O que é constelar, para mim?

constelacao

A constelação familiar sistêmica, para muitos, é algo incompreensível. Como que as pessoas, sem se conhecerem ou sem saber das histórias pessoais e familiares dos constelados, podem assumir postura, tom de voz, movimentos e até falar como se fossem alguém do sistema familiar? De onde vem as emoções, que surgem do nada, e se vão também do nada? Por que o corpo fica tomado por algum tipo de energia, que nos faz perder a força, ir ao chão, ou ao contrário, nos deixa eretos e cheios de poder?

Por tudo isso e muito mais, uma roda de constelação instiga o imaginário, as crenças espirituais e facilita uma confusão com questões sobre mediunidade, energias – seja lá o que isso significa, telepatia, hipnose, obsessão, incorporação, animismo, etc., etc., etc.

Constelação é terapia

Tenho minhas crenças espirituais e de tudo isso que falei acima, diria que aceito e entendo o lugar de cada um destes aspectos. Trilhei vários caminhos religiosos e sou realmente uma pessoa muito conectada com todo este tipo de conhecimento espiritual, filosófico, energético – o que é isso mesmo? – parapsicológico, ritualístico… porém, lembro que a constelação familiar sistêmica tem como objetivo prioritário o trabalho terapêutico.

E uma das principais características do trabalho terapêutico, baseado no fundador da constelação, Bert Hellinger, é incluir tudo o que foi, do jeito que foi. Entendemos, como facilitador do processo, que as pessoas participantes de uma roda terapêutica estão com seus problemas ou manifestando sintomas porque não conseguem incluir algo, alguém, uma situação, uma dor ou emoção. “Nosso ser se enriquece se permitimos que tudo seja como foi, que siga para sempre como foi e que nós também nos concedamos o direito de ser tal como somos, junto a tudo. Juntos de que maneira? Com amor por tudo o que foi e segue sendo em nossa vida”, ensina Hellinger (trecho extraído do livro Liberar el Pasado, da terapeuta canadense Galina Husaruk).

Por exemplo, não conseguimos incluir a amante que papai teve. Em geral, porque a mamãe também nega este amor de papai. E nós, inconscientemente, carregamos a dor da exclusão deste amor, dentro de nós, às vezes provocando a dificuldade de nos estabelecermos em relações afetivas. Nos portamos como se não merecêssemos uma relação duradoura. Às vezes, nos descobrimos como sendo o outro, ou a outra, numa relação afetiva. Um outro exemplo: negamos, sem saber, a morte do nosso tio, que faleceu com 2 anos de idade, vítima de um acidente doméstico no qual a nossa avó se sentiu totalmente responsável. E culpou também o vovô por não ter estado no momento do acidente. E assim nos vinculamos a dor de perder precocemente alguém muito querido, além de carregarmos uma culpa inexplicável por algo muito grave que irá acontecer. Vivemos com um peso inconsciente, uma sensação de morte, de segredos não revelados.

Esses aspectos, e tantos outros, são profundamente importantes para entendermos os padrões inconscientes que nos fazem agir, sem que saibamos, rumo a repetir estas situações do passado, como forma de honrar a dor vivida pelos nossos pais ou antepassados.

Observe estas perguntas:

  • Por que nos isolamos?
  • Por que sentimos a sensação de abandono?
  • Qual a causa da sensação de carência financeira?
  • Por que sinto raiva dos homens (ou das mulheres)?
  • Por que não me sinto parte da família?
  • Qual o motivo de permitir-me ser manipulado?
  • De onde vem esta agressividade contra as injustiças?
  • Qual o motivo de eu manipular os outros, para que façam as coisas como quero?

Muitas vezes, estes exemplos de padrões de comportamento e/ou emocionais estão influenciados por traumas vindos do passado. Histórias não digeridas, vividas nas gerações anteriores, continuam. E carregamos em nossas células, pedindo para serem vistas. Porém, a grande virada possível está em nossas mãos: padrões vistos se transformam em poder. Em compaixão. Em inteligência emocional. Em cura. Incluindo, harmonizando os padrões dentro de nós, nos convertemos em membros mais capazes de perpetuar o sistema familiar com eficiência e saúde.

 

Constelar é incluir – para incluir, é necessário maturidade

Sim, a constelação tem a sua magia. E uma coisa que sempre ocorre, é a magia da sincronicidade. Em 100% das vezes posso dizer que as constelações que facilito demonstram aspectos meus que também não foram incluídos. Costumo dizer que estou constelando a mim mesmo, através de outros. Quantas vezes surge a mesma história que tive com meu irmão, na minha frente. Ou a dor do abandono, que vivenciei na infância. Ou ainda, a minha rebeldia, a incapacidade de acatar as ordens dos “superiores”. Carl Jung, o descobridor do movimento da sincronicidade, diz: “O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade”.

