Sim, eu minto! Você não pediu para eu falar a verdade?

Como estou me preparando internamente, estudando e percebendo meus comportamentos, para a Jornada em Israel que farei em setembro, estes temas que lidam com espiritualidade me interessam. E me tocam. E hoje resolvi abordar o tema “verdade”. E “mentira”. Afinal, disse Jesus, no evangelho segundo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.”

Estudo as palavras de Cristo, para poder vivenciar “na alma” aquilo que também irei me deparar in loco, em Jerusalém, Belém, Nazaré e outros lugares históricos para católicos, evangélicos, ortodoxos e outras denominações derivadas do cristianismo. Esse é o objetivo desta peregrinação. Viver Cristo, viver o judaísmo, viver o islamismo, viver espiritualmente aquilo que a “terra santa” tem a nos oferecer.

Entendo que as religiões trazem seus dogmas conjuntamente, e por isso não desejo falar de teologia. Até porque não tenho a menor condição para isso. Quero simplesmente discorrer o que me vem quando leio esta frase atribuída a Jesus. E como isso ecoa dentro de mim.

Lembro-me que vovó dizia, quase em tom jocoso: faça o que eu falo, não faça o que eu faço. E justo ela, uma senhora moralista e rigorosa, que me chamou de mentiroso inúmeras vezes (e com razão!), e por isso, também me castigou de inúmeras formas. Mas aí já começava a contradição: se ela falava uma coisa e fazia outra, também estava mentindo, não é mesmo? E eu peguei algumas mentiras “no ar” e só não podia deixa-la de castigo porque meu tamanho e poder não eram condizentes com a minha vontade. “Vovó, vai pro canto pensar! Agora mesmo!” – ficava só na vontade…

De qualquer forma, mesmo ela também sendo mentirosa (depois percebi que vovô, meu irmão, papai, mamãe e todo o resto da humanidade também eram!), eu sentia culpa por mentir. Acreditava piamente que haveria algum tipo de punição – o tal do Deus irá me condenar. Na minha mente infantil, não cabia o fato de estar pecando, e ao mesmo tempo, ser merecedor da benevolência que Jesus garantia vir do seu Pai. Por sinal, o meu Pai também. Uma outra coisa que não entrava na minha cabecinha era que, se eu e Jesus éramos filhos do mesmo Pai, logo, eu era irmão de Jesus. Mas vou confessar uma coisa: em verdade, em verdade, eu não me achava da mesma família. “Acho que sou adotado” e o Pai é só um pai de criação. Eu era filho de outro cara.

Bem, acabei viajando nesta infância espiritualmente tortuosa, para finalmente poder dizer: acredito que Jesus dizia que a verdade se demonstra em ações. Não amemos de palavra e nem de língua. Quer dizer que vovó deveria dizer assim: faça o que eu faço, não faça necessariamente o que eu falo. Este seria o provérbio que o filho de Deus poderia dizer, se estivesse conversando com amigos numa padaria. Não, sejamos justos com Ele. Ele diria: faça o que eu faço e faça o que eu falo! Mas se não der, eu os perdoo, assim como o meu Pai já os perdoou!

Talvez o Filho de Deus gostaria que todos nós pudéssemos alinhar aquilo que falamos com aquilo que fazemos. Como é difícil, não é? Já vi um monte de líderes espirituais falhando nisso. Imagine eu! Eu me pego tantas e tantas vezes falando algo e não fazendo! Tudo bem que minhas mentiras são diferentes daquelas dos criminosos e corruptos, mas continuam sendo mentiras. Não devo atirar pedras.

Daí, acho que o meu caminho dentro da constelação familiar sistêmica esclareceu mais algumas coisas. Aprendemos que fazemos as coisas levados em grande parte pelo sistema familiar. Se eu minto, é porque meus pais também mentem. E até vovó, quase beata, mentia! Então, a mentira faz parte dos meus hábitos, e quando eu quero somente dizer a verdade, fazer a verdade, pensar a verdade, sinto extrema, enorme, quase intransponível dificuldade. Bert Hellinger diz que repetimos nossos padrões porque assim, nos sentimos pertencentes.

