O monstro da Família Julgamento

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A mente está repleta de seres autônomos, verdadeiros fantasmas que, sorrateiramente, se infiltram em seu pensamento e o faz acreditar que “eles são você”. São dezenas, quiçá, centenas de monstros, que tal qual camaleões, vão se transmutando, adaptando-se à sua evolução moral, intelectual e espiritual, mudando o linguajar e os argumentos, com um único objetivo: serem vistos e validados. E para isso, farão de tudo para ocultar a única verdade existente além dos pensamentos: tudo é justo e perfeito. Tudo é amor.

É claro que, se você perceber (eu digo vivenciar!) esta verdade – tudo é amor, nenhum fato que ocorre no seu mundo, nenhuma pessoa e nenhum sentimento e pensamento seus serão vistos como ruins ou bons. As coisas, pessoas, pensamentos e sentimentos podem nos provocar bons estados ou maus estados internos, mas a sua Consciência olhará para tudo com complacência, compaixão. Tudo está certo, seu coração dirá… mesmo para coisas dolorosas, incômodas.

Hoje falarei especificamente do monstro do Julgamento e sua Família. Sim! O monstro do Julgamento anda sempre acompanhado do seu primo mais velho Comparação e dos irmãos gêmeos Condenação e Absolvição.

Essa família se instalou em sua mente vagarosamente, como posseiros. Num tempo muito, muito distante, milhões de anos atrás, você era um ser puro, inocente e amoroso. Você olhava uma pessoa gorda, e sorria. Talvez você fosse gordo, e se divertia com isso. Um sujeito sem perna, ok! Alguém gago, que bom! Suas sardas… que legal, parecem pequenas naves espaciais flutuando na sua pele! Mas, pouco a pouco, você foi sendo ensinado que aceitar tudo não é legal. Papai olhava o sujeito gordo e dizia: veja só, morrerá de ataque cardíaco logo, logo. O professor dizia para o aluno com dificuldade de aprendizado: você não tem jeito! Veja o fulaninho do lado! Um ano mais novo e já sabe a matéria! A TV ensinou: grupo de árabes radicais explodem mesquita! Que horror! A Igreja disse: se você mentir, será condenado. Morte aos mentirosos!

Assim, os posseiros da Família Julgamento, pelo direito do usucapião, se instalam, trazem seus pertences, constroem uma casa sólida e passam a morar no lar da sua mente. E mais: passam a arar a terra, derrubar a floresta, fazem o que querem. O primo comparação é um ser astuto. Olha o que acontece na vida dos outros, na própria vida e na natureza e diz: isso é certo. Isso é errado. Isso é certo. Isso é errado. Isso é certo. Isso é errado. Como ele é mais velho, é um sujeito ouvido pela família. Aí, chegam os irmãos condenação e absolvição. Estes irmãos são rudes, grosseiros, sem nenhuma flexibilidade e não conseguem ver que existem mais de dois lados em uma situação. Então, agem assim: o certo é aprovado, o errado é condenado. Louros para os vitoriosos! Fogueira para os hereges! O certo faz parte, o errado, está excluído. Mesmo que o errado grite: sou inocente! Por favor! Existe uma outra forma de vocês olharem para mim… Não! Não! Não há apelação! Na família Julgamento, o veredito é final. E a pena será cumprida.

Durante estes milhares de anos em que a Família Julgamento tomou conta do barraco, você invariavelmente sofreu. Comparou, julgou, condenou e excluiu pessoas absolutamente iguais a você, porque estava tomada pelas vozes do certo e errado dentro da sua cabeça. Os irmãos condenação e absolvição não brincam em serviço! Você agiu com extrema rudeza com os outros, e com certeza, consigo mesmo. Condenou o seu peso, o seu corpo, a sua aparência, a sua inteligência, a sua capacidade, a sua voz, o seu cabelo, seus pensamentos, suas emoções, suas taras, suas neuras, suas compulsões, o tamanho do seu pênis, bunda, nariz, seios… a quantidade de diplomas, sua conta bancária, o time de futebol, o partido político, os dirigentes da escola, seus pais e família, seu país, o mundo, Deus… Condenou os corruptos, os injustos, os violentos, os infiéis, os desvirtuados… Condenou até pessoas inocentes, honestas, justas, honradas… só porque sentiu seu calo pisado. Sem perceber,  espalhou a sombra por si e pelas pessoas em volta. Pessoas amadas e que nunca fizeram o mal a você. Ou se machucaram, eram porque também eram seres amorosos dominados pela família Ignorância em suas mentes. E espalhou a sombra por cada célula negada do seu corpo. Pode até ser que o seu corpo reagiu com doenças e sintomas… Cegou-se à sua capacidade natural de amar e olhar todos e tudo com compaixão. Lembra-se quando você olhava um gordinho e via apenas… um ser humano, igual à você?

A Família Julgamento destruiu tanto a flora e fauna do terreno invadido e ocupado, que a ecologia se desequilibrou. Você cansou disso. Não se sente mais confortável com tanto julgamento, condenação e exclusão. O terreno do seu coração ficou duro, seco, esturricado. Quer parar com isso, mas não sabe como. O hábito de séculos está criado, não é mesmo?

Um retorno ao Amor e inocência original

Agora o trabalho de desocupação do terreno exige paciência, perseverança e negociação. Talvez seja necessário que você ceda um espaço da sua mente para a Família Julgamento continuar morando. Até porque em alguns momentos, você terá que tomar decisões práticas e o Julgamento ponderado é um bom instrumento de decisão. Mas você é o dono do terreno. E deverá entender que, apesar desta Família estar lá, o nome da sua fazenda é Amor. E nela, onde moram muitas outras Famílias, além dos pássaros, animais, vegetais, e todos os tipos de seres humanos, visíveis e invisíveis, todos são irmãos – absolutamente iguais. Todos fazem parte. Até a Família Julgamento faz parte. Se notar bem, perceberá que, por tanto condenar a tudo e a todos, agora você também aprendeu a perdoar. Tudo bem, aprendeu pelo cansaço… mas aprendeu, não é mesmo? Todo o mundo tem o direito de pertencer. E não dá para mudar as pessoas e as situações. As pessoas são como elas são. As situações são como elas são. Você é como você é. E você pode observar com compaixão a tudo isso. Até a si mesmo. E não se deixar influenciar mais pelas situações e fatos que trazem dor e sofrimento. Olhar com carinho para sua gordura, seu corpo, suas neuras, seus vícios, suas distorções, sua miséria… Gente! Sejam bem-vindos! Há espaço para todos, e eu os acolho em meu coração!

No mundo da mente é assim. Não é possível destruir pensamentos negativos e nem eternizar pensamentos positivos. A única forma de paz é permitir que tudo exista como é, mas perceber que o direito de decisão – nas coisas mais fundamentais da vida – vem do seu coração. Que é cheio de simplicidade, amorosidade e compaixão. Este caminho não parte do Julgamento. Parte da Intuição. É destituído de certezas, comparações, julgamentos. É simplesmente um caminho a seguir. Porque é o caminho que você sabe ser o correto para o momento. Assim como um bando de pássaros migra no outono das zonas mais frias para as mais quentes, você saberá se conduzir das zonas de sombra da sua mente para as zonas de Amor do seu coração, nos momentos de inverno da sua Alma.

 

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