A dor faz parte!

vida bonita

Estou caminhando no Parque da Aclimação, domingão de sol entre nuvens… quando ouço:

– Ele já fez três operações no joelho e não resolveu… Viu, precisa perseverar no exercício físico. Bicicleta pra fortalecer… caminhada…

O homem ao seu lado deu um grunhido, algo que não entendi se era sim, não ou não encha o saco! De longe, eu já havia reparado nele. Sua perna direita estava cheia de marcas, varizes e protuberâncias. Não sei o diagnóstico, mas não parecia saudável. Seu tronco arqueado e suas passadas desvitalizadas mostravam que algo não estava bem com ele, que devia ter aproximadamente a minha idade.

Bem… deixa eles pra lá, pensei comigo. Eu estava na sétima volta no parque. Mesmo tendo estabelecido dez voltas, já estava quase querendo voltar. As dores na lombar, que me acompanham há um ano, incomodavam um pouco. Mas após ouvir “a chamada” daquela mulher, falei pra mim mesmo: tem que perseverar, ô meu! Não quero operar nenhum joelho… Mesmo não tendo nenhum problema no joelho…

Prosseguindo no andar rápido, lembrei-me do Caminho de Santiago de Compostela. Alguém havia me dito: não há caminho sem dor. A dor faz parte. E realmente… uma longa jornada, quase oitocentos quilômetros, cerca de 25 por dia, não há como não doer algo. Nem que seja o cérebro!

Trabalhando com dezenas de pessoas que buscam mudanças profundas na própria vida, costumo olhar para o caminho de sair do padrão antigo, para alcançar uma nova forma de agir e viver uma vida melhor e diferente, como uma longa jornada! Largar um vício. Deixar uma carreira. Sair de uma relação abusiva. Se abrir para um novo amor. Divorciar. Casar. Divorciar e casar novamente. Mudar de cidade ou estado. Alcançar a prosperidade. Enfim, mudanças profundas, que exigem um total alinhamento das crenças, do emocional e das ações. E ainda, uma adequação ao tempo que a própria vida impõem, muitas vezes diferente do tempo que gostaríamos de ver as mudanças acontecendo.

E percebo o quanto alguns doidos desejam a mudança mágica, instantânea, com um mínimo de esforço e dor… Inclusive assumem a postura de alguém que já está mudando. Agora será diferente! Sou um novo homem! Aquela carreira já era: sou um isso e aquilo. O passado não me afeta… E por aí vai. A maior parte destas bravatas, auto enganação. Para não olhar para a dor que ficou.

Quando não se valida a dor, os desafios, os fracassos do passado, não validamos os aprendizados. As conquistas. O lado bom de tudo – que só existe devido ao lado ruim de tudo. Não despertamos gratidão pelas coisas vividas. E olhamos para o futuro com um sentimento de vingança: será melhor do que antes! Eu acharei um cara bem melhor do que este canalha! Não sei como me enfiei neste emprego de merda por tantos anos – agora serei independente!

Mal sabemos que tudo o que vivemos é preparação para aquilo que nos é apresentado aqui e agora. Todas, absolutamente todas as experiências do passado, nos fornecem os recursos necessários para atuarmos com maestria no aqui e agora. Mas ao negar o passado, negamos também os dons e talentos despertados nesta longa caminhada.

A vida é muito bonita! E mesmo com situações difíceis, ela chega a ser excitante, se olharmos para tudo como oportunidades milimetricamente colocadas na nossa frente, para desenvolvermos mais um pouquinho o nosso potencial. Achamos erroneamente que existe algo errado em nós, quando uma situação não dá certo. E por isso queremos fugir dos erros. “O não dar certo” está certo!  Não nascemos para acertar tudo o que fazemos: nascemos para despertar o melhor em nós, que só enxergamos, quando somos provocados!

Entenda bem a diferença: não estou dizendo para cultuar o sofrimento e a dor. Estou dizendo, somente isso: alguma dor faz parte! Principalmente nas grandes mudanças da vida. E se planejarmos cuidadosamente, aprendermos a olhar para nossos hábitos, pensamentos e emoções e equilibrá-los com nossas ações, estas dores serão minimizadas. E assim, também vivenciaremos inúmeros momentos de alegria e desfrute…

Voltando lá no início do texto, na minha caminhada no Parque da Aclimação, e depois na lembrança do Caminho de Santiago, posso afirmar para você: o deslumbre e prazer que tenho nas caminhadas é infinitamente superior às dores lombares, tendinites e outros “ites” que volta e meia ataca um jovem de cinquenta anos como eu… Mas quando me foco na dor, começo a perder a motivação para caminhar. Por outro lado, se finjo não existir a dor, acabo exagerando e me machucando mais do que devia, impedindo a caminhada por um prazo muito maior. Aprender a olhar para a dor, para os limites do corpo e impulsionado pelo prazer de andar, me traz consciência. Ajusta meu ritmo. Tira-me a ânsia de chegar a algum lugar. Motiva-me a cuidar amorosamente do meu corpo. Ouso dizer que, desta forma, consigo viver um pouco mais feliz!

Sim, a dor faz parte!

Alex Possato

 

 

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