha para dançar no baile. E faz todo o charminho…

Se Deus é todo o poder do Universo, acho que temos que falar com ele com poder também. Um rei não atende um mendigo. E então o meu caminho começou a se mostrar. Alguém falou dele. Depois, um cliente repetiu. “Acidentalmente”, abri na internet informações sobre este caminho. Uma terapeuta tântrica me indicou. Parece que a vida vai conspirando. E aí, apesar de toda a resistência da minha mente, tive que ir entregando… afinal, não tinha outro caminho. Eu pedira, ele chegou.

Vida nova

Para que o novo possa surgir, o velho deve desaparecer. Quer a gente goste ou não, quando desejamos nova vida, precisamos deixar tudo aquilo que estamos apegados ir embora. Não dá para entrar no reino dos céus cheio de tralhas. Algumas pessoas interpretam esta passagem bíblica literalmente. Porém, no meu entendimento, as tralhas e apegos estão dentro de nós: o apego que sinto pela minha família. Pelas minhas crenças. Pelos meus vícios. Pelos meus conflitos emocionais. Pelo meu dinheiro. Pela minha honra. Pela minha moral. Pelos meus amigos. Pelo meu emprego. Pela minha carreira. Tudo isso está dentro de mim.

E é muito doloroso ver despencar tudo aquilo que era tão valoroso para meu Ego. Por isso a iniciação espiritual é algo tão provocativo. E a provocação só irá prosseguir após a iniciação. Dispa-se de todos seus trajes, deixe todos seus bens e me acompanhe, disse o mestre nazareno. Não é para qualquer um…

Na prática, após um período muito difícil, porém, não mais difícil do que aquele que eu já estava passando quando coloquei Deus na parede, flores começaram a brotar no meu jardim. Um novo trabalho, uma nova relação, nova casa, nova forma de viver com minha velha família. Minhas dívidas financeiras foram sendo pagas. Habilidades profissionais despertaram em mim. Minha mente começou a serenar, meus conflitos emocionais suavizaram, meus vícios foram, vagarosamente, cedendo…

Mas para que tudo isso houvesse acontecido, eu tive que dizer sim. E por mais que minha mente gritasse “não!”, o coração me guiava… Senti em muitos momentos, vigorosas lufadas de amor jorrando na minha cara, no meu corpo, no meu ser… Deus provava, dia após dia, a sua existência, a sua guiança, o seu comando sobre a minha vida. Portas iam se abrindo, caminhos se mostrando, pessoas chegando, uniões se estabelecendo. Minha mente se expandiu, percepções extra-sensoriais começaram a ocorrer… coisa que eu nunca imaginara… Não era nada ilusório: era prático, real, em todos os aspectos da minha vida. E ao mesmo tempo, a voz no meu coração continuava me dizendo: se entregue… agora é comigo.

Preciso confessar: minha mente continua negando meu caminho espiritual. Mas eu consegui ceder um milímetro, e perseverar. É só o início. Quatro anos na Terra pode significar milhões de anos na eternidade… A resistência é grande. Embora eu tenha provas o tempo todo, uma parte egóica ainda nega. Mas tudo bem. Até isso já sei que é desta forma.

Mesmo assim… somente com aquela pequena parte que, um dia, conseguiu dizer “sim” ao caminho, eu digo, curvado aos seus pés: obrigado, Mestre! Gratidão, Prem Baba… (nesse nome, que poderia ser qualquer um, reverencio todos os mestres do universo, todo caminho espiritual que possa atrair você… só há um único caminho correto: o seu caminho! E quando você está nele, você sabe que é ele… Luz na sua caminhada!)

 

 

