Abusado ou abusador: em que lado estou?

abuso

O sofrimento a serviço da vida pede que o assumamos,
para que o superemos, e, fortalecidos por ele, voltemos a viver.

Bert Hellinger

Há poucos dias atrás, estive participando de um curso avançado em tantra, onde tive a oportunidade de revisitar um lugar de muita incompreensão na minha história pessoal: abusos, sexualidade e prazer. Por que é tão difícil olhar para os abusos que vivenciei? Vou falar de mim: há um lugar de vergonha. Muita vergonha. Culpa e prazer. O permitido e o proibido. Todos sabemos que, quando nos deixamos levar por ele, o sexo é uma energia quase incontrolável, que nos toma e nos conduz a um lugar muito além dos certos e errados. Nas vezes em que acessei ter sido abusado, não creio que as pessoas envolvidas estavam querendo fazer “o mal”. Mas acabaram fazendo, afinal, na época eu não tinha como reagir. Como impedir. E não havia um consentimento, um entendimento. Ficou só o registro – que eu havia apagado durante anos da minha memória, de algo que foi ruim, mas talvez também tenha sido bom.

E esses ecos do passado me afetaram totalmente – no sentido de limitar minha capacidade de sentir prazer, de me entregar nas relações afetivas e permitir alçar os vôos magníficos que a sexualidade saudável proporciona.

Bem… falei tudo isso porque, novamente, vivemos um momento em que denúncias de abusos contra pessoas que estão num lugar de cuidadores, guias, líderes, treinadores e terapeutas estouram por todos os lados. Sendo um terapeuta, e também reconhecendo o meu lado abusado (e abusador!), senti vontade de falar um pouco sobre este assunto.

O abusado é um abusador em potencial – os padrões se repetem

Dando uma rápida busca pela internet, vi alguns depoimentos de psicólogos envolvidos nos trabalhos de acolhimento às pessoas em situações de abusos, onde eles garantem que aqueles que abusam foram também abusados na infância, principalmente os homens. A psicóloga Mery Oliveira, do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, diz: “apesar de não ser regra, são frequentes os casos em que meninos molestados invertem o papel na adolescência e na fase adulta.”

Aqui entramos na questão das repetições de padrão, que a constelação familiar sistêmica tanto demonstra como verdadeira. Inconscientemente, acabamos adotando os mesmos comportamentos que nos levam à dor, ao sofrimento, como forma de “pertencer” ao sistema de origem. Nos atraímos ao comportamento daquele que foi excluído: seja o abusador, ou o abusado. No fundo, estamos gritando para que a dor seja vista.

Alguns de vocês poderiam dizer: e você? Não se tornou abusador? Eu posso dizer que tive uma educação extremamente moralista, que acabou me restringindo na sexualidade. Embora tivesse desde a adolescência dificuldade de lidar com a sexualidade de uma forma mais tranquila, não tive o impulso (ou talvez a coragem) de me expor nesta área. Adotei um comportamento de repressão, ao invés de extroversão sexual e também por causa disso, fui buscar auxílio de terapia e caminhos espirituais, o que acabou me direcionando para trabalhos de cura. Mas também abusei de outras formas, como comento mais para frente.

Os que foram feridos, buscam se curar… e muitos, tornam-se curadores

Não somente na minha história, mas observando centenas de pessoas que passam pelos meus trabalhos e cursos, vejo que é quase uma regra: pessoas muito feridas, traumatizadas, buscam incessantemente a cura. E é frequente que desejam se tornar terapeutas, psicólogos, líderes espirituais, coaches, etc. Principalmente conforme vão curando suas dores, percebem que podem auxiliar no processo de muitos.

Porém, os padrões não desaparecem por encanto. As marcas dos traumas, inevitavelmente renascerão, conforme vamos trabalhando com traumas de outras pessoas. Pela lei da ressonância, nós, terapeutas, atrairemos pessoas que passam por problemas que têm sentido com a nossa história pessoal. E se têm aprendizados ainda não efetuados, é uma possibilidade que a gente caia diante desta prova. Podemos nos perder. E isso não é somente um privilégio do assunto sexo, mas relacionado a diversas outras áreas: com o corpo, com a saúde mental, financeira, relacionamento afetivo, vícios, etc.

O próprio terapeuta, possivelmente, não enxergará o processo. Pode ser que use os argumentos mais plausíveis, embasados em correntes de pensamento x ou y, possuindo as melhores das boas intenções, para justificar suas atitudes. Mas ele estará disseminando a dor. E essa é a prova de que algo está errado.

Não confie em milagres… confie em si

Todos nós, terapeutas que estudamos aquilo que fazemos, temos ótimos argumentos. Sabemos muita coisa. Temos bastante experiência e muitas pessoas realmente recebem benefícios através das técnicas que propomos. Porém, o trabalho é sempre do cliente mesmo. Não é a constelação familiar que fará algum milagre. Recebi dias desses um comentário de alguém que dizia estar decepcionado com a constelação. Embora não o conheça, entendo o ponto de vista. Acredito que muita expectativa foi colocada sobre o poder da constelação. Como se ela, por si só, faria uma mudança. Às vezes, esta expectativa é jogada sobre o terapeuta. O líder espiritual. O conselheiro. O médium. O guru. O coach.

Infelizmente, a nossa inabilidade emocional e a perda do bom senso abrem portas para todos os tipos de abuso: sexual, financeiro, moral, profissional, espiritual. E como terapeuta de constelação familiar, tenho que dizer que as primeiras relações de abuso que sofremos estão relacionadas aos nossos pais. Somos abusados em casa, de diversas formas, perdemos a confiança naqueles que deveriam nos proteger, alimentar, incentivar, amparar, afagar… e partimos pelo mundo buscando substitutos para estes pais. Às vezes, os abusos em casa são tão velados, que achamos que estamos sendo bem tratados. Achamos que a manipulação que a família nos impõe é sinal de cuidado. É preciso aprender a distinguir o que é amor verdadeiro – que liberta, e o que é apego e manipulação.

De que forma também abusamos?

Percebi que, da mesma forma que fui manipulado na infância – literalmente, para satisfazer o desejo de outros, cresci e aprendi a manipular os outros, para que satisfizessem os meus desejos. Teci relações, sejam de amizade, amorosas ou profissionais, buscando sempre ser aprovado. Ser visto. Validado. Querido. Queria ganhar, e somente para mim. Usufrui de muitas coisas conquistadas nestas relações, mas eu dei muito pouco. Estava fechado para o outro, afinal, eu não queria me expor a novos abusos. E embora não tenha abusado ninguém, sexualmente falando, abusei de outras formas – tenho plena consciência disso. Ao fechar meu coração e limitar o meu amor, minha compreensão, eu estava, sim, abusando. Com isso, acabei atraindo novas situações de humilhação. Abandono. Rejeição. Não conseguia viver em prazer comigo mesmo, e com o meu corpo, porque o prazer depende, literalmente, do fluir da energia sexual em meu sistema. E isso eu não permiti.

