Acalme-se. O “processo” não está em suas mãos

acalmeseO buscador gosta de dizer: estou em processo! Estou me trabalhando! E até usa deste artifício para diferenciar-se daqueles que “não se trabalham”. E pressioná-los para que façam alguma coisa. Alguma coisa espiritual. Ou terapêutica. Ou ambos. Torna-se frenético. Compulsivo. Não raro, utiliza-se do bom argumento para ferir e ferir-se. Estar se trabalhando vira vício. Um vício que encobre um profundo desamor e revolta: eu não me aceito do jeito como sou. Eu não aceito as coisas como elas são. Eu não aceito! Eu vou mudar a qualquer custo!

O ego toma conta do processo. E sutilmente, invade uma área que ele sabe não ser sua: a cura. A transformação. O encontro da Paz.

Se o ego está doente, ele precisa entregar-se à cura, sim. Confiar no trabalho de um curador. Que age em nome de Algo Maior. E sair da frente. Deixar de querer atingir algum lugar. Por exemplo: conquistar um amor. Recuperar a saúde física, mental, emocional ou financeira. Reatar relações. Reerguer empreendimentos. O poder do ego está na sua inteligência, na sua estratégia, na sua capacidade de ação. O que, em si, não significa muita coisa. Podemos aprender a fazer “tudo certo”, e mesmo assim, tudo dá errado. O aprendizado que talvez Deus queira de você não é o de fazer as coisas darem certo, mas de harmonizar-se com o fracasso. Com a sensação de incapacidade e impotência. Com a sua insignificância e fragilidade…

Afinal, alguém que se diz um buscador, no fundo, não coloca em primeiro plano o sucesso pessoal, profissional, empresarial, atingir metas na saúde ou no amor. O verdadeiro buscador quer encontrar Deus. O Amor. A Compaixão. O Perdão. A Alegria. O Prazer. E acredite você, ou não, o Universo está neste exato momento abrindo a estrada por onde você irá passar, como o Rei que é, rumo a encontrar e ocupar o seu verdadeiro Trono.

Acalme-se. Tudo está programado e previsto. No seu verdadeiro tempo, o véu será descortinado. E você verá. E reconhecerá! Enquanto isso não ocorre, viva mais leve! Deixe de querer chegar! Domine sua ansiedade e sua angústia. Medite! Faça, sim, mas sem expectativas… Deixe de pressionar-se. E pressionar os outros. No grande mistério da vida, a chegada não é um lugar físico a ser encontrado em algum momento específico. É um lugar onde você já está, Aqui e Agora. Pare de correr dentro da rodinha, que gira, gira e gira… e você não sai do lugar. Sente-se ao lado dela. Feche os olhos. Respire. Profundamente… Você é perfeito, com todas as suas imperfeições. O mundo está ok. Os outros estão ok. A sua vida é essa mesma e está tudo certo. Pronto. É só isso. Afine a sua mente. Respire mais uma vez. E solte… solte… solte…

Aprender a aguardar e ouvir os sinais

sinais

O velho índio, enrugado, respira com lentidão e olha para o nada, o vazio, fitando a imensa natureza e seus segredos. Logo antes, alguém da tribo havia lhe perguntado sobre uma decisão importante a ser tomada por todos, e lá se colocava o ancião. Pensando? Não: aguardando as respostas.

Essa era uma cena que eu, quando criança, gostava de ver em filmes de western, geralmente torcendo para que os índios conseguissem escapar dos homens brancos e salvar a tribo…

Ontem, conversando com minha filha até altas horas, me peguei dizendo algo assim, quando percebi a vontade dela decidir algo de forma muito imediata: deixe o tempo dizer. Não é necessário decidir nada, agora. Você saberá, no tempo adequado.

Desde que me envolvi no universo da constelação familiar sistêmica, comecei a aprender a perceber os movimentos, os ciclos, o tempo das coisas. E como vivemos numa sociedade onde os ciclos e tempos naturais não são vistos, em detrimento das nossas vontades mentais e muitas vezes desconectadas da verdade interior, acabamos decidindo coisas que trazem sofrimento. Para nós e para os outros. Quantas vezes prolongamos uma relação que já acabou? Quantas vezes fugimos de uma relação que ainda necessita de acertos finais? Quantas escolhas sobre caminhos profissionais tomamos, baseados no medo e no sentimento de carência? Quantas vezes deixamos nossos talentos definhando, por não aceitá-los adequadamente?

