As dores da infância


Quantas vezes recebo pessoas desiludidas com sua vida amorosa. Dores profundas por rompimentos dolorosos ou, muitas vezes, não suportando mais continuar numa relação que já acabou, mas também sem coragem de dar um basta. E eu me pergunto: o que faz uma pessoa continuar sofrendo, ao lado de alguém que não lhe faz feliz? Ou ainda: como alguém pode continuar carregando a dor de uma separação que muitas vezes ocorreu anos atrás, e não se abrir para algo novo?
Poderia afirmar que, na maioria dos casos, existem dores profundas na infância. Sensação (real ou sistêmica) de abandono, maus tratos, desprezo, desvalidação e humilhação. Porque abrir-se para um relacionamento não é algo tão difícil. A questão é que a pessoa está tão ferida, que não quer mais se permitir o mínimo de atrito que fatalmente ocorrerá numa relação. E no caso das pessoas que estão presas a relações tóxicas, a pessoa foi tão ferida na infância que relaciona o atual “estado” a uma forma possível de amar. Amar através da dor, amar através do sofrimento, tal qual foi vivido no passado.
Acostumamos com o conhecido. A mente humana é plástica e condicionada. Filhos do abandono e dos maus tratos, embora possam dizer que estão a procura da felicidade, fidelidade e paz, atraem na verdade abandono e maus tratos. É aquilo que a própria mente condicionou a entender por “cuidados”. E não há outro caminho: a própria pessoa precisará entrar em contato com estes padrões que, no fundo, gosta e reconhece como sendo sua própria essência. Sou um abandonado! Gosto e procuro relações de conflito e desprezo! Atraio parceiros que traem! Procuro sempre ser abandonado!
Sim, não estou brincando! Este é o início da cura. É o momento em que começo a perceber os mecanismos que me guiam pela vida. Somente aí, quando controlo o meu carro e saio do piloto automático, começarei a ter novas possibilidades de escolha. Prepare-se para um longo, duro, mas frutífero aprendizado!

Alex Possato

A força masculina

Você lembra a história de Édipo? Que é um mito grego emprestado por Freud para descrever a relação doentia que um homem tem com a própria mãe, levando-o a combater o pai, a querer casar com a mãe e, no fim… é aquela tragédia! No mito, Édipo realmente casou com a mãe, teve quatro filhos, assassinou o pai e, quando tudo foi descoberto, Jocasta, sua mãe, se suicidou. E Édipo perfurou os próprios olhos. 

Quis trazer a força deste mito para que nós, homens, entendamos que muitas vezes estamos movidos pela necessidade de reconhecimento e cuidados da nossa própria mãe, e para isso, usaremos a força e a raiva para matar o masculino que há em nós. Literalmente, nos tornamos impotentes, e ao final, cegos. Usaremos as mulheres que se aproximarem para que elas cuidem de nós. E estas mulheres estarão também carregando o complexo de Édipo feminino, que é uma ligação distorcida em relação ao pai e ódio ou competição em relação à mãe. Logo, elas não conseguirão cuidar tão bem e terão dificuldade de agregar, manter a família unida.

Hellinger explica estas duas situações como “o filhinho da mamãe” e a “filhinha do papai”. O caminho terapêutico é o homem cortar os vínculos de dependência em relação à mãe e a mulher cortar os vínculos de dependência em relação ao pai. Estes vínculos são internos, e não externos. É preciso investigar a carência e consequente raiva que sentimos dos nossos progenitores, para que possamos arcar com as dores da nossa criança abandonada e ferida, e nós mesmos, como adultos, cuidarmos dela. Assim, deixamos de delegar os cuidados a um homem ou mulher, e desta maneira, poderemos estabelecer relações adultas e sadias, sem traços de co-dependência.

Alex Possato

Os “nãos” necessários

Hoje em dia não falo mais “estou em processo”. Porque eu, que me considero um buscador que se “terapia” muito, estava entrando em processos constantes e intermináveis, a ponto de impedir olhar para as coisas boas do aqui e agora. Assim, entendi que não precisava procurar compulsivamente me entender, investigar pai e mãe, olhar para a criança ferida, escarafunchar a sombra, pintar a árvore genealógica e ficar tentando encontrar excluídos, tragédias e traumas passados na ancestralidade… 

E realmente, ao meu ver, foi um passo bem importante, porque me aproximou da agradável experiência de viver curtindo o presente, da forma como ele se apresenta. Descobri que não é necessário ficar atiçando “os processos”, pois eles se apresentam no momento propício. Vou dar um exemplo.