Por isso, a maior parte das vezes que constelamos, olhamos para aspectos difíceis de nós mesmos. Mesmo que os traumas tenham se originado lá atrás, no passado familiar longínquo, o sistema está rodando dentro de nós. E se analisamos nossas ações, sabemos muito bem que somos responsáveis pelas coisas que acontecem em nossa vida. Este é o papel da terapia. Trazer luz à sombra. E garanto para você: o trabalho, via de regra, é sempre maravilhoso!

Nosso mestre Bert Hellinger diz que estamos identificados a um peso, por amor. Um amor infantil, que não leva à resolução em nenhum aspecto, mas que nos dá uma sensação de pertencimento. Através do sofrimento, nos sentimos pertencentes à família. E nos colocamos numa posição de sacrifício. Algo muito próximo ao mito de Jesus crucificado. Preferimos morrer – simbolicamente (fracassar na saúde, nas finanças, no sucesso, nas relações), para salvar papai, mamãe e antepassados. É um mecanismo inconsciente. E durante a constelação, não raras vezes, este amor se mostra. Grandioso. Profundo. Intenso. E a inadequação deste amor doentio, a falta de resolução, também se mostra. Isso provoca um enorme alívio a todos os participantes, quando é possível se libertar desta identificação amorosamente desastrosa.

Como falei acima, a magia da sincronicidade nos faz ver que também estamos carregando pesos enormes, com a vontade inconsciente de salvar papai, mamãe ou alguém que nem sabemos. E ao poder vivenciar a despedida deste padrão, sentimos um grande alívio. Não somente quem está constelando, mas todos. Inclusive eu – o facilitador.

Incluir é permitir a existência de um sentimento difícil, dentro de si

Quantos clientes recebo que desejam simplesmente eliminar o problema! Dizem-me, por exemplo: tenho fracassado financeiramente há mais de 20 anos. Não suporto mais isso. Ou: meu relacionamento afetivo está um desastre – quero uma solução! Ou ainda: meu filho não estuda, não trabalha, não colabora – quero mudar isso! É lógico que todos desejam soluções para seus problemas, mas vamos ser bem sinceros: se eu estou buscando uma terapia para mudar uma situação qualquer ou mudar alguém, no fundo estou querendo uma mágica! Vou pagar uma consulta que irá mudar a situação para o jeito que eu desejo… assim deve estar pensando, de um jeito inocente e infantil, a pessoa.

Então, eu sempre alerto, ao ouvir este tipo de questão: não é desta forma que iremos trabalhar. O problema é algo muito importante na sua vida, um verdadeiro portal que está direcionando o seu foco para algo excluído. Estamos fazendo terapia – estamos trabalhando para você mudar a sua forma de ver a si, aos outros e à própria vida. Existe algo emocional que está impedindo a sua vida de ser mais leve. Vou dar alguns exemplos possíveis e práticos:

  • A pessoa está passando por situações recorrentes de abandono nos relacionamentos. Às vezes, por detrás desta história, há um noivo amargurado, deixado pela mãe que foi instruída a casar-se com outra pessoa. Qual é o desafio deste cliente? Aprender a lidar com a dor da rejeição.
  • Alguém deseja trabalhar a dificuldade financeira. Que ela vive, o pai já viveu e os avós, que vieram de outro país, fugidos da pobreza, também viveram. O que este cliente precisa aprender a incluir, internamente? Talvez a vergonha de não poder pagar a escola que deseja aos filhos. Ou saber lidar com o nome sujo na praça.
  • Um outro cliente vem com uma questão de saúde: uma doença grave o acometeu. Não sabemos qual a origem dela, mas invariavelmente, a constelação irá mostrar alguma exclusão do passado. Um amor traído. Um filho abandonado. Um aborto não visto. Uma relação que acabou em violência. Porém, qual é a inclusão que este cliente está sendo chamado? Quem sabe olhar para a própria impotência, diante da doença? Aprender a incluir a morte, como uma possibilidade bem real. Estar em paz com as despedidas…

Este é um aspecto que precisa ficar bem claro. Incluir algo na constelação não é dizer: ah! Eu incluo o aborto que tive! Ou: sim, claro! Vovô teve muitas amantes e elas fazem parte! Quem sabe: eu incluo a morte, a morte faz parte! Quando incluímos, o que falamos não importa, porque estamos lidando com sentimentos. Incluir a traição, por exemplo, significa sentir-se mal, perceber talvez a raiva, o medo do abandono, e dizer: ok! Eu permito. Isso faz parte e eu dou conta destes sentimentos dentro de mim.

