Saindo da loucura do outro

loucura

 

É interessante quando nos colocamos observador dos nossos próprios pensamentos e emoções: percebemos o quanto somos influenciados pela nossa própria loucura, pelas crenças sem sentido que ainda rodam no nosso sistema interno, pelas influências da mídia, da sociedade, das religiões, da família e pessoas íntimas…

Seguramente, vivemos num mundo neurótico, e em maior ou menor grau, também somos neuróticos. Mas esse não é o problema. O grande problema é que ouvimos nossas neuroses – e a dos outros – e acreditamos nelas. Por exemplo, nossa mente diz: a Maria está precisando da minha ajuda. Coitada, está sofrendo tanto! E partimos para ajudar a Maria, que não solicitou nossa ajuda, não está sofrendo como imaginamos e até se surpreende quando aparecemos como “o salvador” em sua porta. Por extrema compaixão que a Maria tem por nós, ela finge permitir que nós “a ajudemos”… Em constelação familiar, dizemos que “o ajudado” se torna “o ajudante”.

Neste jogo, explicado muito bem por Erick Berne, o criador da Análise Transacional, que mapeia diversos jogos que podem se tornar patológicos, impomos sofrimento ao outro e também sofremos.

Tudo seria muito mais fácil se tomássemos conta dos nossos pensamentos e emoções, assim como um pai amoroso, mas rigoroso, cuida de filhos malcriados, ou de animais domésticos indóceis. É incômodo, mas estaríamos colaborando enormemente para a pacificação e harmonização da sociedade.

Da mesma forma, ao começar a cuidar da nossa loucura interior, não permitiríamos que a loucura dos outros interferisse em nós, de forma prejudicial. Quantas vezes percebo clientes ou parceiros tentando manipular meu foco, meus objetivos? Quantas vezes ouço pessoas dizendo que as mães, pai, namorados ou amigos estão invadindo drasticamente suas privacidades? Quantos comportamentos percebo de pessoas que agem insanamente, espalhando medo, conflito, correntes sem sentido, porque leram na internet, ouviram na TV ou receberam uma mensagem no whatsapp?

O que impede alguém de não entrar no jogo da loucura?

Muitos entendem o que estou falando, mas não conseguem impor os limites ao outro. Em geral, respondo que esta pessoa não consegue por limites para a própria loucura interior. Acredita que o que pensa “é real”, e que a sua loucura não é loucura, mas sanidade. Loucos são os outros! Recomendo doses regulares de meditação em silêncio. Ao menos 5 minutos diários para observar sua mente tagarela e constatar, sem sombra de dúvida: sim, minha mente é neurótica! Este é o primeiro passo. Não há o que fazer com a mente que pensa. A não ser, observá-la. Com o treino – e isso exige anos, mas muitos anos mesmo! – a mente desacelera, embora, na minha experiência ao menos, não pára a loucura. Somente fica em estado, um pouco, digamos, letárgico… E em outros momentos, acelerada novamente… mas na média, mais lenta…

Quando você começa a olhar para o jogo do próprio pensamento, e não entra nele, você começa a perceber o jogo do pensamento e emocional do outro, e também não entra mais. Você nesse momento, sabe que é um jogo! Não é verdade! Sua mãe, batendo desesperadamente na porta, dizendo que está morrendo… você sabe que é um jogo! Seu pai pedindo alucinadamente para você emprestar um dinheiro com urgência… você sabe que é um jogo! Seu namorado dizendo com ferocidade que se você sair sozinha ele vai deixa-la, você sabe que é um jogo!

Lógico! Você terá que lidar com o sentimento de culpa, de ser egoísta, ou seja lá que ideia surja em seu pensamento… ideias que foram implantadas pelos seus pais, educadores e sociedade. Ou seja, também um jogo, que lhe faz prisioneiro.

Fazia… porque neste momento, você está começando a sair do jogo.

Bem vindo ao mundo dos letárgicos! Dos “noiados”! Dos egoístas! Dos alienados!