Gostaria, por isso, de deixar esta pergunta, para você que realmente busca se conhecer e quer abrir seu coração para viver uma vida de prazer:

– de que forma também eu abuso?

Evite a fácil tendência de, diante das notícias dos dias de hoje, julgar, culpar e condenar aqueles que abusam. Se tantos abusos estão se mostrando, sistemicamente existe muita dor para ser integrada, em todos nós. E principalmente naquele que se sente atingido por estas notícias. Existe abusador e abusado dentro de nós. Está na hora de olharmos para eles.

Alex Possato

 

Cura sexual do masculino

tantra

Neste último final de semana vivi, sob a condução deste cidadão na foto, Ronald Fuchs, mestre tântrico experiente, sensível e totalmente devotado à sacralidade do tantra, mais uma experiência marcante, que jamais se apagará de minha memória.

Num grupo pequeno, em sua maioria formado por casais que já compartilham alguns anos de vida a dois, pude mergulhar nas minhas travas, minhas neuras, abusos reais e imaginários que povoam meu subconsciente, e impedem que a poderosa energia sexual – diga-se, criatividade, espontaneidade, beleza interna (que reflete no externo), entre outros atributos, pudesse se manifestar em plenitude em minha vida.

No caminho do tantra, precisamos de um companheiro. Ou uma companheira. É através do contato com o outro, que iremos sendo provocados a nos abrir. A confiar. A permitir. A desarmar. A fundir. E como temos medo desta entrega ao outro! Nossas dores de separação dos nossos pais, do desarmor vivido entre eles, as histórias de abandonos e amores perdidos do passado nosso e familiar, os abusos que sofremos ou provocamos, os prazeres proibidos, reprimidos ou censurados… tanta coisa que nos faz não acreditar que o outro está disponível e aberto.

Imagine você, vivendo com uma mulher, ou com um homem, anos a fio, e não confiando nele ou nela. Eu digo confiança num sentido total, íntimo, emocional, de alma… Isso foi uma das coisas que me impactou, nesta vivência profunda. Já vivi um casamento onde, apesar de tanta boa intenção entre nós, não havia a confiança e comunhão. Eram muitas dores minhas, não vistas. E dela também. E agora, ao lado da minha querida companheira, percebo ainda resquícios do medo da entrega.

– Ela vai me abandonar, igual mamãe me deixou!

– Ela vai me abusar, despertar meu desejo em meio a culpa e desconhecimento, como ocorreu com aquela empregada!

– Serei obrigado a fazer algo que nem sei o que é, como ocorreu com aqueles meninos e meu irmão!

– Ela vai me humilhar, como vovó me humilhou!

Ecos de um passado que já deveria ter ido embora, mas minha mente, por não ter integrado tudo isso e ficado em paz, insiste em manter as dores vivas, transferindo-as para as mulheres que estão em relação íntima comigo.

O prazer fica além de tudo isso. O êxtase necessita um esforço direcionado para transpormos os fantasmas. Tenho uma mulher totalmente disponível, sinceramente empenhada em estar comigo e me auxiliar neste processo (e eu posso dizer o mesmo, em relação a ela) e é importante que eu diga sim. Nas conversas entre casais, percebi o quanto de amor havia (e há!) entre eles, que foi sendo escondido porque não havia espaço para conversar sobre as próprias dores. Os medos. As dúvidas. Os desejos…

Ronald proporcionou a abertura deste campo de cura. Onde o homem pode se mostrar frágil. E a mulher também. Onde podemos despertar o homem curador do feminino e a mulher curadora do masculino, estabelecendo uma poderosa troca de amor, compaixão e sensibilidade. Somente assim, após a cura, que passa pelas emoções, crenças e limitações no corpo, é que a energia sexual pode aflorar verdadeiramente. Foi o que vivi. Em toda a sua força. Destruindo as divisões do ego. Embriagando o casal que, neste instante, se torna um. Um ser, abençoado pela energia universal que abraça a ambos.

Quisera mais e mais casais pudessem conhecer o poder da sexualidade sagrada como cura e caminho para algo muito maior. Transcendendo as ideias distorcidas que limitam o sexo a um jogo de sedução, prazer e orgasmo, e perdendo o objetivo maior, na minha visão, que é: a união, integração, fusão e espiritualidade.

 

Alex Possato

Você sabe lidar com a raiva?

raiva

Quando criança, tive que engolir muita raiva. Com muitas mudanças, muita agressão, muito descaso, eu era uma bomba relógio. Mas que era severamente punido nos atos de rebeldia. Quando desobedecia, castigo. Quando me comportava, recebia algum agrado, a sutil corrupção que toda a família faz. Um presentinho aqui, um agrado ali. Porém, para piorar, meu irmão recebia agrados melhores. Pelo menos ao meu olhar infantil. E o ódio espumava dentro de mim.
Aprendi a não confrontar diretamente as pessoas, porque eu não conseguia ganhar. Então, eu manipulava aqui e ali, fingia, enganava e buscava benefícios escondidos, para ter as coisas que queria. Fui programado a não manifestar minha raiva. Além de tudo, é pecado, diziam!
Cresci, sem aprender a lutar pelos meus objetivos. Fazia tudo pelas beiradas. Me aproximava das pessoas influentes. Seduzia com minha inteligência e charme. Conseguia coisas, mas a que preço! O preço da vergonha de não me bancar. Escondi tanto minha raiva, que achava que não tinha. Mas sempre fui uma bomba relógio. Que um dia, explodiu. Quanto acabou a grana. Quando acabou o casamento. Quando acabou a empresa. Quando acabou minha carreira. Acabou minha paciência. Graças a Deus!
Tornando-me terapeuta, verifiquei, que as pessoas que massacram a raiva para debaixo do subconsciente, ficam paralisadas. E dependentes.
Estas pessoas fazem isso porque, assim como eu, tem dores profundas, foram submetidas às ordens de forma agressiva, humilhante. Ficam então, sem força para a vida. Sem força para os próprios objetivos. Esperando alguém que faça por elas.
Conforme vamos nos terapiando, não tem jeito: acessamos a raiva. E se não a controlarmos, iremos agredir. A raiva descontrolada é tão prejudicial como a reprimida: ambas não servem para nós, pois estão a serviço da dor. Da dor do passado.
Tive que aprender a validar minha raiva. Meu ódio. Por tudo o que aconteceu. Por tantos maus tratos. Mas de uma forma sadia, através de dinâmicas e auxílio de pessoas preparadas para me acompanhar neste processo. E conforme isso foi acontecendo, pasmem: minha vida começou a fluir. Comecei a ir atrás dos meus objetivos e conquistá-los! Estou num processo ainda de ficar realmente bem com o passado. Coisa que não aconteceu totalmente. Nem sei se acontecerá. Mas já vejo o quanto foi importante toda esta jornada. Inclusive todos os destratos na infância: me fizeram ver o quão forte eu sou!
Olhar para a raiva, conscientemente, é um caminho para o sucesso!