Tudo isso pode parecer difícil no começo. E é, não vou negar. Lidar com nossas dores internas é muito duro. Porém, “o homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera”, diz Jung. Terapia exige esta postura. E na minha visão pessoal, preciso dizer: é muito bom! Fazer terapia é um caminho fantástico, pois nos descobrimos humanos. Humanos na nossa luz e na nossa sombra. Emoções contraditórias! Humores diversos. E desta forma, aceitamos os desvios dos nossos pais e antepassados. Todos eles, conforme aprendemos a amar os nossos desvios. Aquilo que negamos em nós. Logo, o amor começa a fluir de um jeito que nunca antes foi possível: o amor da inclusão. O amor da compreensão da alma. O amor que somente nossas emoções profundas, em paz, consegue propiciar.

Alex Possato

Metas forçadas já são derrotas

dificuldades

 

Ontem, entre um pedaço e outro de pizza com meu amigo Fernando Tassinari, falávamos sobre caminhos de vida, vícios, nossas mulheres, papai e mamãe, neuras e nosso papel de homem nisso tudo. Papo bem Diamante Bruto, o projeto de encontros do masculino que estamos retomando.

Relembramos que a última vez que nos encontramos, há 5 meses atrás, eu estava iniciando um período de abstinência alcoólica, meta que se mostra amigável comigo até hoje. Zero álcool. Abstinência que já havia realizado por dez anos, antes do meu casamento anterior degringolar e eu entrar na cachaçada de novo.

Durante muitos anos trabalhando com o desenvolvimento pessoal e terapia, e aplicando todos os conceitos aprendidos em mim mesmo, tenho a certeza de que, quando algo planejado acontece na nossa vida, é fruto de um amadurecimento da consciência, idas e vindas, pressão e relaxamento, até que vemos o fruto do planejamento concretizado.

As metas, não importa se seja parar de beber, emagrecer, montar uma empresa, criar uma carreira, estabelecer uma família ou levar adiante um projeto, são como seres vivos que necessitam do tempo adequado para serem gestados, nascerem e crescerem. Como dizemos na constelação familiar sistêmica, lidamos com forças a favor da vida e também a favor da morte, e o jogo não é vencer as barreiras… mas ficar em paz com as duas forças antagônicas.

Figuradamente, as forças a favor da vida é tudo aquilo que nos leva para frente, nos dá prazer, alegria, desperta a criatividade, traz união… e as forças a favor da morte são aquelas onde sentimos peso, culpa, agressividade, falta de energia, medo, tensão, ansiedade, cria separação… Em geral, quando estamos a favor da vida, estamos a favor do fluxo maior, conectados com o que há de mais puro e verdadeiro em nossa ancestralidade e em nós mesmos… E quando estamos buscando a morte, estamos conectados com o peso, os traumas, as perdas, as dores da nossa ancestralidade – começando pelas dores dos nossos pais – e conectados com a parte mais dolorosa de deles e de nós mesmos.

Vou repetir o que falei linhas acima: o jogo não é vencer as barreiras… mas ficar em paz com as forças da vida e da morte. Aquilo que nos favorece o caminho e também o que nos dificulta. Na prática, ter vontades, projetos, metas… sim! Porque quem não sabe o que quer, é simplesmente levado pelos impulsos inconscientes, influenciados pelo próprio sistema familiar, e vive, mas não está em posse do seu instrumento que lhe permite se deslocar pela vida: a mente. Mas saber o que quer, planejar e executar não é o desafio maior. A grande questão é aprender a lidar com os sentimentos que surgem quando vemos dificuldades em prosseguir nas nossas metas. Geralmente, ou lutamos desesperados contra aquilo que nos confronta, ou desistimos. Mas a sabedoria maior diz: fique amigo da energia que lhe atrapalha. Aquilo que lhe impede. Veja o que ela tem a lhe dizer. Converse com ela.

Também trabalho com muitos profissionais autônomos e pequenos empreendedores, e vejo a falta de percepção em relação a isso. Lutam contra e perdem. E daí partem para fazer um novo projeto, e novamente, quando não aprendem a lidar com a energia que os confronta… caem outra e outra vez.

