Quando um terapeuta deve interferir na constelação?

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Antes de mais nada, devo explicar que a constelação familiar sistêmica é um método aberto, que é praticado de formas diversas pelo mundo. Não só Bert Hellinger veio modificando a sua forma de atuar perante a constelação, como também diversos outros terapeutas, de linhas diversas, acabaram incorporando formas e métodos dentro da dinâmica, fazendo com que uma constelação conduzida por um seja talvez bem diferente de outra, conduzida por outro profissional com outra experiência. Acho que todas as formas são válidas.

Dito isso, o meu intuito é, neste momento, colocar algumas linhas gerais para quem está aprendendo a conduzir constelação familiar sistêmica e acrescentar formas novas de pensar, de agir, de perceber. E a primeira coisa que e vem é: respeite o método que lhe foi ensinado.

Foi assim o meu caminho como facilitador, e depois, como instrutor. Estudei o método com a alemã Theresia Spyra, que por sua vez aprendeu com outra alemã Mimansa Erika Farn… esta, discípula direta de Bert Hellinger e uma das pioneiras, se não a pioneira da constelação familiar sistêmica no Brasil.

E falando sobre a maneira que aprendi, posso dizer que num trabalho sistêmico, quando os participantes estão suficientemente centrados, percebendo o sistema sem medo, com a mente mais ou menos livre dos conceitos pré-determinados, e sem se deixar prender por emoções exageradas, a constelação familiar anda sozinha. Mas para que os participantes possam estar centrados, é necessário que o facilitador esteja. E é muito comum perceber facilitadores nervosos, presos nas próprias ideias, nas emoções pessoais e sem saber lidar com a energia sistêmica que flui do campo… principalmente facilitadores inexperientes.

Eu também comecei assim, e não tem mal nenhum nisso. Quando a gente começa a dirigir, dá um nervoso mesmo, não é assim? Por isso, a minha instrução é: centre-se! Aprenda a deixar seus pensamentos passarem, sem dar bola para eles. Aprenda a deixar suas emoções passarem, sem embarcar nelas. Resista à primeira ação, e espere o máximo possível. Aprenda a sustentar a energia da constelação. E isso se faz com muito treino. Participando de muitas constelações. Se constelando e servindo de representante dezenas e dezenas de vezes. Se necessário, anos a fio.

Aos poucos, você irá percebendo a maravilhosa dinâmica da constelação sistêmica, que surge perante seus olhos antes de haver qualquer movimento. Você começa a abrir um canal intuitivo, onde frases surgem na sua cabeça, e quando faladas, resultam num movimento adequado ou em mudanças na energia do trabalho. A ideia de colocar um representante fica clara na sua mente, e quando você coloca, vê a dinâmica do trabalho alterada. Você, às vezes, é instruído a pedir um movimento para algum representante, e isso se mostra significativo.

A interferência deve ser simples. Não há discursos. Não há discussões nem tentativa de ensinar alguém. Passar lições. Mostrar conhecimento. Julgar, criticar ou apoiar quem quer que seja. Você, como facilitador, é somente um instrumento… uma flauta oca, por onde o sistema irá soprar suas notas. Você não quer nada. Não quer chegar em lugar nenhum. Agradar ninguém: nem o cliente, nem ao sistema, nem a si mesmo. Você se deixa conduzir por algo maior.

Talvez você pense: em não consigo isso! Minha mente não para de pensar! Sim, eu sei. A minha mente também não para de pensar. Porém, como disse acima, com muito treino (e a quantidade é muito relativa), você começa a entrar no campo com mais facilidade, e o seu trabalho na constelação começa a fluir de um outro lugar. O campo sistêmico se torna um campo de meditação. E você se deixa conduzir, embora não perca a sua capacidade de discernimento. Por isso, vou deixar umas dicas de quando um terapeuta deve interferir na constelação. Veja bem, são dicas, não regras. Em primeiro lugar, a intuição deve dizer algo.

1 – receber internamente um sinal claro de colocar um representante, tirar ou substituir alguém, pedir um movimento ou falar uma frase – se você não tem certeza do sinal, aguarde. Se o sinal é real, voltará novamente à sua mente;

2 – quando sentir que o movimento (ou a falta de movimento) está se repetindo, sem sair do mesmo padrão, indefinidamente;

3 – quando perceber que o representante está perdido em seus próprios pensamentos e emoções, e este tipo de padrão está destoando da constelação, como um todo;

4 – quando você conseguiu sustentar “o não-agir” durante tempo suficiente, e nada ocorre;

5 – quando existe algum tipo de risco à integridade física dos representantes;

6 – quando o representante deixa de obedecer aos comandos, e isso destoa do contexto da constelação – o que quer dizer que o representante entrou num contexto pessoal.

