Metas forçadas já são derrotas

dificuldades

 

Ontem, entre um pedaço e outro de pizza com meu amigo Fernando Tassinari, falávamos sobre caminhos de vida, vícios, nossas mulheres, papai e mamãe, neuras e nosso papel de homem nisso tudo. Papo bem Diamante Bruto, o projeto de encontros do masculino que estamos retomando.

Relembramos que a última vez que nos encontramos, há 5 meses atrás, eu estava iniciando um período de abstinência alcoólica, meta que se mostra amigável comigo até hoje. Zero álcool. Abstinência que já havia realizado por dez anos, antes do meu casamento anterior degringolar e eu entrar na cachaçada de novo.

Durante muitos anos trabalhando com o desenvolvimento pessoal e terapia, e aplicando todos os conceitos aprendidos em mim mesmo, tenho a certeza de que, quando algo planejado acontece na nossa vida, é fruto de um amadurecimento da consciência, idas e vindas, pressão e relaxamento, até que vemos o fruto do planejamento concretizado.

As metas, não importa se seja parar de beber, emagrecer, montar uma empresa, criar uma carreira, estabelecer uma família ou levar adiante um projeto, são como seres vivos que necessitam do tempo adequado para serem gestados, nascerem e crescerem. Como dizemos na constelação familiar sistêmica, lidamos com forças a favor da vida e também a favor da morte, e o jogo não é vencer as barreiras… mas ficar em paz com as duas forças antagônicas.

Figuradamente, as forças a favor da vida é tudo aquilo que nos leva para frente, nos dá prazer, alegria, desperta a criatividade, traz união… e as forças a favor da morte são aquelas onde sentimos peso, culpa, agressividade, falta de energia, medo, tensão, ansiedade, cria separação… Em geral, quando estamos a favor da vida, estamos a favor do fluxo maior, conectados com o que há de mais puro e verdadeiro em nossa ancestralidade e em nós mesmos… E quando estamos buscando a morte, estamos conectados com o peso, os traumas, as perdas, as dores da nossa ancestralidade – começando pelas dores dos nossos pais – e conectados com a parte mais dolorosa de deles e de nós mesmos.

Vou repetir o que falei linhas acima: o jogo não é vencer as barreiras… mas ficar em paz com as forças da vida e da morte. Aquilo que nos favorece o caminho e também o que nos dificulta. Na prática, ter vontades, projetos, metas… sim! Porque quem não sabe o que quer, é simplesmente levado pelos impulsos inconscientes, influenciados pelo próprio sistema familiar, e vive, mas não está em posse do seu instrumento que lhe permite se deslocar pela vida: a mente. Mas saber o que quer, planejar e executar não é o desafio maior. A grande questão é aprender a lidar com os sentimentos que surgem quando vemos dificuldades em prosseguir nas nossas metas. Geralmente, ou lutamos desesperados contra aquilo que nos confronta, ou desistimos. Mas a sabedoria maior diz: fique amigo da energia que lhe atrapalha. Aquilo que lhe impede. Veja o que ela tem a lhe dizer. Converse com ela.

Também trabalho com muitos profissionais autônomos e pequenos empreendedores, e vejo a falta de percepção em relação a isso. Lutam contra e perdem. E daí partem para fazer um novo projeto, e novamente, quando não aprendem a lidar com a energia que os confronta… caem outra e outra vez.

Num sentido mais profundo, nós não viemos neste planeta para construir coisas. Sejam famílias, empresas, negócios, planos… Acredito firmemente que nós viemos neste planeta aprender a lidar amorosamente conosco e com o próximo. Amar ao próximo como a si mesmo, dizia o mestre. E a vida dá oportunidades a cada instante para que olhemos amorosamente para nós… principalmente nas situações em que ouvimos um não! Um não do pai, da mãe, do marido ou esposa, do chefe, do governo, da justiça, do mercado, dos clientes, do dinheiro, do corpo, da mente… Quando deparamos com a nossa incapacidade, podemos perceber os sentimentos difíceis que chegam até nós… a sensação de injustiça, de raiva, de tristeza, de abandono, rejeição, culpa, desvalidação…

Olhando pacientemente para esses incômodos, começaremos a ver o que nos separa da nossa realização. Quantos sentimentos pesados (advindos de emaranhamentos sistêmicos, traumas do passado, seus e da família) estão impedindo o próprio avanço. Uma outra forma de ver é: quanta dor impede você de estar em paz consigo, com os outros e com o seu próprio caminho.

Ficar em paz com estes obstáculos permite que você prossiga com o peito aberto, pescoço ereto e confiante. Tenho tido a experiência real de ver caminhos se abrirem quase que miraculosamente na minha frente, enquanto estou desvendando os mistérios destes mesmos obstáculos que surgem à minha frente. Claro: continuo com metas, desejos, planos… mas procuro não leva-los tão a sério. A riqueza de aprender a desvendar os segredos dos obstáculos e a pacificação dos meus sentimentos internos é tão gratificante, que passa a ser divertida a caminhada. Chamar a energia da tolerância, da espera e da observação pacífica é fundamental neste estágio. Porque o “homem fazedor”, que a tudo quer resolver, irá detonar com a possibilidade de aprendizados. Fica então a dica: deixe de forçar suas metas. Aprenda a estabelecer contato com as dores que surgem enquanto você caminha. Faça isso na prática. Depois me diga os resultados…

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