Abusado ou abusador: em que lado estou?

abuso

O sofrimento a serviço da vida pede que o assumamos,
para que o superemos, e, fortalecidos por ele, voltemos a viver.

Bert Hellinger

Há poucos dias atrás, estive participando de um curso avançado em tantra, onde tive a oportunidade de revisitar um lugar de muita incompreensão na minha história pessoal: abusos, sexualidade e prazer. Por que é tão difícil olhar para os abusos que vivenciei? Vou falar de mim: há um lugar de vergonha. Muita vergonha. Culpa e prazer. O permitido e o proibido. Todos sabemos que, quando nos deixamos levar por ele, o sexo é uma energia quase incontrolável, que nos toma e nos conduz a um lugar muito além dos certos e errados. Nas vezes em que acessei ter sido abusado, não creio que as pessoas envolvidas estavam querendo fazer “o mal”. Mas acabaram fazendo, afinal, na época eu não tinha como reagir. Como impedir. E não havia um consentimento, um entendimento. Ficou só o registro – que eu havia apagado durante anos da minha memória, de algo que foi ruim, mas talvez também tenha sido bom.

E esses ecos do passado me afetaram totalmente – no sentido de limitar minha capacidade de sentir prazer, de me entregar nas relações afetivas e permitir alçar os vôos magníficos que a sexualidade saudável proporciona.

Bem… falei tudo isso porque, novamente, vivemos um momento em que denúncias de abusos contra pessoas que estão num lugar de cuidadores, guias, líderes, treinadores e terapeutas estouram por todos os lados. Sendo um terapeuta, e também reconhecendo o meu lado abusado (e abusador!), senti vontade de falar um pouco sobre este assunto.

O abusado é um abusador em potencial – os padrões se repetem

Dando uma rápida busca pela internet, vi alguns depoimentos de psicólogos envolvidos nos trabalhos de acolhimento às pessoas em situações de abusos, onde eles garantem que aqueles que abusam foram também abusados na infância, principalmente os homens. A psicóloga Mery Oliveira, do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, diz: “apesar de não ser regra, são frequentes os casos em que meninos molestados invertem o papel na adolescência e na fase adulta.”

Aqui entramos na questão das repetições de padrão, que a constelação familiar sistêmica tanto demonstra como verdadeira. Inconscientemente, acabamos adotando os mesmos comportamentos que nos levam à dor, ao sofrimento, como forma de “pertencer” ao sistema de origem. Nos atraímos ao comportamento daquele que foi excluído: seja o abusador, ou o abusado. No fundo, estamos gritando para que a dor seja vista.

Alguns de vocês poderiam dizer: e você? Não se tornou abusador? Eu posso dizer que tive uma educação extremamente moralista, que acabou me restringindo na sexualidade. Embora tivesse desde a adolescência dificuldade de lidar com a sexualidade de uma forma mais tranquila, não tive o impulso (ou talvez a coragem) de me expor nesta área. Adotei um comportamento de repressão, ao invés de extroversão sexual e também por causa disso, fui buscar auxílio de terapia e caminhos espirituais, o que acabou me direcionando para trabalhos de cura. Mas também abusei de outras formas, como comento mais para frente.

Os que foram feridos, buscam se curar… e muitos, tornam-se curadores

Não somente na minha história, mas observando centenas de pessoas que passam pelos meus trabalhos e cursos, vejo que é quase uma regra: pessoas muito feridas, traumatizadas, buscam incessantemente a cura. E é frequente que desejam se tornar terapeutas, psicólogos, líderes espirituais, coaches, etc. Principalmente conforme vão curando suas dores, percebem que podem auxiliar no processo de muitos.

Porém, os padrões não desaparecem por encanto. As marcas dos traumas, inevitavelmente renascerão, conforme vamos trabalhando com traumas de outras pessoas. Pela lei da ressonância, nós, terapeutas, atrairemos pessoas que passam por problemas que têm sentido com a nossa história pessoal. E se têm aprendizados ainda não efetuados, é uma possibilidade que a gente caia diante desta prova. Podemos nos perder. E isso não é somente um privilégio do assunto sexo, mas relacionado a diversas outras áreas: com o corpo, com a saúde mental, financeira, relacionamento afetivo, vícios, etc.

O próprio terapeuta, possivelmente, não enxergará o processo. Pode ser que use os argumentos mais plausíveis, embasados em correntes de pensamento x ou y, possuindo as melhores das boas intenções, para justificar suas atitudes. Mas ele estará disseminando a dor. E essa é a prova de que algo está errado.

