
A parentificação é um dos padrões mais comuns nas organizações, e um dos mais invisíveis. Na terapia, é quando uma criança ocupa o lugar dos pais. Na empresa, é o padrão repetitivo de alguém que adota uma atitude interna de estar acima da liderança.
“Eu sei mais que meu chefe”
A atitude é essa: “sei mais que meu chefe” ou “na verdade eu deveria ser o gerente aqui, faço melhor o trabalho dele”.
Pode até ser verdade tecnicamente. Mas, ao assumir essa posição interna, a pessoa prejudica o lugar do seu líder e também o do líder do líder. Afinal, o líder máximo deveria fazer algo sobre esse fracasso de liderança, certo?
De onde vem: o vácuo
A parentificação é uma intervenção de emergência do sistema. O lugar que não foi ocupado pelo líder vira um aspirador que puxa alguém para dentro.
E aqui está a perversidade: quem entra temporariamente cria um certo descanso. Como a coisa fica relativamente calma, a administração provavelmente não vai intervir. Então às vezes é preciso piorar (equipe adoecendo, assédio entre colegas, desempenho caindo) antes que a gerência finalmente pressione o líder oficial.
Sem lugar acima, sem lugar abaixo
Reivindicar informalmente um lugar diferente não gera gratidão nem honra. Quem sai informalmente do próprio subsistema (a equipe) infringe tanto a sua adesão que, em geral, deixa de ter lugar na própria equipe. E aí acontece o pior: não há mais vaga em lugar nenhum do sistema.
Variações comuns: o funcionário que vira “amigo” do chefe, ou o líder que escolhe um membro da equipe para se apoiar. Ao responder ao convite, esse membro sai do seu lugar e se desloca informalmente para o subsistema de gestão. O resultado é desordem e perda de energia.
O líder que quer ser da turma
O inverso também acontece. Às vezes o líder quer pertencer à equipe. Fica muito ligado ao subsistema dos liderados e pouco ao dos gestores.
Isso confunde: seu gestor é seu colega, mas também é quem avalia você e implementa diretrizes. Os sintomas aparecem como divisão entre gestão e trabalhadores, e linhas de comunicação informais se tornando mais importantes que as formais.
O preço a ser pago
Onde falta clareza de ordem, surgem sintomas. No fim, a autorregulação sistêmica sempre chega, mas costuma cobrar caro: membros da equipe adoecem ou vão embora, um gestor é afastado, e pessoas ficam tempo demais em lugares informais, perdendo o direito ao próprio lugar.
Ocasionalmente, é justamente a pessoa parentificada quem paga a conta.
Perguntas para reconhecer o padrão em você
- Você se sente frequentemente melhor ou maior do que o seu chefe?
- Quando criança, você acabou assumindo a posição dos pais dos seus pais?
- Quando criança, teve de tomar conta de crianças menores?
- Ao querer ajudar alguém, você se sente maior, igual ou menor que o outro?
- É difícil pedir ajuda, porque você está acostumado a fazer tudo sozinho?
Veja também o padrão vizinho: triangulação na empresa.
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