A depressão de Whindersson Nunes e eu

Fui pego agora pouco de (não) surpresa pela notícia de que Whindersson Nunes está depressivo, sem vontade de viver. Dias destes postei sobre o impulso de morte que também sentia. E entendo ele perfeitamente. É um jovem talentoso e extremamente bem-sucedido, assim como Neymar e tantos outros, mas passam pelos mesmos dramas existenciais que todos nós, do lado de cá – milhões de pessoas que não alcançam o destaque deles e também vivenciam a mesma sensação de “falta de sentido”. A única diferença é que (talvez) nós continuamos correndo atrás do sucesso pessoal, profissional, nos relacionamentos, a cura da família, do corpo ou espiritual, achando que o dia em que obtivermos estes sucessos, seremos felizes.
Já vivi o bastante para entender que não. Não é aquilo que conquistamos que nos aproxima da paz interior que tanto queremos.
As conquistas e perdas da vida são simples instrumentos de um jogo maior, chamado “conheça a si mesmo!”. A grande pergunta é: como você lida com as conquistas na sua vida? Como você lida com as perdas na sua vida?
Você permite suas emoções fluírem, desde a raiva mais grotesca, a decepção mais gritante, a tristeza mais profunda, a culpa mais destrutiva até o amor mais arrebatador?
Os grandes traumas na sua alma estão pedindo para serem vistos. Traumas seus e dos seus antepassados. Vou dar um exemplo bem simples: ao ver seu pai fracassar financeiramente, você acredita que, se for uma pessoa bem-sucedida, toda a dor estará redimida. Quem sabe você até poderá pagar uma vida muito boa para este pai, como se isso fosse ajudá-lo a ser mais feliz. E lógico que de nada adiantará. Nem ele, nem você ficarão mais felizes com isso.
Qual é o pedido do universo? Que você aprenda a lidar com o fracasso. Saber lidar com as próprias dores, em algum momento, levará você a uma certa calmaria. E então virá o vazio… A paz.
Tudo isso convidando você a desacelerar. Curtir. Observar. Viver com menos expectativas. Viver, somente, viver.

Alex Possato

 

O medo de subir na vida

Domingo de Carnaval, lá estava eu pendurado numa parede de escalada, uns 6 metros do chão. Para cima, mais 4 metros, que minha mente se recusou a encarar. Para baixo, nada demais, afinal, com o sistema de segurança do lugar, nada poderia acontecer, a não ser ficar pendurado, balançando, enquanto que o equipamento nos devolvia ao solo firme e seguro.

Quem me conhece mais intimamente, sabe que me defronto constantemente com o pânico de lugares altos. As mãos suam excessivamente, as pernas perdem a firmeza, em alguns casos fico com vertigem. Pânico é pânico. E ele frequentemente me visita, até porque eu sempre gosto de conversar com ele. Faço práticas de trekking e algumas experiências em altura, para que eu possa conhece-lo melhor. E cada vez entendo um pouquinho mais sobre meus mecanismos internos.

Desta vez, observei meticulosamente minha reação:

– subia bem até um determinado patamar;

– em certo ponto, os pensamentos diziam: aqui está bom! Chega!

– meu corpo, imediatamente, começava a apresentar sinais de desestabilização, perda de força nos membros;

– meu foco se perdia e eu não conseguia mais encontrar locais adequados para apoiar os pés e continuar subindo;

– então, eu desistia, e pedia pra descer.

Subindo na jornada da vida

Estou planejando uma jornada sistêmica em Israel (dá uma olhada no link com a descrição, está bem legal o projeto!). O grupo está se formando, porém, ainda temos várias etapas para vencer: aumentar o grupo é a principal, e para isso, fazer todos os movimentos de comunicação necessários, alianças, etc.

Este projeto, que possui desafios, está contido dentro de outro projeto maior, que tem a ver com o meu desenvolvimento profissional. Mais um tantão de desafios a serem transpostos. Estou sentindo um chamado para subir, indo a patamares antes não alcançados.  E aí posso fazer o paralelo das “mensagens da escalada”.

Existe uma parte dentro de mim que se recusa a prosseguir. Diz: aqui está bom! Chega! Pode descer! E da mesma forma que eu travo literalmente nos lugares altos, eu travo nas minhas atividades práticas, direcionados ao meu crescer profissional.

