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Blog · 9 de agosto de 2026

Adoção e as duas famílias: o lugar dos pais biológicos

Adoção e as duas famílias: o lugar dos pais biológicos

A menina tem nove anos e faz a pergunta no meio do jantar, sem aviso nenhum. Eu tenho outra mãe? A mesa para. A mãe responde que sim, com a voz firme, e depois leva três dias para o susto passar. Ela não teve medo da pergunta. Teve medo do que a resposta pode tirar dela.

Escuto muito essa cena, e escuto de dentro dela também, porque sou pai adotivo. A pergunta chega em toda casa que adotou, mais cedo ou mais tarde. É o filho arrumando, por dentro, as duas famílias que ele tem.

Um filho adotivo pertence a dois sistemas

Aprendi com Bert Hellinger (sempre ele!) uma coisa que soa dura e que organiza tudo: os filhos pertencem ao próprio sistema biológico. Isso é bem prático, e não tem nada a ver com romantizar sangue.

Da origem vem a vida, e vem junto o que estava ali. Os dons, o jeito de andar, a teimosia, a facilidade com número ou com música. E vêm também os padrões de dor que ninguém escolheu carregar. Os pais que criam passam valores, hábitos, fé, língua, modo de tratar as pessoas. Nessa programação mais funda eles não mexem.

Por isso, quando uma pessoa adotada senta para constelar, a gente olha para trás mesmo sem conhecer ninguém de lá. Pai, mãe, avós, bisavós biológicos. Muita gente estranha e diz que não sabe nem o nome. Não precisa do nome. Precisa dar o lugar.

Quando uma das duas é excluída

Existem duas exclusões possíveis aqui, e as duas cobram.

A primeira é a mais comum. Em casa se diz que os pais de origem não quiseram, não prestavam, largaram. A intenção costuma ser boa, proteger a criança de uma dor. O efeito é outro. O filho entende que metade dele não presta, e passa a vida provando que presta ou confirmando que não.

A segunda é mais discreta e aparece anos depois. O filho adulto encontra a mãe biológica, e quem o criou vira coadjuvante, como se aqueles vinte anos tivessem sido empréstimo. Aí quem fica sem lugar são os pais adotivos, e o vazio aparece deste lado.

O sistema pede ordem, e ordem aqui quer dizer cada um no seu lugar, com o peso que é dele.

Ninguém precisa escolher entre a mãe que deu a vida e a mãe que ficou. As duas têm lugar, e o lugar de cada uma é diferente.

A mulher que entregou

Esta é a parte que mais escuto ser julgada, e a que mais me toca. Uma mãe que entrega um filho quase nunca entrega por falta de amor. Ela entrega sem chão: sem dinheiro, sem casa, sem homem ao lado, sem ninguém atrás dela. Às vezes muito nova. Às vezes dentro de uma violência que ela nem consegue nomear.

Quando o filho consegue olhar para essa mulher sem condená-la, alguma coisa se move por dentro. Perdão é palavra que coloca alguém por cima do outro, e não é disso que se trata. O que abre espaço é reconhecer o tamanho do que aconteceu ali.

Uma frase de solução que costuma caber: você me deu a vida, e a vida já foi o bastante. O que veio depois eu tomo com quem ficou.

O que os pais que criam ganham quando não disputam

Do lado de quem cria existe um medo honesto. Se eu falar bem da mãe biológica, eu perco meu filho. Entendo o medo, e vejo acontecer o contrário.

A criança que ouve os pais de origem serem nomeados com respeito relaxa. Ela para de fazer sozinha, escondida, o trabalho de defender gente que ninguém defende ali dentro. E fica muito mais disponível para amar quem está na cozinha com ela todo dia.

Quem cria não substitui ninguém. Quem cria faz outra coisa, e ela não é pequena: dá presença, colo, limite, história e futuro. Isso merece um lugar próprio, com nome próprio, sem precisar tomar emprestado o lugar da outra. Já escrevi sobre esse ponto em a relação com o filho adotivo.

E quando não se sabe nada

Muita gente chega assim. Registro fechado, abrigo, nenhum nome, nenhuma foto, nenhuma história. Dá para trabalhar do mesmo jeito.

Na constelação a gente não precisa da biografia. Precisa de um lugar reservado na imagem interna. Existiram um pai e uma mãe, eles existem em algum lugar do mundo ou já morreram, e o simples reconhecimento de que existem começa a reorganizar. Muita gente descobre nesse ponto que passou a vida com uma sensação de não pertencer a canto nenhum, e que essa sensação afrouxa quando aquelas duas pessoas deixam de ser um buraco e viram gente.

Uma pergunta para levar

Se a adoção passa pela sua casa, de qualquer um dos lados, fica uma pergunta para esta semana. Quem, na sua imagem interna, ainda está sem cadeira?

Eu deixo com você.

Quer olhar isso na sua imagem interna?

Na constelação individual a gente olha o lugar que cada pai e cada mãe ocupa por dentro. Sem escolher entre eles, e sem precisar saber o nome de todos.

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