Falando de dinheiro em casal

falando de dinheiro em casal

 

Certa vez, estava lendo o ótimo livro Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, de Gustavo Cerbasi, e ficou muito claro para mim a necessidade de criar uma comunicação saudável entre ambos os parceiros, pois existe uma coisa muito óbvia: é preciso falar do dinheiro, planejar, ver o que é utilizado para os sonhos de cada um e para o sonho do casal, como administrar, como gastar, onde investir… Dá pra fazer isso sem diálogo, sem transparência? Não!

E veja que incoerência! Justamente eu, um cara que se acha tão esclarecido e “terapeutizado”, não falava sobre dinheiro com minha esposa. Fazia meus controles, meus investimentos, mas ela não tinha a menor noção de quanto eu ganhava, onde eu aplicava, enfim, a transparência mínima necessária para começar a conversa sobre finanças. E por que será que é tão difícil falarmos de dinheiro abertamente para a pessoa que está ao lado? Este é um aspecto que gostaria de elaborar um pouco.

Eu não confio nele(a)

Carregamos em nós memórias de padrões dos nossos pais, avós, bisavós. E na minha prática de constelação familiar, vejo o quanto que estas memórias estão impregnadas de enganação, perdas, descasos, opressão, mau uso do dinheiro, e assim por diante. Por exemplo: Quantos pais e mães deixaram de cumprir suas funções de provedor, no passado? Quantos filhos bastardos não tiveram direito a nada? Nem as respectivas mães? Quantas brigas, por causa de dinheiro, demoliram a convivência do casal? Isso e muitos outros fatores, sem que saibamos conscientemente, estão afetando a nossa forma de se comportar em relação às finanças.

Investigue um pouco:

  • Quem era o provedor, na sua família?
  • Como eram discutidas (ou não) a forma de se gastar, de se poupar, de se organizar?
  • Quem ganhava menos (ou não ganhava) tinha direito a colocar seus sonhos, suas vontades?
  • Havia carência? Ou esbanjamento?
  • O dinheiro era utilizado para comprar o carinho, a fidelidade?
  • Houve conflitos relacionado a partilhas, heranças, benefícios?
  • Alguém quebrou ou passou por sérias crises financeiras?
  • Mesmo que irreal, existia (ou existe) o medo da escassez, da falta, de “passar fome” e/ou de “morar debaixo da ponte”?
  • Como foram suas relações afetivas: quem bancava as contas? Como foram as separações das obrigações?
  • Você enganou ou sentiu-se enganado nas relações – no aspecto do dinheiro?

Estas perguntas podem ajudar você a entender alguns aspectos internos da sua relação com o dinheiro, e consequentemente, da sua relação com seu parceiro(a) no quesito finanças. É importante não ser infantil: toda relação afetiva envolve outras coisas, além do amor. Principalmente, nossa psique tão machucada por dores, abandonos, descasos e enganações do passado, busca no outro segurança material e emocional, em primeiro lugar. É a base da pirâmide: sem esta segurança, o sucesso dos planos de casal é inviável.

 

Aprender a revelar-se

Ter dificuldades com o dinheiro, medos e padrões financeiros ineficazes não é demérito para ninguém. Aprendemos com a nossa família, com os padrões herdados e com a nossa experiência de vida. E se você já saiu da imagem do príncipe ou princesa em busca de uma relação de conto de fadas (e olha que muitos ainda estão procurando isso!), deve entender que uma relação afetiva inclui revelar o seu lado Shrek e Fiona, que todos temos, o universo todo sabe disso, o cara ao seu lado também, e continuamos a fingir não ter.

Num sentido sistêmico, nos sentimos atraídos por um parceiro afetivo para que o Amor possa se manifestar nesta relação, e frutificar em benefícios ao mundo. O Amor sempre gera frutos! Podem ser filhos, projetos, prosperidade, serviços… Mas é lógico que, por termos dentro de nós traumas que trazem desconfiança, teremos que aprender a desarmar nossas defesas, a confiar de forma inteligente e metódica, a ir gradualmente despindo a fantasia de príncipe para mostrar nossas verdadeiras faces ao outro.

Vivemos um tempo que pede, com urgência, esta revelação! A verdade imperando dentro do lar, dentro das relações, dentro da família… Pelo menos, se você está cansado de dar murros em ponta de faca, quer dizer, entrar e sair de relações onde se sente ferido, ou estar fechado ao outro (mesmo estando numa relação), deve pagar o preço do Amor: entender que é você que carrega medos, traumas, bloqueios, e por não confiar… não se abre… e acaba encontrando alguém que irá corresponder a este seu padrão.

