Quando a exposição nas redes sociais perde o sentido?

redes sociais

 

Estou há alguns meses bem contido nos meus textos e reflexões. Tenho postado menos os famosos “textões” que tanto gosto de escrever. Passo por um momento de reavaliação dos meus propósitos e dos meus objetivos: para que escrevo? Para quem escrevo? Onde quero chegar?

E percebi que, durante um tempo, estava andando no piloto automático: fazer textos no blog e Facebook, publicar posts no Instagram, criar vídeos para o Youtube. Existe uma dinâmica muito clara das pessoas que usam as redes sociais como forma de alavancar sua imagem profissional, e esta dinâmica passa pela quantidade de informação e exposição fornecida, geralmente conteúdos atrelados à venda de cursos, workshops e produtos. Até aí, tudo bem. Ninguém está obrigando ninguém a comprar isso ou aquilo. E muito do conteúdo que é oferecido, às vezes tem significância.

Mas no meu caso específico, eu não estou começando agora. Não preciso me tornar conhecido, porque meu trabalho anda muito bem, obrigado. E eu sou um cara que busca sempre ser muito verdadeiro nas coisas que faz. Dias destes publiquei uma postagem no Instagram perguntando exatamente sobre isso: para que bombar na Internet? E vieram dezenas de respostas, a esmagadora maioria falando para mim o quanto que é importante levar o conhecimento e reflexões que proponho a mais e mais pessoas. Fiquei muito feliz com as respostas… mas também analisei algumas que concordavam que o excesso de mídia denota insegurança do comunicador.

Elogios são maravilhosos e críticas também. Me perguntei: existe alguém, dentro de mim, que realmente tem um conteúdo útil, bacana, verdadeiro para ser passado? Sim! E existe alguém que deseja ser visto, aprovado, validado, elogiado? Também sim! E tem alguém que foge das críticas, comparações e julgamentos como o diabo foge da cruz? Claro!

Somos seres múltiplos, e ao mesmo tempo que habita um ser missionário em mim, coabita uma criança abandonada buscando carinho. Existe um comunicador intuitivo e espontâneo, mas também vive um marqueteiro conhecedor dos meandros emocionais que podem atingir mais e mais público.

Eu sou visto! E daí?

As redes sociais dão esta falsa ideia de que estamos sendo vistos. Sim, estamos. Em alguns segundos. Para depois, não mais. Pense bem: das centenas, milhares de frases, textos e vídeos que você vê, qual o nome das pessoas que produzem estes materiais realmente você lembra? E se estas pessoas deixassem de produzir material por alguns meses, será que a ausência seria notada? Não surgiriam outros comunicadores para preencher este espaço? Fazendo coisas tão boas ou bem melhores daquelas até então produzidas?

A questão então volta a ser: para que produzo? Para que faço o meu trabalho? Em essência, o que estou desejando? Acho que estas perguntas podem auxiliar todas as pessoas, incluindo aquelas que não se comunicam na Internet.

Busquei o auxílio da Carol Guedes para realinhar os objetivos do meu trabalho. Porque embora eu entenda conscientemente as indagações que fiz, não estava conseguindo encontrar respostas que aliviassem o meu sentimento de vazio e frustração com as redes sociais. Principalmente após ver tantas ofensas e perversidades sendo disparadas gratuitamente, poluindo a tela do meu celular e computador, nos últimos meses de campanha eleitoral.

Vale a pena oferecer flores num campo de batalha?

Quando o “eu” fica em segundo plano, a mensagem ganha importância

Talvez você tenha notado que estou conduzindo a narrativa deste texto em primeira pessoa. Eu, eu, eu… Aí é que está o problema. Quando trabalho para “me” divulgar, alavancar o “meu” trabalho, ficar pessoalmente conhecido, “me” destacar, aumentar “meus” números, estou a serviço de um ser carente, que ilusoriamente acredita “ser alguém” quando ganha visibilidade. Eu posso dizer que este ser dentro de mim é um ser adoentado. Frágil. Que é alimentado com migalhas de likes e emojis. Lembra-me o Tamagotchi, bichinho virtual que era febre há 20 anos atrás. Se não alimentássemos e cuidássemos dele, ele morria…

Pois bem. Para que possamos realmente expressar qualquer coisa através da nossa essência, é necessário, ao menos, deixar nosso ser em busca de reconhecimento de lado. É o que penso. O Tamagotchi interior precisa ser desligado. O foco precisa ser direcionado para “você” e não “eu”! O conteúdo das coisas que faço precisa ser carinhosamente pensado para agregar conteúdo na “sua” vida. Porque, se não agrega, para que fazer?

