1 ano sem o “danado” álcool!

 

vicio alcool

Bem. Não exatamente: 1 ano e 4 meses. É motivo para comemorar? Sim!!! Apesar de eu ter ficado, no passado, 10 anos sem ingerir álcool, nesta última fase a necessidade de largar o “danado” veio com outra qualidade. Veio de um lugar de consciência, muito pensado e estudado, sem pressão de ninguém, a não ser, de mim mesmo.

Trabalho com cura. Necessito da minha sensibilidade para o que faço. Minha conexão espiritual também precisa de presença. Escrevo sem parar, e sempre que tentei escrever motivado por aditivos, só saiu merda. Porém, foi necessário um grande estudo de mim mesmo para deixar a companhia de algo que eu gostava e gosto muito: a bebida. Afinal, como diz o ex-jogador Casagrande, “ninguém se vicia em coisa ruim…”.

Com certeza, ficou gravada na minha memória a imagem do meu pai, sentado num canto de um bar qualquer, seu caderninho de nota e inúmeras poesias que ele escrevia na companhia da garrafa. Era muito chic! Meio Ernest Hemingway, meio Bukowski. Muito chic, mas que levou sua saúde embora. Suas famílias. Sua finança. Inclusive sua capacidade artística se foi, gargalo abaixo. No meu caso, o estar alcoolizado me trazia uma sensação de estar acompanhando papai. Pois eu o amava, mesmo também sentindo muita raiva por ele nunca ter assumido seus filhos.

Era muito louco: às vezes, sentado eu e a garrafa na mesa do bar, sozinho, como papai gostava de fazer, eu me pegava pensando: estou fazendo como ele. Vou ir pelo mesmo caminho: perder minhas relações afetivas, deixar meus filhos, fracassar na carreira. Veja o que você me ensinou, papai! A ser um homem fraco! Viciado! Magoado… E dá-lhe cerveja, cachaça, vodka, o que viesse… E então eu escrevia. Sacava o meu caderninho, a caneta, e escrevia um monte… As pessoas do bar não entendiam nada. Eu também não… na terceira dose os pensamentos já se embaralhavam.

Muito lindo, não? Depois, sóbrio, olhava minha fecunda produção: podia juntar tudo, abrir a tampa do vaso sanitário, jogar e puxar a descarga…

Demorou um bom tempo para eu perceber o quanto estava sendo ridículo. Meu pai já estava morto. Meu fígado estava indo pelo mesmo caminho. Minha carteira estava vazia. Mas o pior: a real vocação que eu tinha para escrever estava sendo desperdiçada por uma birra contra meu pai desnecessária. Inútil. Improdutiva. Como diz Elizabeth Gilbert, em A Grande Magia, “… basta dizer que a linguagem moderna da criatividade – desde os mais jovens aspirantes até os mestres reconhecidos – está impregnada de dor, desolação e transtornos. Inúmeros artistas trabalham em completa solidão física e emocional, isolados não só de outros seres humanos, mas também da fonte da própria criatividade”. Ok. Eu poderia morrer na sarjeta. E daí? O que isso iria mudar do meu passado? O que isso iria trazer meu pai para mais perto de mim? Como isso me faria um melhor escritor? Vivi um verdadeiro inferno interior, porque deixar um padrão de 30 anos é muito desafiante. Entre altos e baixos, idas e vindas, vontade de largar o vício e bebedeiras descontroladas, um dia, uma frase ecoou em mim: papai, eu te amo muito. E exatamente por isso, vou usar o dom que herdei de você de forma honrada.

Viver honrando a luz, a alegria, a criatividade, o prazer

Lógico. Precisei de ajuda terapêutica. Coisa que antes, mesmo tendo parado inúmeras vezes, não admitia. Eu sou um dependente químico. Eu sou viciado, e preciso dobrar a minha arrogância: não dou conta sozinho para lidar com esta energia que me domina, e o pior: eu gosto! E com esta ajuda, fui vendo que, por detrás do meu vício, estava um culto ensandecido ao sofrimento: eu via a vida de forma dramática. Com muito medo da pobreza. Com dificuldade de me aventurar. De me entregar ao prazer em suas mais diversas formas: sentia-me travado tanto sexualmente, quanto mentalmente. Com certeza, um influenciando o outro. Pintei de cores escuras os capítulos da minha vida, e insistia em contar para mim mesmo o quanto desgraçados foram meus pais, meu irmão, meus avós, as dificuldades da infância… e eu mesmo! O pior de todos!

O perfeito discurso da vítima, não é mesmo?

Fui percebendo que, neste padrão, justamente aquilo que eu mais desejava – a paz, prosperidade, desenvolver meus talentos, relação afetiva equilibrada, saúde física e emocional – ficava muito, muito distante. O álcool simplesmente era uma anestesia para o lero-lero que eu contava sobre mim mesmo. A vida foi uma merda, então, preciso de pelo menos algum prazer para aliviar a dor do passado: desce mais uma!