Percebi uma falta de perseverança, fibra, constância e disciplina muito forte reinando no meu sistema interno. E então eu pedi – sim! Eu pedi! – para que Deus me mostrasse o que eu precisava ver… É gente, eu faço assim. Observo o trabalho acontecendo dentro de mim, e então peço orientação… E ela vem!

Passei o dia de ontem com muita raiva. Sentia a energia de raiva pulsando em mim. E ao dormir, sonhei. Sonhei bastante. Alguns sonhos bem desconfortáveis, mas o que mais me chamou atenção foi um sonho onde eu brigava com minha mãe. Eu queria fazer algo por ela, ela se recusou, e me deu algumas moedinhas para que eu voltasse para casa. Então, furioso, joguei todas as moedas no chão, dei-lhe as costas e fui embora, bufando. Acordei.

A criança vive para ser aprovada pela família

Esta cena das moedas, com detalhes um pouco diferentes, ocorreu comigo e minha avó, que cuidou de mim por oito anos. Não joguei literalmente as moedas no chão, porém, recusei o “presente” que ela queria me dar, porque eu estava puto. Ela me dominava completamente, e fazia de mim o que queria. E de vez em quando, dava um dinheirinho para que eu pudesse comprar um sorvete ou algo assim. E naquele dia, eu disse: NÃO!!!

Hoje, passado décadas deste episódio, como terapeuta, entendo que esta parte psíquica que está presa na dor da criança reprimida ainda está atuando no meu sistema. E de alguma forma, ela controla o meu movimento ascendente na vida. Inclusive, é uma parte capaz de recusar as moedas e jogá-las no chão. Coisa que fiz muito tempo na minha vida, através do descontrole financeiro e incapacidade de poupar.

Eu planejo, trabalho e tenho capacidade de adulto. Muita capacidade. Porém, existe um lado infantil, emocional, que está lutando contra o adulto. Está rebelado, não quer seguir as ordens e prefere bater o pé e fazer bico. Na verdade, eu nunca bati o pé verdadeiramente para a minha avó e para as pessoas que me oprimiram. Eu simplesmente ouvia, engolia, e quando dava a hora certa, as abandonava. Dava-lhe as costas. Bufando e com muita raiva.

Todo mundo tem o direito de dizer que está magoado, machucado, amedrontado devido às ações de alguém. Porém, uma criança não tem este direito. Pelo menos, da forma como eu fui criado. Assim, a dor fica reprimida, inconsciente. Existe uma grande vontade de dizer FODA-SE! Eu não aceito mais! E ela não consegue. Dá muito medo. Esta energia continua dentro dela, pedindo para ser vista. Em algum momento, é necessário olhá-la nos olhos. Olhar para os olhos apavorados daquela criança que precisa confrontar os próprios pais. Ela tem este direito!

Subindo como adulto

Estou com cinquenta e um anos de idade. E volta e meia me defronto com estes processos psicológicos. Convidando-me para regressar aos meus tempos de criança. Isso não quer dizer que sou uma pessoa infantilizada – somente que existem algumas partes infantis feridas para serem vistas. Este é o processo natural.

Por isso sempre convido você a olhar para si desta forma: não somos bons ou maus porque temos mais ou menos traumas e comportamentos distorcidos em nós. Tudo são programações. Nosso sistema funciona como um computador, mas nós podemos olhar a tudo distanciado, e portanto, com a possibilidade de ir se transformando. Aos poucos. De acordo com nossas metas e objetivos.

A questão não é atingir o topo. Mas aprender na caminhada. Descobrir-se, ver como é maravilhoso o processo do despertar para os próprios padrões inconscientes. Perceber as resistências, e ok! O que elas têm para me ensinar? E também olhar para além disso tudo. Para o lado desvinculado com o sucesso pessoal ou material. Eu diria: um lado mais sensível, energético, espiritual. Porque em algum momento, esta jornada acaba. E você, assim como eu, possivelmente deixará muitas metas, pessoas e sonhos para trás… Mas… e daí? Se estamos aprendendo aquilo que é possível durante a caminhada, acho que já está valendo muito a pena.

Alex Possato

Você faz diferente da sua família? Sorria!