Vou contar um segredo: a única forma verdadeira que temos para auxiliar nossos irmãos presos no jogo da loucura mental e emocional, é sair do jogo. E vagarosamente, conforme eles queiram – e te procurem para isso, auxiliá-los a sair também… Não será tão fácil! Parte de nós, e parte deles, ainda está muito comprometida com o jogo… e sentir-se-á abandonada, sozinha, inválida, se desistir da brincadeira… Vamos devagar… Conforme a gente se acostuma a olhar o mundo e as pessoas com outros olhos, podemos inclusive fingir que estamos na brincadeira. Não é necessário confrontar os outros: não coma carne! Medite sem parar! Viva a sociedade alternativa! Abaixo o consumismo! Finja que está na brincadeira… pode até ser muito divertido…

A tentativa de mudar a família

familia perfeita

 

O amor é difícil de suportar. A desgraça, no entanto, é um jogo de crianças
Bert Hellinger, Didáctica de Constelaciones Familiares

É muito comum, ao entrarmos no mundo da terapia, em específico, da constelação familiar sistêmica, querermos mudar nossa família. É aquela mãe beirando a depressão. O pai agressivo e frustrado. O filho desmotivado, que não consegue parar em emprego. A filha que só arruma tranqueira pra namorar. Vemos os problemas de tudo e todos, e por estarmos admirados com o processo terapêutico, acreditamos que o mesmo caminho servirá para todos que sofrem. E isso não é bem verdade.

No budismo, se diz que o sofrimento é uma Nobre Verdade. Há sofrimento. Isso, qualquer adulto pode entender. E até aceitar. Porém, quem não consegue incluir o sofrimento é a criança. Ou melhor, um lado infantil da nossa psique, devido a diversas dores vividas, e a maior parte já esquecida, nega o sofrimento. Foge do sofrimento. Busca somente o prazer e o bem-estar. Assim, a qualquer sinal que possa lembrar o sofrimento em nossa volta, queremos eliminá-lo. Queremos forçar papai, mamãe e filhinhos a ficarem felizes, assim não precisamos olhar para nossas próprias dores. Ao mesmo tempo, a infelicidade deles nos faz olhar para estas dores. De certa maneira, este jogo infinito está nos dizendo: fique em paz com as próprias dores! Em outras palavras, é exatamente o sofrimento que faz as pessoas buscarem a paz. Assim, não há nenhum sentido em querer aliviar o caminho dos outros.

Terapia nos faz crescer

Existem pessoas que acreditam que o objetivo da terapia é eliminar o sofrimento. Não é. Como colocou Jung, “o principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.”

Se alguém quer ajudar – e aí falo também diretamente às pessoas que estudam constelação familiar comigo – precisa deixar os outros enfrentarem seus medos, seus monstros, suas loucuras por si mesmos. E aí, somente quando eles enfrentarem e não derem conta – e isso são pouquíssimas pessoas que chegarão a esta percepção – estarão prontos para o auxílio terapêutico. Repito: são poucos os que tomarão este caminho. Por quê? Porque a maioria das pessoas ainda age como criança, fugindo da dor e do sofrimento e buscando eternizar momentos de conforto e prazer. A maturidade vai se instalando através de constantes decepções neste mecanismo. Quando percebemos na prática de que a vida é constituída de alegria e dor. Sofrimento e prazer. Conquistas e derrotas. Saber intelectualmente isso não é o suficiente. É preciso experimentar todas as sensações inerentes a estes altos e baixos.

A família é perfeita como ela é

Prosseguindo na senda do autoconhecimento, aos poucos vamos olhando admirados e verdadeiramente agradecidos por termos nascido em famílias mais ou menos desajustadas. Por termos compartilhado nossa vida com pessoas que trouxeram alegrias, mas também tristezas. Por termos sido validados em algumas ocasiões, e ridicularizados em muitas outras. Não negamos as dores. As feridas. O sofrimento. As exclusões. E também não negamos os aprendizados. Os benefícios. Os presentes recebidos. O amor compartilhado. Tudo faz parte. Transformamo-nos nesta pessoa adulta que somos, graças a tudo isso.  Embora tenha uma certa densidade, tudo isso é Amor. Um Amor que permite que tudo seja como é. Por outro lado, não respeitar as coisas como são, é fraqueza.

Como diz Hellinger, em Olhando para a Alma das Crianças, “a criança não consegue suportar o que acontece na família: o que acontece com a mãe, com o pai, com o destino deles e com a culpa deles. Por isso quer ajudar. Então assume algo pelo pai, pela mãe, por outros da família – por fraqueza. Ele se torna ajudante por amor, mas por fraqueza.