Em silêncio, eu ouço você… eu vejo você… e me ouço… e me vejo…

Uma outra característica das redes sociais é o excesso. Poluição de informações, entretenimento, desinformações e estímulos. Nos mantemos presos a ela, quase 24 horas do dia. Tudo bem que as pessoas fiquem presas às redes sociais. Assim é o ritmo da sociedade frenética. Mas eu não preciso disso. Ao contrário, eu preciso de silêncio. Eu preciso de paz, para saber e ouvir o que você precisa. Onde está sua necessidade e se posso auxiliar. Se é que posso auxiliar. Falar coisas que possam abrir espaços de consciência. Abrandar os corações. Trazer possibilidades de cura e reconciliação. Provocações que façam você se mover.

Em silêncio, o conteúdo que produzir será muito mais sintonizado com as suas necessidades… e também me preencherá – mas de outra forma. Por você, a comunicação na rede social ganha sentido. Se for somente por mim, não tem sentido.

Assim podemos ir caminhando. Você no seu ritmo, eu no meu ritmo. Fazendo coisas porque o coração deseja fazer, e não porque me sinto obrigado a preencher espaços. E como a mente humana é um balaio de gato, sempre que eu sair deste trilho, conto com você para, através dos seus comentários, me alertar e orientar! Assim, acredito que faremos um bom trabalho! Eu e você! Em prol de algo muito maior que nós dois!

 

Alex Possato

 

 

Se está ventando muito, sente-se…

 

E espere. Na Patagônia, as rajadas de vento chegam facilmente a 70 ou 80 km/h. Ou mais… Vento capaz de jogar um carro estacionado de cabeça pra baixo. Diante dos ventos, que começam do nada e também acabam do nada… nada há a fazer. Em alguns casos, somente sentar… esperar… e até curtir…
Pode ser aterrorizante como somos pequenos diante das situações da vida. E muitas vezes, muitas mesmo, impotentes! E eu pergunto: e daí? Qual é o problema em não poder fazer nada, quando algumas coisas estão ruindo? Quando enfrentamos problemas onde a solução não se mostra? Quando tentamos, tentamos, e nada acontece?
Deixe aquela voz do papai, mamãe ou até o seu senso crítico passar por uma orelha e sair pela outra: incompetente! Incapaz! Lerdo! Burro! Deixe de lutar contra forças maiores que você! As boas soluções, neste mundão de Deus, necessitam de surgir de um lugar de silêncio. Aguardo. Consciência. Um lugar onde podemos perceber as vozes internas, os medos internos, a ansiedade, a cabeça pensante ensandecida… e não agir imediatamente. Raras as vezes somos convocados à ação imediata… geralmente quando existem coisas muito importantes em risco… A vida, a segurança, as pessoas amadas… isso é muito raro.
Na maioria das vezes, se o vento é forte… sente-se. E aguarde! E se puder, curta! Que a vida é curta! Mas pode ser muito divertida. Mesmo quando não parece…

A crítica nos impede de amar

critica

 

Criticamos muito. Tudo aquilo que não se encaixa nos nossos paradigmas, são alvo da venenosa comparação. Julgamento. Condenação. Exclusão. Não percebemos que esta crítica, no fundo, é uma defesa contra aquilo que, de alguma forma, acreditamos que pode nos machucar.

Rejeitamos aquilo que nos assusta. Que nos amedronta. Que nos agride. Embora, em geral, jamais seremos atingidos pelas pessoas que criticamos. A crítica é um elaborado jogo da criança interior ferida, que depois de adulta, usa de argumentos lógicos e cheios de razão para defender-se de questões emocionais mal resolvidas do passado.

Por exemplo, quando pequeno, senti-me inferiorizado e ridicularizado pelo meu irmão e avô, que sempre sabiam mais, e na minha visão infantil, desprezavam o meu saber inocente e infantil. Eu era bobo. Burro. Ridículo. Estúpido. Ficava enfurecido com esta desvalidação, e depois triste, por não me sentir a altura do conhecimento deles. Por não poder fazer parte das conversas e brincadeiras.

Após crescer, quando alguém (e isso serve para qualquer pessoa, conhecida ou não, real ou do mundo virtual), de alguma forma desafia meus conhecimentos e posicionamentos, é muito normal que a raiva e a tristeza daquela criança ferida de antigamente volte. E aí detono a pessoa! Ou viro as costas. Bato, através das palavras. Ou abandono.