Hoje coloquei no Youtube um vídeo falando sobre a Preguiça e sua relação com a raiva… acessem meu canal Alex Possato Oficial!https://youtu.be/LmO4ILFV3Cs

 

Quando a exposição nas redes sociais perde o sentido?

redes sociais

 

Estou há alguns meses bem contido nos meus textos e reflexões. Tenho postado menos os famosos “textões” que tanto gosto de escrever. Passo por um momento de reavaliação dos meus propósitos e dos meus objetivos: para que escrevo? Para quem escrevo? Onde quero chegar?

E percebi que, durante um tempo, estava andando no piloto automático: fazer textos no blog e Facebook, publicar posts no Instagram, criar vídeos para o Youtube. Existe uma dinâmica muito clara das pessoas que usam as redes sociais como forma de alavancar sua imagem profissional, e esta dinâmica passa pela quantidade de informação e exposição fornecida, geralmente conteúdos atrelados à venda de cursos, workshops e produtos. Até aí, tudo bem. Ninguém está obrigando ninguém a comprar isso ou aquilo. E muito do conteúdo que é oferecido, às vezes tem significância.

Mas no meu caso específico, eu não estou começando agora. Não preciso me tornar conhecido, porque meu trabalho anda muito bem, obrigado. E eu sou um cara que busca sempre ser muito verdadeiro nas coisas que faz. Dias destes publiquei uma postagem no Instagram perguntando exatamente sobre isso: para que bombar na Internet? E vieram dezenas de respostas, a esmagadora maioria falando para mim o quanto que é importante levar o conhecimento e reflexões que proponho a mais e mais pessoas. Fiquei muito feliz com as respostas… mas também analisei algumas que concordavam que o excesso de mídia denota insegurança do comunicador.

Elogios são maravilhosos e críticas também. Me perguntei: existe alguém, dentro de mim, que realmente tem um conteúdo útil, bacana, verdadeiro para ser passado? Sim! E existe alguém que deseja ser visto, aprovado, validado, elogiado? Também sim! E tem alguém que foge das críticas, comparações e julgamentos como o diabo foge da cruz? Claro!

Somos seres múltiplos, e ao mesmo tempo que habita um ser missionário em mim, coabita uma criança abandonada buscando carinho. Existe um comunicador intuitivo e espontâneo, mas também vive um marqueteiro conhecedor dos meandros emocionais que podem atingir mais e mais público.

Eu sou visto! E daí?

As redes sociais dão esta falsa ideia de que estamos sendo vistos. Sim, estamos. Em alguns segundos. Para depois, não mais. Pense bem: das centenas, milhares de frases, textos e vídeos que você vê, qual o nome das pessoas que produzem estes materiais realmente você lembra? E se estas pessoas deixassem de produzir material por alguns meses, será que a ausência seria notada? Não surgiriam outros comunicadores para preencher este espaço? Fazendo coisas tão boas ou bem melhores daquelas até então produzidas?

A questão então volta a ser: para que produzo? Para que faço o meu trabalho? Em essência, o que estou desejando? Acho que estas perguntas podem auxiliar todas as pessoas, incluindo aquelas que não se comunicam na Internet.

Busquei o auxílio da Carol Guedes para realinhar os objetivos do meu trabalho. Porque embora eu entenda conscientemente as indagações que fiz, não estava conseguindo encontrar respostas que aliviassem o meu sentimento de vazio e frustração com as redes sociais. Principalmente após ver tantas ofensas e perversidades sendo disparadas gratuitamente, poluindo a tela do meu celular e computador, nos últimos meses de campanha eleitoral.

Vale a pena oferecer flores num campo de batalha?

Quando o “eu” fica em segundo plano, a mensagem ganha importância

Talvez você tenha notado que estou conduzindo a narrativa deste texto em primeira pessoa. Eu, eu, eu… Aí é que está o problema. Quando trabalho para “me” divulgar, alavancar o “meu” trabalho, ficar pessoalmente conhecido, “me” destacar, aumentar “meus” números, estou a serviço de um ser carente, que ilusoriamente acredita “ser alguém” quando ganha visibilidade. Eu posso dizer que este ser dentro de mim é um ser adoentado. Frágil. Que é alimentado com migalhas de likes e emojis. Lembra-me o Tamagotchi, bichinho virtual que era febre há 20 anos atrás. Se não alimentássemos e cuidássemos dele, ele morria…

Pois bem. Para que possamos realmente expressar qualquer coisa através da nossa essência, é necessário, ao menos, deixar nosso ser em busca de reconhecimento de lado. É o que penso. O Tamagotchi interior precisa ser desligado. O foco precisa ser direcionado para “você” e não “eu”! O conteúdo das coisas que faço precisa ser carinhosamente pensado para agregar conteúdo na “sua” vida. Porque, se não agrega, para que fazer?

Em silêncio, eu ouço você… eu vejo você… e me ouço… e me vejo…

Uma outra característica das redes sociais é o excesso. Poluição de informações, entretenimento, desinformações e estímulos. Nos mantemos presos a ela, quase 24 horas do dia. Tudo bem que as pessoas fiquem presas às redes sociais. Assim é o ritmo da sociedade frenética. Mas eu não preciso disso. Ao contrário, eu preciso de silêncio. Eu preciso de paz, para saber e ouvir o que você precisa. Onde está sua necessidade e se posso auxiliar. Se é que posso auxiliar. Falar coisas que possam abrir espaços de consciência. Abrandar os corações. Trazer possibilidades de cura e reconciliação. Provocações que façam você se mover.

Em silêncio, o conteúdo que produzir será muito mais sintonizado com as suas necessidades… e também me preencherá – mas de outra forma. Por você, a comunicação na rede social ganha sentido. Se for somente por mim, não tem sentido.

Assim podemos ir caminhando. Você no seu ritmo, eu no meu ritmo. Fazendo coisas porque o coração deseja fazer, e não porque me sinto obrigado a preencher espaços. E como a mente humana é um balaio de gato, sempre que eu sair deste trilho, conto com você para, através dos seus comentários, me alertar e orientar! Assim, acredito que faremos um bom trabalho! Eu e você! Em prol de algo muito maior que nós dois!

