1 ano sem o “danado” álcool!

 

vicio alcool

Bem. Não exatamente: 1 ano e 4 meses. É motivo para comemorar? Sim!!! Apesar de eu ter ficado, no passado, 10 anos sem ingerir álcool, nesta última fase a necessidade de largar o “danado” veio com outra qualidade. Veio de um lugar de consciência, muito pensado e estudado, sem pressão de ninguém, a não ser, de mim mesmo.

Trabalho com cura. Necessito da minha sensibilidade para o que faço. Minha conexão espiritual também precisa de presença. Escrevo sem parar, e sempre que tentei escrever motivado por aditivos, só saiu merda. Porém, foi necessário um grande estudo de mim mesmo para deixar a companhia de algo que eu gostava e gosto muito: a bebida. Afinal, como diz o ex-jogador Casagrande, “ninguém se vicia em coisa ruim…”.

Com certeza, ficou gravada na minha memória a imagem do meu pai, sentado num canto de um bar qualquer, seu caderninho de nota e inúmeras poesias que ele escrevia na companhia da garrafa. Era muito chic! Meio Ernest Hemingway, meio Bukowski. Muito chic, mas que levou sua saúde embora. Suas famílias. Sua finança. Inclusive sua capacidade artística se foi, gargalo abaixo. No meu caso, o estar alcoolizado me trazia uma sensação de estar acompanhando papai. Pois eu o amava, mesmo também sentindo muita raiva por ele nunca ter assumido seus filhos.

Era muito louco: às vezes, sentado eu e a garrafa na mesa do bar, sozinho, como papai gostava de fazer, eu me pegava pensando: estou fazendo como ele. Vou ir pelo mesmo caminho: perder minhas relações afetivas, deixar meus filhos, fracassar na carreira. Veja o que você me ensinou, papai! A ser um homem fraco! Viciado! Magoado… E dá-lhe cerveja, cachaça, vodka, o que viesse… E então eu escrevia. Sacava o meu caderninho, a caneta, e escrevia um monte… As pessoas do bar não entendiam nada. Eu também não… na terceira dose os pensamentos já se embaralhavam.

Muito lindo, não? Depois, sóbrio, olhava minha fecunda produção: podia juntar tudo, abrir a tampa do vaso sanitário, jogar e puxar a descarga…

Demorou um bom tempo para eu perceber o quanto estava sendo ridículo. Meu pai já estava morto. Meu fígado estava indo pelo mesmo caminho. Minha carteira estava vazia. Mas o pior: a real vocação que eu tinha para escrever estava sendo desperdiçada por uma birra contra meu pai desnecessária. Inútil. Improdutiva. Como diz Elizabeth Gilbert, em A Grande Magia, “… basta dizer que a linguagem moderna da criatividade – desde os mais jovens aspirantes até os mestres reconhecidos – está impregnada de dor, desolação e transtornos. Inúmeros artistas trabalham em completa solidão física e emocional, isolados não só de outros seres humanos, mas também da fonte da própria criatividade”. Ok. Eu poderia morrer na sarjeta. E daí? O que isso iria mudar do meu passado? O que isso iria trazer meu pai para mais perto de mim? Como isso me faria um melhor escritor? Vivi um verdadeiro inferno interior, porque deixar um padrão de 30 anos é muito desafiante. Entre altos e baixos, idas e vindas, vontade de largar o vício e bebedeiras descontroladas, um dia, uma frase ecoou em mim: papai, eu te amo muito. E exatamente por isso, vou usar o dom que herdei de você de forma honrada.

Viver honrando a luz, a alegria, a criatividade, o prazer

Lógico. Precisei de ajuda terapêutica. Coisa que antes, mesmo tendo parado inúmeras vezes, não admitia. Eu sou um dependente químico. Eu sou viciado, e preciso dobrar a minha arrogância: não dou conta sozinho para lidar com esta energia que me domina, e o pior: eu gosto! E com esta ajuda, fui vendo que, por detrás do meu vício, estava um culto ensandecido ao sofrimento: eu via a vida de forma dramática. Com muito medo da pobreza. Com dificuldade de me aventurar. De me entregar ao prazer em suas mais diversas formas: sentia-me travado tanto sexualmente, quanto mentalmente. Com certeza, um influenciando o outro. Pintei de cores escuras os capítulos da minha vida, e insistia em contar para mim mesmo o quanto desgraçados foram meus pais, meu irmão, meus avós, as dificuldades da infância… e eu mesmo! O pior de todos!

O perfeito discurso da vítima, não é mesmo?

Fui percebendo que, neste padrão, justamente aquilo que eu mais desejava – a paz, prosperidade, desenvolver meus talentos, relação afetiva equilibrada, saúde física e emocional – ficava muito, muito distante. O álcool simplesmente era uma anestesia para o lero-lero que eu contava sobre mim mesmo. A vida foi uma merda, então, preciso de pelo menos algum prazer para aliviar a dor do passado: desce mais uma!