Enquanto estamos identificados com as dores do passado, não nos abrimos para o amor. Não validamos o que sabemos, nem respeitamos o saber dos outros. Criamos cisão. Nos isolamos no nosso mundo intelectual e emocional, e vemos o outro como possível inimigo.

O mundo das redes sociais viralizam a crítica. Somos conclamados a tomar partido contra isto ou a favor daquilo, em nome de argumentos às vezes bons, às vezes péssimos. O que há por detrás destas posturas? Ao meu ver, uma profunda ferida coletiva, onde tantos se sentem desvalidados, e crêem que, ao tomar partido, estão “pertencendo”. Mas a que custo chega esta sensação de “pertencimento”?

O preço a ser pago é excluir aquele que não pensa ou age como você…

Convido você que pense um pouco melhor antes de acreditar nas próprias críticas. Não digo: pare de criticar, mas sim… pare de acreditar que seus argumentos são verdades absolutas. E que por você ter suas verdades, quem não compactua consigo é inferior. Pergunte-se: quem me ensinou a criticar? Como critico a mim mesmo? Quais as experiências na infância e juventude tive, em relação a ver validadas (ou não) minhas opiniões? Aquilo que critico nos outros, tenho em mim também (mesmo que em formas ou graus diferentes)?

Após fazer esta autoanálise profunda, perceba se, pelo menos um pouquinho, você não está aberto e disposto a amar o próximo, mesmo que ele pense e aja diferente daquilo que crê…

Um só ser… infinitas formas de pensar e agir…

 

Alex Possato

O futuro é agora

vida

 

Às vezes passo tempo demais procurando encontrar algo que me faça sentido, e não vejo que o sentido está passando exatamente neste momento, debaixo do meu nariz. Acho que os projetos me trarão realização futura e deixo a mente entorpecida por planos e devaneios, longe da presença e do centramento.
Não há como eu ser feliz e realizado fugindo e combatendo aquilo que é e está presente, aqui e agora.

O corpo ideal é o meu corpo, aqui e agora. Com o seu peso, seus contornos, suas dores e prazeres.
A melhor companhia? Aquela que está comigo, aqui e agora. Ahhh… estou só? Melhor ainda! Pelo menos estou com quem mais entende de eu mesmo!
O saldo bancário perfeito é o meu saldo bancário que aparece na telinha do smartphone. Com tantos zeros a mais ou a menos, é a parte que me cabe deste fluxo infinito de prosperidade, que goste eu ou não, tem me abastecido desde que nasci, a cada dia provendo o pão que me alimenta, os panos que me vestem, o teto que me abriga.
O trabalho ideal? É aquele que faço hoje. Aprendido através da laboriosa dedicação do universo, diariamente acordando cedo para despertar meus talentos e colocar-me a serviço, preparando-me como mãe zelosa prepara o filho para o primeiro dia de escola.
O maior conhecimento é aquele que já sei. Tanto pelos incontáveis estudos, mas principalmente adquiridos pelo simples fato de viver, e estar no lugar certo e na hora certa, presenciando tantas experiências, tanta dor e tantas alegrias que me preencheram de sentido e sabedoria.

Se posso pedir algo a Deus, peço que Ele auxilie-me a abrir os olhos para ver a Vida. Os ouvidos para escutar a Vida. O nariz para aspirar a Vida. Boca para provar a Vida. O coração para sentir a Vida. E desperte minha compaixão e tolerância, para que eu acolha o que vejo, ouço, cheiro, saboreio, sinto… e simplesmente descarto… porque julgo inválido, ruim, inadequado de ser vivido.

A vida é essa. Com suas cores, sabores, sons, aromas… bons e maus, belos ou feios, nada há além disso. Como é rico dançar com a vida, curtindo cada segundo, assombrando-se com o que ela oferece de maravilhoso e aterrador! Que minha doce e curiosa criança reaprenda a se espantar com a vida, como ela é… e ensine o meu velho angustiado a relaxar, descansar, parar de queimar o cérebro com tantas memórias e projeções, tudo matéria morta, que me tira da doce experiência de viver.

