O lado bom de ser criticado

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Recentemente, recebi uma crítica que me fez pensar: o que realmente é verdade nesta crítica? O que é viagem? Como posso lidar bem com a crítica, e fazê-la algo bom para mim e para os outros?

Fato é: nunca lidei bem com críticas, e por isso mesmo, este é um assunto extremamente relevante para mim. E vejo, através do meu trabalho ensinando constelação familiar e também atendendo meus clientes em terapia, que é um assunto quase que universal. A dificuldade de olhar para as críticas de forma construtiva e madura. Você já percebeu como que modificamos nosso comportamento, exatamente para nos proteger dos julgamentos, comparações, opiniões e maldades do outro? Vou dar alguns exemplos:

 

– você se torna bonzinho (sei bem como é isso!), agradável, sorri fácil e se mostra dócil e inofensivo. Tipo o gatinho do Shrek – quem irá fazer mal diante de tão inofensivo ser? (que você sabe não ser!!!)

– você se torna malzinho, crítico, uma mala sem alças, que espana a qualquer palavra do outro. Ninguém terá saco de afrontá-lo, e se algum incauto o fizer, levará no meio da fuça!

– você vira o perfeccionista: é tão, mas tão, mas tãoooo bom naquilo que faz, que não sobra um milímetro de espaço para críticas, opiniões, melhorias.

– você preenche todo o espaço com a sua comunicação: fala demais, ri demais, conta causos demais, fala de toda a sua sabedoria, é simpático ao extremo, seduz os outros, que ficam olhando para você como um cachorro faminto olha uma peça de carne pendurada no churrasco grego… todos hipnotizados. (Este é o meu preferido!)

– por último (poderia dar mais um monte de exemplos), você se esconde, se anula, busca se parecer um pouco pior que o último pedaço do cocô do cavalo do bandido – assim ninguém poderá falar nada de você. Afinal, você já é nada!

 

Claro! Estou falando com humor de assuntos que são muito, muito dolorosos! Não estou brincando quando falo da minha dificuldade de lidar com as críticas. Talvez, a única diferença é que, sendo um buscador ensandecido, passada a sensação da porrada na boca do estômago que uma palavra mal dita provoca, parto em busca da resposta: de onde vem esta dor? Por que dói tanto, afinal, o outro nem sabia exatamente o que estava falando!

 

A dor vem do passado

Todas as estratégias que coloquei acima são defesas. Defesas que vamos construindo, ano a ano, como forma de não mais sermos atingidos pelas dores das críticas, comparações, julgamentos, punições e humilhações que vivemos na infância. Somos seres humanos, e precisamos nos sentir pertencentes ao nosso grupo de origem: a família que nos criou. E por isso, somos extremamente sensíveis a qualquer palavra – ou crítica silenciosa, que diga algo assim: do jeito que você faz, não está correto. Isso pode vir em formas de gritos e pancadarias, mas também em forma de conselhos aparentemente “sábios” e sensatos. Talvez piadinhas. Ou tratamento desigual entre irmãos: uns são enaltecidos, outros, ignorados. A criança simplesmente entende: do jeito como sou, não pertenço. Outra tradução para “não pertencer”: eles não me amam porque sou assim.

Daí, para a culpa, é um pulinho. Não sou amado porque sou ou ajo errado. E da culpa para a raiva, é mais um passinho: eu odeio eles por não me amarem. Eu também me odeio porque sou errado e eles não me amam!

O ego da vítima sofredora começa a se cristalizar

Tudo isso se passa a partir dos primeiros anos de vida. Um mecanismo muito importante que a constelação familiar explica, se dá, concomitantemente a este padrão: conforme vamos nos sentindo não adequados, toda a amargura, sensação de tristeza por não ser aceito, inibição da criatividade e espontaneidade, raiva, etc., nos une aos excluídos do passado familiar. Carregamos em nossos genes as histórias e emoções vividas por toda a nossa ancestralidade. E a dor abre as portas para nos identificarmos com histórias e pessoas que foram esquecidas ou deixadas de lado, pessoas que nem temos conhecimento: aquele tio alcoólatra, o bisavô fracassado, a noiva esquecida do papai, o aborto não falado da mamãe, a bisavó que foi prostituta, o tio-avô corrupto e assassino, e assim por diante. Personagens e histórias que foram apagadas do livro tradição-família-propriedade, por não serem adequadas.