Muitos ajudantes adultos ajudam segundo o modelo de uma criança assim. Eles não conseguem suportar algo e tentam mudar algo – mas não porque o outro precise disso. Assumem algo por ele, sem respeito pela sua grandeza e seu destino e talvez também pela sua culpa.

A criança cresce, quando aprende a amar de outra forma – com respeito pela grandeza que conduz os pais e que conduz os outros também.

Assim, o ajudante também ajuda de outra forma, quando adquire força. Ele suporta o destino dos outros. Então apoia o outro de uma forma que ele possa ficar sobre os seus próprios pés.”

A boa agressividade

agressividade

 

A raiz da palavra agressividade é a mesma da palavra grau, em latim. No sentido mais puro, agredir quer dizer ir em direção a, seguir rumo a um nível ou grau diferente… Durante muito tempo carreguei a crença de que a agressividade era uma atitude não conveniente e espiritualmente desabonadora.

Talvez porque tive uma infância cercada por agressões físicas, mas principalmente morais, dentro de uma família neurótica… e incapaz de reagir – quando reagia, era punido – aprendi a lidar muito mal com o meu impulso agressivo. Desenvolvi o medo de agredir e o medo de ser agredido. Comecei a andar com o freio de mão puxado. Parte da minha energia me puxava para frente, e parte dela mantinha-me preso no lugar onde estava.

O que me foi muito prejudicial no momento em que tive que partir para a vida. Agredir era errado. Então, como conquistar minha estabilidade financeira? Como avançar nos meus objetivos? Como conquistar o lugar ao sol que eu tanto queria?

Porém, como vemos na origem da palavra, agressividade não é algo ruim. É um movimento natural, que pode ser usado inclusive em situações onde não temos nenhum tipo de raiva. Para mudar o grau, é necessário um impulso agressivo. Para deixar uma vida de sofrimento, seja este sofrimento financeiro, afetivo ou outro qualquer, é importante validar o próprio impulso agressivo.

O bom agressivo não ataca ninguém. Não está lutando contra nada. Simplesmente está fazendo um movimento rumo a um outro nível na própria vida. Exige esforço  e competitividade, mas isso pode ser desempenhado com leveza, humor e alegria. Se precisar defender o próprio território, o bom agressivo está no seu lugar, em posse dos seus direitos, e como um samurai, preserva o lugar conquistado sem perder a calma. A agressividade assentada interiormente é um estado de espírito, e não necessariamente uma atitude externa.

Ser guerreiro é algo nobre. Acredito que as guerras interiores são muito mais importantes que as guerras exteriores – para aquele que está buscando o autoconhecimento e crê na possibilidade de uma vida feliz e saudável. Olhar para si, conhecer seus impulsos, sua raiva, sua covardia, sua compaixão, sua inflexibilidade, as diversas variáveis emocionais que habitam o seu “eu mais profundo”  é condição fundamental para um andar confiante, produtivo, realizado.

No meu dicionário de conduta, agressividade faz parte!

(dedico este texto a tantas pessoas que, assim como eu, um dia acreditaram que ser agressivo era algo que depunha contra a própria evolução espiritual neste planeta – e por isso, teve muita dificuldade em manter os esforços necessários para alcançar seus objetivos legítimos nesta vida: prosperidade, sucesso, saúde, amizades, boas relações afetivas, paz de espírito.)

Relação afetiva: Influencia dos sentimentos escondidos dos pais e antepassados (vídeo)

As exclusões, ou seja, aquilo que não foi aceito no passado familiar em termos de relacionamentos afetivos, continuam afetando os descendentes, fazendo com que eles repitam histórias de dor e sofrimento, inconscientemente, na própria vida. É o que Alex Possato comenta neste vídeo, falando um pouco das dores que são reproduzidas na vida adulta, como forma de “lembrar” de dores esquecidas e não aceitas no passado familiar… desta forma, o descendente honra a família através do sofrimento… A fala também sobre a libertação deste padrão, que significa vivenciar a dor com consciência, entendendo que a mesma dor foi vivenciada pelos pais, pelos avós e pelos antepassados, não havendo mais necessidade de repeti-las na própria vida.