Alex Possato

Disciplina

disciplina

“A única disciplina que a vida impõem, se formos capazes de a assumir, é aceitar a vida sem a questionar” Henry Miller – escritor

A raiz da palavra disciplina é a mesma de discipulus, aquele que aprende… Talvez marcados pelas dores de termos sido ensinados por pessoas agressivas, ou manipuladoras, ou incapazes, ou ainda sádicas, é provável que não consigamos lidar muito bem, nem com a palavra disciplina, nem com a ação disciplinada.

A disciplina implica, antes de qualquer coisa, uma disposição para aprender. E um reconhecimento na capacidade daquele que ensina. Às vezes sinto dificuldade uma ou outra vez em manter a disciplina, a atenção dos meus alunos, e então me pergunto: onde está faltando o meu posicionamento como professor? Onde eu nego a disciplina em mim mesmo?

E me percebo indisciplinado em muitos momentos: no meu caminho espiritual, deixo de efetuar as práticas meditativas da forma como fui instruído a fazer. Nos meus hábitos, volta e meia me vejo caindo em compulsões da bebida, comida, café, distrações na internet, etc., deixando de lado as coisas realmente importantes que clamam por serem feitas. E quando me perco na indisciplina, posso perceber: onde quero chegar? Qual é o meu objetivo de aprendizagem? E no meu tempo, amorosamente, cuidadosamente, realinhar minhas ações.

Mas uma coisa é importante perceber: quem faz tudo o que deve fazer não é necessariamente disciplinado, já que disciplina também implica aprender. Ao deixar de fazer aquilo que julguei dever fazer, posso aprender com isso. Que emoções surgem quando me rebelo a uma ordem, seja uma ordem minha, ou uma ordem de alguém? Como me sinto ao cumprir as ordens? O que realmente desejo aprender? Estou validando meus caminhos, meus mestres, meus professores, ou me acho melhor que eles? Estou desqualificando? Contra quem, especificamente, estou lutando dentro de mim ao me tornar rebelde?

Acredito que uma mente pacífica é disciplinada. Ela sabe o que fazer, e o que não fazer. E assume as consequências dos seus atos. Ouve a voz do coração, e sente os impulsos da mente, e entre os dois, pesa qual o dever que a situação requer: seguir o coração, ou seguir as regras e crenças? Nem sempre é possível seguir o coração. Nem sempre é possível seguir aquilo que nos traz prazer e conforto. Às vezes, é necessário a dureza. Às vezes, é necessário cumprir as leis, as regras, obedecer as autoridades. Dar a César o que é de César. Saber discernir é a sabedoria necessária.

Muito da indisciplina está marcado pela desobediência em relação aos pais. Se tivemos problemas com as autoridades, que são o papai e a mamãe, e nossos educadores, teremos muita dificuldade com a disciplina. Negamos a educação, da forma como ela veio – e às vezes veio de uma forma muito rude, muito difícil mesmo – e também negamos os professores e as autoridades. O grande problema disso é que, ao nos percebermos indisciplinados, temos muita dificuldade em dar comandos a nós mesmos e obedecer estes comandos. Pare de fumar! – digo. Mas não faço. Descanse mais! – não me permito. Cuide melhor dos seus amados! – me desvio em outras atividades. Tenha meta, crie um foco e siga! – e preferimos andar dispersos.

Uma pessoa indisciplinada não consegue atingir seus objetivos. Acho que isso não é novidade. Por exemplo: a dificuldade de regrar alguns pontos na minha vida semeou imensas perdas, até o momento em que eu tive forças mentais, emocionais e atitudes para mudar meu comportamento.  Uma destas áreas foi a financeira. Por não ter nenhuma disciplina com o dinheiro, durante décadas vivi uma vida de dívidas e de dificuldades, ganhos e perdas. Até que, em um momento necessário, onde a vida me empurrou para o abismo, resolvi fazer o que eu nunca houvera nem sonhado em conseguir: controlar as finanças, centavo a centavo. Traçar metas profissionais. Projetar meu futuro. E, como disse acima, eu também era um rebelde: condenei a disciplina recebida em casa, e achava que, fazendo diferente, chegaria a algum lugar. Não cheguei. Quando resolvi validar aquilo que aprendi, a vida mudou. Entendi, na prática, o que o líder judeu Ben Gurion disse: “não existe contradição entre disciplina e iniciativa. São o complemento uma da outra”.

A boa agressividade

agressividade

 

A raiz da palavra agressividade é a mesma da palavra grau, em latim. No sentido mais puro, agredir quer dizer ir em direção a, seguir rumo a um nível ou grau diferente… Durante muito tempo carreguei a crença de que a agressividade era uma atitude não conveniente e espiritualmente desabonadora.