É como se um personagem sofredor, não aceito, começasse a ganhar corpo dentro de nós: sim, eu não presto! Sim, eles não me amam! Sim, o que faço não tem valor! Sim, o outro é melhor! Sim, nunca serei aprovado!

A união da psique infantil ferida com a identificação com o excluído do passado familiar fará um estrago na sua vida, pois você adotará um comportamento na sua vida baseado nestas dores, que podemos resumir em dois (que são os dois comportamentos básicos de quando nos sentimos acuados):

– a agressão (vou provar a eles o meu valor, eles vão ter que me engolir, vou despejar todo o meu ódio e raiva através da minha expressão, vou manipular a todos – pois não confio em ninguém, vou dar certo de qualquer jeito, o céu é o meu limite…)

– a fuga (vou ser bonzinho, serei agradável com todos, farei o que todos querem, serei perfeccionista, vou me esconder e não mostrar meus dons, me viciarei e mostrarei o quanto sou um fracasso, não vou me mostrar ao mundo, vou entrar em depressão…)

 

Crescendo com a crítica

Bem… ao receber a crítica que me fez pensar… refleti: vou analisar parte a parte desta crítica, e fazer disso algo bom para o meu desenvolvimento pessoal, emocional e espiritual. Então, a primeira coisa que preciso fazer é: abandonar o ego da vítima sofredora e seu padrão normal de comportamento. No meu caso, o padrão de quando me sinto criticado é contra-atacar. Desmoralizar aquele que me criticou. Jogá-lo no chão e pisar em sua cabeça. Não através de golpes de judô, mas através de argumentos inteligentes e desmoralizantes. Como disse no parágrafo acima, agressão e fuga são os comportamentos básicos de todo animal que se sente acuado, e não tenha dúvida: você utiliza os dois comportamentos na sua vida, o tempo todo, se você está identificado com o ego ferido. Você ataca e foge, o tempo todo!

Mas vem comigo: você não está sendo atacado quando alguém lhe critica (pelo menos, na maioria das vezes). Você simplesmente acessa momentos de desvalidação da sua infância, e também acessa sua identificação inconsciente com algum excluído do seu sistema familiar. São fantasmas, não são fatos verdadeiros. A dor é lembrança de algo passado. Portanto, será necessário você dizer para a sua vítima interior: agora, quem manda aqui sou eu! Você está demitida!

Primeiro passo: desidentifique-se da vítima sofredora que você mantém viva em si

O segundo passo, que não é tão simples: aprenda, de uma vez por todas, a lidar com os sentimentos, emoções e imagens que chegam, quando você acessa a dor de ser criticado. Pode ter certeza: é muito forte este processo. Só para você ter ideia, vou lhe falar o que ocorre em mim, quando acesso esta dor: ódio! Muito ódio! Tenho vontade de assassinar alguém! Dá enjôo. Também culpa. Medo. Vontade de me esconder. Sinto o impulso de largar tudo o que faço e sumir! Houve tempo que partia para a bebida. Acho que tudo o que fiz foi uma bosta. E em outros momentos, acho que todos são uma bosta! Lembro de diversos momentos em que fui humilhado, na infância. Enfim, é um retrato do inferno. O meu inferno interior.

Seja lá o que surgir em você, respire! Peça proteção àquilo que você acredita espiritual na sua vida, e não aja. Simplesmente, respire. Embora sejam tudo impulsos vindos de situações passadas, a impressão que dá é que são reais. Muito reais. Respire mais uma vez. Não faça nada. Entenda que esta é a reação da sua vítima sofredora interior.