Deixar o álcool é como deixar aquela namorada terrível que às vezes a gente arruma. Chantagista, manipuladora, dócil às vezes, sedutora e ótima na cama. Se fazemos suas vontades, ela nos dá tudo! Se não fazemos, ela se transforma num demônio. E se ameaçamos ir embora, ela é capaz dos mais terríveis ardis para nos manter presos. E não será eu, naquela postura de vítima emburrada que irá conseguir se posicionar e se libertar. É necessário firmeza, e arcar com as consequências dos meus atos. Afinal, eu também tenho os meus ganhos nesta relação, e também, do meu jeito, manipulo e aprisiono. Não podemos esquecer: somos sempre nós que dizemos SIM para o primeiro gole e pagamos para a garrafa estar ao nosso dispor.

O jogo do sofrimento é sedutor. Meu líder espiritual Prem Baba diz: “De todos os vícios, o sofrimento é o maior deles. O sofrimento é a droga mais viciante. Infelizmente a grande maioria da nossa sociedade encontra-se viciada no sofrimento.” É muito mais fácil nos conectarmos às tragédias, às doenças, aos distúrbios, do que o contrário. Se exalamos amor, amizade, compaixão, destoamos da maioria. Nossa família, viciada em reclamações, manipulações, vitimismos variados, começará a nos afastar, nos taxar de “bicho esquisito”, “santinho”, “hippie”, “falso” e por aí vai… Se temos parceiros afetivos que vivem aliados à sombra, estes tentarão de tudo para nos puxar de volta. Muitas vezes, teremos que nos afastar de pessoas e ambientes, para segurar nossa firmeza de intenção. Precisamos sustentar a postura de não sermos entendidos nas nossas opções de paz e saúde, e talvez buscar novos grupos que vibram na mesma sintonia.

Um ano após

Na prática, o que significou viver estes 16 meses sem nadinha de álcool? Passado um período meio confuso emocionalmente, que não durou mais de 2 meses, fui aos poucos recuperando o desejo de cuidar de mim. Ter disciplina para cuidar do meu corpo. Da minha alimentação. Consegui olhar de verdade para algumas prioridades, como minha relação afetiva. O meu tempo de criatividade. Descobrir coisas que me dão prazer. Realizei uma viagem que era um sonho de infância, e pela primeira vez, sem ingerir bebidas alcoólicas. Comecei a aprender a extrair prazer das coisas sutis. Percebi a criatividade voltando para minha vida, em muitos aspectos. Minha mente acalmou e desenvolvi uma suave disciplina nas coisas que preciso fazer. Aumentou meu foco e capacidade de ação – que já era afinado, mas tinha um “q” de agressividade e autotortura. Agora não: consigo decidir e realizar com equilíbrio e flexibilidade. E decidi profundas mudanças para minha vida. Coisas que me fazem muito bem!

O mais incrível é poder olhar com respeito para minha história, para aquilo que meu pai, mãe e avós fizeram. Olhar com gratidão até para o álcool que, como costumo falar, foi a mais longa e visceral relação que tive na minha vida. Ao lidar com energias que nos aprisionam, sejam elas pessoas, vícios, situações, doenças… estamos sendo, na minha visão, desafiados a abrir nosso coração para a tolerância, resiliência, ação consciente, flexibilidade, compaixão… E parece que, dado o meu nível tosco de desenvolvimento, tenho que aprender na dor a despertar estes dons divinos. Mas uma hora, conseguimos, não é mesmo?

E aí fica o convite para você que também se vê preso num vício: quem sabe você possa olhar este vício como um passo para desenvolver a tolerância? Em primeiro lugar, à sua história! Sim, você tem razão em seguir um padrão de amortecimento através do vício. Pois sua história justifica: há dor dentro de si! Porém… até quando você irá justificar dor, causando mais dor a si mesmo? É isso que você realmente deseja para si? Ou está procurando, como eu, paz, prosperidade, amizade, amor, saúde, equilíbrio?

Se for isso, talvez seja importante entender que nada irá mudar o seu passado. E que é possível reescrever sua história, de uma forma totalmente nova, e prazerosa. Busque ajuda de especialistas! Grupos de apoio! Dobre-se! Você não dá conta para lidar com esta energia, sozinho. Você sabe disso, não é mesmo?

E quem sabe, daqui um ano, você também poderá falar da sua experiência, assim como eu estou fazendo agora? Mas não se esqueça: um passinho de cada vez. Alicerce a sua jornada. Parar o vício é importante, mas acredito que saber o que te move neste mundo e o que realmente é importante para si é fundamental. Assim, estar abstêmio e consciente, não há preço que pague.

Alex Possato

 

Sabemos nos despedir?

sabemos nos despedir

 

Esta semana vivi a finalização de mais um grupo de constelação, desta vez em Brasília. Recebi inúmeros feedbacks maravilhosos, e vejo com alegria que muita gente já dá seus passos iniciais no trabalho com esta terapia tão profunda e transformadora. Além disso, tive a grata possibilidade de passar meu aniversário junto a pessoas queridas e também minha esposa, que fez questão de viajar para estar comigo… é tão bom este carinho, né?

