A tentativa de mudar a família

familia perfeita

 

O amor é difícil de suportar. A desgraça, no entanto, é um jogo de crianças
Bert Hellinger, Didáctica de Constelaciones Familiares

É muito comum, ao entrarmos no mundo da terapia, em específico, da constelação familiar sistêmica, querermos mudar nossa família. É aquela mãe beirando a depressão. O pai agressivo e frustrado. O filho desmotivado, que não consegue parar em emprego. A filha que só arruma tranqueira pra namorar. Vemos os problemas de tudo e todos, e por estarmos admirados com o processo terapêutico, acreditamos que o mesmo caminho servirá para todos que sofrem. E isso não é bem verdade.

No budismo, se diz que o sofrimento é uma Nobre Verdade. Há sofrimento. Isso, qualquer adulto pode entender. E até aceitar. Porém, quem não consegue incluir o sofrimento é a criança. Ou melhor, um lado infantil da nossa psique, devido a diversas dores vividas, e a maior parte já esquecida, nega o sofrimento. Foge do sofrimento. Busca somente o prazer e o bem-estar. Assim, a qualquer sinal que possa lembrar o sofrimento em nossa volta, queremos eliminá-lo. Queremos forçar papai, mamãe e filhinhos a ficarem felizes, assim não precisamos olhar para nossas próprias dores. Ao mesmo tempo, a infelicidade deles nos faz olhar para estas dores. De certa maneira, este jogo infinito está nos dizendo: fique em paz com as próprias dores! Em outras palavras, é exatamente o sofrimento que faz as pessoas buscarem a paz. Assim, não há nenhum sentido em querer aliviar o caminho dos outros.

Terapia nos faz crescer

Existem pessoas que acreditam que o objetivo da terapia é eliminar o sofrimento. Não é. Como colocou Jung, “o principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.”

Se alguém quer ajudar – e aí falo também diretamente às pessoas que estudam constelação familiar comigo – precisa deixar os outros enfrentarem seus medos, seus monstros, suas loucuras por si mesmos. E aí, somente quando eles enfrentarem e não derem conta – e isso são pouquíssimas pessoas que chegarão a esta percepção – estarão prontos para o auxílio terapêutico. Repito: são poucos os que tomarão este caminho. Por quê? Porque a maioria das pessoas ainda age como criança, fugindo da dor e do sofrimento e buscando eternizar momentos de conforto e prazer. A maturidade vai se instalando através de constantes decepções neste mecanismo. Quando percebemos na prática de que a vida é constituída de alegria e dor. Sofrimento e prazer. Conquistas e derrotas. Saber intelectualmente isso não é o suficiente. É preciso experimentar todas as sensações inerentes a estes altos e baixos.

A família é perfeita como ela é

Prosseguindo na senda do autoconhecimento, aos poucos vamos olhando admirados e verdadeiramente agradecidos por termos nascido em famílias mais ou menos desajustadas. Por termos compartilhado nossa vida com pessoas que trouxeram alegrias, mas também tristezas. Por termos sido validados em algumas ocasiões, e ridicularizados em muitas outras. Não negamos as dores. As feridas. O sofrimento. As exclusões. E também não negamos os aprendizados. Os benefícios. Os presentes recebidos. O amor compartilhado. Tudo faz parte. Transformamo-nos nesta pessoa adulta que somos, graças a tudo isso.  Embora tenha uma certa densidade, tudo isso é Amor. Um Amor que permite que tudo seja como é. Por outro lado, não respeitar as coisas como são, é fraqueza.

Como diz Hellinger, em Olhando para a Alma das Crianças, “a criança não consegue suportar o que acontece na família: o que acontece com a mãe, com o pai, com o destino deles e com a culpa deles. Por isso quer ajudar. Então assume algo pelo pai, pela mãe, por outros da família – por fraqueza. Ele se torna ajudante por amor, mas por fraqueza.

Muitos ajudantes adultos ajudam segundo o modelo de uma criança assim. Eles não conseguem suportar algo e tentam mudar algo – mas não porque o outro precise disso. Assumem algo por ele, sem respeito pela sua grandeza e seu destino e talvez também pela sua culpa.

A criança cresce, quando aprende a amar de outra forma – com respeito pela grandeza que conduz os pais e que conduz os outros também.

Assim, o ajudante também ajuda de outra forma, quando adquire força. Ele suporta o destino dos outros. Então apoia o outro de uma forma que ele possa ficar sobre os seus próprios pés.”

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