 

Alex Possato

 

 

Mudanças sistêmicas ocorrendo no Brasil

crescer doi2

Conversando com uma amiga, que estudou constelação familiar sistêmica, estávamos falando sobre o atual momento político do país. Escrevi assim:

“Também compartilho com este sentimento de indignação quando olho somente para o meu posicionamento político e social. Mas olhando pelo lado sistêmico, acho que este é um movimento extremamente importante. Finalmente podemos olhar para o lado do brasileiro que fingíamos não ter… Somos também uma nação violenta, discriminatória, pouco informada, com pouca capacidade de discussão… apegados a salvadores de esquerda ou direita… Onde cada um age somente pelos próprios interesses, e para isso, destrói tudo o que foi construído no passado. Enfim, é o processo da purificação, crescimento. E crescer dói. Não vejo este momento como ruim. Ao contrário, vejo como muito positivo. Acreditar que qualquer presidente ou político, em 4, 8, 12 ou 16 anos de governo provocará mudanças sistêmicas no país é muita inocência. As mudanças já estão ocorrendo, independente de quem está no poder. É uma mudança gradual, constante… E é importante olhar a longo prazo… Para poder vê-la…”

Alex Possato

 

Meu amado comunista

orlando possato

Vovô me carregou no colo. Ensinou-me, pelo exemplo, a trabalhar muito. A ser imensamente criativo e presente. Um senso de humor afiado; ótimo contador de história. Pouco soube da sua atuação partidária, afinal, nos anos de chumbo, as reuniões eram feitas às escuras, em locais desconhecidos. Lembro-me do vovô saindo à noite, como se fosse fazer algo muito importante, sigiloso e perigoso… e com alegria e alívio, ouvia seus passos se aproximando da porta de entrada de casa. Eu, nesta hora, já deitado por obrigação do horário, agradecia por poder sentir a segurança daquele velho idealista de volta ao lar.

Talvez o mais importante que vovô me ensinou foi servir. De vez em quando, ele pegava sua maletinha de técnico em eletrônica, avançava peito aberto e confiante pelo meio das favelas com seus esgotos a céu aberto de Suzano, periferia de São Paulo, e consertava rádios e TVs por preços irrisórios. Vovó muitas vezes reclamava: só isso, Orlando? E ele dava de ombros, dizendo: ele não podia pagar mais…

Vovô me mostrou um lado do Brasil que muitos de nós não conhecemos. O lado da miséria. O lado daqueles que não podem trocar de tênis todo ano. Não podem, muitas vezes, pagar a condução para se deslocar. Não têm panelas e nem entendimento pra ficarem batendo contra este ou aquele – embora motivos não faltasse.  Eu, calças curtas e sandália no pé, pulando córregos fétidos, ia com ele às suas investidas solitárias, em busca de levar uma gota de serviço àqueles que tão pouco tinham. Menos até do que nós, que não tínhamos grande coisa. Do seu jeito, lavava os pés dos pobres e humildes. Justo ele, sem religião e crítico às igrejas!

Não, não me tornei comunista. Até gosto bastante de ganhar meu dinheiro. E acredito que esmola demais é desmoralizante e enfraquece. Tive inclusive que abandonar diversas crenças da infância, para conseguir começar a ganhar dim-dim e sair da faixa do endividado eterno. Porém, jamais esquecerei o exemplo do velho comunista. E honro do fundo do meu coração, cada alma parecida com meu vovô, que anda pra cima e pra baixo neste país tão desigual, buscando trazer um pouco mais de dignidade à imensa massa de excluídos que habitam nossa pátria. E honro igualmente aqueles que trabalham duro, honestamente, crescem e enriquecem, e podem através do próprio crescimento, auxiliar no crescimento de outros. No meu coração, cabe comunista e cabe capitalista. Só não cabe o desrespeito e a falta de compaixão. Quisera um dia entendamos que ideologias, sem amor e compromisso real ao próximo, de nada servem. E amor, compromisso e ação, não depende de ideologias: basta pegar a maletinha, calçar os sapatos, arregaçar as mangas e… fazer a sua parte!

Saudades, vovô Orlando Possato!

 

Os jogos de poder, num relacionamento tóxico

jogos

Vivi uma relação onde havia um nítido jogo de poder. Éramos bons amigos. Compartilhávamos muitas coisas em comum. Mas um pacto maldito imperava na nossa dinâmica: quando um sobe, o outro desce. E se não desce, eu puxo para baixo. Para daí pisar sobre a cabeça e poder subir. Até que o outro, lá embaixo, se mexe tanto até eu despencar. E ser pisado. Tudo isso de uma forma muito dissimulada. Aparentemente, estamos tentando ajudar ao parceiro e vice-e-versa.

Por exemplo: nossa companheira relata um problema que teve com o chefe, no serviço. E nós, habilmente, mostramos a ela o quanto ela é tola, o quanto não sabe lidar com situações de comando, o quanto está se deixando contaminar por questões infantis. Se o jogo vai até o fim, auxiliamos no processo dela se demitir (ou ser demitida), e então, cantamos de galo: tá vendo! Eu sabia! Te avisei! Agora você faz do jeito como eu estou dizendo, que tudo irá dar certo!

Mais um outro exemplo: a companheira critica nossa dificuldade de se estabelecer financeiramente. Embora não diretamente, nos culpa pelo fracasso econômico da família. “No tempo do papai era diferente. Mamãe nunca passou dificuldade”, joga descaradamente a nossa querida companheira. “Acho que você deveria procurar outro emprego!”, finaliza, com um golpe no fígado.

São muitas as situações de confronto e disputa de poder dentro de uma relação tóxica. Assim funcionam as dinâmicas, e não há o que fazer, a não ser aprender com elas, para poder sair disso.

Aprendemos a agir assim seguindo padrões de comportamento das relações que houveram na nossa família. Em primeiro lugar, entre nossos pais, que são a influência mais importante. “Cada pessoa decide em sua infância como ela vai viver e como ela vai morrer, e esse plano, que ela carrega em sua cabeça onde quer que vá, nós o chamamos de roteiro”, explica Eric Bern, o grande criador da Análise Transacional. Mas também sabemos, pela constelação familiar sistêmica, que os padrões são transgeracionais, e portanto, herdamos hábitos de comportamento dos avós, ou das relações paralelas que houveram no passado familiar.  “Além de sermos filhos, parceiros e talvez pais, partilhamos um destino comum com relacionamentos mais distantes – o que quer que aconteça a um membro de nosso grupo familiar, para bem ou para mal, nos afeta e afeta também os outros. Junto com a nossa família, formamos uma associação cujo destino é comum”, acrescenta Bert Hellinger.

Então, pera lá! Será que estou, como diz Bern, ligado a um script até o final da minha vida? Ou ainda, segundo Hellinger, vou ter que viver relações conflituosas para sempre, em honra a algo que aconteceu com um antepassado?