Segundo passo: peça proteção e guiança espiritual e entre em contato com os sentimentos, imagens e emoções que surgem, quando você se vê criticado

Se você sentir muita dificuldade em relação ao passo anterior, procure ajuda de um especialista, para auxiliar neste processo. Serão necessários muitos meses, talvez anos, indo passinho a passinho, andando nesta senda do autoconhecimento e abertura da compaixão por si mesmo. Carregamos em nós imagens do céu e do inferno, como diz o mestre da constelação Bert Hellinger. E olha: temos muito prazer em recriar em nossa vida as imagens do inferno, pode ter certeza! Deixar a vítima que tão carinhosamente cuidamos décadas da nossa existência, é um processo gradual, lento, cíclico. Mas finalmente, você percebe que este eu sofredor começa a ceder. Lembre-se: ele só existe porque você precisou dele para se defender das humilhações e dores do passado. Seu passado e o passado dos excluídos da sua família, que tão carinhosamente você está identificado.

Aí, finalmente, um horizonte aberto começa a se mostrar. É muito louco, querido: você olha para as críticas e para quem o criticou com profundo sentimento de gratidão. Você sente em si a não necessidade de atacar ou fugir, como antes, e toda a energia que você desperdiçava tentando provar ao mundo que você é uma vítima sofredora, neste momento, fica a disposição para você simplesmente ser quem você é. Em posse desta energia, você começa a transmitir ao mundo a sabedoria que flui através de si, em prol do desenvolvimento humano, material e espiritual do outro. Você simplesmente está desarmado, e mostra o seu brilho e sua luz, naturalmente, a todos, indistintamente.

 

Terceiro passo: em posse da energia vital reequilibrada, grato pela vida e por tudo o que viveu (incluindo críticas e críticos), você se mostra um canal de sabedoria, compaixão e amor

Estes passos não são lineares. Você não sai do quilômetro 0 e chega ao quilômetro 100, e acabou! É uma aproximação e um afastamento destas compreensões. É preciso viver a experiência e permitir-se ser desafiado no dia-a-dia, através da convivência, aprovações, desaprovações e críticas que você enfrenta do seu namorado, sua família, seu chefe, professor, guia espiritual, amigos e da própria consciência. Em alguma fase da sua vida, você está trabalhando a sua expressão autêntica e amorosa, e em outra fase, você está novamente se defendendo das dores, se escondendo ou tentando provar ao mundo o seu valor.

Se eu pudesse dar um conselho, diria: se mostre! Coloque aquilo que você tem a disposição do outro. Porque será através da ação, e não da compreensão racional, que se dará o processo da purificação do seu ego vítima-sofredor, e ao mesmo tempo, do ressurgimento do melhor que você é – e você talvez tenha se esquecido. O seu ser, tal qual uma flor em botão, é belo, essencialmente puro, espontâneo e pronto para levar alegria, paz, prazer, diversão, cura, beleza e encantamento ao outro. Quando percebemos o botão da nossa flor se abrindo, não são os outros os primeiros beneficiados: somos nós, que ficamos embasbacados diante de tanta beleza e poder que o universo dispôs, gratuitamente, em nossas mãos. E sem dúvida, neste sagrado instante de compreensão profunda, dizemos, com os joelhos jogados na terra e a cabeça inclinada em devoção: grato a tudo o que vivi! Grato a absolutamente tudo o que eu vivi e vivo!

Cara, uma última palavra: quando você sentir dor ao ser criticado, justa ou injustamente, por outro ou por você mesmo, lembre-se que esta é a dor do parto. O seu botão de flor está se abrindo! Respire! Entre em contato com a dor, não fuja. Cuide com amor do seu próprio processo. A gratidão chegará. Pode crer nisso…

 

Alex Possato

 

 

 

 

O que é constelar, para mim?

