Como ter gratidão se estou magoado?

 

É quase diário receber alguém com a história familiar extremamente dolorosa. Olhando em volta, pensando nos meus amigos, parentes, alunos e clientes, posso dizer com certeza de que a maior parte das pessoas tiveram muitas complicações na infância, presenciaram muitos problemas entre os próprios pais e herdaram padrões familiares bem complicados.

Junta-se isso a uma diretriz espiritual que ao meu ver, é muito mal entendida – “amar pai e mãe” e aí vemos as pessoas tentando engolir todas as mágoas e desacertos do passado para dizerem: sim, sou grato à minha família!

Falo sempre a todos: constelação familiar é terapia, e não tratado de moralismo. Terapia lida com sentimentos, padrões de comportamento, falta de energia, descontrole emocional. Como podemos fazer terapia e não olhar para as dores do passado? Impossível, não é? Forçar alguém a acreditar que “temos que ter gratidão”, como vejo e ouço por aí, não resolverá o problema de ninguém.

Como posso ter gratidão, se estou magoado? Se tenho raiva? Se, às vezes, minha dores nem conseguiram ainda sair do porão do inconsciente? Acho que existe um caminho:

1 – olhar para as dores, todas elas. Verificar pacientemente cada mínimo sentimento que a lembrança do passado desperta.

2 – aprender a lidar com elas. Como? Percebendo que tudo isso são memórias passadas. Que as pessoas que achamos que nos feriram, também estavam cegas e feridas pelo passado delas. Que por acaso, é o mesmo que o nosso.

3 – arcando com toda esta bagagem, e reconhecendo o aprendizado que tivemos, através da dor, da exclusão, das separações.

4 – assim, crescemos. Nos tornamos adultos, e podemos ir para a vida.

5 – indo para a vida, sentiremos gratidão por tantas pedras que ultrapassamos, pois somente aí, entenderemos na prática o sentido maior de toda a nossa infância, de todo o passado familiar, e a função dos nossos pais.

6 – dar o tempo necessário para que o processo ocorra naturalmente.

Alex Possato

 

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