Você veio de família “barraqueira”?

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Sempre que uma situação começa a me provocar, penso: o que tem em mim que está se incomodando com esta situação? O que preciso aprender? Qual a lição que o universo está me dando agora?

Olhando por esta perspectiva, tenho entrado em contato, através do meu trabalho terapêutico, com muitas situações familiares onde “o barraco” está instalado: pessoas falam mal umas das outras. Mostram-me mensagens para me tornar cúmplice de suas fofocas. Brigam contra tudo e todos. Revelam coisas que deveriam serem resolvidas dentro de quatro paredes. E durante o trabalho de auto observação, descobri que existe um lado meu que se alimenta deste espírito de fofoca e conflito. Tudo bem que o terapeuta fica sabendo de muitas coisas que, normalmente, não são reveladas. A questão não é esta. A questão é que descobri um “barraqueiro” dentro de mim.

O prazer e o vício no conflito e na intriga

Não é novidade que grande parte da população gosta dos dramas, conflitos, intrigas. Basta olhar para a programação da TV, para os filmes do cinema, para os livros… O que atrai a atenção são os conteúdos que contenham sexo, traição, briga, alianças e desajustes, inocentes pagando pelos culpados, mudanças dolorosas, abandonos, vinganças, amores impossíveis, separações traumáticas…

Até pouco tempo atrás, eu tinha certeza de que não gostava destes enredos. Não vejo novela e sou muito seletivo em relação aos filmes que assisto e aos livros que leio. Mas sob a ótica da constelação familiar sistêmica, hoje entendo que estou emaranhado nas histórias do passado da minha família, onde houveram cenas como estas. O passado das gerações anteriores, mas também, histórias vividas na minha infância. Lembro, por exemplo, do meu pai me levando à casa da amante, em meio a uma briga com a esposa da época. Eu sendo jogado na confusão, certamente sendo usado como um escudo. Outra cena que me vem à memória é da minha avó paterna fugindo comigo e meu irmão para o litoral, fugindo da minha mãe, pois nesta época ela achou que tinha que cuidar de nós, mesmo não tendo a permissão da justiça para isso. As brigas homéricas entre minha avó e meu avô, por dinheiro e muitas outras coisas, também era coisa do dia-a-dia. Minha avó transtornada, e meu avô passivo. Agressões beirando à crueldade do meu irmão mais velho em relação a mim, e a sensação de medo constante que vivi, na infância.

Depois que crescemos, existem duas possibilidades: contemporizar ou se revoltar contra o passado doloroso. Ambas as opções, no entanto, nos tornam escravos deste passado. Não conseguimos abandoná-lo… ele não pode descansar em paz, afinal, não estamos olhando direito para esta história e para as dores emocionais ocorridas. E como escravos deste passado, inconscientemente, atraímos situações onde iremos reviver estas dores, até que elas possam verdadeiramente perderem a energia. Atraímos relações conflituosas. Entramos em brigas contra os chefes, contra o governo, contra o sistema. Somos enganados, traídos. Sofremos perdas traumáticas. Acabamos caindo em meio a grupos de pessoas que cultivam a intriga, a fofoca, a desonestidade, a manipulação. E como reagimos? Criticando, brigando, julgando, negando… Mal percebemos que existe um lado da nossa psique que “adora” este ambiente e estas situações! Este lado pode reviver cenas importantes do passado, e embora seja desconfortável, está rememorando parte de sua história. Pode honrar o seu passado e o passado das gerações anteriores, fazendo o mesmo: sofrendo, brigando, lutando e perdendo. No fundo, estamos dizendo: sim! Eu vim de um lugar “barraqueiro”! Sou parte disso, e honro esta história, vivendo o caos na minha vida! É quase um vício!

Libertando-me

A libertação se faz com a inclusão da própria história. De verdade, só agora comecei a ver que minha família era uma verdadeira novela mexicana. Talvez porque meu avô tivesse muito conhecimento, minha avó gostasse de poesia clássica, meu pai falasse algumas línguas e também foi uma verdadeira enciclopédia… além de ter sido um jornalista com destaque durante fase da sua vida… ou ainda, talvez porque minha mãe se formou como advogada, filha de microempresários bem sucedidos, acreditei que eu vim de “uma elite”… Minha família ensinou: existem os outros… e nós! E nós éramos algo especial… Apesar de todos os fatos provando o contrário…

Lógico que não existe nada especial em família nenhuma. Mas uma criança não tem o dom do discernimento. Ela ouve e acredita no que é falado. Os outros não prestam – só a nossa família presta! E depois cresce, e como geralmente não faz reavaliação do que lhe foi ensinado, carrega crenças indestrutíveis, que geralmente, escondem verdades difíceis de serem olhadas. Que a família nunca aceitou. Os desamores. As traições. As dores. As perdas. Os conflitos. E sem querer, repete a mesma sina do própria história familiar: sofrer, julgar, comparar, combater. E sofrer novamente.

Bert Hellinger ensina: “paz significa: que aquilo que estava em oposição se reencontra. Que aquilo que antes se excluía, se reconhece mutuamente. Que aquilo que antes se combatia, se feria e até mesmo queria se destruir, faz luto em conjunto pelas vítimas de ambos os lados e pelo sofrimento que causaram um ao outro”.

O importante é fazer este exercício consigo mesmo. Muitas querem ficar em paz com as pessoas “de fora”. Isso não funciona, se você não ficar em paz com os seus vários “eus” interiores. Meu exercício é incluir o “barraqueiro” e o “civilizado” em mim. Já que possuo os dois. Incluir o lado acadêmico e o lado inculto dos meus pais e familiares. O lado ético e o antiético. O lado forte e o lado vítima. E vagarosamente, ir saindo das conversas onde pessoas falam da vida dos outros. Comparam. Julgam… Meu Deus! Como eu também gostava de falar da vida alheia! Está na hora de sair disso… não faz mais sentido…

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