Os jogos de poder, num relacionamento tóxico

jogos

Vivi uma relação onde havia um nítido jogo de poder. Éramos bons amigos. Compartilhávamos muitas coisas em comum. Mas um pacto maldito imperava na nossa dinâmica: quando um sobe, o outro desce. E se não desce, eu puxo para baixo. Para daí pisar sobre a cabeça e poder subir. Até que o outro, lá embaixo, se mexe tanto até eu despencar. E ser pisado. Tudo isso de uma forma muito dissimulada. Aparentemente, estamos tentando ajudar ao parceiro e vice-e-versa.

Por exemplo: nossa companheira relata um problema que teve com o chefe, no serviço. E nós, habilmente, mostramos a ela o quanto ela é tola, o quanto não sabe lidar com situações de comando, o quanto está se deixando contaminar por questões infantis. Se o jogo vai até o fim, auxiliamos no processo dela se demitir (ou ser demitida), e então, cantamos de galo: tá vendo! Eu sabia! Te avisei! Agora você faz do jeito como eu estou dizendo, que tudo irá dar certo!

Mais um outro exemplo: a companheira critica nossa dificuldade de se estabelecer financeiramente. Embora não diretamente, nos culpa pelo fracasso econômico da família. “No tempo do papai era diferente. Mamãe nunca passou dificuldade”, joga descaradamente a nossa querida companheira. “Acho que você deveria procurar outro emprego!”, finaliza, com um golpe no fígado.

São muitas as situações de confronto e disputa de poder dentro de uma relação tóxica. Assim funcionam as dinâmicas, e não há o que fazer, a não ser aprender com elas, para poder sair disso.

Aprendemos a agir assim seguindo padrões de comportamento das relações que houveram na nossa família. Em primeiro lugar, entre nossos pais, que são a influência mais importante. “Cada pessoa decide em sua infância como ela vai viver e como ela vai morrer, e esse plano, que ela carrega em sua cabeça onde quer que vá, nós o chamamos de roteiro”, explica Eric Bern, o grande criador da Análise Transacional. Mas também sabemos, pela constelação familiar sistêmica, que os padrões são transgeracionais, e portanto, herdamos hábitos de comportamento dos avós, ou das relações paralelas que houveram no passado familiar.  “Além de sermos filhos, parceiros e talvez pais, partilhamos um destino comum com relacionamentos mais distantes – o que quer que aconteça a um membro de nosso grupo familiar, para bem ou para mal, nos afeta e afeta também os outros. Junto com a nossa família, formamos uma associação cujo destino é comum”, acrescenta Bert Hellinger.

Então, pera lá! Será que estou, como diz Bern, ligado a um script até o final da minha vida? Ou ainda, segundo Hellinger, vou ter que viver relações conflituosas para sempre, em honra a algo que aconteceu com um antepassado?

Identificando o jogo

Conheci o trabalho de Eric Bern antes mesmo de mergulhar na constelação sistêmica. E conheci porque estava extremamente cansado e insatisfeito com a vida que vivia. Finalmente, após anos de sofrimento, comecei a perceber: deve ter alguma coisa errada comigo! Sem saber, comecei a me abrir para a cura! “Os roteiros só são possíveis porque as pessoas não sabem o que estão fazendo para si mesmas e para os outros. De fato, saber o que se está fazendo é o oposto de seguir um script”, confirma Bern.

É necessário perceber que estou num jogo, e eu sou parte ativa desta partida. Eu mantenho o game ocorrendo! Existe uma história real na análise transacional, que ilustra muito bem como acabamos escolhendo um marido ou esposa para preencher uma lacuna emocional dentro de nós, alimentando um padrão de comportamento que aprendemos com nossos pais e nossa família.

“ A senhora Blanco reclamou que seu marido limitou severamente suas atividades sociais, então ela nunca aprendeu a dançar. Devido às alterações em sua atitude como resultado do tratamento psiquiátrico, seu marido começou a se sentir menos seguro de si mesmo e a ser mais indulgente. Então a senhora Blanco conseguiu expandir o leque de suas atividades. Ela se matriculou em aulas de dança e descobriu, desanimada, que sentia um grande medo das pistas de dança e teve que abandonar esse projeto. Esta infeliz aventura, junto com outras similares, trouxe à luz aspectos importantes da estrutura de seu casamento. Dentre seus inúmeros pretendentes, ela escolheu como marido um homem dominante. Ela estava então em posição de reclamar que poderia fazer tudo ‘se não fosse por ele’. Muitas de suas amigas também tinham maridos dominantes…”.

Pois é! Descobri que eu escolhi uma parceira que estimulava uma competitividade dentro da relação, para poder manter vivo o script de competição que foi a vida afetiva dos meus pais e dos meus avós. E praticamente nenhum diálogo. Raro entendimento. Decisões todas tomadas nos jogos de força, chantagem, agressividade e vitimismo.

Jogando o mesmo jogo que meus pais, avós e bisavós, inconscientemente estou dizendo: eu sou como vocês! Eu faço parte! E mesmo sofrendo, é a forma que aprendi para honrar minha linhagem!