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A constelação familiar sistêmica, para muitos, é algo incompreensível. Como que as pessoas, sem se conhecerem ou sem saber das histórias pessoais e familiares dos constelados, podem assumir postura, tom de voz, movimentos e até falar como se fossem alguém do sistema familiar? De onde vem as emoções, que surgem do nada, e se vão também do nada? Por que o corpo fica tomado por algum tipo de energia, que nos faz perder a força, ir ao chão, ou ao contrário, nos deixa eretos e cheios de poder?

Por tudo isso e muito mais, uma roda de constelação instiga o imaginário, as crenças espirituais e facilita uma confusão com questões sobre mediunidade, energias – seja lá o que isso significa, telepatia, hipnose, obsessão, incorporação, animismo, etc., etc., etc.

Constelação é terapia

Tenho minhas crenças espirituais e de tudo isso que falei acima, diria que aceito e entendo o lugar de cada um destes aspectos. Trilhei vários caminhos religiosos e sou realmente uma pessoa muito conectada com todo este tipo de conhecimento espiritual, filosófico, energético – o que é isso mesmo? – parapsicológico, ritualístico… porém, lembro que a constelação familiar sistêmica tem como objetivo prioritário o trabalho terapêutico.

E uma das principais características do trabalho terapêutico, baseado no fundador da constelação, Bert Hellinger, é incluir tudo o que foi, do jeito que foi. Entendemos, como facilitador do processo, que as pessoas participantes de uma roda terapêutica estão com seus problemas ou manifestando sintomas porque não conseguem incluir algo, alguém, uma situação, uma dor ou emoção. “Nosso ser se enriquece se permitimos que tudo seja como foi, que siga para sempre como foi e que nós também nos concedamos o direito de ser tal como somos, junto a tudo. Juntos de que maneira? Com amor por tudo o que foi e segue sendo em nossa vida”, ensina Hellinger (trecho extraído do livro Liberar el Pasado, da terapeuta canadense Galina Husaruk).

Por exemplo, não conseguimos incluir a amante que papai teve. Em geral, porque a mamãe também nega este amor de papai. E nós, inconscientemente, carregamos a dor da exclusão deste amor, dentro de nós, às vezes provocando a dificuldade de nos estabelecermos em relações afetivas. Nos portamos como se não merecêssemos uma relação duradoura. Às vezes, nos descobrimos como sendo o outro, ou a outra, numa relação afetiva. Um outro exemplo: negamos, sem saber, a morte do nosso tio, que faleceu com 2 anos de idade, vítima de um acidente doméstico no qual a nossa avó se sentiu totalmente responsável. E culpou também o vovô por não ter estado no momento do acidente. E assim nos vinculamos a dor de perder precocemente alguém muito querido, além de carregarmos uma culpa inexplicável por algo muito grave que irá acontecer. Vivemos com um peso inconsciente, uma sensação de morte, de segredos não revelados.

Esses aspectos, e tantos outros, são profundamente importantes para entendermos os padrões inconscientes que nos fazem agir, sem que saibamos, rumo a repetir estas situações do passado, como forma de honrar a dor vivida pelos nossos pais ou antepassados.

Observe estas perguntas:

  • Por que nos isolamos?
  • Por que sentimos a sensação de abandono?
  • Qual a causa da sensação de carência financeira?
  • Por que sinto raiva dos homens (ou das mulheres)?
  • Por que não me sinto parte da família?
  • Qual o motivo de permitir-me ser manipulado?
  • De onde vem esta agressividade contra as injustiças?
  • Qual o motivo de eu manipular os outros, para que façam as coisas como quero?

Muitas vezes, estes exemplos de padrões de comportamento e/ou emocionais estão influenciados por traumas vindos do passado. Histórias não digeridas, vividas nas gerações anteriores, continuam. E carregamos em nossas células, pedindo para serem vistas. Porém, a grande virada possível está em nossas mãos: padrões vistos se transformam em poder. Em compaixão. Em inteligência emocional. Em cura. Incluindo, harmonizando os padrões dentro de nós, nos convertemos em membros mais capazes de perpetuar o sistema familiar com eficiência e saúde.