Queremos ter a resposta certa. Pois somos ensinados, desde pequenos, a ter a resposta certa. Como se, ao decidir, fôssemos tirar nota 10. Ter um ponto positivo da professora. Um elogio do papai ou mamãe. Esta forma de decidir não tem lugar para as dúvidas cruciais da nossa vida. Porque esta forma de decidir irá se basear em certos e errados aprendido pela nossa educação e convívio social, e nossa alma, que sabe exatamente o que é importante para nós, não é consultada nesta história.

Aprender com o não-fazer

Diferente das decisões racionais, onde queremos acertar, fugir da dor, perseguir o prazer, a alma busca o amadurecimento emocional e o crescimento espiritual. Às vezes, algo desagradável precisa ser vivido com paciência, até que aprendamos a lidar com as dores emocionais que até então não sabíamos lidar. Raiva, medo, angústia, rancor, ingratidão, ciúme, inveja, cobiça… Quantas e quantas vezes você é chamado, através de uma relação afetiva, ou um conflito no local do trabalho, uma disputa familiar, um prejuízo financeiro, uma doença ou mesmo um conflito interior, a olhar para estes elementos emocionais e… foge? Procura solucionar o conflito ou problema, ou sair dele, mas não olha os sentimentos seus envolvidos na questão?

Fato é que, ao aprender a lidar com estas emoções dolorosas dentro de si, você começa a se abrir para o entendimento maior. Para a compaixão. Para a amizade verdadeira e o perdão sincero.

A vida é uma grande oportunidade para a gente parar e observar. Um enorme campo meditativo está a nossa disposição, 24 horas do dia, pronto para trazer-nos lições valiosas, que quando aprendidas nos liberta energeticamente dos conflitos que nos prendem. Sim, estou afirmando! Ao aprender a lidar emocionalmente com fatos e pessoas que nos provocam, nos libertamos da necessidade de ter estas lições repetidas em nossas vidas.

Por isso, o grande segredo não é agir. Não é tentar eliminar as fontes de perturbação. Ao contrário, é observar. Sentir. Mergulhar no profundo do seu íntimo e ouvir os sinais. Esta vida é muito fugaz, e todas as relações são passageiras. E não viemos neste mundo para tranformá-lo num paraíso: viemos aprender a ser co-criador da nossa história. Co-criar significa, em primeiro lugar, estar em paz com as lições dadas pelo Criador maior de tudo isso. Não negar, lutar contra, achar-se injustiçado…

Mesmo não vivendo na natureza pura, como o velho índio estava acostumado, o mundo irá nos dar os sinais de como agir. Estes sinais podem vir numa ação inusitada de alguém. Na mensagem de um livro ou texto vindo pelas redes sociais. Na oferta de uma ajuda, ou no rompimento de uma parceria. Na frase de um personagem do filme que lhe ficou clara, na cabeça. No vôo de um pássaro ou no sorriso de uma criança. Nos sons do ambiente. Na sensação de ser bem recebido em algum lugar, ou mal recebido. Na percepção de prosperidade real em ações que tomamos.

Nosso trabalho não é tentar, a qualquer custo, entender os sinais. É observar. Respirar e ficar aberto para eles. E ao percebê-los, deixar que a mensagem se mostre clara na mente. Quando pensamos linearmente, somos capazes de estabelecer uma linha lógica do porquê temos uma determinada opinião. Mas quando “ouvimos” os sinais, as mensagens surgem, e não temos como dizer, racionalmente, as razões de tal pensamento.

A constelação familiar lida muito com estas respostas intuitivas. Poucas pessoas estão acostumadas a ela, e por isso, muitas me perguntam: mas o que preciso fazer? Qual decisão tomar? E via de regra, minha resposta é: aguarde! Observe! Dê tempo ao tempo…

As respostas que surgem deste lugar, são sempre surpreendentes, e nos levam para lugares realmente incríveis, que auxiliam na expansão da consciência e na abertura da alma… As ações que surgem daí, estão em sintonia com o nosso desenvolvimento maior… Por isso, dá prazer, paz e sensação de completude!