Lembre-se, querido. Você pode às vezes se perder. Ficar confuso. Entrar nas próprias emoções. Neste caso, afaste-se um pouco do campo. Dê uma distância, respire tranquilamente, e volte ao comando. Desta forma, o que se passa internamente não ficará evidente no grupo, e assim  você não deixará que as pessoas se influenciem com a sua insegurança, dúvida, medo, confusão, raiva ou seja lá o que se manifestar que é seu, e não do sistema. Isso não significa combater ou negar o seu estado interno – significa assumi-lo como um todo, e ao mesmo tempo, não perder conexão com o seu papel de facilitador sistêmico. Entenda também: muitas vezes você “sentirá” emoções e sensações do sistema. Isso é comum. Você sentirá a confusão, a dúvida, o medo, a raiva, o desejo sexual ou outra sensação que tem a ver com a constelação que irá ocorrer. Por isso, mais importante ainda é aprender a não entrar nestas sensações, não se deixar dominar. Sentir… e deixar passar. Sentir… e deixar passar. E ao mesmo tempo, ter a firme intenção de se conectar ao sistema, e permitir-se ser um instrumento. Isso é um gesto humilde, e como somos pouco humildes, em geral, precisamos treinar. Repetir, repetir, repetir. O dia que você acreditar que pode conduzir uma constelação, e é um grande facilitador, você se deixou perder pelo ego, e mesmo que tenha bom conhecimento e experiência, não estará sendo um instrumento totalmente adequado.

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Um terapeuta de constelação não olha para a cura. Sente o movimento

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“Quão mínima é toda a teoria, todo esse querer ter razão sobre aquilo que é certo e errado. Quão pequeno? Isso é como quando as crianças querem construir o mundo numa caixa de areia. O mundo continua no seu ritmo, deixando de lado a caixa de areia”. Bert Hellinger – Ordens da Ajuda

Antes de mergulhar no universo da constelação familiar sistêmica, estudei programação neurolingüística, a PNL. Neste tipo de abordagem, estamos geralmente orientados para buscar a solução para um determinado contexto apresentado pelo cliente. Na realidade, vivemos uma sociedade focada em buscar soluções. Soluções imediatas. E se vivemos buscando soluções, significa que estamos o tempo todo olhando para os problemas. Falta de dinheiro. De saúde. Separações de relacionamentos. Conflitos entre pessoas. Perdas. Precisamos de soluções! Soluções! Soluções, diante de tantos problemas.

Graças a este tipo de visão, no começo eu via as pessoas que eu atendia como gente problemática. Que precisava mudar. Que precisava de cura. Que tinha que alcançar um patamar x. Estava preso aos meus conceitos de certo e errado, de doença e saúde, de adequado e inadequado, e me via o tempo todo confrontado com pessoas e situações que não se enquadravam ao que eu desejava. Estranhamente, eu percebia que a constelação sistêmica agia sobre estas pessoas de uma forma que nem eu, nem elas entendiam. E muitas vezes, meses após, ou em alguns casos, dias depois do atendimento, eu recebia um feedback assim: não sei o que aconteceu, mas minha mulher teve uma crise emocional que nunca ocorrera. E então tivemos um diálogo franco, como nunca! E ela nem sabe que vim fazer terapia! Estamos nos entendendo, finalmente… Você acha que é por causa da constelação?

Quando eu lembro do trabalho feito, muitas vezes verifico que a constelação não atingiu um estado de solução. Quer dizer, nem sempre as pessoas ficaram totalmente confortáveis, a imagem final da constelação nem sempre é a mais agradável. Isso, segundo nossos conceitos de “certo e errado”. E mesmo assim, os efeitos ocorrem. Então, para que tanto foco na solução, se sabemos que algo irá mudar? E o pior: aquela pessoa tão problemática, na minha cabeça, se mostrava diferente, e eu não sabia explicar o porquê. Acho que eu que era “o problemático”, né?

É lógico que um cliente, se está se separando, quer uma resposta direta: vou separar ou a relação vai melhorar? Se ele está com um sintoma físico, quer saber: vou me curar? Se ele está sem dinheiro, deseja a resposta: qual o caminho da prosperidade? Onde vou me encontrar financeiramente?

Comecei a aceitar que estas respostas não vinham com clareza. E nunca virão. Ou seja, não havia solução, nem na imagem da constelação, nem na resposta que eu poderia dar ao meu cliente.