Num sentido mais profundo, nós não viemos neste planeta para construir coisas. Sejam famílias, empresas, negócios, planos… Acredito firmemente que nós viemos neste planeta aprender a lidar amorosamente conosco e com o próximo. Amar ao próximo como a si mesmo, dizia o mestre. E a vida dá oportunidades a cada instante para que olhemos amorosamente para nós… principalmente nas situações em que ouvimos um não! Um não do pai, da mãe, do marido ou esposa, do chefe, do governo, da justiça, do mercado, dos clientes, do dinheiro, do corpo, da mente… Quando deparamos com a nossa incapacidade, podemos perceber os sentimentos difíceis que chegam até nós… a sensação de injustiça, de raiva, de tristeza, de abandono, rejeição, culpa, desvalidação…

Olhando pacientemente para esses incômodos, começaremos a ver o que nos separa da nossa realização. Quantos sentimentos pesados (advindos de emaranhamentos sistêmicos, traumas do passado, seus e da família) estão impedindo o próprio avanço. Uma outra forma de ver é: quanta dor impede você de estar em paz consigo, com os outros e com o seu próprio caminho.

Ficar em paz com estes obstáculos permite que você prossiga com o peito aberto, pescoço ereto e confiante. Tenho tido a experiência real de ver caminhos se abrirem quase que miraculosamente na minha frente, enquanto estou desvendando os mistérios destes mesmos obstáculos que surgem à minha frente. Claro: continuo com metas, desejos, planos… mas procuro não leva-los tão a sério. A riqueza de aprender a desvendar os segredos dos obstáculos e a pacificação dos meus sentimentos internos é tão gratificante, que passa a ser divertida a caminhada. Chamar a energia da tolerância, da espera e da observação pacífica é fundamental neste estágio. Porque o “homem fazedor”, que a tudo quer resolver, irá detonar com a possibilidade de aprendizados. Fica então a dica: deixe de forçar suas metas. Aprenda a estabelecer contato com as dores que surgem enquanto você caminha. Faça isso na prática. Depois me diga os resultados…

O monstro da Família Julgamento

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A mente está repleta de seres autônomos, verdadeiros fantasmas que, sorrateiramente, se infiltram em seu pensamento e o faz acreditar que “eles são você”. São dezenas, quiçá, centenas de monstros, que tal qual camaleões, vão se transmutando, adaptando-se à sua evolução moral, intelectual e espiritual, mudando o linguajar e os argumentos, com um único objetivo: serem vistos e validados. E para isso, farão de tudo para ocultar a única verdade existente além dos pensamentos: tudo é justo e perfeito. Tudo é amor.

É claro que, se você perceber (eu digo vivenciar!) esta verdade – tudo é amor, nenhum fato que ocorre no seu mundo, nenhuma pessoa e nenhum sentimento e pensamento seus serão vistos como ruins ou bons. As coisas, pessoas, pensamentos e sentimentos podem nos provocar bons estados ou maus estados internos, mas a sua Consciência olhará para tudo com complacência, compaixão. Tudo está certo, seu coração dirá… mesmo para coisas dolorosas, incômodas.

Hoje falarei especificamente do monstro do Julgamento e sua Família. Sim! O monstro do Julgamento anda sempre acompanhado do seu primo mais velho Comparação e dos irmãos gêmeos Condenação e Absolvição.

Essa família se instalou em sua mente vagarosamente, como posseiros. Num tempo muito, muito distante, milhões de anos atrás, você era um ser puro, inocente e amoroso. Você olhava uma pessoa gorda, e sorria. Talvez você fosse gordo, e se divertia com isso. Um sujeito sem perna, ok! Alguém gago, que bom! Suas sardas… que legal, parecem pequenas naves espaciais flutuando na sua pele! Mas, pouco a pouco, você foi sendo ensinado que aceitar tudo não é legal. Papai olhava o sujeito gordo e dizia: veja só, morrerá de ataque cardíaco logo, logo. O professor dizia para o aluno com dificuldade de aprendizado: você não tem jeito! Veja o fulaninho do lado! Um ano mais novo e já sabe a matéria! A TV ensinou: grupo de árabes radicais explodem mesquita! Que horror! A Igreja disse: se você mentir, será condenado. Morte aos mentirosos!

Assim, os posseiros da Família Julgamento, pelo direito do usucapião, se instalam, trazem seus pertences, constroem uma casa sólida e passam a morar no lar da sua mente. E mais: passam a arar a terra, derrubar a floresta, fazem o que querem. O primo comparação é um ser astuto. Olha o que acontece na vida dos outros, na própria vida e na natureza e diz: isso é certo. Isso é errado. Isso é certo. Isso é errado. Isso é certo. Isso é errado. Como ele é mais velho, é um sujeito ouvido pela família. Aí, chegam os irmãos condenação e absolvição. Estes irmãos são rudes, grosseiros, sem nenhuma flexibilidade e não conseguem ver que existem mais de dois lados em uma situação. Então, agem assim: o certo é aprovado, o errado é condenado. Louros para os vitoriosos! Fogueira para os hereges! O certo faz parte, o errado, está excluído. Mesmo que o errado grite: sou inocente! Por favor! Existe uma outra forma de vocês olharem para mim… Não! Não! Não há apelação! Na família Julgamento, o veredito é final. E a pena será cumprida.

