Liberdade, mesmo com vínculos

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Playa Bacocho – Puerto Escondido – México, onde vi, pela primeira vez, tartaruguinhas correndo ao mar – metáfora que uso sempre ao falar da vida que nos chama à entrega, ao desconhecido, à missão

 

A necessidade da liberdade me levou a buscar o trabalho autônomo. Autônomo e nômade. Meu consultório e sala de aula não têm endereço fixo. Sempre disse que me senti uma criança tolhida, e por isso a ânsia da liberdade… esta era a minha justificativa. Hoje não tenho certeza desta minha afirmação. Afinal, a criança tolhida também foi levada a diversas mudanças de casa. E é filha de pais nômades, que nunca se fixaram em casa nenhuma. Bisneto de imigrantes. A mudança está no meu sangue.

Mesmo assim, algo dentro de mim gosta da segurança. De se sentir em casa. Do ambiente familiar. De movimentos lentos. Será influência do meu signo câncer, ascendente em touro?

Não sei. Só sei que, após tantas viagens e tantas mudanças, começo a entender que a liberdade é muito mais um estado interno, que um estado externo. Posso me sentir um preso em constante movimentação, como se estivesse naqueles carros penitenciários. Ou posso me sentir um liberto, mesmo estando fixo, num lugar, num trabalho, numa relação. E também posso me sentir livre, quando em movimento. E me sentir preso, esmagado pelas estruturas sociais, trabalhistas, morais, espirituais, convencionais, ou num casamento.

Li recentemente, ao consultar a numerologia para o meu ano de 2017, que liberdade e amor andam de mãos dadas. Amor, na minha visão, só existe com respeito. Compromisso. Observação atenta do outro ser humano que está ao meu lado. Acredito que, por mais que consigamos fazer da nossa vida aquilo que desejamos, na essência, estamos todos ligados uns aos outros. Não há como existir liberdade total. Isso é uma grande ilusão. Quando estabelecemos ligações com outros seres humanos, se os ferimos, mesmo que inconscientemente, ficamos atados por fios invisíveis. Adeus liberdade! Porque aí a amarração está feita.

A única forma de nos libertarmos das pessoas é através do amor. O amor deixa livre. Como diz o mestre Prem Baba, deixa livre até para o outro não nos amar.

Como disse no começo do texto, vivo uma vida nômade. Mas cada vez que coloco o pé na estrada, e vou ao encontro das pessoas que esperam o meu trabalho, reconheço que um compromisso entre nós se estabelece. Quando crio uma conexão, não posso simplesmente dizer: agora, adeus! O amor consciente exige responsabilidade. Já falei isso também. Uma pessoa consciente estabelece vínculos, e somente o tempo dirá quando o vínculo deve se romper. Se é que é para se romper. Sabendo agir com esta consciência, mesmo ligados a milhares de pessoas, estaremos livres.

Bem… estas são as palavras que surgiram para mim, hoje. Este é o meu aprendizado de agora. Que compartilho com você… Aproveito para perguntar: como está a sua relação com a liberdade? Ou a sensação de aprisionamento? Você se sente livre?

O meu lugar

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Entre Oaxaca e a cidade do México, atravessamos um longo deserto, habitado por milhares e milhares de cactos, e alguns perseverantes e humildes seres humanos. Chegando à capital, minha filha disse: que bom estar em casa! Eu retruquei: você já se sente em casa, aqui, após um ano de moradia?
– Sim! É onde tenho meu apartamento, minhas coisas, meu trabalho!
Isso me faz pensar. Eu nunca me senti em casa, em quase nenhum lugar onde morei. Desde pequeno vivi entre deslocamentos, da casa da minha mãe, para a casa dos meus avós. Anos assim. Tinha a sensação de que, a qualquer momento, teria que pegar minha malinha e sair, rumo ao incerto.
Assim foi minha infância. A sensação de insegurança o tempo todo. Não há como mudar isso. Essa foi a minha história. Mas fato é que me acostumei, depois de adulto, a viver com a mala na mão. Até hoje. Jamais fico muito tempo num lugar. Até o meu trabalho é um infinito deslocamento. Mas isso é até hoje. Papai e mamãe também eram assim. Sem lugar fixo. Nômades involuntários. Parece que sempre procurando algo. E nunca achando.
Sinto falta de um lugar para dizer: este é o meu lugar. O meu pedaço de chão. Onde tenho o direito de ficar, e ninguém poderá me tirar. Um lugar conquistado pelo meu merecimento. Minha terra prometida. Recebida pela minha negociação direta com Deus. Uma terra que, ao ser assumida, exige responsabilidade. Pois algo que é dado por Deus, deve ser cuidado como divino. Será que estou pronto a honrar o pedaço de chão que tanto desejo? Possivelmente, em meu passado não. Possivelmente, cuspi na terra que pisei. Ofendi os lugares que me acolheram. E como punição pela minha própria arrogância, fui condenado a vagar por aí. Com uma mala na mão. Em busca de algo. Que só receberei quando souber agradecer verdadeiramente cada cama em que deitei. Cada mesa em que sentei. Cada teto que me protegeu da chuva e do sol. Talvez a gratidão seja a chave para encontrar a terra prometida.
Não é uma questão de dinheiro para comprar algo. Não é disso que estou falando. É bem mais profundo. Temos a péssima ideia de dizer: minha propriedade! Pela qual fazemos as coisas mais absurdas, inclusive usando de instrumento de chantagens nas heranças e divórcios, entre outras demonstrações da cegueira humana. A frase é batida, mas é isso: nada é nosso. Tudo é somente uma concessão, que um dia será tirada.
Neste momento, estou falando contigo, senhor do universo. Reconheço a minha mediocridade e ganância. Minha ingratidão e desrespeito. Mas se a minha punição por estes crimes já estiver expirando, que eu possa encontrar um lugar. Um lugar onde eu possa finalmente estabilizar. Parar de andar cegamente. Crescer de outro jeito. E chamar de meu. Mesmo sabendo que tudo é seu. Incluindo a minha vida, o meu corpo, o meu trabalho…