Não confie em milagres… confie em si

Todos nós, terapeutas que estudamos aquilo que fazemos, temos ótimos argumentos. Sabemos muita coisa. Temos bastante experiência e muitas pessoas realmente recebem benefícios através das técnicas que propomos. Porém, o trabalho é sempre do cliente mesmo. Não é a constelação familiar que fará algum milagre. Recebi dias desses um comentário de alguém que dizia estar decepcionado com a constelação. Embora não o conheça, entendo o ponto de vista. Acredito que muita expectativa foi colocada sobre o poder da constelação. Como se ela, por si só, faria uma mudança. Às vezes, esta expectativa é jogada sobre o terapeuta. O líder espiritual. O conselheiro. O médium. O guru. O coach.

Infelizmente, a nossa inabilidade emocional e a perda do bom senso abrem portas para todos os tipos de abuso: sexual, financeiro, moral, profissional, espiritual. E como terapeuta de constelação familiar, tenho que dizer que as primeiras relações de abuso que sofremos estão relacionadas aos nossos pais. Somos abusados em casa, de diversas formas, perdemos a confiança naqueles que deveriam nos proteger, alimentar, incentivar, amparar, afagar… e partimos pelo mundo buscando substitutos para estes pais. Às vezes, os abusos em casa são tão velados, que achamos que estamos sendo bem tratados. Achamos que a manipulação que a família nos impõe é sinal de cuidado. É preciso aprender a distinguir o que é amor verdadeiro – que liberta, e o que é apego e manipulação.

De que forma também abusamos?

Percebi que, da mesma forma que fui manipulado na infância – literalmente, para satisfazer o desejo de outros, cresci e aprendi a manipular os outros, para que satisfizessem os meus desejos. Teci relações, sejam de amizade, amorosas ou profissionais, buscando sempre ser aprovado. Ser visto. Validado. Querido. Queria ganhar, e somente para mim. Usufrui de muitas coisas conquistadas nestas relações, mas eu dei muito pouco. Estava fechado para o outro, afinal, eu não queria me expor a novos abusos. E embora não tenha abusado ninguém, sexualmente falando, abusei de outras formas – tenho plena consciência disso. Ao fechar meu coração e limitar o meu amor, minha compreensão, eu estava, sim, abusando. Com isso, acabei atraindo novas situações de humilhação. Abandono. Rejeição. Não conseguia viver em prazer comigo mesmo, e com o meu corpo, porque o prazer depende, literalmente, do fluir da energia sexual em meu sistema. E isso eu não permiti.

Gostaria, por isso, de deixar esta pergunta, para você que realmente busca se conhecer e quer abrir seu coração para viver uma vida de prazer:

– de que forma também eu abuso?

Evite a fácil tendência de, diante das notícias dos dias de hoje, julgar, culpar e condenar aqueles que abusam. Se tantos abusos estão se mostrando, sistemicamente existe muita dor para ser integrada, em todos nós. E principalmente naquele que se sente atingido por estas notícias. Existe abusador e abusado dentro de nós. Está na hora de olharmos para eles.

Alex Possato

 

Os dois “fazeres”

não fazer

Muitos dizem: eu não sei o que fazer! Onde ir! Sinto-me frustrado… impotente… infeliz… Talvez estas pessoas estejam muito perto de entender que, embora possamos conquistar muitas coisas, nada disso nos torna mais preenchidos. Sonhos realizados são ótimos. Porém, o prazer da vitória passa muito rápido. E novamente caímos no vazio… A mente dominada pelo fazer compulsivo, pelo retroalimentar de objetivos e planos, vicia-se nos picos de adrenalina que uma vida de competição impõe. E assim como qualquer vício, os picos de depressão são inevitáveis. A Mãe sábia, dentro de mim, diz: pare! Pare agora. Olhe para as pessoas que estão em sua volta. Observe o canto dos pássaros. O latir do cachorro. O silêncio desta manhã. O céu em seu tom cinza. Sinta seu coração. Cuide de si, da sua mente, do seu corpo. Não faça nada. Deixe surgir uma ação espontânea. Aja deste lugar. Ou contemple o não-fazer.