Se eu minto, por pior que seja para minha moral cristã, eu pertenço ao meu sistema. Mas se sou totalmente verdadeiro (como se isso fosse possível!), aí sinto-me um traidor. Não pertencente. Terei que entrar para a Ordem dos Verdadeiros Imaculados Transparentes da Palavra do Senhor e deixar definitivamente a família Possato. Excluído do meu sistema, por falar somente a verdade.

Entendo a necessidade da verdade e a busco incansavelmente. Mas na minha percepção, mentir também faz parte da minha verdade. Sim, eu minto! E muitas vezes sou verdadeiro. Não necessito nem de aplausos, nem de castigo. Mentira e verdade fazem parte. Este sou eu! Sei que Jesus, o Nazareno, me entende. Na suprema inteligência que foi concedida à Ele, o mestre sabe que a psique humana é cheia de altos e baixos. Luz e sombra. Deuses e diabos. Milagres e horrores. Só não vou usar a minha humanidade para me omitir. Serei sempre responsável pelos meus atos. E no momento em que pisar na bola, posso falar: pisei na bola! E se for verdadeiro, também posso dizer: sinto muito! Mas somente se for verdadeiro, porque se não for, é melhor ficar só com:

– Pisei na bola! Eu errei!

Acho que a verdade pode começar por aí… Pelo menos, para aqueles que buscam…

 

Alex Possato

Quer saber mais sobre a Jornada Sistêmica em Israel 2019? Clique aqui!

Confira abaixo o vídeo que Alex Possato e Lu Cerqueira fizeram, explicando detalhadamente como será a Jornada!

 

O medo de subir na vida

Domingo de Carnaval, lá estava eu pendurado numa parede de escalada, uns 6 metros do chão. Para cima, mais 4 metros, que minha mente se recusou a encarar. Para baixo, nada demais, afinal, com o sistema de segurança do lugar, nada poderia acontecer, a não ser ficar pendurado, balançando, enquanto que o equipamento nos devolvia ao solo firme e seguro.

Quem me conhece mais intimamente, sabe que me defronto constantemente com o pânico de lugares altos. As mãos suam excessivamente, as pernas perdem a firmeza, em alguns casos fico com vertigem. Pânico é pânico. E ele frequentemente me visita, até porque eu sempre gosto de conversar com ele. Faço práticas de trekking e algumas experiências em altura, para que eu possa conhece-lo melhor. E cada vez entendo um pouquinho mais sobre meus mecanismos internos.

Desta vez, observei meticulosamente minha reação:

– subia bem até um determinado patamar;

– em certo ponto, os pensamentos diziam: aqui está bom! Chega!

– meu corpo, imediatamente, começava a apresentar sinais de desestabilização, perda de força nos membros;

– meu foco se perdia e eu não conseguia mais encontrar locais adequados para apoiar os pés e continuar subindo;

– então, eu desistia, e pedia pra descer.

Subindo na jornada da vida

Estou planejando uma jornada sistêmica em Israel (dá uma olhada no link com a descrição, está bem legal o projeto!). O grupo está se formando, porém, ainda temos várias etapas para vencer: aumentar o grupo é a principal, e para isso, fazer todos os movimentos de comunicação necessários, alianças, etc.

Este projeto, que possui desafios, está contido dentro de outro projeto maior, que tem a ver com o meu desenvolvimento profissional. Mais um tantão de desafios a serem transpostos. Estou sentindo um chamado para subir, indo a patamares antes não alcançados.  E aí posso fazer o paralelo das “mensagens da escalada”.

Existe uma parte dentro de mim que se recusa a prosseguir. Diz: aqui está bom! Chega! Pode descer! E da mesma forma que eu travo literalmente nos lugares altos, eu travo nas minhas atividades práticas, direcionados ao meu crescer profissional.

Percebi uma falta de perseverança, fibra, constância e disciplina muito forte reinando no meu sistema interno. E então eu pedi – sim! Eu pedi! – para que Deus me mostrasse o que eu precisava ver… É gente, eu faço assim. Observo o trabalho acontecendo dentro de mim, e então peço orientação… E ela vem!

Passei o dia de ontem com muita raiva. Sentia a energia de raiva pulsando em mim. E ao dormir, sonhei. Sonhei bastante. Alguns sonhos bem desconfortáveis, mas o que mais me chamou atenção foi um sonho onde eu brigava com minha mãe. Eu queria fazer algo por ela, ela se recusou, e me deu algumas moedinhas para que eu voltasse para casa. Então, furioso, joguei todas as moedas no chão, dei-lhe as costas e fui embora, bufando. Acordei.

