O homem sufocado pela mãe

libertando mamae

Eu te amo, mamãe. Mas eu cresci.
Sou um homem adulto, e preciso seguir a minha vida.
Do meu jeito.
Buscarei ser feliz, através das minhas escolhas. Em honra a você!
E em honra ao papai!
Continuarei sempre te amando!
Por favor, me abençoe
se eu fizer algo bom da minha vida!
Eu me liberto, mamãe. E eu te liberto…

 

Em breve estarei iniciando um trabalho com o masculino. Eu e meu amigo Antonio Tuco Gabriel iremos compartilhar questões, problemas e possíveis caminhos para essa masculinidade nossa de cada dia, algo tão estranho de se falar e de se entender. Nós, homens, dizemos que as mulheres são imprevisíveis e difíceis de entender. Mas é lógico que o “ser homem”, nestes tempos, também é uma incógnita. Tanto é que os relacionamentos afetivos passam por grandes transformações. Os modelos familiares, idem. A humanidade em geral está em busca de novos padrões, já que os antigos, já deram…

Por exemplo, recebo hoje mulheres que são mais ou igualmente provedoras que o homem. Até poucas décadas, este papel era fundamentalmente masculino. Assim como recebo homens que são “donos de casa” exemplares, e cuidam dos filhos com um espírito “materno” real e honesto. Vejo mulheres pragmáticas, dinâmicas, regidas por metas e prazos, guiadas por um senso de lógica e produtividade, enquanto sinto homens aéreos, poéticos, lunares, sentindo o fluxo, vivenciando as emoções em todas nuances, acessando a intuição e deixando-se levar pelo fluxo da vida. O que aconteceu para tantas mudanças?

Quero abordar este tema de forma muito prática, sem entrar em história, sociologia, política, antropologia, etc. Quero falar da psique do homem, e para isso, vou usar meu exemplo pessoal e também a experiência que tenho como terapeuta, certo?

O filhinho da mamãe

Fui dominado por mulheres na minha vida. Desde o início. A princípio, minha mãe, abandonada por meu pai, que arcou com a educação dos dois filhos. Passando por inúmeras dificuldades emocionais, cuidou do jeito que pôde, e tenho que dizer que a infância minha não foi nada fácil. Muita briga, muito abandono, muita irresponsabilidade, muitas fugas… sensação de medo constante. E nos primeiros anos, toda essa cena foi agravada pela disputa constante entre minha mãe e avó paterna, que desejava a todo custo tirar a guarda dela em relação a nós – eu e meu irmão mais velho, alegando maus tratos, distorções de comportamento moral, etc.

Onde estava meu pai? Onde estava a figura do masculino? Estava sempre em busca de outras mulheres e cuidando das próprias coisas. Tanto que, certo dia, um homem tocou a campainha de casa. Eu devia ter uns quatro anos de idade. Abri a porta. Não o reconheci. Era meu pai, mas para mim, era simplesmente um homem.

Finalmente, após anos brigando, fui morar com minha avó paterna. E avô. Vovó dominava a cena. Mandava e desmandava, e meu avô obedecia. Muitas vezes beirando à histeria, vovó tinha um jogo muito peculiar: fazia o que queria, gritava, dava as ordens, e se percebia algo que a contrariava, caía na cama, com dores de fígado e vitimismo profundo, evitando assim que alguém pudesse reagir contra sua autoridade.

Costumo dizer que as vítimas conseguem causar danos mais profundos que as pessoas agressivas, que batem, agridem fisicamente, simplesmente porque não há como reagir contra as vítimas. A vítima é socialmente aceita. Se alguém vê uma vítima apanhando na rua, não irá querer saber que esta vítima provocou o agressor durante vinte anos. Irá defende-la. Se esta vítima mora dentro da sua casa, é sua mãe, pai, avô, avó, marido, esposa ou filho – talvez você mesmo seja a vítima, em vários momentos – então, entende bem o que eu falo. A pessoa cai na cama, doente. Se faz de coitada. Dá um passo e na primeira derrota, justifica que o mundo é ruim. O presidente é culpado. A política econômica… a violência… etc., etc., etc.

Mas meu avô também, de certo modo, era vítima. Quando eu interpelava vovô a respeito dos comandos que achava injustos da vovó, ele dizia: não posso fazer nada! Ela é assim. Vovô era submisso à ela. Atraímos um mesmo modelo para a nossa vida, e todos estão amarrados neste modelo. Assim fui criado. Assim aprendi a ser homem.

Um homem fraco, subordinado às vontades muitas vezes absurdas das mulheres.

Bert Hellinger, o criador da terapia de constelação familiar sistêmica, diz: “A ordem do amor entre o homem e a mulher envolve também uma renúncia, que já começa na infância. O filho, para tornar-se homem, precisa renunciar à primeira mulher da sua vida, que é a sua mãe. E a filha, para tornar-se uma mulher, precisa renunciar ao primeiro homem da sua vida, que é o seu pai. Por essa razão, o filho precisa passar cedo da esfera da mãe para a do pai. E a filha precisa retornar cedo da esfera do pai para a da mãe. Permanecendo na esfera da mãe, frequentemente o filho só chega a ser um perpétuo adolescente e queridinho das mulheres, mas não um homem. E persistindo na esfera do pai, a filha muitas vezes só se torna uma perpétua menina e namoradinha dos homens, mas não uma mulher. Quando um filhinho da mamãe se casa com uma filhinha do papai, com frequência o homem busca uma substituta para a sua mãe e encontra na mulher, e a mulher busca um substituto para o seu pai e o encontro no marido.”