Pobre rica declaração de amor

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Eu te procuro, mulher… mulher que possa entender o quanto sou frágil, ao afirmar com toda a convicção minhas certezas que são as coisas mais certas do mundo… mas que nunca me trouxeram paz.
Mulher, que acolha o quanto me sinto derrotado, enquanto desfilo, sorridente e falso, minhas vitórias inúmeras. E escondo meus vazios tão gigantescos.
Veja-me como sou, mulher querida. Um imponente macho que lhe dá prazer e lhe faz subir as paredes, enquanto se sente o último cocô do cavalo do bandido, porque não se vê merecedor pleno de ser amado. Impotente na arte de amar e ser amado.
Mulher, querida, eu não quero competição. Não preciso de mais um homem na minha vida. Só eu, basta.
Deixe-me descansar. Estou cansado de tentar provar que sou o melhor homem do mundo. O mais esperto. O mais rápido. O mais potente. O mais rico. O mais belo. O mais inteligente. Não. Não sou. Sou somente um homem. Como todos os outros. Falsos fortes.
Não me recuso a lhe dar tudo o que sou… porém, o quão pequeno sou! Desisti… eu desisti de tentar ser melhor que todos os outros. Que importam os outros homens?
Quero ser só eu. Só eu. Junto a você. Minha parceira. Amante. Amada. Amiga. Confidente. Com sua paciência de mulher. Sua suavidade. Sua instabilidade. Sua espera. Seu carinho. Sua força. Suas variações de hormônio e humor. Sua perseverança.
Sem você, quem sou eu? Nada? Ou tudo?
Mas sem eu… quem você é? Somos o que somos. Mas… que tal brincarmos?
Que sejamos um… afinal, esta ideia de separar o homem da mulher parece ser só uma grande piada de Deus, que se diverte enquanto ficamos tentando provar as diferenças de dois seres, criados como iguais. Um homem. E uma mulher. Dois iludidos que, desesperadamente, buscam, na união visceral, tornarem-se um. Encontrar a cara metade. Completar-se. Ser um. O que nunca deixamos de ser. Eu e você. Um homem, uma mulher. Um só.

O risco de ser verdadeiro no relacionamento afetivo

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Uma relação se constrói a cada dia. Passado aquele período de paixão, onde nos perdemos nas loucas delícias do amor embriagante, vem o instante da consciência. E agora?
A tendência de entrarmos no script tradicional, seja imitando o que aprendemos com nossos pais, seja fugindo do que ocorreu na nossa família, é enorme.
Há que se ter atenção. Script não é relação.
Existe um homem que precisa ser visto. Existe uma mulher que precisa ser vista. E existe uma Alma comum aos dois, que precisa ser vista.
O homem deseja uma coisa. Possui seus sonhos, desejos, suas dificuldades emocionais e crenças rígidas. A mulher, idem. Tem suas experiências, suas dores, seus hormônios. Sonhos, desejos e neuras… bem diferente do homem.
Deveríamos aprender somente a ouvir o outro. Abrir nossa mente e coração, criando um porto seguro, onde o outro não teria medo de ser confrontado, ridicularizado, desprezado, por mostrar ser quem é. Por mostrar suas fraquezas e virtudes. E deveríamos aprender a nos revelar ao outro. Sem medo de parecer ridículo. Cafona. Deselegante. Frágil. Estúpido.

Uma das maiores agressões que percebo num casal é a tentativa de um mudar o outro. Como se este fosse melhor que aquele. A pessoa não percebe, mas é extremamente desamorosa esta atitude. Arrogante e desrespeitosa. Mas possivelmente é o que aprendeu a fazer, observando as relações que seus próprios pais tiveram.
Talvez o primeiro passo para a harmonia do casal seja ouvir o outro. E permitir-se falar de si. Muitos casais terão muita dificuldade disso. Talvez nem sobrevivam à verdade das revelações. Porque cada um não dá conta da própria verdade. Mas se você quer mesmo uma relação nutritiva, construtiva, desafiante e prazerosa, é preciso passar pela fase da comunicação.

Comunique suas emoções mais profundas, no momento adequado. Crie um espaço para isso, e mostre-se com toda a integridade que for capaz. Fale de seus medos. Fraquezas. Vontades. Angústias. Ira. Deixando sempre claro: isso é meu! Estou comunicando algo que se passa em meu íntimo. Você não é o culpado por isso, nem o responsável por mudar meu estado de espírito.

Qual o risco da revelação?

O risco é aparar muitas arestas que, de outra forma, ficam escondidas, latentes, prontas para explodir na primeira situação de estresse. O risco é acender a confiança plena em si e em relação ao parceiro. O risco é criar um relação adulta, que permite resgatar e florescer as brincadeiras da criança apaixonada que você foi um dia. O risco é descobrir que você ama perdidamente seu parceiro, sua parceira… porque amor só vive em liberdade… e liberdade necessita de verdade como alimento para se eternizar…