Alex Possato

 

Saindo da loucura do outro

loucura

 

É interessante quando nos colocamos observador dos nossos próprios pensamentos e emoções: percebemos o quanto somos influenciados pela nossa própria loucura, pelas crenças sem sentido que ainda rodam no nosso sistema interno, pelas influências da mídia, da sociedade, das religiões, da família e pessoas íntimas…

Seguramente, vivemos num mundo neurótico, e em maior ou menor grau, também somos neuróticos. Mas esse não é o problema. O grande problema é que ouvimos nossas neuroses – e a dos outros – e acreditamos nelas. Por exemplo, nossa mente diz: a Maria está precisando da minha ajuda. Coitada, está sofrendo tanto! E partimos para ajudar a Maria, que não solicitou nossa ajuda, não está sofrendo como imaginamos e até se surpreende quando aparecemos como “o salvador” em sua porta. Por extrema compaixão que a Maria tem por nós, ela finge permitir que nós “a ajudemos”… Em constelação familiar, dizemos que “o ajudado” se torna “o ajudante”.

Neste jogo, explicado muito bem por Erick Berne, o criador da Análise Transacional, que mapeia diversos jogos que podem se tornar patológicos, impomos sofrimento ao outro e também sofremos.

Tudo seria muito mais fácil se tomássemos conta dos nossos pensamentos e emoções, assim como um pai amoroso, mas rigoroso, cuida de filhos malcriados, ou de animais domésticos indóceis. É incômodo, mas estaríamos colaborando enormemente para a pacificação e harmonização da sociedade.

Da mesma forma, ao começar a cuidar da nossa loucura interior, não permitiríamos que a loucura dos outros interferisse em nós, de forma prejudicial. Quantas vezes percebo clientes ou parceiros tentando manipular meu foco, meus objetivos? Quantas vezes ouço pessoas dizendo que as mães, pai, namorados ou amigos estão invadindo drasticamente suas privacidades? Quantos comportamentos percebo de pessoas que agem insanamente, espalhando medo, conflito, correntes sem sentido, porque leram na internet, ouviram na TV ou receberam uma mensagem no whatsapp?

O que impede alguém de não entrar no jogo da loucura?

Muitos entendem o que estou falando, mas não conseguem impor os limites ao outro. Em geral, respondo que esta pessoa não consegue por limites para a própria loucura interior. Acredita que o que pensa “é real”, e que a sua loucura não é loucura, mas sanidade. Loucos são os outros! Recomendo doses regulares de meditação em silêncio. Ao menos 5 minutos diários para observar sua mente tagarela e constatar, sem sombra de dúvida: sim, minha mente é neurótica! Este é o primeiro passo. Não há o que fazer com a mente que pensa. A não ser, observá-la. Com o treino – e isso exige anos, mas muitos anos mesmo! – a mente desacelera, embora, na minha experiência ao menos, não pára a loucura. Somente fica em estado, um pouco, digamos, letárgico… E em outros momentos, acelerada novamente… mas na média, mais lenta…

Quando você começa a olhar para o jogo do próprio pensamento, e não entra nele, você começa a perceber o jogo do pensamento e emocional do outro, e também não entra mais. Você nesse momento, sabe que é um jogo! Não é verdade! Sua mãe, batendo desesperadamente na porta, dizendo que está morrendo… você sabe que é um jogo! Seu pai pedindo alucinadamente para você emprestar um dinheiro com urgência… você sabe que é um jogo! Seu namorado dizendo com ferocidade que se você sair sozinha ele vai deixa-la, você sabe que é um jogo!

Lógico! Você terá que lidar com o sentimento de culpa, de ser egoísta, ou seja lá que ideia surja em seu pensamento… ideias que foram implantadas pelos seus pais, educadores e sociedade. Ou seja, também um jogo, que lhe faz prisioneiro.

Fazia… porque neste momento, você está começando a sair do jogo.

Bem vindo ao mundo dos letárgicos! Dos “noiados”! Dos egoístas! Dos alienados!

