Recebo meus presentes …

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Quando recebo algo, muitas vezes sou tentado a devolver em igual valor. Ou a prestar algum favor à pessoa. Fui educado com esta frase: não devo nada a ninguém. Logo, tudo aquilo que vem, tem que ser pago. Porém, tenho percebido que, em algumas situações, é importante sentir-se devedor. Somente assim, posso receber um presente, um favor, um agrado, uma homenagem. Nossa, como é difícil! Fico encabulado, envergonhado, com comichão no traseiro. Tudo isso, talvez encobrindo o orgulho enorme, que me faz “não querer dever nada a ninguém”. Aprendi assim, e desta forma, me isolo. Torno-me ingrato. Que tolo!

Eu sou um devedor! E sempre serei! Nada seria sem ter recebido tanto dos meus pais, da minha família, dos meus professores, das igrejas que frequentei, dos amigos que me apoiaram, das companheiras que passaram pela minha vida, das pessoas que vieram, passaram e nunca mais vi. Recebi, e muitas vezes, este “receber” veio também com dores. Porque alguns presentes não têm nenhum valor financeiro, mas têm o poder de mudar o rumo da jornada. Hoje, tenho certeza: os maiores presentes são aqueles que me transformaram. A mudança nem sempre foi confortável, mas não trocaria quem eu sou por aquele que fui um dia…

Diante desta transformação, estarei sempre em débito. Recebo, e não posso pagar…

Alex Possato

 

A arte de dar

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Estes dias, o amigo Ricardo me disse: nós damos aquilo que está sobrando. Esta frase não saiu da minha mente. Durante toda a minha vida, fui perseguido pela sensação de estar devedor, e por isso, sentia-me tentado a dar. Dar muito. Preciso dar para o mundo. Preciso ser bom. Esta sensação não vinha do meu eu mais profundo, mas sim de um eu pequeno, endividado, pobre, desequilibrado.
Demorei para entender: quando se tem dívidas, é preciso pagá-las. Sejam elas financeiras, morais, espirituais… Um homem devedor não tem o que dar. E comecei a pesquisar onde tenho dívidas. As financeiras, finalmente, paguei! Mas… e as morais? E as espirituais? Por exemplo, tenho uma sensação de ingratidão em relação aos meus avós, que me criaram. Principalmente à minha avó. Não soube receber os seus cuidados, e ainda fiquei magoado pelo seu jeito rude de educar. Ainda hoje não estou pacificado em relação ao meu pai. O julguei um pai fraco, irresponsável, ausente. E não consigo receber toda a abertura espiritual que ele me proporcionou, através das suas buscas e conhecimento. O contato com as entidades, com os orixás, com o zen budismo e a meditação, o sincretismo religioso, o ecumenismo, a busca incessante: tudo presente de papai. Algo que hoje faz parte de mim mesmo.
Mesmo assim, saí pelo mundo querendo dar. Primeiro, nas religiões que frequentei. Depois, no meu trabalho como terapeuta e professor. Um mendigo disfarçado de rei. Sentado neste teclado, às vésperas do Natal, época tão propícia a compartilhar as graças recebidas, vejo-me pequeno. Muito pequeno. Aquilo que eu mais gostaria de dar, que é minha gratidão aos meus pais e avós, não tenho. Deparo com a minha humanidade, mas não estou triste. Simplesmente, consciente da minha pequenez. Não sou um rei mago. Não tenho presentes para o menino Jesus. Posso simplesmente ajoelhar, e louvar a Sua grandeza.
Que você possa nascer em meu coração, menino Jesus. Que Seu amor e sacrifício redima meus pecados. Que minhas sombras sejam por ti amparadas. Que a gratidão possa um dia brilhar em meu coração. Que um dia eu possa dar aquilo que hoje, me falta!
Abençoado seja o Seu nascimento!

Se o problema é financeiro, dê dinheiro

de dinheiro

Ontem, uma amiga disse: uma querida depositou um dinheiro na minha conta. Puxa, fico sem jeito, nem sei como retribuir. Até porque ela não precisa, e não iria aceitar.

Pensei um pouco, e me veio: quando você puder, dê a alguém. Nem sempre precisamos retribuir diretamente à pessoa que nos auxiliou. Deus provê de diversas formas, e se pudéssemos ver o mundo e as pessoas como uma rede, entenderíamos que o “dar e receber” nem sempre é direto. Recebemos de um, damos a outro… está tudo certo.

Isso me fez parar para pensar na minha vida. Desde jovem, envolvido em pequenas enrascadas financeiras, minha mãe patrocinou muitas das minhas despesas… e pagou muitas das minhas dívidas. Antes disso, meus avós paternos proveram totalmente a minha vida, durante 8 anos. Na juventude, minha tia e minha mãe auxiliaram no pagamento da faculdade. Minha ex-esposa utilizou o dinheiro da sua herança para injetar fôlego na empresa que nós abrimos… e quebrou… Pouco tempo atrás, uma amiga, ao saber que eu estava numa situação apertada, emprestou um valor, sem perguntar quando, nem como eu poderia pagar. Quando me vi mal, usei também os recursos do banco, e apesar dos juros surreais, sempre me auxiliaram nos momentos de aperto. Se descontrolei, a culpa não foi do Banco, nem da minha mãe, ou do meu pai boêmio, nem da minha ex-esposa, como sempre quis acreditar, mas de mim mesmo, que tinha muita dificuldade em organizar o fluxo financeiro.