Identificando o jogo

Conheci o trabalho de Eric Bern antes mesmo de mergulhar na constelação sistêmica. E conheci porque estava extremamente cansado e insatisfeito com a vida que vivia. Finalmente, após anos de sofrimento, comecei a perceber: deve ter alguma coisa errada comigo! Sem saber, comecei a me abrir para a cura! “Os roteiros só são possíveis porque as pessoas não sabem o que estão fazendo para si mesmas e para os outros. De fato, saber o que se está fazendo é o oposto de seguir um script”, confirma Bern.

É necessário perceber que estou num jogo, e eu sou parte ativa desta partida. Eu mantenho o game ocorrendo! Existe uma história real na análise transacional, que ilustra muito bem como acabamos escolhendo um marido ou esposa para preencher uma lacuna emocional dentro de nós, alimentando um padrão de comportamento que aprendemos com nossos pais e nossa família.

“ A senhora Blanco reclamou que seu marido limitou severamente suas atividades sociais, então ela nunca aprendeu a dançar. Devido às alterações em sua atitude como resultado do tratamento psiquiátrico, seu marido começou a se sentir menos seguro de si mesmo e a ser mais indulgente. Então a senhora Blanco conseguiu expandir o leque de suas atividades. Ela se matriculou em aulas de dança e descobriu, desanimada, que sentia um grande medo das pistas de dança e teve que abandonar esse projeto. Esta infeliz aventura, junto com outras similares, trouxe à luz aspectos importantes da estrutura de seu casamento. Dentre seus inúmeros pretendentes, ela escolheu como marido um homem dominante. Ela estava então em posição de reclamar que poderia fazer tudo ‘se não fosse por ele’. Muitas de suas amigas também tinham maridos dominantes…”.

Pois é! Descobri que eu escolhi uma parceira que estimulava uma competitividade dentro da relação, para poder manter vivo o script de competição que foi a vida afetiva dos meus pais e dos meus avós. E praticamente nenhum diálogo. Raro entendimento. Decisões todas tomadas nos jogos de força, chantagem, agressividade e vitimismo.

Jogando o mesmo jogo que meus pais, avós e bisavós, inconscientemente estou dizendo: eu sou como vocês! Eu faço parte! E mesmo sofrendo, é a forma que aprendi para honrar minha linhagem!

Que porre, heim? Porém, como disse acima, eu estava cansado do jogo. Cansado de mim mesmo. Desta atuação tosca, num drama familiar digno de novela de quarta categoria.

Sair do jogo

Aí é que é a coisa. Quando vivemos uma relação tóxica, estamos “apaixonados” pelo conflito. Aquela disputa toda dá adrenalina. Nos faz sentir vivos. E também pertencentes. Quem seríamos nós, sem aquela briguinha cotidiana? Sem uma boa discussão após o jantar? E sem o sexo gostoso que tantas vezes vem após a gritaria? Pois é… falei que parece uma novela…

E querer deixar este jogo dá uma sensação muito grande de vazio. De fracasso. Algo muito valioso está prestes a morrer. Pode até ser que a relação afetiva não resista a isso. Sim, pode ser… E nós temos as cartas nas mãos, e precisamos fazer nossas apostas. Vamos pagar para ver?

O objetivo de qualquer terapia não é consertar uma relação. Nem desfazer. É trazer um pouco mais de luz e paz para a nossa história. Ou seja, para nós mesmos. Pegando o exemplo da senhora Blanco, acima, podemos afirmar com absoluta certeza de que ela estava vivendo um roteiro conhecido, escrito por seus pais e/ou avós. A mulher “reclamona”, que culpa o marido por não ter sido feliz. No meu caso, eu estava seguindo um roteiro honrando a imagem que gravei na infância sobre os homens da minha família: homens que não conseguiram o sucesso e eram culpados de diversas formas pelas mulheres da família por diversas coisas: traição, desagregação familiar, abandono, vícios, dificuldade financeira, etc.

Quando entendemos todo o contexto do enredo, podemos ver a nossa história familiar somente como um grande drama. Nada mais que isso. E com um pouco de sensibilidade e criatividade, podemos reescrever o roteiro – transformar o drama em comédia, por exemplo. E a única forma de reescrever o roteiro é começando com o nosso personagem.

Qual é a sua nova forma de atuar?

Muitos caminhos de autoconhecimento perguntam: quem é você? É por aí que começamos. O outro não importa. Seu companheiro ou companheira não importam. Importa você. O que te faz feliz? Como você quer viver? Naquilo que depende de você, o que você pode mudar?

É uma longa estrada ingressar neste caminho interno de autodescobertas. Desde esta época em que me percebi cansado de tanto sofrimento e repetição de padrões dolorosos, muita coisa mudou. Minha relação afetiva mudou. Meu trabalho. Minha forma de ser, de falar, de me vestir, de me comportar. Minhas conquistas. A forma de encarar minha família e todas as pessoas que passaram na minha vida. A visão que tinha da minha infância e dos meus pais. Tudo, tudo, tudo mudou. E continua mudando. Já se vão mais de 15 anos. Aquele sofrimento se foi. Mas isso não é garantia de nada.

Começo a ver que a história da minha vida é viva. E que em alguns momentos, não tenho a menor condição de interferir nos scripts, mesmo entendendo mais ou menos o que está ocorrendo. Já não vivo relações tóxicas, nem com amigos, nem no amor, nem no trabalho. Mesmo assim, não é tudo que me agrada. E tudo bem! Não estou nesta vida para viver um conto de fadas com final feliz. Mas também sei que alguns sofrimentos só perduram porque quero evitar olhar para padrões inconscientes que me fazem ficar dando murros em ponta de faca. Muitas vezes percebo que continuo jogando algum jogo. E tão logo vejo isso, assumo o compromisso de olhar. E abrir as cartas na mesa.

E você? Como está jogando os jogos dentro do relacionamento?

Só mais um detalhe: quando cessam os jogos na relação afetiva, podemos verdadeiramente viver a intimidade. Duas pessoas desarmadas, e entregues uma à outra. Sem manipulações. Sem vítima, salvador ou perseguidor. Somente dois iguais. E a intimidade é a única e verdadeira manifestação do Amor, na relação a dois.

Alex Possato

 

 

 

 

 

O verdadeiro Amor na relação afetiva

amor verdadeiro

 

No começo é um tesão! O outro é maravilhoso. Um ser perfeito que Deus colocou no seu caminho. A saudade parece corroer as entranhas; é quase impossível passar mais de 24 horas sem vê-lo. E o encontro? Ahhhh… o encontro é uma explosão de prazer e gozo, saudade e alegria, renovação e encantamento.