Durante estes milhares de anos em que a Família Julgamento tomou conta do barraco, você invariavelmente sofreu. Comparou, julgou, condenou e excluiu pessoas absolutamente iguais a você, porque estava tomada pelas vozes do certo e errado dentro da sua cabeça. Os irmãos condenação e absolvição não brincam em serviço! Você agiu com extrema rudeza com os outros, e com certeza, consigo mesmo. Condenou o seu peso, o seu corpo, a sua aparência, a sua inteligência, a sua capacidade, a sua voz, o seu cabelo, seus pensamentos, suas emoções, suas taras, suas neuras, suas compulsões, o tamanho do seu pênis, bunda, nariz, seios… a quantidade de diplomas, sua conta bancária, o time de futebol, o partido político, os dirigentes da escola, seus pais e família, seu país, o mundo, Deus… Condenou os corruptos, os injustos, os violentos, os infiéis, os desvirtuados… Condenou até pessoas inocentes, honestas, justas, honradas… só porque sentiu seu calo pisado. Sem perceber,  espalhou a sombra por si e pelas pessoas em volta. Pessoas amadas e que nunca fizeram o mal a você. Ou se machucaram, eram porque também eram seres amorosos dominados pela família Ignorância em suas mentes. E espalhou a sombra por cada célula negada do seu corpo. Pode até ser que o seu corpo reagiu com doenças e sintomas… Cegou-se à sua capacidade natural de amar e olhar todos e tudo com compaixão. Lembra-se quando você olhava um gordinho e via apenas… um ser humano, igual à você?

A Família Julgamento destruiu tanto a flora e fauna do terreno invadido e ocupado, que a ecologia se desequilibrou. Você cansou disso. Não se sente mais confortável com tanto julgamento, condenação e exclusão. O terreno do seu coração ficou duro, seco, esturricado. Quer parar com isso, mas não sabe como. O hábito de séculos está criado, não é mesmo?

Um retorno ao Amor e inocência original

Agora o trabalho de desocupação do terreno exige paciência, perseverança e negociação. Talvez seja necessário que você ceda um espaço da sua mente para a Família Julgamento continuar morando. Até porque em alguns momentos, você terá que tomar decisões práticas e o Julgamento ponderado é um bom instrumento de decisão. Mas você é o dono do terreno. E deverá entender que, apesar desta Família estar lá, o nome da sua fazenda é Amor. E nela, onde moram muitas outras Famílias, além dos pássaros, animais, vegetais, e todos os tipos de seres humanos, visíveis e invisíveis, todos são irmãos – absolutamente iguais. Todos fazem parte. Até a Família Julgamento faz parte. Se notar bem, perceberá que, por tanto condenar a tudo e a todos, agora você também aprendeu a perdoar. Tudo bem, aprendeu pelo cansaço… mas aprendeu, não é mesmo? Todo o mundo tem o direito de pertencer. E não dá para mudar as pessoas e as situações. As pessoas são como elas são. As situações são como elas são. Você é como você é. E você pode observar com compaixão a tudo isso. Até a si mesmo. E não se deixar influenciar mais pelas situações e fatos que trazem dor e sofrimento. Olhar com carinho para sua gordura, seu corpo, suas neuras, seus vícios, suas distorções, sua miséria… Gente! Sejam bem-vindos! Há espaço para todos, e eu os acolho em meu coração!

No mundo da mente é assim. Não é possível destruir pensamentos negativos e nem eternizar pensamentos positivos. A única forma de paz é permitir que tudo exista como é, mas perceber que o direito de decisão – nas coisas mais fundamentais da vida – vem do seu coração. Que é cheio de simplicidade, amorosidade e compaixão. Este caminho não parte do Julgamento. Parte da Intuição. É destituído de certezas, comparações, julgamentos. É simplesmente um caminho a seguir. Porque é o caminho que você sabe ser o correto para o momento. Assim como um bando de pássaros migra no outono das zonas mais frias para as mais quentes, você saberá se conduzir das zonas de sombra da sua mente para as zonas de Amor do seu coração, nos momentos de inverno da sua Alma.