De mãos dadas à própria mediocridade

mediocre

 

Uma pessoa muito íntima passou o almoço falando da sua tentativa infrutífera de cumprir as expectativas que ela mesma, real ou imaginariamente, teceu sobre seu comportamento. Comer algo adequadamente saudável – e ela não queria. Ter um tipo de padrão de pensamento – que ela não tinha. Gostar de determinados ambientes e pessoas – e ela queria se isolar. Chegar a entendimentos que não conseguia.

Se eu não conhecesse a pessoa, e estivesse predisposto a ouvir suas neuroses, o almoço seria muito chato. Mas não foi. Ao contrário, foi muito instrutivo. Pois ela mostrou para mim o padrão de funcionamento da mente crítica, julgadora, condenadora, rebelde. Que é também o padrão de funcionamento da minha mente.

A mente é um instrumento fenomenal, principalmente quando entendemos que o papel dela é estabelecer comparações, para poder discernir, tomar decisões. O que torna nosso convívio com a própria mente insuportável, é que acreditamos que aquilo que pensamos determina o que somos. E como fomos ensinados desde pequenos que não somos grande coisa, que estamos sempre errados, precisamos saber mais, nos comportar melhor, ter melhores pensamentos… passamos a vida nos julgando e condenando.

Como terapeuta, lido com pessoas com dificuldades de ter projetos. De mudar a própria vida. De aceitar a si mesmo. De saber tecer melhores relações. De lidar de forma saudável com o próprio corpo. Pessoas que, de certa maneira, sabem que estão tomando atitudes que lhe fazem mal. E uma das primeiras coisas que faço, ao ouvi-las, é incluir em mim aquilo que elas não conseguem incluir em si. Imagino o que daquilo que estou ouvindo também faz parte do meu comportamento, e internamente digo: você faz parte! Eu te vejo!

Incluo, por exemplo, o corpo obeso. A mente alucinada. A sensação de feiura. A sensação de fraude interna. A vítima. O provocador de conflitos. O postergador. O derrotado. O compulsivo. Sinto quem ou o que está sendo excluído, e imagino dar um lugar para esta sensação dentro do meu coração. Nem sempre é fácil, mas a prática é tudo. E muito rapidamente, me percebo em paz com a pessoa à minha frente, e mais: em paz com minhas sombras interiores! O outro, no final, serviu terapeuticamente para o meu autoconhecimento!

Gosto da palavra medíocre, porque ela não tem significado pejorativo, na etimologia. A origem em latim quer dizer simplesmente: mediano. Todos somos medíocres, em diversos aspectos. Muitas coisas não sabemos fazer bem, mas outras sabemos fazer muito bem. No final das contas, nota média: passou de ano! Quando conseguirmos observar em paz nossa mediocridade, sabendo que todos são assim também, e pararmos de achar que “somos aquilo que pensamos”, pois afinal, quando nascemos já “éramos”, e não sabíamos pensar… o conflito interno acalma. Somente então conseguiremos ouvir o que há além dos pensamentos. Um espaço de silêncio, harmonia e paz inerente a quem você é. Eu sou. Estaremos mais próximos da própria essência: perfeita. Imutável. Eterna. Amorosa. É o longo caminho que me propus a seguir. Às vezes com mais sucesso. Às vezes, com menos. Mas seguindo. Sempre… O que importa o que os outros vão achar? O que importa em qual estágio da jornada estou? O que importa o que penso de mim mesmo?

O auto julgamento

demonios

 

Percebo você se corroendo por dentro, julgando-se, condenando-se, despejando ácido garganta abaixo, veneno veia adentro, desvalidando-se como se fosse o mais vil dos habitantes do inferno.

A quem serve esta estratégia? Ao seu ego, que assim pode manter vivo o personagem da vítima. Do errado. Do culpado. Do indisciplinado. Do infiel. Do pouco evoluído. Do viciado. Do compulsivo. A mente é um poço turbulento. Identificado à estas vozes demoníacas, você é atirado ao mais profundo abismo inconsciente, resgatando todos os monstros que estavam adormecidos em seu interior, trazendo-os à vida…

Por que eu permito que você viva esta agonia? Ao estar no inferno, talvez você se lembre de mim. Talvez você chame por mim… Você não conseguirá sair deste estado sozinho. É um estado de encantamento, onde, tal qual areia movediça, quanto mais você se mexe, mais afunda. Eu convido-o a parar de lutar contra os demônios. Deixe eles existirem. Deixe-os em paz. Pare de perturbá-los. Você os despertou. Sente-se e aquiete-se. Chame por mim.  Eu não me importo se você é pecador ou santo. Crente ou descrente. Saudável ou doente. Todos estes julgamentos estão em sua mente. Não na minha. Tudo, neste criação, serve à vida. À grande vida. Você também serve à esta vida. Entregue-se à vida, como ela é. Deixe estar. Sente-se. Aquiete-se. Respire um pouco comigo. Profundamente. Isso. Solte o ar. Profundamente. Respire mais uma vez. Comigo. Deixe a minha paz tomar posse de si.