A trama bipolar

mente

 

Acho que em algum nível, já fui bipolar… Fui não: estive. Pois creio que somos seres saudáveis, apesar dos nossos desequilíbrios… Quando indico aos meus alunos e clientes para estudarem um pouco de psicologia, não é para se culparem ou vitimizarem, mas para perceber que a mente humana entra por caminhos muitas vezes desastrosos devido aos choques de desamor que sofremos na infância… Olhar com consciência amorosa para “nossas loucuras” nos permite sair dos padrões de sofrimento que, muitas vezes estamos vivendo, sem saber. Um dos padrões muito fortes, que verifico em muitas pessoas que atendo, é este saltar entre períodos de “depressão” e de “euforia”, típicos das pessoas bipolares. A questão é que muitas vezes, não entendemos os nossos altos e baixos de humor como sendo patologia… achamos normal e acabamos agindo no mundo a partir destes picos… afetando a nós, nosso corpo, nossas relações, nosso trabalho, nossa vida…

Olhar para nossa mente com clareza nos possibilita parar de ser tão vulnerável às instabilidades desta mente machucada que possuímos, focada na carência… Por isso traduzi o texto abaixo, do livro Constelaciones Familiares y Bipolaridad, de Eduardo Grecco. Bom proveito!

Alex

 

“A história pessoal do paciente bipolar revela que a criança sentiu que não recebia o amor, o cuidado, a proteção nem o sustento necessários, motivo pelo qual cresceu tendo a impressão de estar sujeito aa uma insuficiência afetiva.

Sua interpretação deste fato, seu erro cognitivo fatal, foi determinante para a constituição posterior do sofrimento bipolar. Atribuiu a carência a uma condição de desamor: “Se não me amam é porque não mereço, e se não mereço é porque não valho nada”. Deste modo a autoestima, a autoconfiança, a firmeza e a segurança pessoal foram fortemente abaladas e quebradas.

A partir destas premissas, a criança foi instalando em seu psiquismo uma séria de pressuposições mentais não menos importantes: Se “não valho nada” é porque “sou indigno”, então “está bem que não me queiram e que as coisas na vida me sejam hostis” (o círculo vicioso da depressão) ou “não me importa que me deem o que necessito”, “estou indignado”, “não necessito nada” (círculo vicioso da mania).

Frente a esta situação, a pergunta que surge é: em que condições psicológicas e históricas se faz possível que ambos estados afetivos (depressão e mania) se combinem em uma pessoa e se transforme em um mal estar que a consome.

A resposta não é simples. Poderia dizer que as pessoas bipolares são fortemente ambivalentes frente ao seu próprio Eu, que não conseguem “decidir” se aceitam-se ou rejeitam-se. No polo depressivo manifestam uma forte hostilidade contra si mesmos; na mania, um extremo amor. Se amam e se odeiam, sem poder conciliar os dois aspectos numa mesma realidade. “Não sou nada / Nunca serei nada / Não posso querer ser nada” – diz neste poema Fernando Pessoa, mas logo acrescenta: “A parte disso, tenho em mim / todos os sonhos do mundo”; há consciência (supomos dolorosa) de ser nada, mas ao mesmo tempo, esse eu poético tem sonhos de uma vida distinta, está “apaixonado” por essa parte de seu ser que tem projetos.”

Este ir e vir de um lado para o outro é um ciclo que transcorre entre períodos de intensificação e atenuação de sentimentos de culpa e remorso, entre sentimentos de aniquilação e onipotência, de castigo e de absolvição do pecado, de expiação e de transgressão, de depressão e de euforia, de tragédia e sátira. Em última instância, entre fome e saciedade, padrão básico no qual o ser alimentado se vê ligado desde os primeiros tempos de vida ao ser amado, e à sede por ser rejeitado.

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