Um destes episódios ocorreu recentemente, através dos movimentos que estavam ocorrendo na minha família, de uma forma um tanto quanto conturbada. Tentei auxiliar no que foi possível, mas aos poucos, vi emergir uma raiva muito grande. Algo estava me incomodando, e eu não conseguia saber o que fazer. Deixei a raiva ficar em mim. Como gosto de dizer aos alunos e clientes: fica com isso! Eu fiquei. Me vi buscando isolamento. Não queria falar com ninguém. Fiquei perturbado. E continuei “ficando com isso”. 

Em algum momento, enquanto estava ruminando meu processo, me veio algo: se você está com raiva, é porque está se sentindo invadido. Talvez esteja faltando colocar limites. Talvez você esteja esquecendo das próprias coisas, enquanto a família o exige demais para resolver coisas que nem são suas. Como um grande jogo cósmico, a peça que faltava se encaixou. A raiva imediatamente passou, e se transformou em motivação. Percebi que eu precisava dizer não para uma situação externa. E dizer sim para meus sonhos, que estavam meio esquecidos. Nossa, como foi bom sentir a raiva! Eu te amo, raivinha querida!

Alex Possato

 

Como é viver sem crenças limitantes?

Existe uma linha de estudo terapêutico que fala do “eu idealizado”. É como se criássemos internamente um modelo de perfeição que deveríamos alcançar, e lógico, nunca alcançaremos. Como se forma este “eu idealizado”? Se forma através dos padrões de crenças e comportamentos aprendidos através, principalmente, da nossa família.

As centenas de broncas, comparações, punições e premiações que recebemos, para as coisas que fizemos “bem feito” ou “mal feito”, servem de matéria prima para este “eu idealizado”. Avançando um pouco no conhecimento da constelação familiar, também entendemos que os comportamentos excluídos do nosso sistema – por exemplo, os assassinos, aqueles que abandonaram, roubaram, exploraram, corromperam, se submeteram, etc. – “pesam” no nosso inconsciente, fazendo com que queiramos fugir destes comportamentos de uma forma totalmente neurótica. Assim, criamos um ideal de perfeição em nós atrelado a pensamentos de intolerância a determinados tipos de comportamento.

É incrível como não percebemos que já somos o melhor que podemos ser, aqui e agora. Não importa se não sabemos x ou y, se não alcançamos determinado patamar financeiro ou status social, se não casamos ou não temos filhos, se não respondemos aos padrões estéticos ou sexuais da sociedade, se não falamos mais de uma língua ou não temos graduação adequada, se não viemos de uma família funcional, se deixamos de amar nossos pais… por aí vai. Tudo aquilo que não presta em nós e em nossa vida são crenças implantadas paulatinamente. Crenças que detonam nossa sanidade e autoestima.

Convido você a brincar de se permitir “ser quem você é”, somente por 24 horas. Somente por hoje! Sem criticar absolutamente nada daquilo que você faz, deixa de fazer, pensa ou deixa de pensar… Inclua até se não conseguir totalmente se “permitir” ser quem você é… Experimente viver um dia sem ser dominado pelas crenças massacrantes que te dominam. E depois me conte como foi a experiência!

A importância do auto cuidado

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Você tem problema de pausar a sua vida corrida para cuidar de si mesmo? Fazer uma massagem é só quando dói? Ou preparar um banho relaxante especial tem a ver com o seu nível de estresse?

Bem… eu tenho! Mas a constelação sistêmica me ensina a olhar para mim e para minhas sensações, e posso dizer que o corpo é o primeiro lugar onde os avisos de que estou ultrapassando os limites ficam claros.

Olho para minha família, e vejo pessoas que só se permitem cuidar quando estão na doença. É um padrão desgraçado, que diz que devemos trabalhar como camelo, estar disponível a todo mundo, dar de si o tempo todo, e ficar feliz com isso. 

Mas… onde entre o dolce far niente, como dizia vovô Orlando? Lembro-me dos roncos diários dele, sentado no sofá após o almoço, com um livro jogado ao lado, o cigarro apagado e às vezes um disco de ópera tocando ao fundo, como a maravilhosa Cavalleria Rusticana… Intermezzo… ahhh, vovô Orlando…

A mesma família que me ensinou a pegar firme no trabalho, também me ensinou a descansar… a curtir… a ter prazer… 

A criança que reside em mim não parou somente em alguns aspectos difíceis da minha convivência familiar. É preciso “ter olhos de ver e ouvidos de ouvir” para realmente abraçar cada mínimo detalhe do passado, descobrindo as pérolas que ficaram escondidas por entre gritos, brigas e solidão.

Posso me permitir cuidar de mim, mesmo que mamãe não tenha conseguido tão bem isso. O que eu faço com o presente que ela me deixou – eu e meu corpo! – é meu assunto. E resolvo homenageá-la, cuidando o melhor que puder… de mim mesmo.

Alex Possato