Mas os meses passam. E assim como o café vai sendo esquecido sobre a mesa, sem ser tomado, porque “preciso correr para o trabalho”, aquilo que era quente e amistoso, passa a ser frio e sem graça como o leite que esfriou, criou nata e uma crosta de gordura na caneca,  difícil de ser removida. Por que é tão complicado manter um nível de satisfação elevado numa relação mais duradoura? Porque aquele “néctar dos deuses” se transforma num duro e sem graça pão do dia seguinte? Como reacender o interesse por alguém que amamos, mas não sentimos mais o mesmo tesão do começo da relação?

Dura missão falar sobre isso! Mas é um tema que tem estado recorrente nos papos com amigos. Nas conversas com minha parceira. Nos atendimentos terapêuticos que realizo. E falando seriamente, não sei qual a linha de raciocínio vou seguir. Vou deixar a intuição me guiar, porque é um assunto que, embora eu tenha várias teorias sobre… estou aprendendo na prática, com a minha experiência, como transitar do estado de encantamento de uma relação no começo para o aprofundamento de uma relação com compromisso. E como ultrapassar os eventuais perrengues pelos quais passamos, ao longo dos anos, dormindo com a mesma pessoa ao lado.

Tão logo o compromisso se instala, os padrões antigos se repetem

Passada a fase do “amor I love you”, e principalmente, quando nos comprometemos, um com o outro, a construir uma relação duradoura, vamos ver padrões antigos se manifestando na nossa forma de agir com o outro. Sem perceber, é comum entrarmos num papel de qualquer coisa, menos verdadeiros companheiros. Por exemplo:

– viramos papai da companheira, e começamos a achar que temos que protege-la, orientá-la, dar bronca e pagar sorvetes e a entrada no parque de diversões;

– viramos mamãe do companheiro, e nos mostramos cuidadora, censora, vigiamos o boletim escolar e as mensagens de whatsapp, criticamos a roupa que ele veste e os modos como ele se porta com os outros, damos remedinho e tratamos quando ele ou ela estão dodói;

– em outros momentos, somos o conselheiro dele ou dela, e começamos a orientá-lo como se portar no trabalho, na família, nas amizades. Motivamos ele(a) para a vida, damos livros geniais, indicamos filmes e cursos, sempre com o intuito de melhorá-la(o). Pois do jeito que o traste está, não vai dar certo;

– em alguns casos, somos o liberal: tudo tá bom, fingimos não ver nada, não cobrar nada, permitir que o outro seja como é, mas no fundo, temos muito medo do compromisso, e estamos inconscientemente torcendo que ele vá embora. Afinal, já sabemos que “iremos ser abandonados”. E também, tanto faz: ele não era tudo isso e eu arrumo outro!

Eu poderia ficar falando de padrões de comportamento em casais que massacram, oprimem, amarram, seduzem, etc., até amanhã. Ou depois de amanhã. Mas o padrão em si não é o importante neste momento. Queria que você analisasse a si mesmo, e pensasse nestas duas perguntas:

Por medo de perde-lo(a), o que eu faço? Prendo ou abandono? Seduzo ou chantageio? Fico em cima ou dou espaço? Viro professor ou cuidador? Adoeço ou mostro-me mais poderoso que o outro?

Por medo de perder minha liberdade, o que eu faço? Busco ocupações externas? Dou escapadas? Dou um “perdido”? Mostro-me o “fodão” e não permito ver minha rotina invadida? Trabalho demais ou me ocupo com a família e outras pessoas?

 

Olhando para minha forma de proceder, vejo que o jogo se mostra dos dois jeitos: tanto tenho medo de ser abandonado, como também tenho medo de perder minha liberdade. E sinto a mesma coisa vindo da parceira. Filosofando um pouquinho, parece que vivemos um modelo de tensão natural, que põem a prova a energia mais fundamental atuando no masculino e feminino: a liberdade e a união. O ficar e o partir. O prender e o soltar.

Homens e mulheres se digladiam porque não sabem lidar com estas duas forças poderosas e aparentemente antagônicas:  a liberdade e a união.

Saindo dos padrões emocionais dolorosos e indo além

Seremos provocados muitas vezes em situações onde sentimos que iremos ser abandonados ou aprisionados. Por exemplo:

  • Excesso de trabalho
  • Gravidez ou dedicação aos filhos
  • Doenças pessoais (físicas ou emocionais) ou da família
  • Viagens longas
  • Dedicação à família de origem
  • Foco nos estudos ou cursos
  • Uso do tempo com amigos e hobbies
  • Cuidados com obras, construção, patrimônio, dívidas

Inevitavelmente, nestes momentos as emoções inconscientes virão à tona. Se por algum motivo, tenho marcas doloridas de abandono dentro de mim, ao menor sinal que a companheira está se dedicando a outra coisa que não sou eu, somente eu, totalmente eu, irei espanar. No momento em que ela se dedica demais no trabalho, ou aos filhos, ou na casa da família, ou ainda em viagens, estudo, etc., vou surtar. Sapatear sobre a mesa de jantar. Cair na cama com febre de quarenta graus. Ter uma ataque de fúria e quebrar todos os discos do É o Tcham dela.

Agora… se eu estou do outro lado, e sou a pessoa que está em busca de sentir-se livre, indo para a vida, saindo para fazer as próprias coisas, cuidando dos próprios assuntos, e vejo o companheiro fazendo de tudo para prender-me, eu também começarei a espanar. A dar distância. A fechar as pernas e evitar o sexo. A intimidade. A exagerar mais e mais no estar fora de casa, não importa os motivos. A humilhá-lo e fazer coisas que nos afastará, um do outro. E ainda irei justificar: é para o seu bem! Para você crescer, meu amorrrr!

Da mesma forma, esta pessoa que necessita a liberdade extrema, também tem dores inconscientes de ter estado aprisionada por alguma relação tóxica. Mesmo que ela não tenha lembranças, afinal, os traumas podem ser transgeracionais, quer dizer, vindos do pai, mãe, avós e antepassados. São memórias antigas que despertam padrões de dor. E carregamos sem saber.

Esta fase de lidar com dores inconscientes é inevitável. Seremos desafiados em uma ou várias relações afetivas. Temos que passar por isso, mesmo sendo tão desagradável. Não dá para avançarmos no autoconhecimento que uma relação propicia, sem desprogramarmos os padrões reativos que carregamos dentro de nós. Sem olhar para o ódio que temos do feminino e masculino. Das prisões e abandonos que nos habitam. E olhar para as consequências que estas dores causam na nossa autoestima e capacidade de expressar nossa verdadeira, pura e espontânea beleza.