Diante de tanta alegria e emoções, lanço uma pergunta: sabemos nos despedir? Porque a despedida é uma parte fundamental para que partamos livres para novas fases. Uma das coisas que a constelação familiar deixa muito claro é que as “mortes” – que também podemos encarar como “separações” –  não vistas ou não aceitas no sistema familiar permanecem “pesando” sobre os descendentes, tirando a energia vital, levando-os à atração de doenças, crises financeiras, problemas nas relações, conflitos diversos, que nos impedem de vivermos a vida com leveza, alegria, vibração, criatividade, paz.

Quantas vezes deixamos alguém querido, e não damos conta da separação? Ou às vezes, deixamos alguém que já não é mais tão querido, e carregamos a mágoa silenciosa dentro de nós por décadas? Às vezes, vivenciamos uma situação familiar difícil, e até desejamos que fulano morra, desapareça… e não é que o fulano morre!!! E carregamos a culpa por termos desejado esta partida… Em outras ocasiões, por não sabermos nos despedir de lugares, trabalhos ou pessoas, simplesmente viramos as costas. Como se nada tivesse ocorrido… embora no íntimo, sabemos que tem algo no passado mal resolvido…

Vivenciar totalmente os sentimentos

Poucas pessoas percebem que o que nos prende a algo do passado é a nossa dificuldade em vivenciar totalmente os sentimentos que a despedida provoca. Por exemplo, eu tive uma casa que eu gostava muito. Foi a primeira casa que pude comprar, junto com a companheira da época, e lá meus filhos cresceram. A paisagem era linda, e apesar de viver uma vida financeiramente difícil, tive experiências maravilhosas neste lugar. E um dia, resolvemos sair, para facilitar o trabalho e também para viver num lugar maior – estava subindo de padrão, tanto de conforto, como de conveniência! Porém, não saí tão feliz. É como algo em mim se recusasse a deixar tudo o que foi vivido naquele lugar.

Anos depois, quando já não havia mais a segunda casa, nem o casamento, e muita coisa havia mudado, investiguei profundamente este sentimento: o que me prendeu àquela casa? Bem… por exemplo: o formato arquitetônico dela era muito parecido com a casa onde vivi quando criança: eu, meu irmão e meus avós. Era uma vida muito centrada em volta daquela casa: meus pais estavam separados, viviam outras vidas, mas neste lar, eu brincava, tinha meu cachorro, estudava, lia muito, andava com meu avô, enfim, era feliz. Por alguns anos.

Após eu sair da casa dos meus avós, no meio da minha adolescência, brigado com a rigidez deles e a maluquice do meu irmão, tive um período longo de turbulência na minha vida. Comecei a beber, fumar, trabalhar, bagunçar… convivi com muitos conflitos em relação à minha mãe, depois novamente com meu irmão, e em seguida, com meu pai. Talvez simbolicamente, aquela casa antiga dos meus avós significava meu porto seguro, e sair dela, era algo como ir para o inferno! O curioso foi que meus avós também venderam aquela casa, sob o pretexto de não haver conflitos na divisão dos bens… Realmente, não havia mais o porto seguro!

Sem saber, eu reconstruí este cenário, quando casei. Coincidentemente, após sair daquela casa, muitas dificuldades começaram a surgir.

Como é louco a repetição de padrões, não é mesmo?

O grande aprendizado nas separações é saber dar conta tanto dos sentimentos bons, quanto dos ruins. E se despedir deles. Quando negamos algo, este algo persiste. Por isso, sempre oriento alunos ou pessoas que buscam meu trabalho terapêutico a observar os sentimentos. Pode até parecer piada, muitos riem quando eu falo, porque falo isso o tempo todo: olhe para os sentimentos. Abra-se a eles. Deixe de querer resolver, remediar ou anestesiar: fique consciente das suas emoções. Este é o segredo da libertação para uma nova fase!

Os padrões se repetem

Enquanto não sabemos dar conta dos sentimentos internos, acabamos atraindo padrões semelhantes na nossa vida. Trocamos de casa, de namorado, de emprego, de religião… mas acabamos sempre batendo de frente com problemas parecidos. Já ao contrário, quando lidamos com sabedoria com nossas dores, nossas mágoas, nossas raivas, nossa inveja, ciúme e outras sensações desagradáveis internas, ganhamos consciência. Maturidade. Temos liberdade de agir ou não agir diante das relações. A culpa ou medo perdem importância e tomamos posse de uma suave, mas constante, força para a vida!

Fato é que as pessoas pouco se dão conta: são nossas sombras internas escondidas (e que fazemos questão de não revelá-las!) que nos mantém presos aos padrões de sofrimento, que invariavelmente acabam atraindo situações onde novamente seremos desafiados.

Nos perguntamos: quando teremos uma relação afetiva feliz? Quando me sentirei bem com o que faço? Quando estarei em paz comigo mesmo? Quando aceitarei os outros como são? Quando atrairei prosperidade?

A resposta é simples, embora exigente: quando finalmente nos despedirmos dos sentimentos mais difíceis que residem na nossa psique.

Aí, todas as despedidas de lugares, pessoas e situações poderão ser vividas plenamente. E todos os recomeços serão extremamente auspiciosos. Olharemos a vida como uma sequência infinita de encontros e despedidas, nascimentos e mortes, inícios e términos… Deixaremos de tentar aprisionar as coisas que estão indo bem (embora possamos curtir plenamente este lado bom da vida!) e também deixaremos de tentar fugir ou afastar as coisas que nos perturbam com violência e sentimento de exclusão.