Talvez porque tive uma infância cercada por agressões físicas, mas principalmente morais, dentro de uma família neurótica… e incapaz de reagir – quando reagia, era punido – aprendi a lidar muito mal com o meu impulso agressivo. Desenvolvi o medo de agredir e o medo de ser agredido. Comecei a andar com o freio de mão puxado. Parte da minha energia me puxava para frente, e parte dela mantinha-me preso no lugar onde estava.

O que me foi muito prejudicial no momento em que tive que partir para a vida. Agredir era errado. Então, como conquistar minha estabilidade financeira? Como avançar nos meus objetivos? Como conquistar o lugar ao sol que eu tanto queria?

Porém, como vemos na origem da palavra, agressividade não é algo ruim. É um movimento natural, que pode ser usado inclusive em situações onde não temos nenhum tipo de raiva. Para mudar o grau, é necessário um impulso agressivo. Para deixar uma vida de sofrimento, seja este sofrimento financeiro, afetivo ou outro qualquer, é importante validar o próprio impulso agressivo.

O bom agressivo não ataca ninguém. Não está lutando contra nada. Simplesmente está fazendo um movimento rumo a um outro nível na própria vida. Exige esforço  e competitividade, mas isso pode ser desempenhado com leveza, humor e alegria. Se precisar defender o próprio território, o bom agressivo está no seu lugar, em posse dos seus direitos, e como um samurai, preserva o lugar conquistado sem perder a calma. A agressividade assentada interiormente é um estado de espírito, e não necessariamente uma atitude externa.

Ser guerreiro é algo nobre. Acredito que as guerras interiores são muito mais importantes que as guerras exteriores – para aquele que está buscando o autoconhecimento e crê na possibilidade de uma vida feliz e saudável. Olhar para si, conhecer seus impulsos, sua raiva, sua covardia, sua compaixão, sua inflexibilidade, as diversas variáveis emocionais que habitam o seu “eu mais profundo”  é condição fundamental para um andar confiante, produtivo, realizado.

No meu dicionário de conduta, agressividade faz parte!

(dedico este texto a tantas pessoas que, assim como eu, um dia acreditaram que ser agressivo era algo que depunha contra a própria evolução espiritual neste planeta – e por isso, teve muita dificuldade em manter os esforços necessários para alcançar seus objetivos legítimos nesta vida: prosperidade, sucesso, saúde, amizades, boas relações afetivas, paz de espírito.)

O meu lugar

20170103_134125

Entre Oaxaca e a cidade do México, atravessamos um longo deserto, habitado por milhares e milhares de cactos, e alguns perseverantes e humildes seres humanos. Chegando à capital, minha filha disse: que bom estar em casa! Eu retruquei: você já se sente em casa, aqui, após um ano de moradia?
– Sim! É onde tenho meu apartamento, minhas coisas, meu trabalho!
Isso me faz pensar. Eu nunca me senti em casa, em quase nenhum lugar onde morei. Desde pequeno vivi entre deslocamentos, da casa da minha mãe, para a casa dos meus avós. Anos assim. Tinha a sensação de que, a qualquer momento, teria que pegar minha malinha e sair, rumo ao incerto.
Assim foi minha infância. A sensação de insegurança o tempo todo. Não há como mudar isso. Essa foi a minha história. Mas fato é que me acostumei, depois de adulto, a viver com a mala na mão. Até hoje. Jamais fico muito tempo num lugar. Até o meu trabalho é um infinito deslocamento. Mas isso é até hoje. Papai e mamãe também eram assim. Sem lugar fixo. Nômades involuntários. Parece que sempre procurando algo. E nunca achando.
Sinto falta de um lugar para dizer: este é o meu lugar. O meu pedaço de chão. Onde tenho o direito de ficar, e ninguém poderá me tirar. Um lugar conquistado pelo meu merecimento. Minha terra prometida. Recebida pela minha negociação direta com Deus. Uma terra que, ao ser assumida, exige responsabilidade. Pois algo que é dado por Deus, deve ser cuidado como divino. Será que estou pronto a honrar o pedaço de chão que tanto desejo? Possivelmente, em meu passado não. Possivelmente, cuspi na terra que pisei. Ofendi os lugares que me acolheram. E como punição pela minha própria arrogância, fui condenado a vagar por aí. Com uma mala na mão. Em busca de algo. Que só receberei quando souber agradecer verdadeiramente cada cama em que deitei. Cada mesa em que sentei. Cada teto que me protegeu da chuva e do sol. Talvez a gratidão seja a chave para encontrar a terra prometida.
Não é uma questão de dinheiro para comprar algo. Não é disso que estou falando. É bem mais profundo. Temos a péssima ideia de dizer: minha propriedade! Pela qual fazemos as coisas mais absurdas, inclusive usando de instrumento de chantagens nas heranças e divórcios, entre outras demonstrações da cegueira humana. A frase é batida, mas é isso: nada é nosso. Tudo é somente uma concessão, que um dia será tirada.
Neste momento, estou falando contigo, senhor do universo. Reconheço a minha mediocridade e ganância. Minha ingratidão e desrespeito. Mas se a minha punição por estes crimes já estiver expirando, que eu possa encontrar um lugar. Um lugar onde eu possa finalmente estabilizar. Parar de andar cegamente. Crescer de outro jeito. E chamar de meu. Mesmo sabendo que tudo é seu. Incluindo a minha vida, o meu corpo, o meu trabalho…

