O meu lugar

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Entre Oaxaca e a cidade do México, atravessamos um longo deserto, habitado por milhares e milhares de cactos, e alguns perseverantes e humildes seres humanos. Chegando à capital, minha filha disse: que bom estar em casa! Eu retruquei: você já se sente em casa, aqui, após um ano de moradia?
– Sim! É onde tenho meu apartamento, minhas coisas, meu trabalho!
Isso me faz pensar. Eu nunca me senti em casa, em quase nenhum lugar onde morei. Desde pequeno vivi entre deslocamentos, da casa da minha mãe, para a casa dos meus avós. Anos assim. Tinha a sensação de que, a qualquer momento, teria que pegar minha malinha e sair, rumo ao incerto.
Assim foi minha infância. A sensação de insegurança o tempo todo. Não há como mudar isso. Essa foi a minha história. Mas fato é que me acostumei, depois de adulto, a viver com a mala na mão. Até hoje. Jamais fico muito tempo num lugar. Até o meu trabalho é um infinito deslocamento. Mas isso é até hoje. Papai e mamãe também eram assim. Sem lugar fixo. Nômades involuntários. Parece que sempre procurando algo. E nunca achando.
Sinto falta de um lugar para dizer: este é o meu lugar. O meu pedaço de chão. Onde tenho o direito de ficar, e ninguém poderá me tirar. Um lugar conquistado pelo meu merecimento. Minha terra prometida. Recebida pela minha negociação direta com Deus. Uma terra que, ao ser assumida, exige responsabilidade. Pois algo que é dado por Deus, deve ser cuidado como divino. Será que estou pronto a honrar o pedaço de chão que tanto desejo? Possivelmente, em meu passado não. Possivelmente, cuspi na terra que pisei. Ofendi os lugares que me acolheram. E como punição pela minha própria arrogância, fui condenado a vagar por aí. Com uma mala na mão. Em busca de algo. Que só receberei quando souber agradecer verdadeiramente cada cama em que deitei. Cada mesa em que sentei. Cada teto que me protegeu da chuva e do sol. Talvez a gratidão seja a chave para encontrar a terra prometida.
Não é uma questão de dinheiro para comprar algo. Não é disso que estou falando. É bem mais profundo. Temos a péssima ideia de dizer: minha propriedade! Pela qual fazemos as coisas mais absurdas, inclusive usando de instrumento de chantagens nas heranças e divórcios, entre outras demonstrações da cegueira humana. A frase é batida, mas é isso: nada é nosso. Tudo é somente uma concessão, que um dia será tirada.
Neste momento, estou falando contigo, senhor do universo. Reconheço a minha mediocridade e ganância. Minha ingratidão e desrespeito. Mas se a minha punição por estes crimes já estiver expirando, que eu possa encontrar um lugar. Um lugar onde eu possa finalmente estabilizar. Parar de andar cegamente. Crescer de outro jeito. E chamar de meu. Mesmo sabendo que tudo é seu. Incluindo a minha vida, o meu corpo, o meu trabalho…

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