 

Constelar é incluir – para incluir, é necessário maturidade

Sim, a constelação tem a sua magia. E uma coisa que sempre ocorre, é a magia da sincronicidade. Em 100% das vezes posso dizer que as constelações que facilito demonstram aspectos meus que também não foram incluídos. Costumo dizer que estou constelando a mim mesmo, através de outros. Quantas vezes surge a mesma história que tive com meu irmão, na minha frente. Ou a dor do abandono, que vivenciei na infância. Ou ainda, a minha rebeldia, a incapacidade de acatar as ordens dos “superiores”. Carl Jung, o descobridor do movimento da sincronicidade, diz: “O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade”.

Por isso, a maior parte das vezes que constelamos, olhamos para aspectos difíceis de nós mesmos. Mesmo que os traumas tenham se originado lá atrás, no passado familiar longínquo, o sistema está rodando dentro de nós. E se analisamos nossas ações, sabemos muito bem que somos responsáveis pelas coisas que acontecem em nossa vida. Este é o papel da terapia. Trazer luz à sombra. E garanto para você: o trabalho, via de regra, é sempre maravilhoso!

Nosso mestre Bert Hellinger diz que estamos identificados a um peso, por amor. Um amor infantil, que não leva à resolução em nenhum aspecto, mas que nos dá uma sensação de pertencimento. Através do sofrimento, nos sentimos pertencentes à família. E nos colocamos numa posição de sacrifício. Algo muito próximo ao mito de Jesus crucificado. Preferimos morrer – simbolicamente (fracassar na saúde, nas finanças, no sucesso, nas relações), para salvar papai, mamãe e antepassados. É um mecanismo inconsciente. E durante a constelação, não raras vezes, este amor se mostra. Grandioso. Profundo. Intenso. E a inadequação deste amor doentio, a falta de resolução, também se mostra. Isso provoca um enorme alívio a todos os participantes, quando é possível se libertar desta identificação amorosamente desastrosa.

Como falei acima, a magia da sincronicidade nos faz ver que também estamos carregando pesos enormes, com a vontade inconsciente de salvar papai, mamãe ou alguém que nem sabemos. E ao poder vivenciar a despedida deste padrão, sentimos um grande alívio. Não somente quem está constelando, mas todos. Inclusive eu – o facilitador.

Incluir é permitir a existência de um sentimento difícil, dentro de si

Quantos clientes recebo que desejam simplesmente eliminar o problema! Dizem-me, por exemplo: tenho fracassado financeiramente há mais de 20 anos. Não suporto mais isso. Ou: meu relacionamento afetivo está um desastre – quero uma solução! Ou ainda: meu filho não estuda, não trabalha, não colabora – quero mudar isso! É lógico que todos desejam soluções para seus problemas, mas vamos ser bem sinceros: se eu estou buscando uma terapia para mudar uma situação qualquer ou mudar alguém, no fundo estou querendo uma mágica! Vou pagar uma consulta que irá mudar a situação para o jeito que eu desejo… assim deve estar pensando, de um jeito inocente e infantil, a pessoa.

Então, eu sempre alerto, ao ouvir este tipo de questão: não é desta forma que iremos trabalhar. O problema é algo muito importante na sua vida, um verdadeiro portal que está direcionando o seu foco para algo excluído. Estamos fazendo terapia – estamos trabalhando para você mudar a sua forma de ver a si, aos outros e à própria vida. Existe algo emocional que está impedindo a sua vida de ser mais leve. Vou dar alguns exemplos possíveis e práticos:

  • A pessoa está passando por situações recorrentes de abandono nos relacionamentos. Às vezes, por detrás desta história, há um noivo amargurado, deixado pela mãe que foi instruída a casar-se com outra pessoa. Qual é o desafio deste cliente? Aprender a lidar com a dor da rejeição.
  • Alguém deseja trabalhar a dificuldade financeira. Que ela vive, o pai já viveu e os avós, que vieram de outro país, fugidos da pobreza, também viveram. O que este cliente precisa aprender a incluir, internamente? Talvez a vergonha de não poder pagar a escola que deseja aos filhos. Ou saber lidar com o nome sujo na praça.
  • Um outro cliente vem com uma questão de saúde: uma doença grave o acometeu. Não sabemos qual a origem dela, mas invariavelmente, a constelação irá mostrar alguma exclusão do passado. Um amor traído. Um filho abandonado. Um aborto não visto. Uma relação que acabou em violência. Porém, qual é a inclusão que este cliente está sendo chamado? Quem sabe olhar para a própria impotência, diante da doença? Aprender a incluir a morte, como uma possibilidade bem real. Estar em paz com as despedidas…

Este é um aspecto que precisa ficar bem claro. Incluir algo na constelação não é dizer: ah! Eu incluo o aborto que tive! Ou: sim, claro! Vovô teve muitas amantes e elas fazem parte! Quem sabe: eu incluo a morte, a morte faz parte! Quando incluímos, o que falamos não importa, porque estamos lidando com sentimentos. Incluir a traição, por exemplo, significa sentir-se mal, perceber talvez a raiva, o medo do abandono, e dizer: ok! Eu permito. Isso faz parte e eu dou conta destes sentimentos dentro de mim.

Tudo isso pode parecer difícil no começo. E é, não vou negar. Lidar com nossas dores internas é muito duro. Porém, “o homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera”, diz Jung. Terapia exige esta postura. E na minha visão pessoal, preciso dizer: é muito bom! Fazer terapia é um caminho fantástico, pois nos descobrimos humanos. Humanos na nossa luz e na nossa sombra. Emoções contraditórias! Humores diversos. E desta forma, aceitamos os desvios dos nossos pais e antepassados. Todos eles, conforme aprendemos a amar os nossos desvios. Aquilo que negamos em nós. Logo, o amor começa a fluir de um jeito que nunca antes foi possível: o amor da inclusão. O amor da compreensão da alma. O amor que somente nossas emoções profundas, em paz, consegue propiciar.

Alex Possato

1 ano sem o “danado” álcool!

 

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Bem. Não exatamente: 1 ano e 4 meses. É motivo para comemorar? Sim!!! Apesar de eu ter ficado, no passado, 10 anos sem ingerir álcool, nesta última fase a necessidade de largar o “danado” veio com outra qualidade. Veio de um lugar de consciência, muito pensado e estudado, sem pressão de ninguém, a não ser, de mim mesmo.

Trabalho com cura. Necessito da minha sensibilidade para o que faço. Minha conexão espiritual também precisa de presença. Escrevo sem parar, e sempre que tentei escrever motivado por aditivos, só saiu merda. Porém, foi necessário um grande estudo de mim mesmo para deixar a companhia de algo que eu gostava e gosto muito: a bebida. Afinal, como diz o ex-jogador Casagrande, “ninguém se vicia em coisa ruim…”.

Com certeza, ficou gravada na minha memória a imagem do meu pai, sentado num canto de um bar qualquer, seu caderninho de nota e inúmeras poesias que ele escrevia na companhia da garrafa. Era muito chic! Meio Ernest Hemingway, meio Bukowski. Muito chic, mas que levou sua saúde embora. Suas famílias. Sua finança. Inclusive sua capacidade artística se foi, gargalo abaixo. No meu caso, o estar alcoolizado me trazia uma sensação de estar acompanhando papai. Pois eu o amava, mesmo também sentindo muita raiva por ele nunca ter assumido seus filhos.