Como disse o escritor alemão Hermann Hesse, “A cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias. Aberto sempre para novos compromissos. Dentro de cada começar mora um encanto que nos dá forças e nos ajuda a viver.”

 

Que saibamos vivenciar este fluxo!

Alex Possato

Ordens para si mesmo

Ordens para si mesmo

Quando negamos a autoridade dos pais ou daqueles que nos cuidaram, ficamos presos a uma energia infantil, com dificuldade para dar e aceitar ordens. Principalmente as ordens que damos para nós mesmos. Conforme ficou registrado na psique a forma como foram transmitidas as ordens na infância (violência, descaso, coação, chantagem, vitimismo, suborno, ausência), agimos da mesma forma conosco. Nos torturamos, fingimos, enganamos, ameaçamos, fugimos… Assim, boicotamos o regime, a prosperidade, a saúde, o estudo, os bons relacionamentos, a espiritualidade, o crescimento profissional… Simplesmente não seguindo as ordens que sabemos fundamentais para nós mesmos.
Se faz necessário entrar num acordo com este passado. Fazer as pazes com os nossos cuidadores. Pegar a criança ferida e curá-la. E também estabelecer limites para este rebelde interior. Se você quer ser feliz, em algum momento terá que agir com autoridade. Que venha com amorosidade, esta autoridade. Amorosidade que você gostaria de ter recebido, quando pequeno. Mas não se esqueça: também a firmeza se faz necessária. A firmeza também é uma forma de demonstrar amor.

Alex Possato

 

Admita suas fraquezas

admita suas fraquezas

Neste último final de semana facilitei um trabalho sobre comunicação no relacionamento afetivo, junto com minha companheira, Luciana. O trabalho foi sensacional, muito melhor do que eu esperava. Até porque, antes dele acontecer, eu estava em sérias dúvidas se haveria a vivência. Muitas coisas estavam ocorrendo, que davam indícios de problemas. Poucas inscrições. Dificuldade na organização e divulgação. Desistência de algumas pessoas.

Mas o mais importante, eram as minhas conhecidas neuroses internas: minha sensação de que alguma coisa não estava correta, e que por isso não daria certo, e blá-blá-blá. Pensei até em desistir, mas percebi que não teria sentido, afinal, tínhamos um número mínimo de participantes, que acabou até aumentando, pois entraram mais pessoas em cima da hora. Tudo ocorreu muito bem, e minhas previsões mais sombrias não se concretizaram. Mais uma vez…

Ao final do trabalho, como geralmente fazemos, tiramos uma carta de tarô, com uma mensagem. E a minha foi bem clara: “admita suas fraquezas”. E na explicação, dizia para que eu parasse de tentar controlar as necessidades emocionais, físicas ou intelectuais, onde atua o “medo de não conseguir” e que me entregasse à condução de Algo Maior. “O propósito da Alma é acolher a sua vulnerabilidade e calmamente aceitar a realidade de que tudo na vida é Absolutamente dependente do Espírito Amoroso do Universo”.

Recado mais claro e explícito não seria possível.

Ser frágil

Vivo um momento de reconhecimento de minha fragilidade. O que me incomoda muito. Costumo dizer aos meus alunos e clientes que a vida difícil que tivemos nos ensinou a agir como se tudo dependesse somente de nós. Desde muito pequeno, aprendi a não confiar em ninguém. Ou eu faço, ou eu me ferro. Meu ego foi se cristalizando numa ideia mentirosa de alguém abandonado, que nunca fora ajudado, muito menos validado pelos pais e família.

Passei a desenvolver grandes habilidades para sobreviver e até vencer em alguns aspectos da vida. Mas este tipo de comportamento, além de ser desgastante, está fadado sempre ao fracasso. Simplesmente porque existem pontos na vida que não dependem em absoluto da nossa vontade. O Destino rege sobre nossos atos, e sobre Ele, não temos poder. Por exemplo: encontrar um amor. Restabelecer-se de uma doença. Evitar acidentes. Montar uma vivência de sucesso. Até o simples fato de tornar-se tranquilo e pacífico é algo que não depende especificamente de nós. Podemos e devemos fazer os nossos melhores esforços para ter sucesso na nossa proposta. Mas não está no poder da mente pensante estas realizações.

Sim, entendi…

Subitamente, sou assombrado por esta verdade, que grita na minha cara: você não pode sozinho! Você não consegue sozinho! Você sempre dependeu de alguém!

Uma súbita compreensão me toma: descubro que a dor faz a gente sair pelo mundo sozinho. E a mesma dor fará, um dia, abaixarmos a cabeça. Assim é o caminho. Sinto agora como se o peso da minha dor e arrogância já não fosse mais suportável… Nem mesmo útil, pois para aquilo que devo fazer, é necessário seguir mais leve. Mais confiante, mesmo na incerteza. Alguém está cuidando de mim. O gênio Leonardo da Vinci disse, sabiamente: “Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas. Muito conhecimento, que se sintam humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o Céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe.”