Chegará um momento em que teremos certeza absoluta de que jamais seremos abandonados, e também jamais seremos aprisionados. Porque a sensação de ser abandonado ou aprisionado é uma neurose. Não é realidade. As pessoas vêm e vão. Nascem e morrem. As relações começam e terminam. Assim é a vida. Da mesma forma, vivemos sempre com pessoas. E a sensação de estar preso ou livre é porque permitimos viver jogos nas relações. E os jogos podem mudar as regras. Podemos fazer regras muito agradáveis. Baseadas na alegria e no prazer. E não na manipulação e sofrimento.

O verdadeiro Amor na relação afetiva

Olho para as relações afetivas como material de escola. Sempre que minha companheira me desperta alguma sensação de abandono ou aprisionamento, me pergunto: qual dor antiga, dentro de mim, está sendo provocada? O que devo aprender com esta dor?

Por exemplo, às vezes, a minha amada aquariana está livre e solta por aí, cuidando dos seus próprios assuntos. E eu, um canceriano tosco e caseiro, fico achando que o lar e o coração estão vazios. Logo, vem o abandonado interior gritar. E enquanto ele grita, evito a primeira tentação de taxar: ela é a culpada! Olho para minha dor. Relembro quantas e quantas vezes me senti abandonado na infância. Literalmente. Abandonado por pai, mãe, irmãos, avós. Sozinho e entregue às minhas próprias dores, que eu adorava ruminar. E vou além: sim, existe um abandonado em mim! Isso não vai mudar! Você, criança carente interior, faz parte! E eu te vejo…

Desta forma, entro em contato com o fantasma do abandono, que não tem realidade no aqui e agora. Aprendo a acolher partes de mim, que eu mesmo abandonava. E tudo isso, graças à sensação de que minha parceira não está cuidando de mim. Aí, quando estamos novamente juntos, olho-a com verdadeiro ar de gratidão. Sincera. Profunda.

Em outros momentos, me sinto tolhido na minha expressão. Acho que estou sendo aprisionado por ela, e não posso fazer o que desejo. Mesmo quando faço, é como se houvesse um sentimento de culpa permeando o ato. Quantas vezes não estou totalmente presente nas coisas que faço, quando estou longe de casa, porque parece que deveria estar com ela. Vivo o outro lado: aquele que está abandonando. E deixo de viver plenamente o momento de liberdade, fora da relação. Lógico: se pergunto a ela, em geral está tudo bem estar longe. E às vezes também não, mas aí, é o problema dela, e não o meu.

Investigando a raiz disso tudo, é a mesma coisa. É uma grande neurose. Não tem realidade. Temos uma relação honesta, onde às vezes estamos juntos, às vezes estamos separados. E cada um está buscando suas próprias coisas. As sensações emocionais pesadas não têm a menor verdade. Ao perceber a culpa, o medo, a angústia que vem quando estou longe, trato da mesma forma: vejo vocês. Vocês fazem parte. Eu cuido de vocês. Ela, minha parceira, não tem nada a ver com isso.

E assim, quando estamos juntos, novamente, posso olhá-la amorosamente. Entendendo o quanto é profundo ter alguém para me despertar estes trabalhos interiores e que é o instrumento do meu desenvolvimento espiritual.

Quando percebemos que realmente o outro é um instrumento divino, colocado no nosso caminho para mostrar a nossa capacidade de amar, além das dores, sentimos o verdadeiro Amor se mostrar. Não o amor da paixão, que é químico: mas o Amor do coração, que é uma conexão muito mais profunda, duradoura, abrangente. Ao acessar este Amor, não há mais personalização. Não amamos especificamente nosso parceiro, mas Amamos. Amamos o todo. Amamos a nós, nossas dores e nossos dons. Amamos o companheiro atual e todos os anteriores. Pois somos um só. Vivenciar este Amor tem o poder de dissolver a sensação de separação que o Ego criou. Que lindo, não?

Neste Amor, a liberdade vive em união. O antagonismo desaparece. E o medo se dissolve.

Alex Possato

II Congresso Online de Relacionamento Amoroso – de 17 a 23 de setembro de 2018

cora

E aí gente? O que acha de participar de um congresso online sobre relacionamento amoroso, que você poderá acompanhar do seu próprio celular? 1 semana com grandes especialistas falando sobre este tema que tanto nos toca? E além disso… De graça!!!
Eu estarei no dia 19 de setembro, às 16 horas, conversando com você! O tema será “A arte da solução no relacionamento afetivo!” Vamonessa?
Bora se inscrever! Tem muita coisa boa! Clique no link abaixo!

http://corasocial.org/congresso/alexpossato/

 

 

 

Falando de dinheiro em casal

falando de dinheiro em casal

 

Certa vez, estava lendo o ótimo livro Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, de Gustavo Cerbasi, e ficou muito claro para mim a necessidade de criar uma comunicação saudável entre ambos os parceiros, pois existe uma coisa muito óbvia: é preciso falar do dinheiro, planejar, ver o que é utilizado para os sonhos de cada um e para o sonho do casal, como administrar, como gastar, onde investir… Dá pra fazer isso sem diálogo, sem transparência? Não!

E veja que incoerência! Justamente eu, um cara que se acha tão esclarecido e “terapeutizado”, não falava sobre dinheiro com minha esposa. Fazia meus controles, meus investimentos, mas ela não tinha a menor noção de quanto eu ganhava, onde eu aplicava, enfim, a transparência mínima necessária para começar a conversa sobre finanças. E por que será que é tão difícil falarmos de dinheiro abertamente para a pessoa que está ao lado? Este é um aspecto que gostaria de elaborar um pouco.

Eu não confio nele(a)

Carregamos em nós memórias de padrões dos nossos pais, avós, bisavós. E na minha prática de constelação familiar, vejo o quanto que estas memórias estão impregnadas de enganação, perdas, descasos, opressão, mau uso do dinheiro, e assim por diante. Por exemplo: Quantos pais e mães deixaram de cumprir suas funções de provedor, no passado? Quantos filhos bastardos não tiveram direito a nada? Nem as respectivas mães? Quantas brigas, por causa de dinheiro, demoliram a convivência do casal? Isso e muitos outros fatores, sem que saibamos conscientemente, estão afetando a nossa forma de se comportar em relação às finanças.

Investigue um pouco:

  • Quem era o provedor, na sua família?
  • Como eram discutidas (ou não) a forma de se gastar, de se poupar, de se organizar?
  • Quem ganhava menos (ou não ganhava) tinha direito a colocar seus sonhos, suas vontades?
  • Havia carência? Ou esbanjamento?
  • O dinheiro era utilizado para comprar o carinho, a fidelidade?
  • Houve conflitos relacionado a partilhas, heranças, benefícios?
  • Alguém quebrou ou passou por sérias crises financeiras?
  • Mesmo que irreal, existia (ou existe) o medo da escassez, da falta, de “passar fome” e/ou de “morar debaixo da ponte”?
  • Como foram suas relações afetivas: quem bancava as contas? Como foram as separações das obrigações?
  • Você enganou ou sentiu-se enganado nas relações – no aspecto do dinheiro?