Como os sentimentos escondidos dos pais influenciam a vida profissional e financeira dos descendentes (vídeo)

 

Alex Possato conta como a trajetória frustrada do seu pai influenciou a própria vida. Seu pai  iniciou na carreira profissional de jornalista com sucesso precoce, mas gradativamente foi decaindo de patamar, e finalizou sua vida sem patrimônio, sem realização, sem saúde e dependente. Este padrão de frustração também foi vivenciado pelo avô paterno, que de formas diferentes, viu seu extremo talento para muitos caminhos não se concretizar em sucesso e reconhecimento.

Como descendente desta linhagem masculina frustrada e fracassada, Alex, desde muito jovem trabalhou, mas não encontrava o caminho profissional; tudo que fazia ia até um ponto e caía…  A partir de processos terapêuticos e trabalhos de coaching, e principalmente através da constelação familiar sistêmica, entrou em contato com a repetição do padrão doloroso de não se realizar, não se sentir um homem pleno, um homem que não pode cumprir seus compromissos, com vergonha de si e dificuldade de encarar esposa e filhos. Finalmente, a terapia auxiliou a lidar com esta vergonha, ficar em paz com o fracasso e modificar o padrão. Desta forma, naturalmente um caminho novo e próspero começou a se delinear.

[https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=AMOGnLTzrHo]

Honestidade ou cópia?

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Tenho visto muita gente copiando trabalhos. Indo “conhecer”, “se inspirar”, para depois fazer o mesmo. Lógico que com uma cara diferente. Mas é uma cópia. Eu mesmo, quando comecei o meu trabalho de constelação, copiei o que aprendi com Theresia Spyra. O curso que montei, me inspirei nos módulos da Mimansa. Mas com um detalhe… fiquei quatro anos estudando, participando de grupos, me dedicando ao autoconhecimento, a trabalhar minhas dores mais profundas, até que em algum momento a constelação familiar me disse: vá… Eu não queria acreditar, não queria seguir… mas fui. Copiando e cantando e seguindo a canção…

Copiando. É assim que as crianças aprendem. Fazem como seus pais ou educadores ensinam, para depois seguirem a própria história. Nesse ponto, tenho que dizer que muitos, mas muitos mesmo jamais terão a autoestima suficiente para fazer a própria história. Porque estão presos às histórias do papai e da mamãe. E, ou querem fazer diferente, e por isso mantém a referência no passado, ou querem fazer igual, e da mesma forma, não se enxergam.

Encontro-me numa fase de reajuste. Mesmo reconhecendo que algo muito bonito e verdadeiro flui por aquilo que faço (o meu parâmetro é o retorno que recebo, tanto financeiro, quanto de feedbacks e a influência que meu trabalho exerce na vida das pessoas de tantos lugares do Brasil), ainda não me sinto totalmente confortável com o trabalho que é realizado. Existem pontos da minha alma que estão desejosos de se expressar, e estão reprimidos. Quando analiso a pergunta: reprimidos por quem? – a resposta é: papai e mamãe. Aqueles que me educaram. Os padres, os professores. A sociedade. Dentro de mim, quase na idade de 50 anos, ainda tem resquícios de uma criança querendo fazer o certo, ser aprovada pelos pais e adultos e com raiva das rejeições que passou. Pode isso, Arnaldo?

Ser honesto é uma caminhada para a vida toda. E eu convoco as pessoas que me seguem, principalmente alunos e pessoas que passaram pelas constelações comigo, a se perguntarem:

– por que faço o que faço? É só pra ganhar dinheiro? Ou pra ser aceito?

– se eu não precisasse ganhar dinheiro nem quisesse ser aceito, faria o mesmo?

– o que eu faria? Como?

– o que realmente eu quero fazer no mundo? Tenho verdadeiramente vontade de trabalhar?

– com o quê? Se a resposta é sim, com quem? Onde?

– o que faria diferente daquilo que faço hoje?