Existem dois “fazeres”. O fazer vindo desta mente compulsiva, cansa. Já o fazer que brota do silêncio, do não-foco, da não-vontade, da não-intenção, surge com uma pureza quase infantil, e tal qual a alegria genuína de uma criança diante da novidade, se torna prazer, fluidez, suavidade… Temos medo deste não-fazer. Temos muito medo de perder o controle. De permitir que Algo Maior faça os planos por nós. Não percebemos que, na realidade, os planos já estão traçados. E que às vezes, o nosso fazer compulsivo encobre aquilo que realmente deveria ser feito. Quando redescobrirmos a magia de simplesmente cumprir os desígnios supremos, veremos a vida se preencher de significado. Isso é instantâneo. Aqui e Agora. O banquete já está pronto, e o Pai, aguardando o nosso retorno à casa…

Alex Possato

 

Coração em greve

coracaoemgreve

Ei! Psiu! Queria falar com você! Aqui… olha pra cá… mais pra baixo… do lado esquerdo… fazendo tum-tum. Tum-tum. Ainda estou batendo, apesar de tudo. Você tem me esquecido, não é mesmo? Mas o pior não é isso: está me contaminando. Sim, você tem me dado muito veneno, e eu tive que me fechar, me proteger, pra evitar entrar em colapso.
Mas agora cansei, e resolvi protestar. Levantar minhas faixas na rua:

– pare de guardar seus sentimentos!
– fora repressão!
– assuma suas dores!
– queremos lágrimas sinceras!
– mágoa livre!
– mais amor, menos silêncio!
– abaixo as máscaras!

Sabe, cara: tô cansado de ver você entrar em relação, e sair de relação… e não se expressar. Se tá magoado, não fala. Quando fala, só briga, mas não tem a capacidade de dizer: você me machucou. E aí, depois que briga, se arrepende. E também não fala: sinto muito. Agora, fui eu quem te machucou. Eu ainda te amo. E aí se afastam, e você não diz: tô com saudade! Sinto a sua falta. Foi muito bom o que vivemos. Então, vê o outro com outra, e não comunica: ahhhh, que inveja! Como eu queria que fosse eu! Tomara que acabe logo… só pra ele sofrer mais um pouco. E logo em seguida, quer voltar atrás: nossa! Que maldade… como pude sentir coisa tão ruim assim. Que sejam felizes. Eu vou continuar aqui, sozinho na minha dor…
E você sabe, cara. Anos e anos assim. Sem expressar seus sentimentos pras pessoas que você ama, as que odeia, as que ignora, as que te ignoram… Sem expressar seus sentimentos nem pra você mesmo! Mas saiba você que cada palavra não dita cai como ácido sobre mim. E eu tenho que me fechar, me proteger. Preciso falar uma coisa: Eu fechado, impeço você de amar. De sentir alegria. Prazer. Êxtase. Plenitude. Confiança.
Todos os sentimentos passam por mim. Se você nega um, nega todos. Se não sabe demonstrar sua raiva, sua mágoa, seu perdão, sua amizade, sua alegria… você começa a dizer para mim que não sou tão útil… Você está me esquecendo, achando que minha única função é fazer tum-tum. Tum-tum. Tum-tum uma pinóia, cara! Não tô aqui pra ser bateria de escola de samba. Eu existo porque sou a razão principal da sua existência… sentir! Manifestar o que você sente. Viver em plenitude. Curtir a vida! Em todas as suas nuances. E você preso aí nesse cérebro. Só querendo saber. Resolver. Chegar a algum lugar. Entender. Ah, vá…
Tô pensando em entrar em greve. O que acha? Vou dar uma paradinha… No começo, é só um alerta. Uma pequena parada. Só um susto. Mas se você não olhar direito para seus sentimentos, a parada vai ser mais longa… Um dia. Ou uns três dias… E não vai adiantar entrar na justiça trabalhista, viu?
Quem sabe você resolva validar seus sentimentos. E expressá-los.
Eu só quero uma coisa: me deixa trabalhar. Mas do meu jeito! Na totalidade. Pare de usar tantas máscaras. Pare de fingir. Seja mais coração, cara! E menos cabeça…

Alex Possato

 

Quando a vida diz não

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Um dia, fomos crianças. E como as crianças reagem, quando são contrariadas? Umas, batem o pé. Protestam. Brigam. Outras, se calam… mas, por dentro, odeiam. Querem matar. Raras são aquelas que levam numa boa…

Hoje, nós somos adultos. Crescemos. Adquirimos pelos, rugas, cabelos brancos, quilômetros rodados, algumas vitórias, e muitas desilusões. A vida nos contraria, a todo tempo. Seja porque nosso amado não responde da forma como gostaríamos. Seja porque os projetos não vão para frente. Ou, às vezes, nem mesmo conseguimos projetar alguma coisa. Ouvimos muitos nãos. Não de alguém querido. Não do bolso vazio. Não do corpo. Não do trabalho. Não até do caminho espiritual.