Estas perguntas podem ajudar você a entender alguns aspectos internos da sua relação com o dinheiro, e consequentemente, da sua relação com seu parceiro(a) no quesito finanças. É importante não ser infantil: toda relação afetiva envolve outras coisas, além do amor. Principalmente, nossa psique tão machucada por dores, abandonos, descasos e enganações do passado, busca no outro segurança material e emocional, em primeiro lugar. É a base da pirâmide: sem esta segurança, o sucesso dos planos de casal é inviável.

 

Aprender a revelar-se

Ter dificuldades com o dinheiro, medos e padrões financeiros ineficazes não é demérito para ninguém. Aprendemos com a nossa família, com os padrões herdados e com a nossa experiência de vida. E se você já saiu da imagem do príncipe ou princesa em busca de uma relação de conto de fadas (e olha que muitos ainda estão procurando isso!), deve entender que uma relação afetiva inclui revelar o seu lado Shrek e Fiona, que todos temos, o universo todo sabe disso, o cara ao seu lado também, e continuamos a fingir não ter.

Num sentido sistêmico, nos sentimos atraídos por um parceiro afetivo para que o Amor possa se manifestar nesta relação, e frutificar em benefícios ao mundo. O Amor sempre gera frutos! Podem ser filhos, projetos, prosperidade, serviços… Mas é lógico que, por termos dentro de nós traumas que trazem desconfiança, teremos que aprender a desarmar nossas defesas, a confiar de forma inteligente e metódica, a ir gradualmente despindo a fantasia de príncipe para mostrar nossas verdadeiras faces ao outro.

Vivemos um tempo que pede, com urgência, esta revelação! A verdade imperando dentro do lar, dentro das relações, dentro da família… Pelo menos, se você está cansado de dar murros em ponta de faca, quer dizer, entrar e sair de relações onde se sente ferido, ou estar fechado ao outro (mesmo estando numa relação), deve pagar o preço do Amor: entender que é você que carrega medos, traumas, bloqueios, e por não confiar… não se abre… e acaba encontrando alguém que irá corresponder a este seu padrão.

Imagine como seria dizer:

  • Eu me sinto mal de não ganhar tanto quanto você
  • A sua forma de arcar com as despesas me faz sentir inferiorizado
  • Eu uso o dinheiro para ter poder sobre você
  • Gostaria de poder usar parte do dinheiro para sonhos meus, pessoais
  • Estou pagando as contas da minha família anterior
  • Me incomoda o fato de você gastar mais com sua família do que conosco
  • Vejo, na herança que vamos receber, uma possibilidade de salvar nossa situação financeira
  • Tenho medo de ir atrás do dinheiro e não confio no meu poder
  • Estou totalmente descontrolado financeiramente – você pode me ajudar?
  • Estou de saco cheio do meu trabalho, mas não saio porque ele é nossa segurança
  • Morro de medo da miséria! Mesmo sem sentido…

Pergunte-se: qual a revelação eu nunca fiz para um parceiro afetivo? Mesmo que você não fale, explicitamente, como seria imaginar dizendo isso? Dizemos a nós mesmos que um dos valores que mais prezamos é a verdade. E ficamos muito putos quando nos sentimos traídos. Mas num sentido profundo, eu digo: as nossas “verdades” não ditas na relação afetiva é uma traição, e a não exposição delas, são formas camufladas de mentir.

Convoque uma DR (discussão de relação) financeira

Se existir clima, sem forçar, pense seriamente em convocar DRs financeiras periodicamente. Existem inúmeras situações que precisam ser abertas, esclarecidas. Casais que convivem com desequilíbrios profundos, que vão minando qualquer possibilidade de confiança e manifestação de amor, poderiam ver a situação se resolver simplesmente conversando. Por exemplo: quantas pessoas se sentem exploradas pelo outro? Quantos parceiros se sentem humilhados por não poder colaborar da forma como gostariam na vida do casal? Quanto desperdício de dinheiro em coisas supérfluas, vícios, desvios?

Tudo isso pode (e deve!) ser olhado de frente. Somos humanos, e um parceiro afetivo verdadeiramente envolvido para o crescimento da relação, saberá lidar com todos os desvios, em prol do desenvolvimento conjunto. O amor pode se manifestar na verdade. Ou melhor: o amor pode se manifestar na verdade. Por isso, encare a sua verdade, e mãos à obra! Abaixo, vou deixar algumas regrinhas básicas, que podem orientar a sua DR financeira. Elas são extremamente importantes:

– fale sempre de você. “Eu me sinto fracassado, quando vejo você trabalhando, e eu desempregado!” Evite, terminantemente, apontar o dedo e dizer coisas assim: “Você me humilha com o seu jeito provedor!”;

– conte dos padrões financeiros que acompanham a sua vida, desde a infância, passando pela adolescência, primeiros trabalhos, como lidou com o dinheiro nas relações afetivas;

– fale dos seus sonhos pessoais – o que faria somente para si, com o dinheiro?;

– imagine também os sonhos de casal – o que seria, para você, um bom uso do dinheiro para planos conjuntos?

– revele o quanto você ganha, onde você gasta, como economiza (ou não);

– fale de suas dificuldades e como está disposto a superá-las (se é que está… e se não está, seja sincero);

– você poderá falar do que incomoda no outro, mas sempre dizendo: “isso que você faz me deixa… (triste, raivoso, frustrado, ausente, etc.)”

– e agora… ouça tudo do outro, sem interferir…

Lembrando: o outro precisa estar realmente disposto a conversar. Não force. Se você percebe que não rola, aguarde o tempo que for necessário, para que a confiança possa surgir. Ou talvez, a urgência do papo se manifeste. E se não for possível realizar isso somente em casal, busque o auxílio de um especialista, que fará a mediação. É importante entender, que às vezes, antes de harmonizar, algumas sujeiras que estavam embaixo do tapete vem a tona, e poderá haver uma fase de turbulência. Lidar com a verdade é algo bem difícil, e precisamos, em nome do Amor, respeitar o tempo do outro.

Entenda, definitivamente: encontramos uma relação afetiva para nos ajudar a manifestar o Amor. E uma das formas que o Amor atua é nos auxiliando a olhar em que ponto específico nós estamos fechados para Ele. Portanto, se seu parceiro te provoca, ele está mostrando exatamente o ponto onde você ainda não desenvolveu compaixão, flexibilidade, inteligência emocional. Assim, respeite o tempo! Tanto o dele, quanto o seu! Quando você aprender a sua parte, o caminho para o Amor estará desimpedido…

Alex Possato