A solução está no movimento

É lógico que minha mente de alguém que gosta de respostas, fica querendo apontar algo fácil e direto: vai acontecer isso! Deixe esta pessoa! Essa doença vai desaparecer em 2 dias! Mas isso não existe, em constelação. Conforme Bert Hellinger veio percebendo a constelação familiar se desenvolvendo como método, descobriu que o mais importante é o movimento que ocorre. E este movimento, dentro da constelação, pode ser sutil. Às vezes, uma pessoa que não conseguia olhar para outra, olha. Pronto. Houve um movimento! Alguém que estava absolutamente estático, consegue dar uns passos. Ok, houve movimento. Uma dupla que estava se hostilizando, consegue se encarar, e embora sem beijos e abraços, deixam a hostilidade de lado. Houve um movimento!

Nós, como facilitadores, percebemos o movimento e validamos. E também sentimos a energia do campo, quanto mais estivermos conectados com o trabalho. E percebemos claramente a energia mudando. É comum não sabermos quem é quem, dentro da constelação. E é comum não podermos explicar ao cliente o que tem a ver o movimento que houve na constelação em relação à questão que ele veio trabalhar. Não sabemos a solução, mas podemos ter certeza de que o movimento irá afetar a vida do cliente, e a questão será atingida. A experiência de anos trabalhando com constelação e os contatos com os clientes me dá esta certeza.

Vamos supor que um cliente tenha vindo com uma questão de falências recorrentes para ser trabalhada. E na constelação, vemos a imagem de um casal se reencontrando. Nós, como terapeutas, não temos a menor ideia de quem é o casal. E o cliente também não. Mas vamos supor uma história mais ou menos assim: um homem, antepassado do cliente, possuía uma amante, vivendo paralelamente à família oficial. Esta amante nunca foi reconhecida e nem recebeu os benefícios financeiros que a família oficial recebeu. O homem morreu, e esta amante morreu em miséria, sem se casar, sem família. Bert Hellinger nos ensina que os excluídos do sistema familiar (e todas as amantes fazem parte do sistema familiar!) causam um bloqueio no fluxo do amor, até que energeticamente o excluído seja reconhecido, e faça parte. Este emaranhamento sistêmico pode estar provocando as falências sucessivas.

Sabemos, observando uma constelação, que a inclusão ocorre somente quando todas as resistências emocionais, de crenças e energéticas são vencidas, durante os movimentos que surgem na própria dinâmica. Hellinger diz, no livro Ordens da Ajuda: “o movimento da alma é bem lento. Você dá a ele o tempo integral. Enquanto decorre o movimento, decorre a cura.”

Agora… como iríamos explicar uma coisa assim para o cliente? E outra coisa: não há nenhuma necessidade de explicar, porque o movimento da constelação, quando ocorre, é o que vale. A energia foi colocada em movimento, e isso irá refletir na vida do cliente.

Como será este reflexo? Não sabemos. Às vezes, para que alguém, com problema financeiro melhore, é necessário perder o trabalho atual, que está marcado pela energia antiga, para encontrar um novo caminho de vida, e entrar na rota da prosperidade. Às vezes, para encontrar o equilíbrio, será preciso um momento de desequilíbrio, onde as estruturas velhas terão que ruir. Uma casa antiga, desmoronando, edificada sobre fundações inadequadas, precisa ser demolida, para a reconstrução. Outros casos, as mudanças são sutis, porque o cliente já passou por profundas mudanças, até chegar ao trabalho da constelação.

Aprendendo a lidar com a própria mente

Costumo orientar meus alunos do curso de constelação para meditar. É comum a pessoa não conseguir lidar com a expectativa de não saber e a ansiedade de querer a resposta para ontem. E será muito óbvio que o cliente irá atiçar esta ansiedade e expectativa, querendo saber o que ocorreu, quando será a mudança na própria vida, etc. e tal. De quem é a ansiedade? Quem é que está em dúvida?

O terapeuta de constelação precisa aprender a confiar na intuição, e sair dos seus pensamentos condicionados. A intuição e a mente racional funcionam em canais diferentes. A mente racional é afetada por ideias fixas e emoções de coisas do passado. A intuição é um canal mais límpido, que “sopra” uma direção, suaves certezas, que faz com que fiquemos tranquilos e confiantes. Como ouvir a intuição? Deixando os pensamentos e emoções passarem, por mais conturbados que sejam. E como deixar eles passarem? Treinando observar a mente. Meditando o tempo todo. Saindo do tumulto, deixando as conexões de lado, silenciando, parando as conversas fúteis e fofocas. Deixando de querer ter certezas e saber as soluções. Assim, permitimos que tudo seja como é, e a força do destino atue sobre a vida do cliente, em toda a sua grandeza.

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