Que porre, heim? Porém, como disse acima, eu estava cansado do jogo. Cansado de mim mesmo. Desta atuação tosca, num drama familiar digno de novela de quarta categoria.

Sair do jogo

Aí é que é a coisa. Quando vivemos uma relação tóxica, estamos “apaixonados” pelo conflito. Aquela disputa toda dá adrenalina. Nos faz sentir vivos. E também pertencentes. Quem seríamos nós, sem aquela briguinha cotidiana? Sem uma boa discussão após o jantar? E sem o sexo gostoso que tantas vezes vem após a gritaria? Pois é… falei que parece uma novela…

E querer deixar este jogo dá uma sensação muito grande de vazio. De fracasso. Algo muito valioso está prestes a morrer. Pode até ser que a relação afetiva não resista a isso. Sim, pode ser… E nós temos as cartas nas mãos, e precisamos fazer nossas apostas. Vamos pagar para ver?

O objetivo de qualquer terapia não é consertar uma relação. Nem desfazer. É trazer um pouco mais de luz e paz para a nossa história. Ou seja, para nós mesmos. Pegando o exemplo da senhora Blanco, acima, podemos afirmar com absoluta certeza de que ela estava vivendo um roteiro conhecido, escrito por seus pais e/ou avós. A mulher “reclamona”, que culpa o marido por não ter sido feliz. No meu caso, eu estava seguindo um roteiro honrando a imagem que gravei na infância sobre os homens da minha família: homens que não conseguiram o sucesso e eram culpados de diversas formas pelas mulheres da família por diversas coisas: traição, desagregação familiar, abandono, vícios, dificuldade financeira, etc.

Quando entendemos todo o contexto do enredo, podemos ver a nossa história familiar somente como um grande drama. Nada mais que isso. E com um pouco de sensibilidade e criatividade, podemos reescrever o roteiro – transformar o drama em comédia, por exemplo. E a única forma de reescrever o roteiro é começando com o nosso personagem.

Qual é a sua nova forma de atuar?

Muitos caminhos de autoconhecimento perguntam: quem é você? É por aí que começamos. O outro não importa. Seu companheiro ou companheira não importam. Importa você. O que te faz feliz? Como você quer viver? Naquilo que depende de você, o que você pode mudar?

É uma longa estrada ingressar neste caminho interno de autodescobertas. Desde esta época em que me percebi cansado de tanto sofrimento e repetição de padrões dolorosos, muita coisa mudou. Minha relação afetiva mudou. Meu trabalho. Minha forma de ser, de falar, de me vestir, de me comportar. Minhas conquistas. A forma de encarar minha família e todas as pessoas que passaram na minha vida. A visão que tinha da minha infância e dos meus pais. Tudo, tudo, tudo mudou. E continua mudando. Já se vão mais de 15 anos. Aquele sofrimento se foi. Mas isso não é garantia de nada.

Começo a ver que a história da minha vida é viva. E que em alguns momentos, não tenho a menor condição de interferir nos scripts, mesmo entendendo mais ou menos o que está ocorrendo. Já não vivo relações tóxicas, nem com amigos, nem no amor, nem no trabalho. Mesmo assim, não é tudo que me agrada. E tudo bem! Não estou nesta vida para viver um conto de fadas com final feliz. Mas também sei que alguns sofrimentos só perduram porque quero evitar olhar para padrões inconscientes que me fazem ficar dando murros em ponta de faca. Muitas vezes percebo que continuo jogando algum jogo. E tão logo vejo isso, assumo o compromisso de olhar. E abrir as cartas na mesa.

E você? Como está jogando os jogos dentro do relacionamento?

Só mais um detalhe: quando cessam os jogos na relação afetiva, podemos verdadeiramente viver a intimidade. Duas pessoas desarmadas, e entregues uma à outra. Sem manipulações. Sem vítima, salvador ou perseguidor. Somente dois iguais. E a intimidade é a única e verdadeira manifestação do Amor, na relação a dois.

Alex Possato

 

 

 

 

 

2 Replies to “Os jogos de poder, num relacionamento tóxico”

  1. Bacana! Que texto direto e lúcido!
    Ainda que eu já tenha chegado nesse ponto, não sinto segurança de que eu seja capaz de não levar as relações que eu estou construindo de novo pro jogo!… Afinal eu nasci no jogo e me alimentei desse jogo até agora, aos 51 anos.
    O processo é bastante trabalhoso, e neste momento eu busco usar a energia que desperdiço com o sentimento de cansaço, pra explorar novas possibilidades. Mas ainda me sinto pisando em ovos…

    1. Oi Lydia! Sim, é uma longa jornada. Nós que viemos de famílias onde as relações eram difíceis, estamos condicionados a viver isso. E às vezes, até fugimos de relações calmas, que não provoquem adrenalina e grandes mudanças! Acho que o cansaço (lógico que depende do caso) é benéfico, pois é um momento em que podemos entregar nossas armas, nossas estratégias, e adotarmos outras posturas mais saudáveis! Confiança, paciência e perseverança! Grande abraço!

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