A compulsão por terapias e caminhos espirituais

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Ontem, conversando com o grande amigo Fernando Tassinari, estávamos a discorrer o quanto é louco observar o movimento de tantas pessoas que conhecemos, buscando diversos caminhos ao mesmo tempo. Misturando egrégoras, conhecimentos, trabalhando mental, energético, emocional e corporal sem critério… querendo encontrar um sentido de vida e abrindo-se para perceber em si os resultados desta feijoada macarrônica.

Conheço compulsões. Desde cedo envolvido com o vício do álcool, até hoje estou trabalhando firmemente para não cair no canto da sereia que o vício promete: vou te trazer paz. Tranquilidade. Relaxamento. Você ficará mais desinibido. Mais solto. Mais alegre… O vício em terapias, cursos e caminhos espirituais é parecido: promete a paz, a iluminação, o equilíbrio emocional, a realização pessoal, a harmonia familiar, despertar para o amor…

Essas são as promessas, de todo e qualquer vício. Então, tomamos a primeira dose. Fazemos as primeiras sessões terapêuticas. Participamos dos primeiros rituais. E sentimos o bem estar. E começa o processo compulsivo: quero mais. Mais. Mais. Mais. Quero chegar lá em cima. Quero estar em outro lugar. Foi fantástico. Que maravilhoso! Nunca me senti assim. Mas… poderia ser melhor. Poderia ser assim sempre. Estou cansado de sofrer a mesma vidinha. Preciso mais, mais, mais. Depois do pico de êxtase, caímos na fossa da abstinência. E precisamos de outra dose. Outro curso. Outra terapia. Outro ritual. Tudo ao mesmo tempo agora.

O pior é que muitas pessoas se tornam ou já são terapeutas. Cuidam de outros. Quando não conseguem cuidar de si mesmas. E geralmente não percebem a ineficiência deste exagero por cursos, espiritualidade e rituais, porque não olham conscientemente para a própria vida. Em desequilíbrio, como posso orientar o equilíbrio do outro? Aprendi fazendo coaching que temos parâmetros para medir o nosso grau de satisfação e realização na vida. Como está minha vida financeira? Meus relacionamentos afetivos? Minha relação familiar? Meu corpo? Minha saúde mental e emocional? Minha energia para a vida? Sinto-me livre ou dependente?

Ao olhar conscientemente para a forma como eu me movo na minha vida e nas minhas relações, posso saber se estou razoavelmente pronto para lidar com o outro. Ou se preciso de ajuda. E se preciso de ajuda, é necessário me entregar para um caminho. Um único caminho. E confiar. Aceitar engolir o remédio, por mais amargo que possa ser. Libertar-se de compulsões exige parar de anestesiar-se. É o que meu terapeuta fala para mim, em relação ao vício do álcool. O que há por detrás da necessidade de entorpecer-se? Qual dor você quer esconder?

Se você se reconhece compulsivo, como eu, então faça o exercício comigo: o que há por detrás da necessidade de entorpecer-se? Qual dor você quer esconder?

Ao permitir-se acessar esta dor, sem querer mais anestesias, o início da libertação está próximo. Naturalmente, você verá a sanha ceder. Deixará de buscar, e… somente aí… terá algo a transmitir. A paz verdadeira, alcançada através do esforço, disciplina, firmeza e confiança num caminho. Que embora externo, levará você sempre para o seu Mestre interior.

 

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