Era muito louco: às vezes, sentado eu e a garrafa na mesa do bar, sozinho, como papai gostava de fazer, eu me pegava pensando: estou fazendo como ele. Vou ir pelo mesmo caminho: perder minhas relações afetivas, deixar meus filhos, fracassar na carreira. Veja o que você me ensinou, papai! A ser um homem fraco! Viciado! Magoado… E dá-lhe cerveja, cachaça, vodka, o que viesse… E então eu escrevia. Sacava o meu caderninho, a caneta, e escrevia um monte… As pessoas do bar não entendiam nada. Eu também não… na terceira dose os pensamentos já se embaralhavam.

Muito lindo, não? Depois, sóbrio, olhava minha fecunda produção: podia juntar tudo, abrir a tampa do vaso sanitário, jogar e puxar a descarga…

Demorou um bom tempo para eu perceber o quanto estava sendo ridículo. Meu pai já estava morto. Meu fígado estava indo pelo mesmo caminho. Minha carteira estava vazia. Mas o pior: a real vocação que eu tinha para escrever estava sendo desperdiçada por uma birra contra meu pai desnecessária. Inútil. Improdutiva. Como diz Elizabeth Gilbert, em A Grande Magia, “… basta dizer que a linguagem moderna da criatividade – desde os mais jovens aspirantes até os mestres reconhecidos – está impregnada de dor, desolação e transtornos. Inúmeros artistas trabalham em completa solidão física e emocional, isolados não só de outros seres humanos, mas também da fonte da própria criatividade”. Ok. Eu poderia morrer na sarjeta. E daí? O que isso iria mudar do meu passado? O que isso iria trazer meu pai para mais perto de mim? Como isso me faria um melhor escritor? Vivi um verdadeiro inferno interior, porque deixar um padrão de 30 anos é muito desafiante. Entre altos e baixos, idas e vindas, vontade de largar o vício e bebedeiras descontroladas, um dia, uma frase ecoou em mim: papai, eu te amo muito. E exatamente por isso, vou usar o dom que herdei de você de forma honrada.

Viver honrando a luz, a alegria, a criatividade, o prazer

Lógico. Precisei de ajuda terapêutica. Coisa que antes, mesmo tendo parado inúmeras vezes, não admitia. Eu sou um dependente químico. Eu sou viciado, e preciso dobrar a minha arrogância: não dou conta sozinho para lidar com esta energia que me domina, e o pior: eu gosto! E com esta ajuda, fui vendo que, por detrás do meu vício, estava um culto ensandecido ao sofrimento: eu via a vida de forma dramática. Com muito medo da pobreza. Com dificuldade de me aventurar. De me entregar ao prazer em suas mais diversas formas: sentia-me travado tanto sexualmente, quanto mentalmente. Com certeza, um influenciando o outro. Pintei de cores escuras os capítulos da minha vida, e insistia em contar para mim mesmo o quanto desgraçados foram meus pais, meu irmão, meus avós, as dificuldades da infância… e eu mesmo! O pior de todos!

O perfeito discurso da vítima, não é mesmo?

Fui percebendo que, neste padrão, justamente aquilo que eu mais desejava – a paz, prosperidade, desenvolver meus talentos, relação afetiva equilibrada, saúde física e emocional – ficava muito, muito distante. O álcool simplesmente era uma anestesia para o lero-lero que eu contava sobre mim mesmo. A vida foi uma merda, então, preciso de pelo menos algum prazer para aliviar a dor do passado: desce mais uma!

Deixar o álcool é como deixar aquela namorada terrível que às vezes a gente arruma. Chantagista, manipuladora, dócil às vezes, sedutora e ótima na cama. Se fazemos suas vontades, ela nos dá tudo! Se não fazemos, ela se transforma num demônio. E se ameaçamos ir embora, ela é capaz dos mais terríveis ardis para nos manter presos. E não será eu, naquela postura de vítima emburrada que irá conseguir se posicionar e se libertar. É necessário firmeza, e arcar com as consequências dos meus atos. Afinal, eu também tenho os meus ganhos nesta relação, e também, do meu jeito, manipulo e aprisiono. Não podemos esquecer: somos sempre nós que dizemos SIM para o primeiro gole e pagamos para a garrafa estar ao nosso dispor.