Vou contar um segredo: a única forma verdadeira que temos para auxiliar nossos irmãos presos no jogo da loucura mental e emocional, é sair do jogo. E vagarosamente, conforme eles queiram – e te procurem para isso, auxiliá-los a sair também… Não será tão fácil! Parte de nós, e parte deles, ainda está muito comprometida com o jogo… e sentir-se-á abandonada, sozinha, inválida, se desistir da brincadeira… Vamos devagar… Conforme a gente se acostuma a olhar o mundo e as pessoas com outros olhos, podemos inclusive fingir que estamos na brincadeira. Não é necessário confrontar os outros: não coma carne! Medite sem parar! Viva a sociedade alternativa! Abaixo o consumismo! Finja que está na brincadeira… pode até ser muito divertido…

Impulsos emocionais nos fazem cegos

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Os impulsos emocionais funcionam como entidades autônomas… quase como seres que dominam o pensamento e manipulam as ações, quando você permite, através da inconsciência, que assim seja.

– Guarde logo o seu carro! – Disse-me, assustada, a colega. E completou: a violência aqui está terrível!

Seus olhos esbugalhados, sua respiração ofegante, sua expressão de tensão demonstrava o quanto ela estava pega pela emoção do medo. Da insegurança. E seus pensamentos foram dominados pelo impulso. E logicamente, suas ações começaram a se basear neste “fantasma” do medo. Não havia ninguém na rua. Nada iria acontecer. E se ocorresse, seria um fato a mais…

A inconsciência embota nossa visão maior. O cérebro, em algum momento da vida, registrou emoções como medo, raiva, angústia, tristeza, sensação de abandono… e fatos externos, ou ainda, simplesmente a imaginação, detonam um mecanismo que abala com a estrutura emocional, mental e comportamental da pessoa.

Ontem presenciei, envolvido e consternado, uma outra amiga sendo dominada pela raiva. Neste caso, relacionamentos são os gatilhos. Relações que causam dores. Ou melhor, despertam dores adormecidas. Dores do confronto, da disputa, do abandono, da loucura. Nosso organismo possui todos os registros daquilo que vivemos, desde a gestação. E também das memórias das gerações passadas, como demonstra de forma tão efetiva a constelação familiar.

Se pudéssemos viver no aqui e agora, estas dores viriam, e iriam embora. Não as tomaríamos como reais. Mas nossa mente não está treinada a observar a si mesma. Observar os próprios pensamentos e deixa-los. Observar as emoções e deixa-las. Os fatos externos, seja uma separação, uma perda, uma morte, um assalto, o desemprego, uma viagem, uma agressão verbal ou física… não importa o que, dispara o gatilho, e as emoções do passado recente e muitas vezes remoto vêm a tona. Nos domina. Somos pegos. E julgamos que o fato ou a pessoa externa é a responsável pelo nosso mal estar. E da mesma forma, acreditamos que algo externo que é agradável é a razão da nossa alegria.

Vivemos fugindo dos monstros e perseguindo os anjos. Somos condicionados a viver assim. A mídia nos empurra goela abaixo milhões de produtos que garantem nossa felicidade… Ou outros milhões de produtos que nos afastam dos nossos pesadelos. Dizem eles… Quais pesadelos? Morte. Perda. Separação. Abandono. Miséria. Loucura. Doença. Traição.

Quando vamos amadurecendo, deixando o estado emocional infantil, marcado por dores passadas, entendemos que a vida é feita de situações duras, tristes, e também situações alegres e prazerosas. A dureza não é contra nós. A suavidade não é a favor de nós. É tudo vida.

O grande salto quântico de consciência surge quando deixamos de viver acreditando que nós somos produto das experiências que vivemos, e percebemos que somos aquele que pode observar as experiências, sejam elas boas ou más. As experiências passam, o observador permanece. As experiências mudam, o observador é estável. Perceba isso na prática. Agora. Comece a observar as experiências, sem se apegar nem ao bom, nem ao ruim. Você perceberá na prática isso que estou descrevendo. Você não é o produto da experiência. Você é aquele que observa a experiência. Isso é extremamente libertador. Porque você estará ancorado numa parte que é estável, permanente, plácida… e isso proporciona um lugar de descanso infinito… mesmo que as experiências continuem a mexer com a superfície. Que importa a superfície conturbada, se na profundidade você está em paz?

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