A criança vive para ser aprovada pela família

Esta cena das moedas, com detalhes um pouco diferentes, ocorreu comigo e minha avó, que cuidou de mim por oito anos. Não joguei literalmente as moedas no chão, porém, recusei o “presente” que ela queria me dar, porque eu estava puto. Ela me dominava completamente, e fazia de mim o que queria. E de vez em quando, dava um dinheirinho para que eu pudesse comprar um sorvete ou algo assim. E naquele dia, eu disse: NÃO!!!

Hoje, passado décadas deste episódio, como terapeuta, entendo que esta parte psíquica que está presa na dor da criança reprimida ainda está atuando no meu sistema. E de alguma forma, ela controla o meu movimento ascendente na vida. Inclusive, é uma parte capaz de recusar as moedas e jogá-las no chão. Coisa que fiz muito tempo na minha vida, através do descontrole financeiro e incapacidade de poupar.

Eu planejo, trabalho e tenho capacidade de adulto. Muita capacidade. Porém, existe um lado infantil, emocional, que está lutando contra o adulto. Está rebelado, não quer seguir as ordens e prefere bater o pé e fazer bico. Na verdade, eu nunca bati o pé verdadeiramente para a minha avó e para as pessoas que me oprimiram. Eu simplesmente ouvia, engolia, e quando dava a hora certa, as abandonava. Dava-lhe as costas. Bufando e com muita raiva.

Todo mundo tem o direito de dizer que está magoado, machucado, amedrontado devido às ações de alguém. Porém, uma criança não tem este direito. Pelo menos, da forma como eu fui criado. Assim, a dor fica reprimida, inconsciente. Existe uma grande vontade de dizer FODA-SE! Eu não aceito mais! E ela não consegue. Dá muito medo. Esta energia continua dentro dela, pedindo para ser vista. Em algum momento, é necessário olhá-la nos olhos. Olhar para os olhos apavorados daquela criança que precisa confrontar os próprios pais. Ela tem este direito!

Subindo como adulto

Estou com cinquenta e um anos de idade. E volta e meia me defronto com estes processos psicológicos. Convidando-me para regressar aos meus tempos de criança. Isso não quer dizer que sou uma pessoa infantilizada – somente que existem algumas partes infantis feridas para serem vistas. Este é o processo natural.

Por isso sempre convido você a olhar para si desta forma: não somos bons ou maus porque temos mais ou menos traumas e comportamentos distorcidos em nós. Tudo são programações. Nosso sistema funciona como um computador, mas nós podemos olhar a tudo distanciado, e portanto, com a possibilidade de ir se transformando. Aos poucos. De acordo com nossas metas e objetivos.

A questão não é atingir o topo. Mas aprender na caminhada. Descobrir-se, ver como é maravilhoso o processo do despertar para os próprios padrões inconscientes. Perceber as resistências, e ok! O que elas têm para me ensinar? E também olhar para além disso tudo. Para o lado desvinculado com o sucesso pessoal ou material. Eu diria: um lado mais sensível, energético, espiritual. Porque em algum momento, esta jornada acaba. E você, assim como eu, possivelmente deixará muitas metas, pessoas e sonhos para trás… Mas… e daí? Se estamos aprendendo aquilo que é possível durante a caminhada, acho que já está valendo muito a pena.

Alex Possato

Jornada Sistêmica em Israel 2019 – Roteiro

 

Olá gente! Não sei se vocês já souberam, mas eu e a Luciana estaremos levando uma turma para uma Jornada Sistêmica em Israel. Não será somente turismo. A idéia é trabalharmos nossa conexão com a Essência interior, através do contato com esta terra com tanta história e tradição espiritual. Será uma verdadeira peregrinação: teremos momentos de partilha, meditação, constelação em grupo, descanso e introspecção, tudo voltado para a grande investigação – como está a minha fé, a conexão com as tradições mais antigas, meu desprendimento ou o meu apego em relação à dualidade matéria x espírito…
Serão momentos especiais… Por exemplo, já se imaginou meditando no Monte das Oliveiras, ouvindo e mergulhando com o espírito no Sermão da Montanha?
Fica aqui nosso convite!!!

Alex Possato e Lu Cerqueira