Perceba o quanto está sendo honesto na própria vida. O quanto o seu coração está sendo contemplado nas coisas que você faz. O quanto de prazer você tem em viver. Honestidade, não por uma razão moral. Pra mim, francamente, dane-se a moral! Mas por uma questão de alma… a pessoa que não faz o que a alma deseja, não é feliz. Não expressa os dons reais que desejam ser expressos por ela. Está ainda presa às dores do passado. É avarenta, afinal, está reprimindo dádivas que o Universo deu para serem transmitidas. Ou dá em conta gotas, com interesse de retorno financeiro ou reconhecimento social. E se é assim, tudo bem… veja se quer mudar, só isso… sem culpas…

Eu aqui estou fazendo minha reavaliação. E mudarei algumas coisas. Ou muitas… Vagarosamente, vou saindo das minhas mentiras. Ahhhh… quantas mentiras! Algumas delas: ser importante! Fazer algo de destaque na sociedade! Ser alguém bem visto pelos outros! Ter sucesso financeiro! Ajudar o próximo! Mentiras e mentiras e mais mentiras, que encobrem a verdade de quem eu já sou… um ser único e especial, cheio de dons naturais para serem transmitidos… sem a necessidade de nenhuma justificativa…

O que seriam das flores se só se abrissem quando tivessem certeza absoluta de que seriam aceitas pelos outros, elogiadas, cuidadas, paparicadas, colocadas em belos altares…

Constelação Familiar Sistêmica em Curitiba – PR

curitiba_out_2015

É sempre gratificante perceber o trabalho sendo recebido com tanto carinho em diversos lugares que vou! Desta vez, casa cheia no Instituto Taozen, capitaneado por Edson e Eva…

Que em cada trabalho, possamos nos transformar, ampliando nossa capacidade de compaixão, ao perceber o quanto somos pequenos e impotentes diante de destinos às vezes tão duros e difíceis.

Que iluminemos a consciência de cessar a luta contra tantos monstros internos que não podem ser derrotados, pois são partes de nós mesmos, e assim possamos nos transportar magicamente para outro patamar, onde impera a leveza, a paz, a concordância, apesar da vida continuar como ela sempre foi … Esta é a magia da constelação, trazendo paz onde havia guerra. Inclusão onde havia rejeição. Força, onde imperava a fraqueza . Vida, onde havia morte.

(Próximo encontro de constelação familiar sistêmica em Curitiba – clique aqui e saiba mais!)

caminho de santiago de compostela

Mensagens do Caminho – 1

Você está no Caminho. Não há como não estar. Às vezes, vou lhe parecer mais rude, até injusto. Outras vezes irei me manifestar em toda a beleza que fará seus sentidos explodirem de prazer e êxtase.
Sou dureza e sou alegria. Sou tudo e sou nada. Não estou aqui para lhe dar prazer ou aplicar castigos. Estou aqui para ensiná-lo a deixar de ser tão rebelde, e apenas seguir. Ande comigo, e respeite minhas direções. Esqueça a partida. Esqueça a chegada. Você está no Caminho, e é isso que importa.caminho de santiago de compostela

Eu vejo você. Pela primeira vez

criança sozinha

É bem possível que você veja o meu rosto de contrariedade, agora. E perceba que eu estou lhe cobrando algo. Bem que eu tento fingir que não estou. Mas não tem jeito. Minha mandíbula tensa, dificuldade de olhar nos olhos, respostas rápidas e fugidias não enganam. Eu estou lhe cobrando.

Sabe o que é? Queria que você me visse. Parasse de olhar para todos os lados, menos para mim. Parasse de falar dos problemas do mundo, e dos seus problemas, e me enxergasse. É, eu sei: sou carente! Sou egoísta e quero você só para mim. Ou pelo menos, a maior parte do tempo. Mas sabe qual é a sensação? Que nunca tive você. Mesmo quando estávamos juntos. Mesmo enquanto nos divertíamos… E agora, que percebo claramente que você não quer mais saber de mim, isso dói. Dói muito.

Mas também sou forte, e finjo que sei viver sem você. Dou uma de que não ligo, domino minhas emoções, analiso a minha parte na responsabilidade disso tudo… Fujo para a cabeça, para não acessar o buraco que sinto no peito. Buraco gigantesco. Que nem toda a terra do monte Everest poderia preencher. Até acho que gostaria de cuidar de você… mas começo a perceber que só queria estar perto de você. E para estar perto de você, aceito ser humilhado, pisado, abandonado e esquecido. Mesmo assim, falo para todo mundo: eu estou ajudando! Eu sou o cara! Tudo bem, aceito o que vier…

Um lado bobinho, meio infantil, crê que gostaria de ser cuidado por você. Que nada! Nem cuidar, nem ser cuidado. Só estar ao seu lado é o suficiente. Ainda sonho com o dia em que estaremos andando, lado a lado, nossos olhos se encontrando, e em meu coração a certeza plena: você estará sempre comigo. Eu confio em você! Nunca serei abandonado.