Alex Possato

 

Coração em greve

coracaoemgreve

Ei! Psiu! Queria falar com você! Aqui… olha pra cá… mais pra baixo… do lado esquerdo… fazendo tum-tum. Tum-tum. Ainda estou batendo, apesar de tudo. Você tem me esquecido, não é mesmo? Mas o pior não é isso: está me contaminando. Sim, você tem me dado muito veneno, e eu tive que me fechar, me proteger, pra evitar entrar em colapso.
Mas agora cansei, e resolvi protestar. Levantar minhas faixas na rua:

– pare de guardar seus sentimentos!
– fora repressão!
– assuma suas dores!
– queremos lágrimas sinceras!
– mágoa livre!
– mais amor, menos silêncio!
– abaixo as máscaras!

Sabe, cara: tô cansado de ver você entrar em relação, e sair de relação… e não se expressar. Se tá magoado, não fala. Quando fala, só briga, mas não tem a capacidade de dizer: você me machucou. E aí, depois que briga, se arrepende. E também não fala: sinto muito. Agora, fui eu quem te machucou. Eu ainda te amo. E aí se afastam, e você não diz: tô com saudade! Sinto a sua falta. Foi muito bom o que vivemos. Então, vê o outro com outra, e não comunica: ahhhh, que inveja! Como eu queria que fosse eu! Tomara que acabe logo… só pra ele sofrer mais um pouco. E logo em seguida, quer voltar atrás: nossa! Que maldade… como pude sentir coisa tão ruim assim. Que sejam felizes. Eu vou continuar aqui, sozinho na minha dor…
E você sabe, cara. Anos e anos assim. Sem expressar seus sentimentos pras pessoas que você ama, as que odeia, as que ignora, as que te ignoram… Sem expressar seus sentimentos nem pra você mesmo! Mas saiba você que cada palavra não dita cai como ácido sobre mim. E eu tenho que me fechar, me proteger. Preciso falar uma coisa: Eu fechado, impeço você de amar. De sentir alegria. Prazer. Êxtase. Plenitude. Confiança.
Todos os sentimentos passam por mim. Se você nega um, nega todos. Se não sabe demonstrar sua raiva, sua mágoa, seu perdão, sua amizade, sua alegria… você começa a dizer para mim que não sou tão útil… Você está me esquecendo, achando que minha única função é fazer tum-tum. Tum-tum. Tum-tum uma pinóia, cara! Não tô aqui pra ser bateria de escola de samba. Eu existo porque sou a razão principal da sua existência… sentir! Manifestar o que você sente. Viver em plenitude. Curtir a vida! Em todas as suas nuances. E você preso aí nesse cérebro. Só querendo saber. Resolver. Chegar a algum lugar. Entender. Ah, vá…
Tô pensando em entrar em greve. O que acha? Vou dar uma paradinha… No começo, é só um alerta. Uma pequena parada. Só um susto. Mas se você não olhar direito para seus sentimentos, a parada vai ser mais longa… Um dia. Ou uns três dias… E não vai adiantar entrar na justiça trabalhista, viu?
Quem sabe você resolva validar seus sentimentos. E expressá-los.
Eu só quero uma coisa: me deixa trabalhar. Mas do meu jeito! Na totalidade. Pare de usar tantas máscaras. Pare de fingir. Seja mais coração, cara! E menos cabeça…

Alex Possato

 

Você está pronto para a paz?

paz

Você clama por paz. Sim, você me ouve. Paz. Eu lhe convido à paz. Porém, até agora você assentou sua base sobre o conflito. Relações conflituosas. Brigas com o outro, com a família, com o passado, e inclusive, consigo mesmo. Detonando sua mente, suas emoções, seu corpo. E você até gosta da guerra, não é mesmo? Vem excitação, adrenalina, sensação de estar vivo.
Pergunto: você quer a paz? Porque irei retirar você destes conflitos. Algumas pessoas se afastarão. Você será convidado a deixar atitudes que geram mais e mais guerra. Sua mente será direcionada ao silêncio, e seus hábitos, para a saúde física, mental e emocional.
Você renascerá outro. Não é fácil renascer. Primeiro terá que morrer para o velho.
Diga ao passado, se está preparado: descanse em paz.
E será feita a sua vontade…

Alex Possato

 

A raiva saudável

tunel

“Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam.”
Clarice Lispector

Faz muitos anos que falo para as pessoas que atendo: a raiva faz parte. Olhe para a sua raiva. Não negue. Não a esconda. Ela pode ser sua amiga. Principalmente, falo para as pessoas que estão paradas na vida. Que não tem força para tocar seus projetos. Fazer as mudanças necessárias. Tomar decisões. É muito comum que estejam inibindo a raiva, com dificuldade de lidar com esta energia. Por que acontece isso?