Imagine como seria dizer:

  • Eu me sinto mal de não ganhar tanto quanto você
  • A sua forma de arcar com as despesas me faz sentir inferiorizado
  • Eu uso o dinheiro para ter poder sobre você
  • Gostaria de poder usar parte do dinheiro para sonhos meus, pessoais
  • Estou pagando as contas da minha família anterior
  • Me incomoda o fato de você gastar mais com sua família do que conosco
  • Vejo, na herança que vamos receber, uma possibilidade de salvar nossa situação financeira
  • Tenho medo de ir atrás do dinheiro e não confio no meu poder
  • Estou totalmente descontrolado financeiramente – você pode me ajudar?
  • Estou de saco cheio do meu trabalho, mas não saio porque ele é nossa segurança
  • Morro de medo da miséria! Mesmo sem sentido…

Pergunte-se: qual a revelação eu nunca fiz para um parceiro afetivo? Mesmo que você não fale, explicitamente, como seria imaginar dizendo isso? Dizemos a nós mesmos que um dos valores que mais prezamos é a verdade. E ficamos muito putos quando nos sentimos traídos. Mas num sentido profundo, eu digo: as nossas “verdades” não ditas na relação afetiva é uma traição, e a não exposição delas, são formas camufladas de mentir.

Convoque uma DR (discussão de relação) financeira

Se existir clima, sem forçar, pense seriamente em convocar DRs financeiras periodicamente. Existem inúmeras situações que precisam ser abertas, esclarecidas. Casais que convivem com desequilíbrios profundos, que vão minando qualquer possibilidade de confiança e manifestação de amor, poderiam ver a situação se resolver simplesmente conversando. Por exemplo: quantas pessoas se sentem exploradas pelo outro? Quantos parceiros se sentem humilhados por não poder colaborar da forma como gostariam na vida do casal? Quanto desperdício de dinheiro em coisas supérfluas, vícios, desvios?

Tudo isso pode (e deve!) ser olhado de frente. Somos humanos, e um parceiro afetivo verdadeiramente envolvido para o crescimento da relação, saberá lidar com todos os desvios, em prol do desenvolvimento conjunto. O amor pode se manifestar na verdade. Ou melhor: o amor pode se manifestar na verdade. Por isso, encare a sua verdade, e mãos à obra! Abaixo, vou deixar algumas regrinhas básicas, que podem orientar a sua DR financeira. Elas são extremamente importantes:

– fale sempre de você. “Eu me sinto fracassado, quando vejo você trabalhando, e eu desempregado!” Evite, terminantemente, apontar o dedo e dizer coisas assim: “Você me humilha com o seu jeito provedor!”;

– conte dos padrões financeiros que acompanham a sua vida, desde a infância, passando pela adolescência, primeiros trabalhos, como lidou com o dinheiro nas relações afetivas;

– fale dos seus sonhos pessoais – o que faria somente para si, com o dinheiro?;

– imagine também os sonhos de casal – o que seria, para você, um bom uso do dinheiro para planos conjuntos?

– revele o quanto você ganha, onde você gasta, como economiza (ou não);

– fale de suas dificuldades e como está disposto a superá-las (se é que está… e se não está, seja sincero);

– você poderá falar do que incomoda no outro, mas sempre dizendo: “isso que você faz me deixa… (triste, raivoso, frustrado, ausente, etc.)”

– e agora… ouça tudo do outro, sem interferir…

Lembrando: o outro precisa estar realmente disposto a conversar. Não force. Se você percebe que não rola, aguarde o tempo que for necessário, para que a confiança possa surgir. Ou talvez, a urgência do papo se manifeste. E se não for possível realizar isso somente em casal, busque o auxílio de um especialista, que fará a mediação. É importante entender, que às vezes, antes de harmonizar, algumas sujeiras que estavam embaixo do tapete vem a tona, e poderá haver uma fase de turbulência. Lidar com a verdade é algo bem difícil, e precisamos, em nome do Amor, respeitar o tempo do outro.

Entenda, definitivamente: encontramos uma relação afetiva para nos ajudar a manifestar o Amor. E uma das formas que o Amor atua é nos auxiliando a olhar em que ponto específico nós estamos fechados para Ele. Portanto, se seu parceiro te provoca, ele está mostrando exatamente o ponto onde você ainda não desenvolveu compaixão, flexibilidade, inteligência emocional. Assim, respeite o tempo! Tanto o dele, quanto o seu! Quando você aprender a sua parte, o caminho para o Amor estará desimpedido…

Alex Possato

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