Almejamos a paz, o amor, a prosperidade, a iluminação, saúde, companheirismo, um trabalho que nos dê prazer, uma vida tranquila, seja lá o que for, assim como, algum dia, quisemos um brinquedo novo, ou o elogio do papai, o abraço da mamãe… E talvez a vida tenha dito: não!

Muitas pessoas adultas, mas muitas mesmo, reagem aos nãos da vida com a estratégia aprendida quando criança. Parte deste adulto parou no estado emocional infantil. Daquela criança que batia o pé. Ou se encolhia em si mesma, cheia de mágoa e projetos de vingança: um dia ela vai ver!

Inteligência emocional e libertação

Um dos maiores passos que alguém pode dar rumo ao seu próprio desenvolvimento como ser humano e como ser espiritual é olhar definitivamente para este lado birrento que talvez ainda exista em si. E o impulsiona a tomar atitudes e estratégias na vida somente para que esta criança seja vista, ouvida, validada. Esta criança não é mais você, mas você ainda continua buscando aprovação, conforto, proteção… seja nos seus relacionamentos, seja no seu trabalho, seja no seu caminho espiritual… E se você fugiu para dentro da caverna, talvez esteja revivendo aquela criança que não quis ou não soube como reagir. Lá atrás… muito tempo atrás!

O passado não existe. É passado. Embora, para o cérebro humano, tudo aquilo que é relembrado, pensado, se transforma no aqui e agora. Vira presente. Ou seja: você só não consegue se libertar do passado porque ainda tem fatos não compreendidos e não aceitos dentro de si. Consciente e inconscientemente, sua mente dá vida a eles. Dá vida aos fantasmas. E estes fatos não desgrudam de si porque existem mágoas, cobranças, dores.

Sentimentos e emoções plenamente corretos, pois você viveu situações onde houve feridas. E só você pode saber o grau das feridas que possui. Porém, isso já faz muito tempo, não é mesmo? Por isso, mais do que pensar e justificar a sua vida atual devido às heranças dolorosas do passado, é necessário reviver estas mágoas e dores emocionais, compreendê-las, e libertá-las. Nada é possível fazer pelo passado. O passado não pode ser mudado. Por pior ou melhor que ele tenha sido, não há nada a fazer. Busque terapia. Vá atrás de terapeutas que o auxilie a reviver estas emoções, em ambiente seguro, e liberá-las. Talvez você não saiba, mas tudo o que você atrai na sua vida tem a ver com os sentimentos que carrega em si. Se sente-se abandonado, atrairá relações afetivas que irão abandoná-lo. Se sente-se impotente, atrairá situações profissionais e financeiras que trarão situações complicadas, demonstrando que você não tem poder sobre nada. Se imagina ser doente – fisicamente, emocionalmente, financeiramente… atrairá inúmeras formas de doenças: do corpo, do bolso, das relações, da mente…

E isso não é ruim. Ao contrário. É ótimo. Embora num primeiro olhar pareça complicado, tal qual aquela prova de álgebra ou equação do segundo grau que não conseguíamos resolver na escola, é a grande oportunidade de olhar para o estudo que ainda não compreendemos, estudar, e tirar a nota média para passar na prova.

Isso se chama inteligência emocional: aprender a lidar com nossas emoções reprimidas. Que se transformarão em força e sabedoria, após “passarmos na prova”. Imagine você sabendo lidar com o seu medo de abandono? Medo da pobreza? Sentimento de exclusão? Vitimismo? Sensação de dependência? Confusão interna? Medo da raiva? Ou da morte? Ou das perdas?

Tudo isso se faz vivenciando as emoções. Não existe caminho intelectual para saber lidar com as emoções. Você é um ser que pensa, mas principalmente, um ser sensível. A sensibilidade tem sido muito desprezada neste mundo masculinizado, mental, pragmático, focado em metas, prazos e resultados… Se, por um lado, esta fase foi importante para alavancar o conhecimento e modernizar nosso mundo, por outro lado, acabamos castrando nosso lado feminino, sensível, intuitivo e emocional que, quando saudável, sabe lidar perfeitamente com as emoções. Sabe se conectar com a sabedoria universal. E sabe sorrir e aguardar, quando a vida diz não.

Quem sabe esteja na hora de equilibrarmos nossas polaridades? Aprendendo a lidar tanto com a mente racional, como com a mente emocional? Para, então, caminharmos para além desta mente, entendendo que emoções e pensamentos são volúveis, mutáveis, instáveis… e que talvez possa existir algo além disso, infinito, presente, estável… nosso verdadeiro ser, onde o espírito repousa eternamente em si mesmo…

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