Vou explicar, de um jeito que gosto: falando um pouco da minha experiência, que de alguma forma, pode ser a sua também. Vivi numa família raivosa. Eu era o menor de todos. Meu irmão, sempre cheio de conflitos e violência, volta e meia me agredia. Minha avó tinha acessos de fúria, entrecortados por abismos de depressão. Meu avô era gente boa dentro de casa, mas capaz de agredir alguém na rua simplesmente porque olhou atravessado. Meu pai era um cara baixinho, colecionador de armas de fogo, espadas e facas, cujo temperamento era sujeito a chuvas e trovoadas. Minha mãe era uma pessoa impulsiva também. E imprevisível. E eu, a pequena criança, a menor de todas, assustado com tanta energia em minha volta. Não havia como confrontar, sem apanhar. Bem que tentei. E apanhei. E então, comecei a desenvolver outras estratégias: a lábia. A chantagem. O vitimismo. A sedução. O bom humor. A racionalização. Ganhava minhas lutas sem lutar.

Quando criança, criamos várias defesas e estratégias. Tudo para não sermos mais feridos e podermos obter nossas vantagens. O problema dessas estratégias, é que as levamos para a vida adulta. Um homem com a minha idade, que parte para a vida pensando que poderá apanhar, que qualquer coisa que fale – ou não! – irá detonar uma explosão, ou que as pessoas são instáveis e assustadoras, terá muita dificuldade de alcançar metas. De lutar pelos próprios direitos. De batalhar por um espaço na sua carreira. De ousar competir e conquistar.

Quando observo bem a mim mesmo, vejo que parte de mim acredita que perdeu o direito de reivindicar. De ter a própria opinião e sustenta-la. De achar que algo está desconfortável e que posso querer mudar. Esta parte de mim, no fundo, só quer sombra e água fresca. Um ambiente onde não haja conflito, para me livrar dos ecos do passado. Essa parte só quer paz. E por isso, se recusa à guerra.

Sem a guerra, não há paz

Meu grande mestre Bert Hellinger diz, em A Paz Começa na Alma: “ A guerra é o pai de todas as coisas. Isso quer dizer: a guerra é também o pai da paz. Sem a guerra, não há paz. Quais são os efeitos disso na alma? Freud, o fundador da psicoterapia moderna, observou que o indivíduo só pode crescer se integrar algo que ele excluiu de sua alma. Rejeitamos muito de nós mesmos, apesar de sentirmos que faz parte de nós”.

Traduzindo para a minha vida, não aprendi a guerrear. Não aprendi a defender meus pontos de vista. Não aprendi a usar a minha raiva (que era muita!) para abrir meus caminhos. Assim, tive que me aproximar de pessoas que sabiam lidar com a raiva – geralmente de jeitos não adequados – para que elas fizessem por mim aquilo que eu tinha medo de fazer sozinho. Amigos fortes. Grupos que me defendiam. Mulheres fortes e lutadoras. Gente que abria as portas na minha vida aos pontapés, enquanto eu ia atrás. Como criancinha. Um verdadeiro bunda mole! E ok! Para quem vem de uma história onde não sabia se defender de inúmeras agressões externas. Mas um adulto?!? Onde não havia mais irmão, pai, mãe, avós, família em conflito vivendo comigo…. isso não fazia mais sentido!

A raiva saudável pode ser uma expressão do amor

“Na medida exata em que uma pessoa é capaz de sentir e expressar amor verdadeiro, ela também é capaz de manifestar raiva saudável e construtiva. Tanto o amor real como a raiva vêm do eu interior. Absolutamente todo sentimento real é saudável e construtivo e propicia o desenvolvimento do eu e dos outros. Os sentimentos reais não podem ser forçados, comandados nem impostos. Eles são uma expressão espontânea, que ocorre como resultado natural e orgânico de nós mesmos”, diz Eva Pierrakos, em Criando União.

Demorei para entender isso. O motivo principal é que estava magoado com a minha família. Que sempre manifestou muita raiva. Que me feriu. Logo, como poderia eu usar as mesmas armas “deles”? E disse para mim mesmo: vou fazer diferente. Vou mostrar pra “eles” como é que faz! Vou ser diplomático. Pacífico. Conciliador… Besteira…

Sempre defendi minhas convicções “pacíficas” com a faca nos dentes. Sempre tive (e ainda tenho) muita raiva das pessoas que contrariam meus princípios, minhas opiniões. A única diferença é que hoje sou consciente de que não saber usar esta energia da raiva tem a ver com o não concordar com o meu passado. No fundo, sou absolutamente igual ao meu pai, minha mãe, meu irmão, meus avós. E eles também não souberam usar a raiva de forma apropriada, para alcançar os próprios objetivos, para galgar os degraus que achavam adequados. Se perderam numa guerra entre si… e o cavalo do sucesso passou arreado… eles não montaram…

Deixando o passado, para estar presente na própria vida

Quando estamos perdidos no uso da raiva de forma distorcida, quando machucamos os outros e a nós mesmos, ou inibimos esta energia, causando úlceras e paralisia na vida, estamos identificados com situações do passado familiar – a maior parte inconsciente – onde houveram feridas que não foram vistas. Tanto a nossa infância, quando as diversas gerações que nos antecederam, estão recheadas destas histórias: pessoas feridas pela agressividade de um e de outro… pessoas que agrediram, mataram, coagiram, violentaram… Eles são todos nossos antepassados. Vítimas e algozes. E tudo isso é passado. Deveria ser, ao menos. Porque, bem ou mal, eles foram os bravos pioneiros que avançaram ano a ano, década a década, vida a vida, ganhando e perdendo, nascendo e morrendo, procriando e matando, para que nós estivéssemos aqui. Nós somos o bom resultado de todo este esforço: os frutos que deram certo!

