
Sete e meia de uma segunda. Os dois chegam ao escritório quase juntos, tomam café, falam do jogo e do filho que entrou na faculdade. Sentam. Abrem a planilha do mês.
E o assunto que está entalado nos dois não entra na pauta de novo.
Isso já dura dois anos.
A queixa que chega primeiro
"Eu trabalho o dobro dele e a gente divide igual." É quase sempre assim que a frase sai, e ela vem com prova. Horas, viagens, cliente atendido no domingo, o telefone que toca no nome de um só.
A queixa é real. Ela quase nunca é o problema.
Sociedade que treme por causa de carga de trabalho se acerta com uma conversa e um combinado novo numa tarde. Quando o combinado novo é feito, todo mundo concorda, e três meses depois o incômodo volta com outra roupa, o que está torto é outra coisa.
O que cada um pôs, e o que cada um tirou
Uma empresa é um sistema vivo e responde às mesmas ordens de qualquer sistema. Uma delas é o equilíbrio entre o que se dá e o que se toma.
Vale fazer a conta de verdade, e ela é maior do que dinheiro. Um entrou com a economia da vida inteira. O outro entrou com a carteira de clientes que levou doze anos para construir. Um pôs a casa como garantia no banco e passou três anos sem retirar nada. O outro pôs o nome, e é o nome dele que aparece quando algo dá errado. Um segurou a empresa de pé sozinho no ano em que o outro se separava.
Quase nada disso está escrito em lugar nenhum, e boa parte nunca foi dita em voz alta.
Conta que não é dita continua sendo cobrada. Ela só sai atravessada, numa reunião sobre outro assunto.
Escrevi por aqui sobre o dar e receber dentro da empresa, e o que eu vejo em sociedade é isso levado ao extremo, porque entre sócios ninguém tem a quem reclamar.
Quem chegou primeiro
Existe uma ordem em toda empresa, e ela tem a ver com tempo. Quem começou, começou. Quem chegou depois, chegou depois, mesmo tendo entrado com mais capital, mais estudo ou mais cliente.
Dinheiro compra participação. Ele não compra antiguidade.
Quando o sócio que entrou em 2019 passa a decidir tudo, inclusive o que já estava decidido desde 2008, alguma coisa no sistema começa a ranger. E costuma ranger longe dali: na equipe que para de cumprir prazo, no financeiro que se enrola, no cliente antigo que some sem explicar. Falei mais sobre isso no texto sobre ordem e hierarquia na empresa.
O sócio que saiu e foi apagado
Essa é a pergunta que eu faço cedo, e é a que costuma mudar o caso: teve mais alguém?
Quase sempre teve. Um terceiro que fundou junto e saiu em 2016 depois de uma briga feia. Um primo que emprestou o dinheiro do começo e nunca foi citado. Um sócio que morreu e cujo nome saiu do site na primeira reforma.
O que é excluído de um sistema não some. Ele volta ocupando outro lugar, e no negócio isso costuma aparecer na mesma cadeira, com a mesma briga, agora entre duas pessoas que não têm nada a ver com aquela história. Já contei um caso parecido no texto sobre o cargo fantasma.
Reconhecer alguém que saiu pede menos do que parece. Ninguém precisa chamar essa pessoa de volta nem devolver dinheiro. Precisa parar de fingir que ela não existiu na história que sustenta o que existe hoje.
Quando o sócio virou irmão
Tem uma frase que aparece muito na primeira conversa: "ele é como um irmão para mim".
Ela é bonita e costuma ser cara. Sociedade tratada como parentesco perde as duas coisas de uma vez, porque irmão a gente não demite e sócio a gente não adota. E aí a discussão sobre um relatório atrasado pega uma temperatura que aquele relatório não explica.
Quando isso aparece, eu costumo pedir para a pessoa olhar para dentro e procurar quem, na imagem interna familiar dela, dividia e nunca dividia direito. Um irmão que ficou com a parte maior. Um pai que trabalhou a vida toda para o sócio dele. Uma sociedade de tios que terminou em processo e rachou a família em duas.
Vale também olhar para como essa sociedade nasceu. Sociedade feita por gratidão, para retribuir um favor antigo, ou feita por dó, para dar uma chance a alguém que estava mal, entra torta desde o primeiro dia. Ajudar alguém e virar sócio dele são dois movimentos diferentes, e misturar os dois cobra caro lá na frente. É um dos erros que eu mesmo cometi, e escrevi sobre ele em a fórmula para ter problemas nos negócios.
Um exercício para esta semana
Pegue uma folha e escreva a história da sociedade em ordem, ano a ano. Quem entrou, quando, com o quê. Quem saiu, quando, e como foi. Ponha os nomes de todo mundo, inclusive de quem hoje ninguém cita.
Depois, numa segunda folha, faça duas colunas. O que eu coloquei aqui dentro. O que eu tirei daqui.
Muita gente que faz isso descobre a mesma coisa: as duas colunas estão mais equilibradas do que a raiva sugeria, e o que falta ali é reconhecimento do que foi posto.
Se as duas colunas estiverem mesmo desiguais, você já tem por onde começar a conversa de segunda. E ela vai ser sobre o que está escrito ali, não sobre caráter.
Quer olhar essa sociedade por dentro?
Na constelação empresarial a gente olha para a origem do negócio, para os lugares ocupados e para o que ficou pendente entre quem construiu a empresa. Um passo de cada vez.
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