O jogo do sofrimento é sedutor. Meu líder espiritual Prem Baba diz: “De todos os vícios, o sofrimento é o maior deles. O sofrimento é a droga mais viciante. Infelizmente a grande maioria da nossa sociedade encontra-se viciada no sofrimento.” É muito mais fácil nos conectarmos às tragédias, às doenças, aos distúrbios, do que o contrário. Se exalamos amor, amizade, compaixão, destoamos da maioria. Nossa família, viciada em reclamações, manipulações, vitimismos variados, começará a nos afastar, nos taxar de “bicho esquisito”, “santinho”, “hippie”, “falso” e por aí vai… Se temos parceiros afetivos que vivem aliados à sombra, estes tentarão de tudo para nos puxar de volta. Muitas vezes, teremos que nos afastar de pessoas e ambientes, para segurar nossa firmeza de intenção. Precisamos sustentar a postura de não sermos entendidos nas nossas opções de paz e saúde, e talvez buscar novos grupos que vibram na mesma sintonia.

Um ano após

Na prática, o que significou viver estes 16 meses sem nadinha de álcool? Passado um período meio confuso emocionalmente, que não durou mais de 2 meses, fui aos poucos recuperando o desejo de cuidar de mim. Ter disciplina para cuidar do meu corpo. Da minha alimentação. Consegui olhar de verdade para algumas prioridades, como minha relação afetiva. O meu tempo de criatividade. Descobrir coisas que me dão prazer. Realizei uma viagem que era um sonho de infância, e pela primeira vez, sem ingerir bebidas alcoólicas. Comecei a aprender a extrair prazer das coisas sutis. Percebi a criatividade voltando para minha vida, em muitos aspectos. Minha mente acalmou e desenvolvi uma suave disciplina nas coisas que preciso fazer. Aumentou meu foco e capacidade de ação – que já era afinado, mas tinha um “q” de agressividade e autotortura. Agora não: consigo decidir e realizar com equilíbrio e flexibilidade. E decidi profundas mudanças para minha vida. Coisas que me fazem muito bem!

O mais incrível é poder olhar com respeito para minha história, para aquilo que meu pai, mãe e avós fizeram. Olhar com gratidão até para o álcool que, como costumo falar, foi a mais longa e visceral relação que tive na minha vida. Ao lidar com energias que nos aprisionam, sejam elas pessoas, vícios, situações, doenças… estamos sendo, na minha visão, desafiados a abrir nosso coração para a tolerância, resiliência, ação consciente, flexibilidade, compaixão… E parece que, dado o meu nível tosco de desenvolvimento, tenho que aprender na dor a despertar estes dons divinos. Mas uma hora, conseguimos, não é mesmo?

E aí fica o convite para você que também se vê preso num vício: quem sabe você possa olhar este vício como um passo para desenvolver a tolerância? Em primeiro lugar, à sua história! Sim, você tem razão em seguir um padrão de amortecimento através do vício. Pois sua história justifica: há dor dentro de si! Porém… até quando você irá justificar dor, causando mais dor a si mesmo? É isso que você realmente deseja para si? Ou está procurando, como eu, paz, prosperidade, amizade, amor, saúde, equilíbrio?

Se for isso, talvez seja importante entender que nada irá mudar o seu passado. E que é possível reescrever sua história, de uma forma totalmente nova, e prazerosa. Busque ajuda de especialistas! Grupos de apoio! Dobre-se! Você não dá conta para lidar com esta energia, sozinho. Você sabe disso, não é mesmo?

E quem sabe, daqui um ano, você também poderá falar da sua experiência, assim como eu estou fazendo agora? Mas não se esqueça: um passinho de cada vez. Alicerce a sua jornada. Parar o vício é importante, mas acredito que saber o que te move neste mundo e o que realmente é importante para si é fundamental. Assim, estar abstêmio e consciente, não há preço que pague.

Alex Possato