Quando você busca experiências diferentes do senso comum da sua própria família, está trabalhando inconscientemente para o crescimento e sobrevivência dela – embora isso possa ser visto como rebeldia e até ofensa. Portanto, relaxe, se sua família jamais entender o porquê você toma determinados caminhos ou faz determinadas escolhas.
Li uma definição totalmente lógica e motivadora que justificam nossas ações que, de certa forma, confrontam com ideias pré-estabelecidas dos nossos pais e parentes. Entendendo isso, podemos perceber que não é uma forma de combater nossa família, quando escolhemos caminhos e possibilidades que eles não gostam e até negam. Fazemos porque isso é natural. Da mesma forma, será natural que eles rejeitem, e esse é o preço que temos que pagar. Diz Octavio Diniz, em Constelaciones Familiares – manual del facilitador: “Um sistema se define tanto a partir das dinâmicas internas que se dão em seu interior como pelas fronteiras que estebelece com o mundo exterior. Estes limites, que separam a família do que a rodeia, geram uma dinâmica peculiar, já que são limites herméticos e ao mesmo tempo permeáveis.
Por um lado, uma família somente se define de um modo autorreferencial, diferenciando-se do resto das famílias e como um subsistema particular dentro da sociedade em seu conjunto.Por ser um sistema, a família é hermética e fechada em si mesma.
Mas por outro lado, um sistema somente cresce e se perpetua no tempo através de sua capacidade de abrir-se ao exterior e de mesclar-se com elementos de outros sistemas. As famílias se mantém no tempo pela entrada de pessoas alheias a si mesma, e que provém de outros sistemas familiares. Assim, o clã tende a perpetuar umas normas ou regras de funcionamento, mas estas se vem modificadas pela incorporação de pessoas pertencentes a outros sistemas, que trazem consigo suas próprias normas.”

Alex Possato

A dor faz parte!

vida bonita

Estou caminhando no Parque da Aclimação, domingão de sol entre nuvens… quando ouço:

– Ele já fez três operações no joelho e não resolveu… Viu, precisa perseverar no exercício físico. Bicicleta pra fortalecer… caminhada…

O homem ao seu lado deu um grunhido, algo que não entendi se era sim, não ou não encha o saco! De longe, eu já havia reparado nele. Sua perna direita estava cheia de marcas, varizes e protuberâncias. Não sei o diagnóstico, mas não parecia saudável. Seu tronco arqueado e suas passadas desvitalizadas mostravam que algo não estava bem com ele, que devia ter aproximadamente a minha idade.

Bem… deixa eles pra lá, pensei comigo. Eu estava na sétima volta no parque. Mesmo tendo estabelecido dez voltas, já estava quase querendo voltar. As dores na lombar, que me acompanham há um ano, incomodavam um pouco. Mas após ouvir “a chamada” daquela mulher, falei pra mim mesmo: tem que perseverar, ô meu! Não quero operar nenhum joelho… Mesmo não tendo nenhum problema no joelho…

Prosseguindo no andar rápido, lembrei-me do Caminho de Santiago de Compostela. Alguém havia me dito: não há caminho sem dor. A dor faz parte. E realmente… uma longa jornada, quase oitocentos quilômetros, cerca de 25 por dia, não há como não doer algo. Nem que seja o cérebro!

Trabalhando com dezenas de pessoas que buscam mudanças profundas na própria vida, costumo olhar para o caminho de sair do padrão antigo, para alcançar uma nova forma de agir e viver uma vida melhor e diferente, como uma longa jornada! Largar um vício. Deixar uma carreira. Sair de uma relação abusiva. Se abrir para um novo amor. Divorciar. Casar. Divorciar e casar novamente. Mudar de cidade ou estado. Alcançar a prosperidade. Enfim, mudanças profundas, que exigem um total alinhamento das crenças, do emocional e das ações. E ainda, uma adequação ao tempo que a própria vida impõem, muitas vezes diferente do tempo que gostaríamos de ver as mudanças acontecendo.

E percebo o quanto alguns doidos desejam a mudança mágica, instantânea, com um mínimo de esforço e dor… Inclusive assumem a postura de alguém que já está mudando. Agora será diferente! Sou um novo homem! Aquela carreira já era: sou um isso e aquilo. O passado não me afeta… E por aí vai. A maior parte destas bravatas, auto enganação. Para não olhar para a dor que ficou.

