Meu amado comunista

orlando possato

Vovô me carregou no colo. Ensinou-me, pelo exemplo, a trabalhar muito. A ser imensamente criativo e presente. Um senso de humor afiado; ótimo contador de história. Pouco soube da sua atuação partidária, afinal, nos anos de chumbo, as reuniões eram feitas às escuras, em locais desconhecidos. Lembro-me do vovô saindo à noite, como se fosse fazer algo muito importante, sigiloso e perigoso… e com alegria e alívio, ouvia seus passos se aproximando da porta de entrada de casa. Eu, nesta hora, já deitado por obrigação do horário, agradecia por poder sentir a segurança daquele velho idealista de volta ao lar.

Talvez o mais importante que vovô me ensinou foi servir. De vez em quando, ele pegava sua maletinha de técnico em eletrônica, avançava peito aberto e confiante pelo meio das favelas com seus esgotos a céu aberto de Suzano, periferia de São Paulo, e consertava rádios e TVs por preços irrisórios. Vovó muitas vezes reclamava: só isso, Orlando? E ele dava de ombros, dizendo: ele não podia pagar mais…

Vovô me mostrou um lado do Brasil que muitos de nós não conhecemos. O lado da miséria. O lado daqueles que não podem trocar de tênis todo ano. Não podem, muitas vezes, pagar a condução para se deslocar. Não têm panelas e nem entendimento pra ficarem batendo contra este ou aquele – embora motivos não faltasse.  Eu, calças curtas e sandália no pé, pulando córregos fétidos, ia com ele às suas investidas solitárias, em busca de levar uma gota de serviço àqueles que tão pouco tinham. Menos até do que nós, que não tínhamos grande coisa. Do seu jeito, lavava os pés dos pobres e humildes. Justo ele, sem religião e crítico às igrejas!

Não, não me tornei comunista. Até gosto bastante de ganhar meu dinheiro. E acredito que esmola demais é desmoralizante e enfraquece. Tive inclusive que abandonar diversas crenças da infância, para conseguir começar a ganhar dim-dim e sair da faixa do endividado eterno. Porém, jamais esquecerei o exemplo do velho comunista. E honro do fundo do meu coração, cada alma parecida com meu vovô, que anda pra cima e pra baixo neste país tão desigual, buscando trazer um pouco mais de dignidade à imensa massa de excluídos que habitam nossa pátria. E honro igualmente aqueles que trabalham duro, honestamente, crescem e enriquecem, e podem através do próprio crescimento, auxiliar no crescimento de outros. No meu coração, cabe comunista e cabe capitalista. Só não cabe o desrespeito e a falta de compaixão. Quisera um dia entendamos que ideologias, sem amor e compromisso real ao próximo, de nada servem. E amor, compromisso e ação, não depende de ideologias: basta pegar a maletinha, calçar os sapatos, arregaçar as mangas e… fazer a sua parte!

Saudades, vovô Orlando Possato!

 

4 Replies to “Meu amado comunista”

  1. Alex Possato minha gratidão por compartilhar belíssimo texto, principalmente quando o mesmo conta fato real desprovido de julgamentos e desrespeito.
    Agradeço por sua existência e sabedoria e pela humilde arte de nos ajudar a evoluir cada dia mais.

    1. Gratidão, pelas palavras, Claudilene! Isso sempre me motiva a compartilhar mais e mais… sempre na tentativa de mostrar que é possível passarmos nossa mensagem com respeito, embora nem sempre precisemos concordar com o ponto de vista do outro! Grande abraço!

  2. Belíssima crônica. Alexandre. Nunca duvidei do seu talento. Parabéns pela sinceridade e beleza do texto. Pelo Nonno que v. carrega consigo no coração.

    do seu amigo e admirador de sempre

    Chicão/Ceará

    1. Que legal seu comentário, Chico! Lembro-me a vez que você me mostrou o link com “a ficha” do meu avô no DOPS! Comecei a entender mais ainda meu avô!!! Abração pra você! Saiba que nossa amizade e tudo o que aprendi contigo na adolescência jamais será esquecido! Gratidão eterna!!!

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