O auto julgamento

demonios

 

Percebo você se corroendo por dentro, julgando-se, condenando-se, despejando ácido garganta abaixo, veneno veia adentro, desvalidando-se como se fosse o mais vil dos habitantes do inferno.

A quem serve esta estratégia? Ao seu ego, que assim pode manter vivo o personagem da vítima. Do errado. Do culpado. Do indisciplinado. Do infiel. Do pouco evoluído. Do viciado. Do compulsivo. A mente é um poço turbulento. Identificado à estas vozes demoníacas, você é atirado ao mais profundo abismo inconsciente, resgatando todos os monstros que estavam adormecidos em seu interior, trazendo-os à vida…

Por que eu permito que você viva esta agonia? Ao estar no inferno, talvez você se lembre de mim. Talvez você chame por mim… Você não conseguirá sair deste estado sozinho. É um estado de encantamento, onde, tal qual areia movediça, quanto mais você se mexe, mais afunda. Eu convido-o a parar de lutar contra os demônios. Deixe eles existirem. Deixe-os em paz. Pare de perturbá-los. Você os despertou. Sente-se e aquiete-se. Chame por mim.  Eu não me importo se você é pecador ou santo. Crente ou descrente. Saudável ou doente. Todos estes julgamentos estão em sua mente. Não na minha. Tudo, neste criação, serve à vida. À grande vida. Você também serve à esta vida. Entregue-se à vida, como ela é. Deixe estar. Sente-se. Aquiete-se. Respire um pouco comigo. Profundamente. Isso. Solte o ar. Profundamente. Respire mais uma vez. Comigo. Deixe a minha paz tomar posse de si.

Reorganizai-vos, guerreiros da luz!

sombra tempo

Tenho visto muitos irmãos curadores caindo, feridos, pelo campo de batalha. Amigos que compartilham belos trabalhos e são canais verdadeiros de curas e bênçãos… tendo a saúde física, mental e emocional atacadas. Assim o corpo padece e o trabalho não é mais realizado, ou é mal realizado.

Como a sombra está minando a sua resistência, irmão curador? Ela se entrincheirou na sua mente inconsciente, e está trazendo a tona seus medos mais profundos: o medo do abandono, da solidão, da miséria, medo de não dar conta, do julgamento, da punição… A sombra faz com que você trabalhe com culpa, ou sensação de salvador, ou ainda acreditando que precisa dar demais para se salvar, para ganhar dinheiro, ou talvez, salvar a humanidade. Às vezes, tira a sua força de produção. Joga-lhe no sofrimento. No vitimismo. Na guerra contra fantasmas ilusórios.

A compulsão está dominando seus atos. Compulsão pelo sexo. Pela bebida. Drogas. Pelos jogos. Pelo poder. Pela comida. Por relacionamentos. Fofocas e assuntos aleatórios na internet. Pornografia. Cultura. Cursos. Arte. Filmes. Distração. Discriminação política, social, sexual… Pensamentos repetitivos e descontrolados. Culto ao medo, à guerra, à dor e ao sofrimento.

A sombra dominou a informação. E a informação está sendo usada para dominar você. E você se deixa dominar porque não domina mais seu tempo.

