Um homem decepcionado com o pai

culpa de ser homem

Ontem iniciamos mais uma etapa do projeto Diamante Bruto, círculo do sagrado masculino, desta vez em Brasília. Um encontro de “brothers”, muito bom para alguém que, até então, trabalhava em geral com mulheres ou grupos mistos formados na maioria, por mulheres. Uma das diferenças gritantes que senti é na minha atuação dentro do grupo. Quando há mulheres, querendo ou não, adoto uma postura de alguma forma sedutora: seja pelo conhecimento, pela graça ou delicadeza, lá está eu “cantando de galo”… no fundo, querendo mostrar que eu sou um macho adequado para acasalar. O velho instinto primitivo em ação.

Já no meio de homens, que alívio. Posso ser eu! Não me sinto competindo com os homens, até porque não há nenhuma mulher no meio para ser disputada. Falamos sobre sexo, comportamento, relacionamentos, perdas, ganhos, relação com filhos, relação com a nossa libido insaciável, cuidados com casa, jardim, arte, sensibilidade… Podemos mostrar até o nosso lado feminino… no meio de homens.

Luiz Cushnir, em Homens Sem Máscaras, diz que, após a revolução feminista, houve uma grande mudança no comportamento dos homens: “O homem está, agora, décadas depois, encarando o caminho inverso: sair da rua, entrar em casa e até mergulhar nas profundezas de si mesmo. Ele está tentando se liberar do estigma de ser sempre – e tão-somente – o profissional, papel que praticamente abafa sua identidade pessoal mais ampla. Às vezes até sua criatividade e sensibilidade. Muitos homens, com a intenção de atender às transformações sociais decorrentes das reivindicações feministas, confundiram aspectos sociais de fortalecimento de sua identidade masculina. Ao perceber que não eram bem-vindos quando desejavam expor seus sentimentos e/ou envolverem-se emocionalmente com a família, recolheram-se, quase plagiando a condição feminina anterior. Perderam, assim, características aguçadas e penetrantes que eram parte essencial de sua condição de homens. Foram ficando quietos. Não pelo poder absoluto do silêncio (fico quieto, faço cara de bravo e o pessoal fica com medo) mas literalmente deixando o barco correr, ao léu”.

Felizmente, no meio de homens, este recolhimento deixa de ser necessário, e podemos expor nossos conflitos, medos, dores, sensação de incompreensão, vitórias, esquisitices. Amostras de masculino totalmente diferentes, umas das outras, mas no fundo, mostrando partes do homem que todos somos: o tímido, o charmoso, o forte, o calado, o alegre, o eficiente, o “menino bonzinho”, o problemático, o confrontador, o “comedor”, o atleta, o poeta, o homem feninino… Tantos homens… todos, de alguma forma, doloridos…

Falta da referência masculina. Falta de papai

Somos frutos de uma geração de pais ausentes, onde o papel de provedor já deixou de ser exclusividade do mundo masculino. Pais que trabalhavam demais, e deixavam a tarefa do cuidar e educar os filhos com as mães. Ou pais que traíam demais, e da mesma forma, deixavam os filhos com as mães. Em alguns casos, pais morriam cedo, largando a mãe… e os filhos para a vida. E dessa forma, quem ensinava aos filhos homens o que é ser homem, era… a mãe – uma mulher profundamente marcada pela ausência do masculino! Mãe muitas vezes com ódio, ou desprezo pelo pai – porque ele traiu, porque ele escolheu outra mulher, porque ele bebia demais, porque não trazia dinheiro em casa, porque não dava um ombro amigo quando ela estava frágil, porque não conversava e não queria ouvir…

Estes meninos crescem, e sem perceber, carregam uma aversão ao próprio pai. Não importando as razões, que podem ser inúmeras e dolorosas para toda a família, o que um menino gostaria de manter é a imagem do pai herói, forte, alegre, atuante… e esta imagem é quebrada. Ao tornar-se adulto, inconscientemente, temos um homem com culpa de ser homem. Que tudo faz, ou para reafirmar que é um homem digno de confiança (coisa que papai não foi, neste imaginário inconsciente) ou já “chuta o pau da barraca”, aperta o botão do “dane-se” e sai por aí usando e confrontando as mulheres, numa espécie de vingança contra as “mães” que castraram o masculino deles. Mas ainda sem acolher o “pai” dentro de si. O homem que ele é. No fundo, ele também confronta o “pai”, como foi ensinado pela “mãe”.

Qual o sentimento que você tem, homem, quando se pensa no papai?

Numa roda de masculino, todos são iguais. Cada um vai se reconhecendo nas histórias dos outros, e tira suas próprias conclusões. Pessoalmente, o que me ficou gritante neste último encontro, é o sentimento de tristeza que sinto em relação ao meu pai. A minha forma de “confrontar” o que meu pai foi é a desaprovação e decepção, e não exatamente a raiva. Em muitos momentos percebi raiva em relação às coisas que meu pai fez: bebeu demais, nunca pagou as despesas dos seus diversos filhos, nos usou para seus interesses, mentiu, algumas vezes era agressivo, enchia o saco e ainda queria mostrar “as verdades da vida”, conversava pouco e não expunha seus sentimentos, etc., etc. Talvez ainda tenha raiva inconsciente… mas neste momento, o sentimento é de profunda tristeza. Como eu queria poder ver o meu pai como forte, e a imagem que vem é de fraqueza, doença, vício e fracasso financeiro. Como eu queria sentir que meu pai foi feliz na vida, mas só me lembro da sua raiva, incompreensão, revolta contra os próprios pais, o governo, a sociedade, os empregadores… Como eu queria me sentir protegido por ele, mas ele nunca esteve presente.

Percebo em mim a tendência de repetir alguns aspectos da vida de papai em mim: dificuldade nos relacionamentos, problemas financeiros e vícios. Aprendo na constelação familiar que carregamos os pesos dos pais, numa espécie de “honra ao sofrimento” deles. Uma criança triste dentro de mim está dizendo: “papai, eu sofro como você. Por favor, me ame!” Mas ele não vê. Não está aqui. Até porque morreu com 60 anos de idade, destruído pelo câncer e pela vida desequilibrada. Além de tudo, esta voz que sente falta de papai, dentro de mim, é muito infantil. Será que é dos meus um ou dois anos de idade, quando papai já estava com a outra mulher? Ou é a voz da mamãe, quando eu ainda estava na barriga dela, dizendo: “volta, Ari! Eu não suporto viver sem você!”

Há que se ter coragem de olhar para esta tristeza que me corrói. Com muito esforço, já consegui vencer inúmeros padrões difíceis, e posso dizer que meu relacionamento atual, minha vida profissional e minha saúde física se encontram em um bom caminho… Quero honrar papai, com gratidão, entendendo que ele me colocou no mundo, e o resto eu faço. Mas talvez, antes de encontrar este pai forte, dentro de mim, preciso, pela primeira vez na minha vida, encarar a tristeza que sinto em relação ao meu pai…

Vejo que “sentir” ainda é um grande problema aos homens em geral. A tendência é contar histórias. Explicar o porquê disso e daquilo. Lembrar de fatos do passado. Justificar. Porém, “sentir as emoções” com consciência, sem deixar o vitimismo ou a raiva indevida tomar conta, e ao mesmo tempo sem afastar as péssimas sensações que as dores emocionais trazem é o desafio. Vou sentir minha tristeza. E convido os homens para, verdadeiramente, permitir “sentir” no corpo tudo o que o papai significa em seu interior. Principalmente de doloroso. Porque depois disso, em algum momento, a dor se dissipa, naturalmente, e as coisas positivas dele se mostrarão.

 

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