Quando não se valida a dor, os desafios, os fracassos do passado, não validamos os aprendizados. As conquistas. O lado bom de tudo – que só existe devido ao lado ruim de tudo. Não despertamos gratidão pelas coisas vividas. E olhamos para o futuro com um sentimento de vingança: será melhor do que antes! Eu acharei um cara bem melhor do que este canalha! Não sei como me enfiei neste emprego de merda por tantos anos – agora serei independente!

Mal sabemos que tudo o que vivemos é preparação para aquilo que nos é apresentado aqui e agora. Todas, absolutamente todas as experiências do passado, nos fornecem os recursos necessários para atuarmos com maestria no aqui e agora. Mas ao negar o passado, negamos também os dons e talentos despertados nesta longa caminhada.

A vida é muito bonita! E mesmo com situações difíceis, ela chega a ser excitante, se olharmos para tudo como oportunidades milimetricamente colocadas na nossa frente, para desenvolvermos mais um pouquinho o nosso potencial. Achamos erroneamente que existe algo errado em nós, quando uma situação não dá certo. E por isso queremos fugir dos erros. “O não dar certo” está certo!  Não nascemos para acertar tudo o que fazemos: nascemos para despertar o melhor em nós, que só enxergamos, quando somos provocados!

Entenda bem a diferença: não estou dizendo para cultuar o sofrimento e a dor. Estou dizendo, somente isso: alguma dor faz parte! Principalmente nas grandes mudanças da vida. E se planejarmos cuidadosamente, aprendermos a olhar para nossos hábitos, pensamentos e emoções e equilibrá-los com nossas ações, estas dores serão minimizadas. E assim, também vivenciaremos inúmeros momentos de alegria e desfrute…

Voltando lá no início do texto, na minha caminhada no Parque da Aclimação, e depois na lembrança do Caminho de Santiago, posso afirmar para você: o deslumbre e prazer que tenho nas caminhadas é infinitamente superior às dores lombares, tendinites e outros “ites” que volta e meia ataca um jovem de cinquenta anos como eu… Mas quando me foco na dor, começo a perder a motivação para caminhar. Por outro lado, se finjo não existir a dor, acabo exagerando e me machucando mais do que devia, impedindo a caminhada por um prazo muito maior. Aprender a olhar para a dor, para os limites do corpo e impulsionado pelo prazer de andar, me traz consciência. Ajusta meu ritmo. Tira-me a ânsia de chegar a algum lugar. Motiva-me a cuidar amorosamente do meu corpo. Ouso dizer que, desta forma, consigo viver um pouco mais feliz!

Sim, a dor faz parte!

Alex Possato

 

 

Se está ventando muito, sente-se…

 

E espere. Na Patagônia, as rajadas de vento chegam facilmente a 70 ou 80 km/h. Ou mais… Vento capaz de jogar um carro estacionado de cabeça pra baixo. Diante dos ventos, que começam do nada e também acabam do nada… nada há a fazer. Em alguns casos, somente sentar… esperar… e até curtir…
Pode ser aterrorizante como somos pequenos diante das situações da vida. E muitas vezes, muitas mesmo, impotentes! E eu pergunto: e daí? Qual é o problema em não poder fazer nada, quando algumas coisas estão ruindo? Quando enfrentamos problemas onde a solução não se mostra? Quando tentamos, tentamos, e nada acontece?
Deixe aquela voz do papai, mamãe ou até o seu senso crítico passar por uma orelha e sair pela outra: incompetente! Incapaz! Lerdo! Burro! Deixe de lutar contra forças maiores que você! As boas soluções, neste mundão de Deus, necessitam de surgir de um lugar de silêncio. Aguardo. Consciência. Um lugar onde podemos perceber as vozes internas, os medos internos, a ansiedade, a cabeça pensante ensandecida… e não agir imediatamente. Raras as vezes somos convocados à ação imediata… geralmente quando existem coisas muito importantes em risco… A vida, a segurança, as pessoas amadas… isso é muito raro.
Na maioria das vezes, se o vento é forte… sente-se. E aguarde! E se puder, curta! Que a vida é curta! Mas pode ser muito divertida. Mesmo quando não parece…