Chegou o momento de parar. Se recompor. Recompor fileiras. Desligar-se dos veículos de comunicação. Mais e mais. E desligar-se dos seus pensamentos compulsivos. E suas emoções distorcidas. Desligar-se das fofocas e maledicências. E das pessoas que cultivam estes hábitos. Se faz necessário silêncio. Meditação. Pare agora! Chega de correr. Trabalhar como louco. Desorganizar-se. Chega de entupir sua mente e seu corpo de porcaria. Busque auxílio. Existem muitos irmãos que podem lhe ajudar. E em alguns momentos, estes irmãos também irão precisar da sua ajuda. É assim que vencemos a batalha. Juntos. Porque somos um só corpo, vibrando a luz que somos. E quando algumas células deste corpo se esquecem disso, o nosso sistema imunológico iluminado se encarrega de lembra-las.

Estando consciente de si mesmo, da sua real natureza iluminada, a sombra perde o poder. A luz é sempre luz. É eterna… e por isso, na luz, não há necessidade de correr. Ela lhe dá leveza. Paz. Sentimento de preenchimento. Proteção. Equilíbrio. Prosperidade. Força. Na luz, não lutamos contra nada. Nem contra a sombra. Somente usamos a nossa força para permanecermos na luz. E não nos desviarmos. A sombra não existe, na luz.

O prazer que a sombra proporciona é fugaz. E vicia. O prazer de estar na luz é perene. E não vicia, porque nos reconhecemos na luz. Não há como nos viciarmos daquilo que somos.

Está na hora, irmão, de escolher para qual lado você quer focar: luz, ou sombra. E usar de toda a sua intenção para perseverar no foco, se a escolha for a luz. Peça ajuda àquilo que você reconhece de mais verdadeiro, profundo e sagrado. Ela já foi dada.

 

Iniciação espiritual

iniciacaoespiritual

 

Ontem completou 4 anos que me iniciei espiritualmente na Índia. É uma data que guardo de forma mais carinhosa que meu próprio aniversário, pois, na minha mente mística, iniciação significa um novo nascimento: o nascimento do espírito.

Acredito firmemente que nascemos duas vezes neste planeta. Uma, biologicamente, onde estamos atrelados ao DNA da nossa ancestralidade, carregamos os nossos carmas e os carmas familiares para serem depurados, lições a serem aprendidas e liberadas. Esta etapa é fundamental para que, vagarosamente, percebamos nosso chakra cardíaco ir se ampliando, nossa capacidade de amar, tolerar, ter compaixão ir vagarosamente, despertando. São exatamente as provações físicas, financeiras, de relacionamentos, os descaminhos profissionais… os atritos que temos no nosso dia-a-dia, as incontáveis violências que vivenciamos no nosso desenvolvimento, juventude e até fase adulta que nos prepara para esse renascimento espiritual.

Alguns nunca se sentirão chamados para isso: a busca de “algo além”, da conexão profunda com o próprio ser, com o seu Eu mais divino, pacífico, poderoso e perfeito. Está tudo certo. Mas outros já nascem com aquele comichão de buscador incansável, que não sossegará enquanto não encontrar “o caminho”.

O desenvolvimento do buscador

Para quem nasce com a coceira espiritual no bumbum, terá uma dupla e difícil tarefa: ao mesmo tempo em que se sente provocado pela família, sociedade e mundo moderno a se ajustar aos padrões e “dar certo”, um lado seu sabe que tudo isso não tem a menor importância e deseja ardentemente se entregar a Deus, seja lá o que isso significa.

Assim, ao mesmo tempo em que vai tentando estabelecer uma vida familiar estável, ter sucesso no trabalho, construir seu patrimônio, ouve lá no fundinho da mente intuitiva uma voz: venha! Venha! Eu estou lhe esperando! Se entregue!

Esse duplo desafio também se dá na mente emocional e racional do buscador: enquanto ainda temos apegos emocionais e crenças rígidas em relação ao nosso passado – digo papai, mamãe, infância e ancestralidade – não sabemos confiar. Fomos muito feridos de diversas formas, e não confiamos no nosso pai, na nossa mãe, nas nossas raízes… então, como poderíamos confiar nesse “tal de Deus”, que nem sei como é? Como posso me entregar verdadeiramente em algum caminho espiritual?

Assim foi comigo. Passei por vários lugares: igreja católica, espiritismo kardecista, mahikari, seicho-no-ie, dei uma olhadinha no candomblé e umbanda, flertei com Osho, Krishnamurti, Yogananda, uma verdadeira salada de frutas. Não se exija coerência do buscador! Assim somos!