Mas você vem para mim e diz não! De diversas formas. Arruma outro companheiro. Outra distração. Mergulha até o pescoço de trabalho. Distrai-se com diversões, jogos, bebidas, mulheres, homens, televisão, blá-blá-blá. Não desgruda dela. Ou dele. Agride com palavras, ou com o silêncio. Mergulha em sua neurose. E eu, como uma bactéria minúscula em terra de gigantes, sinto-me um nada.

Por isso tudo, eu cobro você. Me dê o seu olhar, por favor. Reconheça minhas dores, e mesmo entendendo que são minhas dores, e que isso não tem nada a ver com você, olhe para mim. Não permita que eu tenha que voltar mais trezentas vezes, para continuar a eterna busca por ti. Estou cansado de busca-la. Deixe-me descansar em seu colo. E se isso não for possível, porque você não consegue me dar mais, além do que já deu, pelo menos diga para mim: eu vejo você. Pela primeira vez. É só isso que preciso.

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Maledicência: o amor por detrás da crítica

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Quem julga as pessoas, não tem tempo para amá-las – Madre Teresa de Calcutá

Às vezes, sou dominado pela energia da maledicência. Como uma nuvem escura que vai chegando, subitamente, me vejo preso e condenado a julgar, criticar, detonar e punir alguém, que no meu ponto de vista, é culpado. Culpado de que? Na verdade, não sei ao certo. Tudo o que o outro faz, eu também faço, de formas diferentes. Ou já fiz. Mas não importa: o ódio toma conta. A energia em minha volta se transforma num ambiente ácido, hostil, e quem entrar no meu raio de ação, cairá fulminado tal qual um pássaro despencaria ao penetrar na nuvem de gás venenoso.

Costumo falar nos cursos de constelação sistêmica que o ódio é a energia do amor distorcida. Existe ódio porque amei desesperadamente algo ou alguém, e vi meu amor frustrado. Então, após o ataque de fúria – que muitas vezes somente eu vejo em mim mesmo – quando consigo serenar minha mente, pergunto: onde está o amor que sinto por esta pessoa que condeno?

E pacientemente sento, aguardo, espero a resposta. Que sempre chega. Sempre há amor. Mas antes de chegar, percebo a carga pesada que, energeticamente, carrego desta sintonia: peso nos ombros, tristeza, culpa, dó, piedade… sentimentos que tiram a energia e me levam profundamente para baixo. Estou identificado com o peso da pessoa, que me lembra o peso do meu sistema familiar. Muitas vezes quero ajudar muito o outro, mas me percebo impotente. E a cada queda, diante da impotência, sinto-me raivoso.

Isso já foi muito pior. Como terapeuta, lido com esta ilusão do “ajudar” o tempo todo. Algo dentro de mim acredita que está “ajudando” e curando alguém… E sei muito bem que não posso ajudar nem curar ninguém. Algo maior faz isso, no momento adequado. Sentado, em paz, procuro soltar o peso. Imagino que esta culpa, dó, medo, angústia, tristeza… já não me pertence. Pode e deve descansar em paz. Vazio dos pesos, olho nos olhos de quem critico, e digo: sinto muito. Eu te machuquei. Reconheço os meus atos, e agora assumo. Pode deixar comigo. Siga em paz. Você está livre. E eu também.

Estou livre dos pesos que carregava dentro de mim, e aquele irmão, aquela irmã, auxiliou-me a acessar. Colocou-se como um sinalizador apontando diretamente para minhas feridas, e diligentemente auxiliou-me a olhar para minhas dores. Em paz, consigo sentir que aquela pessoa é um anjo na minha vida, a serviço da minha libertação. Seja abençoado, irmão. Seja abençoada, irmã, que tanto me provoca. Agora, vejo você com outros olhos. Eu estou livre. E você também.

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