
O grupo da família aparece com uma foto. O primo comprou o carro, e todo mundo comemora com emoji de palma. Você olha, escreve "parabéns", apaga, escreve de novo, manda. E fica com uma coisa esquisita atravessada no peito o resto da tarde.
Depois vem a segunda camada, que costuma doer mais que a primeira: como é que eu sou assim?
A palavra que ninguém diz em voz alta
Raiva a gente admite. Tristeza a gente admite. Medo, até com certo orgulho.
Inveja não. Inveja é a única dessas que a pessoa esconde inclusive de si mesma. Ela vira outra coisa na hora, e sai de casa disfarçada: virou crítica ("ele só conseguiu porque tem contato"), virou desconfiança ("deve estar devendo até o pescoço"), virou desprezo ("eu jamais faria isso pelo dinheiro").
Repare no movimento. A inveja rebaixa o outro para o tamanho do meu conforto. E aí o sentimento some, o julgamento fica, e a informação que ele trazia se perde no caminho.
Ela aponta para alguma coisa
Na constelação, a gente trata sentimento como informação. Nenhum aparece à toa, e a inveja é das mais precisas que existem.
Ninguém sente inveja de qualquer coisa. Você não sente inveja do vizinho que faz maratona, se correr não te interessa. Você sente daquilo que você quer e não se permite querer em voz alta.
Por isso ela é uma boa pergunta. De quem você sentiu inveja nos últimos meses? E do que exatamente, na vida daquela pessoa? Quase sempre a resposta descreve com precisão um desejo seu que anda sem lugar.
A inveja é uma seta. Ela aponta para o que você quer, e para a porta que você mantém fechada.
Onde a gente aprendeu que não podia ter
Aqui o olhar precisa ir mais fundo, porque a inveja raramente começa na cena de hoje.
Muita gente cresceu numa casa onde ter mais era perigoso. Onde a mãe passou a vida se virando com pouco. Onde o pai tentou, não deu certo, e ninguém mais falou no assunto. A criança que vê isso aprende, sem ninguém precisar dizer, que ali não se pode ir muito longe.
Aparece também entre irmãos. Um foi o que deu certo, o outro foi o que precisou de ajuda. Esses papéis se distribuem cedo, e a gente carrega o nosso por décadas sem lembrar que um dia ele foi só um jeito de organizar a casa.
E aparece na imagem interna de pai e de mãe. Quem não conseguiu tomar deles o que eles puderam dar fica com uma fome antiga. Essa fome não some, e ela olha para o prato dos outros a vida inteira.
Quando o julgamento entra, o movimento para
Existe um jeito de tratar a inveja que garante que nada vai mudar: transformar o sentimento em defeito de caráter.
A pessoa se pega invejando, se acha pequena, se envergonha, e passa a semana tentando provar para si mesma que é generosa. Eu vejo isso o tempo todo em gente boa, e principalmente em terapeuta, que se cobra ainda mais.
Enquanto a inveja for pecado, ela não pode ser olhada. E o que não é olhado continua mandando na vida da gente, só que por baixo, de um jeito que ninguém consegue acompanhar.
O primeiro movimento aqui é bem menor do que parece. É conseguir dizer por dentro, sem plateia: eu senti inveja. Sem completar a frase com desculpa nem com autocrítica. Só isso já solta bastante coisa.
Do outro lado, quem tem também esconde
Vale dizer uma coisa que aparece bastante nas salas. Quem conquistou também vive escondendo.
Muita gente diminui a própria conquista, não fala do salário novo, não posta a viagem, arruma um jeito de parecer que foi sorte. Isso costuma vir do medo de ser invejado, e às vezes de uma culpa antiga por ter conseguido o que outros da casa não conseguiram.
Então os dois lados ficam encolhidos. Um por não ter, outro por ter. E o sistema segue empatado.
O que dá para fazer com ela
Comece nomeando o objeto, e não a pessoa. Em vez de "eu tenho inveja do meu cunhado", experimente "eu quero ter tranquilidade com dinheiro, e ainda não tenho". Muda o corpo na hora. A primeira frase te deixa preso ao outro. A segunda te devolve o assunto.
Depois, olhe para quem veio antes. Se você fechar os olhos e olhar para a imagem interna de pai e de mãe, veja se cabe dizer por dentro: eu tomo de vocês o que vocês puderam me dar, e faço algo bom com isso. Não precisa acreditar na frase. Diga, e observe o que se move.
E, se for possível, deseje ao outro o que ele tem. Em voz alta, ou só por dentro. Parece pouco e não é. Quem consegue desejar bem a quem tem, começa a se permitir ter também.
Quem toma dos pais, um dia toma da vida. A inveja some sozinha quando a gente para de olhar o prato do outro e senta à própria mesa.
Quer olhar isso por dentro?
Na constelação individual a gente olha para onde o tomar travou, e para o que ainda espera ser recebido. Um passo de cada vez, sem pressa.
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