Mas posso dizer que nunca me entreguei totalmente num caminho. Eu não confio em meus pais. Também não confio em Deus, em sacerdote, em mestre, em guru, em pastor! Esta é a minha mente racional afetada pelo emocional ferido de uma criança que se sentiu abandonada e agredida. Em geral, é somente no desespero da mais gritante dor que, por não ver outra saída, nos entregamos. No momento em que meu casamento desmoronou, minha vida financeira estava um caco, eu estava mergulhado no vício do álcool, sem perspectivas profissionais, gritei: Deus! Se você existe, manifeste-se! Não aguento mais! Mostre-se e guie-me!

Não foi um pedido humilde. Foi uma intimação. Com toda a força que a dor me despertara. Eu nunca ousara falar com Deus desta forma. Forte e direta. Antes, era somente um jogo… como um adolescente tímido que não consegue pedir a mocinha para dançar no baile. E faz todo o charminho…

Se Deus é todo o poder do Universo, acho que temos que falar com ele com poder também. Um rei não atende um mendigo. E então o meu caminho começou a se mostrar. Alguém falou dele. Depois, um cliente repetiu. “Acidentalmente”, abri na internet informações sobre este caminho. Uma terapeuta tântrica me indicou. Parece que a vida vai conspirando. E aí, apesar de toda a resistência da minha mente, tive que ir entregando… afinal, não tinha outro caminho. Eu pedira, ele chegou.

Vida nova

Para que o novo possa surgir, o velho deve desaparecer. Quer a gente goste ou não, quando desejamos nova vida, precisamos deixar tudo aquilo que estamos apegados ir embora. Não dá para entrar no reino dos céus cheio de tralhas. Algumas pessoas interpretam esta passagem bíblica literalmente. Porém, no meu entendimento, as tralhas e apegos estão dentro de nós: o apego que sinto pela minha família. Pelas minhas crenças. Pelos meus vícios. Pelos meus conflitos emocionais. Pelo meu dinheiro. Pela minha honra. Pela minha moral. Pelos meus amigos. Pelo meu emprego. Pela minha carreira. Tudo isso está dentro de mim.

E é muito doloroso ver despencar tudo aquilo que era tão valoroso para meu Ego. Por isso a iniciação espiritual é algo tão provocativo. E a provocação só irá prosseguir após a iniciação. Dispa-se de todos seus trajes, deixe todos seus bens e me acompanhe, disse o mestre nazareno. Não é para qualquer um…

Na prática, após um período muito difícil, porém, não mais difícil do que aquele que eu já estava passando quando coloquei Deus na parede, flores começaram a brotar no meu jardim. Um novo trabalho, uma nova relação, nova casa, nova forma de viver com minha velha família. Minhas dívidas financeiras foram sendo pagas. Habilidades profissionais despertaram em mim. Minha mente começou a serenar, meus conflitos emocionais suavizaram, meus vícios foram, vagarosamente, cedendo…

Mas para que tudo isso houvesse acontecido, eu tive que dizer sim. E por mais que minha mente gritasse “não!”, o coração me guiava… Senti em muitos momentos, vigorosas lufadas de amor jorrando na minha cara, no meu corpo, no meu ser… Deus provava, dia após dia, a sua existência, a sua guiança, o seu comando sobre a minha vida. Portas iam se abrindo, caminhos se mostrando, pessoas chegando, uniões se estabelecendo. Minha mente se expandiu, percepções extra-sensoriais começaram a ocorrer… coisa que eu nunca imaginara… Não era nada ilusório: era prático, real, em todos os aspectos da minha vida. E ao mesmo tempo, a voz no meu coração continuava me dizendo: se entregue… agora é comigo.

Preciso confessar: minha mente continua negando meu caminho espiritual. Mas eu consegui ceder um milímetro, e perseverar. É só o início. Quatro anos na Terra pode significar milhões de anos na eternidade… A resistência é grande. Embora eu tenha provas o tempo todo, uma parte egóica ainda nega. Mas tudo bem. Até isso já sei que é desta forma.

Mesmo assim… somente com aquela pequena parte que, um dia, conseguiu dizer “sim” ao caminho, eu digo, curvado aos seus pés: obrigado, Mestre! Gratidão, Prem Baba… (nesse nome, que poderia ser qualquer um, reverencio todos os mestres do universo, todo caminho espiritual que possa atrair você… só há um único caminho correto: o seu caminho! E quando você está nele, você sabe que é ele… Luz na sua caminhada!)