Iniciação espiritual

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Ontem completou 4 anos que me iniciei espiritualmente na Índia. É uma data que guardo de forma mais carinhosa que meu próprio aniversário, pois, na minha mente mística, iniciação significa um novo nascimento: o nascimento do espírito.

Acredito firmemente que nascemos duas vezes neste planeta. Uma, biologicamente, onde estamos atrelados ao DNA da nossa ancestralidade, carregamos os nossos carmas e os carmas familiares para serem depurados, lições a serem aprendidas e liberadas. Esta etapa é fundamental para que, vagarosamente, percebamos nosso chakra cardíaco ir se ampliando, nossa capacidade de amar, tolerar, ter compaixão ir vagarosamente, despertando. São exatamente as provações físicas, financeiras, de relacionamentos, os descaminhos profissionais… os atritos que temos no nosso dia-a-dia, as incontáveis violências que vivenciamos no nosso desenvolvimento, juventude e até fase adulta que nos prepara para esse renascimento espiritual.

Alguns nunca se sentirão chamados para isso: a busca de “algo além”, da conexão profunda com o próprio ser, com o seu Eu mais divino, pacífico, poderoso e perfeito. Está tudo certo. Mas outros já nascem com aquele comichão de buscador incansável, que não sossegará enquanto não encontrar “o caminho”.

O desenvolvimento do buscador

Para quem nasce com a coceira espiritual no bumbum, terá uma dupla e difícil tarefa: ao mesmo tempo em que se sente provocado pela família, sociedade e mundo moderno a se ajustar aos padrões e “dar certo”, um lado seu sabe que tudo isso não tem a menor importância e deseja ardentemente se entregar a Deus, seja lá o que isso significa.

Assim, ao mesmo tempo em que vai tentando estabelecer uma vida familiar estável, ter sucesso no trabalho, construir seu patrimônio, ouve lá no fundinho da mente intuitiva uma voz: venha! Venha! Eu estou lhe esperando! Se entregue!

Esse duplo desafio também se dá na mente emocional e racional do buscador: enquanto ainda temos apegos emocionais e crenças rígidas em relação ao nosso passado – digo papai, mamãe, infância e ancestralidade – não sabemos confiar. Fomos muito feridos de diversas formas, e não confiamos no nosso pai, na nossa mãe, nas nossas raízes… então, como poderíamos confiar nesse “tal de Deus”, que nem sei como é? Como posso me entregar verdadeiramente em algum caminho espiritual?

Assim foi comigo. Passei por vários lugares: igreja católica, espiritismo kardecista, mahikari, seicho-no-ie, dei uma olhadinha no candomblé e umbanda, flertei com Osho, Krishnamurti, Yogananda, uma verdadeira salada de frutas. Não se exija coerência do buscador! Assim somos!

Mas posso dizer que nunca me entreguei totalmente num caminho. Eu não confio em meus pais. Também não confio em Deus, em sacerdote, em mestre, em guru, em pastor! Esta é a minha mente racional afetada pelo emocional ferido de uma criança que se sentiu abandonada e agredida. Em geral, é somente no desespero da mais gritante dor que, por não ver outra saída, nos entregamos. No momento em que meu casamento desmoronou, minha vida financeira estava um caco, eu estava mergulhado no vício do álcool, sem perspectivas profissionais, gritei: Deus! Se você existe, manifeste-se! Não aguento mais! Mostre-se e guie-me!

Não foi um pedido humilde. Foi uma intimação. Com toda a força que a dor me despertara. Eu nunca ousara falar com Deus desta forma. Forte e direta. Antes, era somente um jogo… como um adolescente tímido que não consegue pedir a mocinha para dançar no baile. E faz todo o charminho…

Se Deus é todo o poder do Universo, acho que temos que falar com ele com poder também. Um rei não atende um mendigo. E então o meu caminho começou a se mostrar. Alguém falou dele. Depois, um cliente repetiu. “Acidentalmente”, abri na internet informações sobre este caminho. Uma terapeuta tântrica me indicou. Parece que a vida vai conspirando. E aí, apesar de toda a resistência da minha mente, tive que ir entregando… afinal, não tinha outro caminho. Eu pedira, ele chegou.

Vida nova

Para que o novo possa surgir, o velho deve desaparecer. Quer a gente goste ou não, quando desejamos nova vida, precisamos deixar tudo aquilo que estamos apegados ir embora. Não dá para entrar no reino dos céus cheio de tralhas. Algumas pessoas interpretam esta passagem bíblica literalmente. Porém, no meu entendimento, as tralhas e apegos estão dentro de nós: o apego que sinto pela minha família. Pelas minhas crenças. Pelos meus vícios. Pelos meus conflitos emocionais. Pelo meu dinheiro. Pela minha honra. Pela minha moral. Pelos meus amigos. Pelo meu emprego. Pela minha carreira. Tudo isso está dentro de mim.

E é muito doloroso ver despencar tudo aquilo que era tão valoroso para meu Ego. Por isso a iniciação espiritual é algo tão provocativo. E a provocação só irá prosseguir após a iniciação. Dispa-se de todos seus trajes, deixe todos seus bens e me acompanhe, disse o mestre nazareno. Não é para qualquer um…

Na prática, após um período muito difícil, porém, não mais difícil do que aquele que eu já estava passando quando coloquei Deus na parede, flores começaram a brotar no meu jardim. Um novo trabalho, uma nova relação, nova casa, nova forma de viver com minha velha família. Minhas dívidas financeiras foram sendo pagas. Habilidades profissionais despertaram em mim. Minha mente começou a serenar, meus conflitos emocionais suavizaram, meus vícios foram, vagarosamente, cedendo…

Mas para que tudo isso houvesse acontecido, eu tive que dizer sim. E por mais que minha mente gritasse “não!”, o coração me guiava… Senti em muitos momentos, vigorosas lufadas de amor jorrando na minha cara, no meu corpo, no meu ser… Deus provava, dia após dia, a sua existência, a sua guiança, o seu comando sobre a minha vida. Portas iam se abrindo, caminhos se mostrando, pessoas chegando, uniões se estabelecendo. Minha mente se expandiu, percepções extra-sensoriais começaram a ocorrer… coisa que eu nunca imaginara… Não era nada ilusório: era prático, real, em todos os aspectos da minha vida. E ao mesmo tempo, a voz no meu coração continuava me dizendo: se entregue… agora é comigo.

Preciso confessar: minha mente continua negando meu caminho espiritual. Mas eu consegui ceder um milímetro, e perseverar. É só o início. Quatro anos na Terra pode significar milhões de anos na eternidade… A resistência é grande. Embora eu tenha provas o tempo todo, uma parte egóica ainda nega. Mas tudo bem. Até isso já sei que é desta forma.

Mesmo assim… somente com aquela pequena parte que, um dia, conseguiu dizer “sim” ao caminho, eu digo, curvado aos seus pés: obrigado, Mestre! Gratidão, Prem Baba… (nesse nome, que poderia ser qualquer um, reverencio todos os mestres do universo, todo caminho espiritual que possa atrair você… só há um único caminho correto: o seu caminho! E quando você está nele, você sabe que é ele… Luz na sua caminhada!)

 

 

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