O casamento do filhinho da mamãe

Cresci, entrei na faculdade, larguei faltando alguns meses para concluí-la, fui morar no Japão por três anos e lá reencontrei minha autoestima, que estava bem derrubadinha. Ao retornar, durante uma viagem ao Peru, encontrei a mulher que seria minha esposa e mãe dos meus dois filhos. Uma alemã que eu via como uma pessoa com personalidade fortíssima, e aquilo me atraía. Naquele tempo, aos 27 anos de idade, não fazia terapia. Mas depois, muito tempo depois, fui percebendo que ela possuía características da minha mãe e da minha avó. Bert Hellinger tinha razão: o filhinho da mamãe casou-se com a filhinha do papai. E o que eu buscava na minha mamãe/esposa? Segurança. Carinho. Sexo. Proteção. E ela queria que eu provesse financeiramente o lar. Porém, recém chegado do Japão, sem saber muito bem o que fazer, as coisas não foram fáceis. E ela, alemã, num país estranho, entrou em crise. E muito cedo, poucos meses juntos, minha ex engravidou, da nossa primeira filha. Era o princípio do conflito. Ela exigindo segurança financeira que “o papai” não estava dando. Eu exigindo proteção maternal que “mamãe” não estava dando.

No fundo, estava eu repetindo a história da minha avó paterna. E da minha mãe. Mulheres que não tiveram a segurança financeira dos maridos. E eu, como o “homem” da história, sentindo-me inseguro, agredido, pressionado e abandonado pelas mulheres.

Dezessete anos durou o casamento. E posso dizer que foi um período extremamente difícil, mas extremamente rico em vários aspectos. O meu emocional foi totalmente moído e desfragmentado, e somente então pude ver o quanto eu era um homem frágil, adolescente e carente. E o quanto que isso impedia o meu sucesso profissional e minha capacidade de prosperar. Hoje eu sei: dinheiro? Eu não queria isso! Queria somente uma mamãe para cuidar de mim!

Estava começando a repetir a história do meu pai: ele rodou de mulher em mulher, para após estar destruído pela bebida, retornar à mamãe: minha avó paterna, viúva, que o recebeu de braços abertos. A única mulher na vida do meu pai. A mãe que o sufocou, e sufocou a mim e ao meu irmão. Dando o melhor que ela podia dar, sem dúvida. Vovó fora abandonada pelo pai, e inconscientemente, carregou muito ódio em relação ao masculino. E descontou nas figuras masculinas que passou ao seu lado, castrando-os da forma que pôde.

E isso foi ótimo para mim. Porque descobri, após o divórcio, a minha força. Voltei com tudo à vida, comecei a ser um homem como eu nunca fora. Em todos os aspectos. Acho que um carma foi extinto. Tenho hoje amizade e muita gratidão pela minha ex-esposa. E estou numa nova relação onde, embora tenhamos nuances da questão pai-filha e mãe-filho, sabemos lidar com isso, porque temos um diálogo aberto, e buscamos terapia, trabalhos interiores, etc. Temos muitas coisas a aprender – relacionamento nunca é fácil. Mas estamos atentos, e damos um passo por vez, conscientes de que cada um cuida do próprio nariz. Para construirmos uma vida de casal com consciência, liberdade, diversão e amorosidade. E um pouquinho de responsabilidade também.

No meu trabalho terapêutico, procuro sempre deixar bem clara a necessidade dos filhos afastarem-se (este é um movimento interno) definitivamente dos pais. Com respeito, carinho, mas decisão. E isso não se faz virando as costas – muitos largaram os pais por raiva ou descaso, mas continuam presos a eles: é necessário perceber claramente os jogos de manipulação que estamos envolvidos em relação aos nossos pais, e com muita consciência e sentimento de amor, saber sair disso. O que nos prende aos nossos pais está dentro de nós: são sentimentos e emoções do passado, mal resolvidas. E cabe a nós nos libertar. Porque os pais não fazem estes jogos por maldade, mas porque estão programados, pelos pais deles – seus avós… e os avós, pelos pais deles – os bisavós, e assim por diante. Um homem, para ser homem de verdade, precisa deixar sua mãe. Não deve viver nem confrontando ela, nem querendo ser aceito por ela, nem deixando-se ser manipulado, nem querendo cuidar e fazer tudo por ela. Pode, claro, cuidar financeiramente dela e das necessidades que ela tem, se puder e quiser fazer isso. Mas esse movimento é isento de culpa. De obrigação. É um gesto de absoluta gratidão e desprendimento, que não deve interferir na sua vida pessoal. Caso contrário, é importante buscar ajuda terapêutica. Para se libertar deste emaranhamento, e poder ser autônomo, e forte. Ser um homem de verdade, e não mais um menino mimado.

 

 

 

 

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