Deixar o álcool é como deixar aquela namorada terrível que às vezes a gente arruma. Chantagista, manipuladora, dócil às vezes, sedutora e ótima na cama. Se fazemos suas vontades, ela nos dá tudo! Se não fazemos, ela se transforma num demônio. E se ameaçamos ir embora, ela é capaz dos mais terríveis ardis para nos manter presos. E não será eu, naquela postura de vítima emburrada que irá conseguir se posicionar e se libertar. É necessário firmeza, e arcar com as consequências dos meus atos. Afinal, eu também tenho os meus ganhos nesta relação, e também, do meu jeito, manipulo e aprisiono. Não podemos esquecer: somos sempre nós que dizemos SIM para o primeiro gole e pagamos para a garrafa estar ao nosso dispor.

O jogo do sofrimento é sedutor. Meu líder espiritual Prem Baba diz: “De todos os vícios, o sofrimento é o maior deles. O sofrimento é a droga mais viciante. Infelizmente a grande maioria da nossa sociedade encontra-se viciada no sofrimento.” É muito mais fácil nos conectarmos às tragédias, às doenças, aos distúrbios, do que o contrário. Se exalamos amor, amizade, compaixão, destoamos da maioria. Nossa família, viciada em reclamações, manipulações, vitimismos variados, começará a nos afastar, nos taxar de “bicho esquisito”, “santinho”, “hippie”, “falso” e por aí vai… Se temos parceiros afetivos que vivem aliados à sombra, estes tentarão de tudo para nos puxar de volta. Muitas vezes, teremos que nos afastar de pessoas e ambientes, para segurar nossa firmeza de intenção. Precisamos sustentar a postura de não sermos entendidos nas nossas opções de paz e saúde, e talvez buscar novos grupos que vibram na mesma sintonia.

Um ano após

Na prática, o que significou viver estes 16 meses sem nadinha de álcool? Passado um período meio confuso emocionalmente, que não durou mais de 2 meses, fui aos poucos recuperando o desejo de cuidar de mim. Ter disciplina para cuidar do meu corpo. Da minha alimentação. Consegui olhar de verdade para algumas prioridades, como minha relação afetiva. O meu tempo de criatividade. Descobrir coisas que me dão prazer. Realizei uma viagem que era um sonho de infância, e pela primeira vez, sem ingerir bebidas alcoólicas. Comecei a aprender a extrair prazer das coisas sutis. Percebi a criatividade voltando para minha vida, em muitos aspectos. Minha mente acalmou e desenvolvi uma suave disciplina nas coisas que preciso fazer. Aumentou meu foco e capacidade de ação – que já era afinado, mas tinha um “q” de agressividade e autotortura. Agora não: consigo decidir e realizar com equilíbrio e flexibilidade. E decidi profundas mudanças para minha vida. Coisas que me fazem muito bem!

O mais incrível é poder olhar com respeito para minha história, para aquilo que meu pai, mãe e avós fizeram. Olhar com gratidão até para o álcool que, como costumo falar, foi a mais longa e visceral relação que tive na minha vida. Ao lidar com energias que nos aprisionam, sejam elas pessoas, vícios, situações, doenças… estamos sendo, na minha visão, desafiados a abrir nosso coração para a tolerância, resiliência, ação consciente, flexibilidade, compaixão… E parece que, dado o meu nível tosco de desenvolvimento, tenho que aprender na dor a despertar estes dons divinos. Mas uma hora, conseguimos, não é mesmo?

E aí fica o convite para você que também se vê preso num vício: quem sabe você possa olhar este vício como um passo para desenvolver a tolerância? Em primeiro lugar, à sua história! Sim, você tem razão em seguir um padrão de amortecimento através do vício. Pois sua história justifica: há dor dentro de si! Porém… até quando você irá justificar dor, causando mais dor a si mesmo? É isso que você realmente deseja para si? Ou está procurando, como eu, paz, prosperidade, amizade, amor, saúde, equilíbrio?

Se for isso, talvez seja importante entender que nada irá mudar o seu passado. E que é possível reescrever sua história, de uma forma totalmente nova, e prazerosa. Busque ajuda de especialistas! Grupos de apoio! Dobre-se! Você não dá conta para lidar com esta energia, sozinho. Você sabe disso, não é mesmo?

E quem sabe, daqui um ano, você também poderá falar da sua experiência, assim como eu estou fazendo agora? Mas não se esqueça: um passinho de cada vez. Alicerce a sua jornada. Parar o vício é importante, mas acredito que saber o que te move neste mundo e o que realmente é importante para si é fundamental. Assim, estar abstêmio e consciente, não há preço que pague.

Alex Possato

 

One Reply to “1 ano sem o “danado” álcool!”

  1. Mestre querido, muio bom ver seu crescimento. Como você bem diz, é preciso beber do próprio veneno, sentir a dor, e à partir dai, com reverência e gratidão, tomar um novo rumo.

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