Honrar a este passado significa andar. Ir para frente. Carregar esta força de combate, resiliência, inteligência, estratégia, amor e dor, tudo isso dentro de nós… e fazer a nossa parte. Montar no cavalo do sucesso que passar arreado à nossa frente. Para isso também necessitaremos bravura. Coragem. Usar um pouco desta raiva, que nos torna desconfortáveis diante de situações desagradáveis, como motivação para avançar. “Lute apenas por lutar sem pensar em perda ou ganho, em alegria ou tristeza, em vitória ou em derrota, pois, agindo desse modo, você nunca pecará”, aconselha Krishna ao atemorizado guerreiro Arjuna, no livro sagrado indiano, Bhagavad-Gita.

E quando dizemos lutar, muitos pensarão em levantar bandeiras e comprar causas sociais, políticas ou espirituais. No meu entender, não é necessariamente isso. A luta é contra os próprios fantasmas internos. Os medos. Os vícios. As estratégias que nos impedem de sermos amorosos conosco e com o outro, e complicam a transmissão dos nossos dons e talentos para o universo, em retribuição e gratidão a tudo o que recebemos da vida.

Sem um pouco de raiva concentrada e bem direcionada – para frente! -, não tiramos a bunda da cadeira para nos mover nesta tarefa tão importante, e tão difícil: manifestar o melhor daquilo que somos, ainda nesta vida. Aqui e agora.

 

 

 

Acalme-se. O “processo” não está em suas mãos

acalmeseO buscador gosta de dizer: estou em processo! Estou me trabalhando! E até usa deste artifício para diferenciar-se daqueles que “não se trabalham”. E pressioná-los para que façam alguma coisa. Alguma coisa espiritual. Ou terapêutica. Ou ambos. Torna-se frenético. Compulsivo. Não raro, utiliza-se do bom argumento para ferir e ferir-se. Estar se trabalhando vira vício. Um vício que encobre um profundo desamor e revolta: eu não me aceito do jeito como sou. Eu não aceito as coisas como elas são. Eu não aceito! Eu vou mudar a qualquer custo!

O ego toma conta do processo. E sutilmente, invade uma área que ele sabe não ser sua: a cura. A transformação. O encontro da Paz.

Se o ego está doente, ele precisa entregar-se à cura, sim. Confiar no trabalho de um curador. Que age em nome de Algo Maior. E sair da frente. Deixar de querer atingir algum lugar. Por exemplo: conquistar um amor. Recuperar a saúde física, mental, emocional ou financeira. Reatar relações. Reerguer empreendimentos. O poder do ego está na sua inteligência, na sua estratégia, na sua capacidade de ação. O que, em si, não significa muita coisa. Podemos aprender a fazer “tudo certo”, e mesmo assim, tudo dá errado. O aprendizado que talvez Deus queira de você não é o de fazer as coisas darem certo, mas de harmonizar-se com o fracasso. Com a sensação de incapacidade e impotência. Com a sua insignificância e fragilidade…

Afinal, alguém que se diz um buscador, no fundo, não coloca em primeiro plano o sucesso pessoal, profissional, empresarial, atingir metas na saúde ou no amor. O verdadeiro buscador quer encontrar Deus. O Amor. A Compaixão. O Perdão. A Alegria. O Prazer. E acredite você, ou não, o Universo está neste exato momento abrindo a estrada por onde você irá passar, como o Rei que é, rumo a encontrar e ocupar o seu verdadeiro Trono.

Acalme-se. Tudo está programado e previsto. No seu verdadeiro tempo, o véu será descortinado. E você verá. E reconhecerá! Enquanto isso não ocorre, viva mais leve! Deixe de querer chegar! Domine sua ansiedade e sua angústia. Medite! Faça, sim, mas sem expectativas… Deixe de pressionar-se. E pressionar os outros. No grande mistério da vida, a chegada não é um lugar físico a ser encontrado em algum momento específico. É um lugar onde você já está, Aqui e Agora. Pare de correr dentro da rodinha, que gira, gira e gira… e você não sai do lugar. Sente-se ao lado dela. Feche os olhos. Respire. Profundamente… Você é perfeito, com todas as suas imperfeições. O mundo está ok. Os outros estão ok. A sua vida é essa mesma e está tudo certo. Pronto. É só isso. Afine a sua mente. Respire mais uma vez. E solte… solte… solte…

Por que atraímos doenças e infortúnios? (vídeo)

O “vínculo” inconsciente que temos a pessoas e situações do passado familiar, muitas vezes desconhecidas, faz com que repitamos dores, doenças, problemas, que de certa forma, sinalizam para a cura que o sistema deseja. Esta é a explicação da constelação familiar. Mas a ciência também começa a encontrar algumas possíveis explicações para a repetição de traumas de geração em geração, através da epigenética. Alex Possato fala um pouco sobre este mecanismo, e a possibilidade de desligar-se dos efeitos destes “vínculos” através do autoconhecimento e terapia.

