A Mãe de todos nós

amor de mae

A mãe cuida. E também abandona. Gera vida, mas aborta. Educa de forma acolhedora, e às vezes, sufocante. Dá ordens e agride, para depois servir um sorvete. Nunca aparece, de tanto trabalho, mas à noite, enquanto dormimos, se aconchega em nossos lençóis e acaricia nossos cabelos. Mãe morre muito cedo, ou às vezes, vive mais que seus filhos. Quer que sejamos felizes, mas… não nos deixam livres! Quantas vezes mamãe é louca, neurótica, desequilibrada? E faz aqueles bolos de fubá geniais? Separa do papai e nos joga contra ele. E em seguida diz: nunca amei tanto uma pessoa. Mãe sente-se culpada por não ser boa mãe. E também culpada por não amar a própria mãe. Mãe carrega em seu ventre as marcas de muitas violências sexuais. E talvez, por isso, ensina seus filhos a temer o sexo oposto. Em seguida, sofre ao vê-los não se realizarem nas relações amorosas. Mãe também praticou muitas violências. Ou foi cúmplice delas. Mães doentes e sãs. Viciadas e beatas. Fofoqueiras e poetizas.

Mães. Seres humanos. Que geraram filhos humanos. Eu e você. Tão humanos quanto elas. Que às vezes não sabemos amá-las, como pede o comercial da TV. Porque as dores foram muito intensas. Ou sentimos descaso. Ou até confundimos dó com algo bom, que nos faz parecer melhores e mais capazes que mamãe. Cuidamos, muitas vezes, da nossa mãe, assim como uma mãe deveria cuidar do seu filho. Mas o filho, quem é? Esquecemos nossa família para ficar com mamãe. Ou nos revoltamos e vivemos a milhas e milhas distante, sem tirar a dita cuja da cabeça. Alguns poucos de nós (quem sabe muitos?) amam de montão a mamãe. Amam de verdade. Dariam sua vida por elas.

Lembra-se quando você tinha uns quatro aninhos? Você era um desses… Amava de montão. Faria qualquer coisa pela mamãe. Porque, então, o amor desapareceu? Ou maquiou-se de melancolia? Formalidade? Raiva aberta?

Porque crescemos, e quanto mais os anos se passaram, mais consciência da separação entre eu e mamãe ocorria. Ela não estava totalmente disponível para mim, assim como eu achava que estava por ela. Começamos a ter ciúmes dos nossos irmãos. Ciúmes do papai ou dos homens da vida da mamãe. Raiva das atividades que ela fazia, deixando-a distante de nós. Mágoa por não ser pego no colo quando queríamos. Mamãe deixou de estar à disposição. Cadê aquela mulher que nos carregou meses em seu ventre, disponível totalmente para nosso crescimento e nascimento? Desapareceu, gradualmente.

E pouco a pouco, ela foi exigindo coisas de nós. Começamos a ficar responsáveis pelas coisas dela, da casa, dos irmãos, da família… E nós só queríamos o colo. O carinho. O conforto. O leite. A música de ninar.

Traídos! Sim, traição! Esta é a nossa sensação. E fechamos o coração para o amor. Ou o permitimos a conta gotas. Crescemos, desenvolvemos um senso de “eu”, e passamos a crer que o amor depende da nossa vontade. Nós amamos, ou nós não amamos. Assim como mamãe não nos ama porque não quer. E ama quando quiser. É o que pensamos.

Mas não. Não é assim.

Todas as mães amam seus filhos. Todos os filhos amam suas mães. Sejam elas do jeito que forem. O amor não é um predicado do Ego, da vontade individual. O amor é o sopro divino que passa pelo ser humano, desejando o crescimento e o melhor para o objeto amado. Mesmo a mãe que ofende e maltrata seus filhos, está querendo que eles se desenvolvam. Doente, ela se vê tão incapaz de amar, que através de maus tratos, está dizendo: filhos, vão embora! Vão para a vida! Eu dei o que eu podia! Não posso fazê-los felizes… nunca pude me fazer feliz.

Se ficarmos procurando o amor de mãe na caixinha de presente, no jantar de confraternização, no abraço ou beijos dados ou negados, ainda estaremos nos sentindo como aquela criança traída. E comportando como uma criança emburrada.

Faz-se necessário fechar os olhos. Respirar profundamente. Mais e mais vezes. E ir além das dores da infância. Das mágoas, ciúmes, inveja. Mamãe carregou você em seu ventre. Permitiu seu nascimento. Cuidou de você, do jeito que pôde. Com todas as limitações humanas dela. Com ou sem marido. Com ou sem dinheiro. Com ou sem sanidade emocional. Às vezes, num gesto doloroso e corajoso, deixou você para alguém em melhores condições. Para que você pudesse ter uma chance. Ela não teve esta chance.

A maior parte das mães não tem consciência deste amor. Amor incondicional que sentem. Porque este amor não é delas. Vem de outra esfera. E por não estar conectada com esta outra esfera, além dos pensamentos e das emoções conturbadas, acredita não amar. E se culpa por não ser boa mãe.

Se você é essa mãe, ouça seu filho: você é a melhor mãe que eu pude ter. Eu cresci, sei que dei muito trabalho e lhe cobrei além da medida. Mas reconheço sua jornada, e cada ação que você realizou, em prol do meu desenvolvimento. Mesmo na dor, na incompreensão, nas chantagens, nas brigas, consegui retirar destas fases lições preciosas. Tornei-me um filho forte. Capaz de lidar com emoções profundas. Capaz de sobreviver às mais diversas intempéries. Você nunca deixou de me amar, mesmo quando não conseguia dar carinho. Quando estava solitária, esperando alguém preencher o seu vazio. Quando perdeu a cabeça e fez coisas impensadas, que depois se arrependeu amargamente. Veja! Eu estou aqui! Estou forte e consciente. Não há o que se desculpar. Você é a mãe certa para mim. E eu sou o seu filho. Para sempre. E graças a você, mamãe, hoje posso ser pai. Ou mãe. Dos meus filhos. O melhor pai ou mãe que eles podem ter. O único. Que os ama profundamente. Do meu jeito e na forma como consigo. Assim como você também me ama. Abençoada seja a sua existência, mamãe.

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