Se tenho gratidão pelo que recebi, tenho boa vontade em dar… e investir para multiplicar!

Vou ser franco: dinheiro sempre foi o meu problema. Não sabia controlar, não sabia gastar, não sabia dar. Posso dizer que uma parte de mim é muito mesquinho. Avarento. Sou capaz de me dar profissionalmente, como amigo, de diversas formas… mas dar em forma de dinheiro, sempre foi muito difícil. Muito difícil.

Minha mãe certa vez me disse: se o problema é financeiro, dê dinheiro. E eu, embora não tenha conseguido seguir o conselho na época, mais para frente, quando me vi apertado (fato tão recorrente em minha vida), comecei a fazer doações. Não importa para quem: meu caminho espiritual. A Igreja Católica. Amigos… De alguma forma, a quantidade de dinheiro que passava por mim começou a aumentar. E assim, eu podia continuar a dar. Colocar algumas pessoas para auxiliar em coisas que eu já não podia fazer, por falta de tempo. Pagar comissões para amigos organizarem meus trabalhos. E embora parecesse que eu estava tirando do meu próprio bolso para pagar aos outros, comecei a perceber que não. O fluxo aumentava, e sobrava sempre para eu poder reinvestir em coisas que achava necessário.

O dinheiro vem de outro lugar: uma época, veio dos meus avós, depois, da minha mãe, da minha tia. Da ex-esposa. Depois, dos amigos. Do banco. Hoje, dos clientes. Dos alunos que atendo. Mas na minha concepção, na verdade, na verdade, vem de Deus. Vem do Universo. Porque existe um caminho invisível, que faz as pessoas me encontrarem, acharem o meu trabalho. Existe um mecanismo que faz com que o dinheiro seja depositado em minha conta. Quem controla este mecanismo? Quem sabe o momento em que realmente preciso? Como alguém pode saber que farei bom uso do dinheiro, e que cuidarei com respeito dele?

Bem… fato é que eu não sabia receber. Não tinha real gratidão pelo dinheirinho suado dos meus avós que pagava minhas roupas (muitas delas eu reclamava por não serem da moda), meus livros, meus sapatos. Chantageava minha mãe, pedindo dinheiro emprestado para nunca devolver. Pegava dinheiro do banco com ódio contra “estes porcos capitalistas” que exploram a minoria. Tinha tanto problema com dinheiro que era mais fácil me desfazer dele, não controla-lo, jogá-lo fora… ficar sempre no vermelho.

Até que cansei-me da miséria. Miséria espiritual, diga-se de passagem. Refletida na minha conta bancária devedora. No nome sujo no SPC e Serasa. Percebi este ser tosco, apegado, invejoso, rancoroso, que via no dinheiro algo nojento, problemático, e nas pessoas que o possuíam como seres “do mal”. Embora eu quisesse sempre estar “do lado de lá”…

Começo a entender que não existe “lado de lá” nem “lado de cá”. Nem o dinheiro é negativo ou positivo. Existe o coração aberto ao fluxo da prosperidade, ou não. E existe a mente consciente capaz de controlar, organizar e cuidar das finanças ou não. Vejo hoje que a prosperidade tem a ver com estes dois fatores: coração aberto e mente organizada. Não adianta eu estar aberto para receber um bilhão de reais, se não sei organizar duzentos. Como posso cuidar de milhares de cabeças de gado, se olho para o pasto e nem tenho noção de quantas cabeças de gado tenho? Qual o meu gasto com estas cabeças de gado? Quanto elas valem? Quantas preciso vender mensalmente?

E da mesma maneira, não adianta ter uma mente organizada, se meu coração está fechado.  Se não estou pronto para servir ao próximo. Se não sei me doar. Se não sei usar o dinheiro de forma amorosa, cuidadosa.

Sugiro ao leitor que, se de alguma forma, você se sente provocado por este texto, faça um exercício de gratidão. Escreva todos os momentos em que você recebeu benefícios financeiros, desde criança. Por menor que tenham sido. Desde a roupa que você usava, até a mesada mensal, se é que você teve. Desde o fato de ter um pão para comer, até o dinheiro para aquela viagem para a praia. O dinheiro que veio do namorado, da esposa. O lucro na venda do carro. Aquela herança que surgiu. O FGTS liberado num momento necessário. O seguro desemprego. O empréstimo do amigo. O uso do cheque especial. Agradeça tudo. Tenha vindo de alguém que você tem carinho, ou tenha vindo do governo ou da instituição financeira. Escreva, escreva tudo. E agradeça. Entenda que por detrás disso tudo, existe um comando maior. Que provê sua vida, no momento em que você mais precisa. E se possível, faça um pacto: vou usar cada centavo que passar pelas minhas mãos com amorosidade, respeito e liberdade. Usarei cada centavo em nome do crescimento. Do benefício ao próximo. Com inteligência, controle, e coração aberto. Trabalharei arduamente para ficar em paz com o “mostro” da ganância, da inveja, do ciúme, da miséria, da manipulação, da compulsão pelo gasto desnecessário, que habita minha mente inconsciente. Sei que ele está aí, mas não darei mais ouvido a ele. Mas caso eu caia na sedução irresistível deste “monstro”, tudo bem… Afinal, ele já está aí há tantos séculos. Começo tudo de novo. Coração aberto, mente organizada, gratidão a cada entrada, abertura para doar.

Coração aberto, mente organizada, gratidão a cada entrada, abertura para doar.

Faça o teste. Depois me conte…

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