 

A dor faz parte!

vida bonita

Estou caminhando no Parque da Aclimação, domingão de sol entre nuvens… quando ouço:

– Ele já fez três operações no joelho e não resolveu… Viu, precisa perseverar no exercício físico. Bicicleta pra fortalecer… caminhada…

O homem ao seu lado deu um grunhido, algo que não entendi se era sim, não ou não encha o saco! De longe, eu já havia reparado nele. Sua perna direita estava cheia de marcas, varizes e protuberâncias. Não sei o diagnóstico, mas não parecia saudável. Seu tronco arqueado e suas passadas desvitalizadas mostravam que algo não estava bem com ele, que devia ter aproximadamente a minha idade.

Bem… deixa eles pra lá, pensei comigo. Eu estava na sétima volta no parque. Mesmo tendo estabelecido dez voltas, já estava quase querendo voltar. As dores na lombar, que me acompanham há um ano, incomodavam um pouco. Mas após ouvir “a chamada” daquela mulher, falei pra mim mesmo: tem que perseverar, ô meu! Não quero operar nenhum joelho… Mesmo não tendo nenhum problema no joelho…

Prosseguindo no andar rápido, lembrei-me do Caminho de Santiago de Compostela. Alguém havia me dito: não há caminho sem dor. A dor faz parte. E realmente… uma longa jornada, quase oitocentos quilômetros, cerca de 25 por dia, não há como não doer algo. Nem que seja o cérebro!

Trabalhando com dezenas de pessoas que buscam mudanças profundas na própria vida, costumo olhar para o caminho de sair do padrão antigo, para alcançar uma nova forma de agir e viver uma vida melhor e diferente, como uma longa jornada! Largar um vício. Deixar uma carreira. Sair de uma relação abusiva. Se abrir para um novo amor. Divorciar. Casar. Divorciar e casar novamente. Mudar de cidade ou estado. Alcançar a prosperidade. Enfim, mudanças profundas, que exigem um total alinhamento das crenças, do emocional e das ações. E ainda, uma adequação ao tempo que a própria vida impõem, muitas vezes diferente do tempo que gostaríamos de ver as mudanças acontecendo.

E percebo o quanto alguns doidos desejam a mudança mágica, instantânea, com um mínimo de esforço e dor… Inclusive assumem a postura de alguém que já está mudando. Agora será diferente! Sou um novo homem! Aquela carreira já era: sou um isso e aquilo. O passado não me afeta… E por aí vai. A maior parte destas bravatas, auto enganação. Para não olhar para a dor que ficou.

Quando não se valida a dor, os desafios, os fracassos do passado, não validamos os aprendizados. As conquistas. O lado bom de tudo – que só existe devido ao lado ruim de tudo. Não despertamos gratidão pelas coisas vividas. E olhamos para o futuro com um sentimento de vingança: será melhor do que antes! Eu acharei um cara bem melhor do que este canalha! Não sei como me enfiei neste emprego de merda por tantos anos – agora serei independente!

Mal sabemos que tudo o que vivemos é preparação para aquilo que nos é apresentado aqui e agora. Todas, absolutamente todas as experiências do passado, nos fornecem os recursos necessários para atuarmos com maestria no aqui e agora. Mas ao negar o passado, negamos também os dons e talentos despertados nesta longa caminhada.

A vida é muito bonita! E mesmo com situações difíceis, ela chega a ser excitante, se olharmos para tudo como oportunidades milimetricamente colocadas na nossa frente, para desenvolvermos mais um pouquinho o nosso potencial. Achamos erroneamente que existe algo errado em nós, quando uma situação não dá certo. E por isso queremos fugir dos erros. “O não dar certo” está certo!  Não nascemos para acertar tudo o que fazemos: nascemos para despertar o melhor em nós, que só enxergamos, quando somos provocados!

Entenda bem a diferença: não estou dizendo para cultuar o sofrimento e a dor. Estou dizendo, somente isso: alguma dor faz parte! Principalmente nas grandes mudanças da vida. E se planejarmos cuidadosamente, aprendermos a olhar para nossos hábitos, pensamentos e emoções e equilibrá-los com nossas ações, estas dores serão minimizadas. E assim, também vivenciaremos inúmeros momentos de alegria e desfrute…

Voltando lá no início do texto, na minha caminhada no Parque da Aclimação, e depois na lembrança do Caminho de Santiago, posso afirmar para você: o deslumbre e prazer que tenho nas caminhadas é infinitamente superior às dores lombares, tendinites e outros “ites” que volta e meia ataca um jovem de cinquenta anos como eu… Mas quando me foco na dor, começo a perder a motivação para caminhar. Por outro lado, se finjo não existir a dor, acabo exagerando e me machucando mais do que devia, impedindo a caminhada por um prazo muito maior. Aprender a olhar para a dor, para os limites do corpo e impulsionado pelo prazer de andar, me traz consciência. Ajusta meu ritmo. Tira-me a ânsia de chegar a algum lugar. Motiva-me a cuidar amorosamente do meu corpo. Ouso dizer que, desta forma, consigo viver um pouco mais feliz!

Sim, a dor faz parte!

Alex Possato