Os dois “fazeres”

não fazer

Muitos dizem: eu não sei o que fazer! Onde ir! Sinto-me frustrado… impotente… infeliz… Talvez estas pessoas estejam muito perto de entender que, embora possamos conquistar muitas coisas, nada disso nos torna mais preenchidos. Sonhos realizados são ótimos. Porém, o prazer da vitória passa muito rápido. E novamente caímos no vazio… A mente dominada pelo fazer compulsivo, pelo retroalimentar de objetivos e planos, vicia-se nos picos de adrenalina que uma vida de competição impõe. E assim como qualquer vício, os picos de depressão são inevitáveis. A Mãe sábia, dentro de mim, diz: pare! Pare agora. Olhe para as pessoas que estão em sua volta. Observe o canto dos pássaros. O latir do cachorro. O silêncio desta manhã. O céu em seu tom cinza. Sinta seu coração. Cuide de si, da sua mente, do seu corpo. Não faça nada. Deixe surgir uma ação espontânea. Aja deste lugar. Ou contemple o não-fazer.

Existem dois “fazeres”. O fazer vindo desta mente compulsiva, cansa. Já o fazer que brota do silêncio, do não-foco, da não-vontade, da não-intenção, surge com uma pureza quase infantil, e tal qual a alegria genuína de uma criança diante da novidade, se torna prazer, fluidez, suavidade… Temos medo deste não-fazer. Temos muito medo de perder o controle. De permitir que Algo Maior faça os planos por nós. Não percebemos que, na realidade, os planos já estão traçados. E que às vezes, o nosso fazer compulsivo encobre aquilo que realmente deveria ser feito. Quando redescobrirmos a magia de simplesmente cumprir os desígnios supremos, veremos a vida se preencher de significado. Isso é instantâneo. Aqui e Agora. O banquete já está pronto, e o Pai, aguardando o nosso retorno à casa…

Alex Possato

 

Coração em greve

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Ei! Psiu! Queria falar com você! Aqui… olha pra cá… mais pra baixo… do lado esquerdo… fazendo tum-tum. Tum-tum. Ainda estou batendo, apesar de tudo. Você tem me esquecido, não é mesmo? Mas o pior não é isso: está me contaminando. Sim, você tem me dado muito veneno, e eu tive que me fechar, me proteger, pra evitar entrar em colapso.
Mas agora cansei, e resolvi protestar. Levantar minhas faixas na rua:

– pare de guardar seus sentimentos!
– fora repressão!
– assuma suas dores!
– queremos lágrimas sinceras!
– mágoa livre!
– mais amor, menos silêncio!
– abaixo as máscaras!

Sabe, cara: tô cansado de ver você entrar em relação, e sair de relação… e não se expressar. Se tá magoado, não fala. Quando fala, só briga, mas não tem a capacidade de dizer: você me machucou. E aí, depois que briga, se arrepende. E também não fala: sinto muito. Agora, fui eu quem te machucou. Eu ainda te amo. E aí se afastam, e você não diz: tô com saudade! Sinto a sua falta. Foi muito bom o que vivemos. Então, vê o outro com outra, e não comunica: ahhhh, que inveja! Como eu queria que fosse eu! Tomara que acabe logo… só pra ele sofrer mais um pouco. E logo em seguida, quer voltar atrás: nossa! Que maldade… como pude sentir coisa tão ruim assim. Que sejam felizes. Eu vou continuar aqui, sozinho na minha dor…
E você sabe, cara. Anos e anos assim. Sem expressar seus sentimentos pras pessoas que você ama, as que odeia, as que ignora, as que te ignoram… Sem expressar seus sentimentos nem pra você mesmo! Mas saiba você que cada palavra não dita cai como ácido sobre mim. E eu tenho que me fechar, me proteger. Preciso falar uma coisa: Eu fechado, impeço você de amar. De sentir alegria. Prazer. Êxtase. Plenitude. Confiança.
Todos os sentimentos passam por mim. Se você nega um, nega todos. Se não sabe demonstrar sua raiva, sua mágoa, seu perdão, sua amizade, sua alegria… você começa a dizer para mim que não sou tão útil… Você está me esquecendo, achando que minha única função é fazer tum-tum. Tum-tum. Tum-tum uma pinóia, cara! Não tô aqui pra ser bateria de escola de samba. Eu existo porque sou a razão principal da sua existência… sentir! Manifestar o que você sente. Viver em plenitude. Curtir a vida! Em todas as suas nuances. E você preso aí nesse cérebro. Só querendo saber. Resolver. Chegar a algum lugar. Entender. Ah, vá…
Tô pensando em entrar em greve. O que acha? Vou dar uma paradinha… No começo, é só um alerta. Uma pequena parada. Só um susto. Mas se você não olhar direito para seus sentimentos, a parada vai ser mais longa… Um dia. Ou uns três dias… E não vai adiantar entrar na justiça trabalhista, viu?
Quem sabe você resolva validar seus sentimentos. E expressá-los.
Eu só quero uma coisa: me deixa trabalhar. Mas do meu jeito! Na totalidade. Pare de usar tantas máscaras. Pare de fingir. Seja mais coração, cara! E menos cabeça…

Alex Possato

 

Quando a vida diz não

passado

Um dia, fomos crianças. E como as crianças reagem, quando são contrariadas? Umas, batem o pé. Protestam. Brigam. Outras, se calam… mas, por dentro, odeiam. Querem matar. Raras são aquelas que levam numa boa…

Hoje, nós somos adultos. Crescemos. Adquirimos pelos, rugas, cabelos brancos, quilômetros rodados, algumas vitórias, e muitas desilusões. A vida nos contraria, a todo tempo. Seja porque nosso amado não responde da forma como gostaríamos. Seja porque os projetos não vão para frente. Ou, às vezes, nem mesmo conseguimos projetar alguma coisa. Ouvimos muitos nãos. Não de alguém querido. Não do bolso vazio. Não do corpo. Não do trabalho. Não até do caminho espiritual.

Almejamos a paz, o amor, a prosperidade, a iluminação, saúde, companheirismo, um trabalho que nos dê prazer, uma vida tranquila, seja lá o que for, assim como, algum dia, quisemos um brinquedo novo, ou o elogio do papai, o abraço da mamãe… E talvez a vida tenha dito: não!

Muitas pessoas adultas, mas muitas mesmo, reagem aos nãos da vida com a estratégia aprendida quando criança. Parte deste adulto parou no estado emocional infantil. Daquela criança que batia o pé. Ou se encolhia em si mesma, cheia de mágoa e projetos de vingança: um dia ela vai ver!

Inteligência emocional e libertação

Um dos maiores passos que alguém pode dar rumo ao seu próprio desenvolvimento como ser humano e como ser espiritual é olhar definitivamente para este lado birrento que talvez ainda exista em si. E o impulsiona a tomar atitudes e estratégias na vida somente para que esta criança seja vista, ouvida, validada. Esta criança não é mais você, mas você ainda continua buscando aprovação, conforto, proteção… seja nos seus relacionamentos, seja no seu trabalho, seja no seu caminho espiritual… E se você fugiu para dentro da caverna, talvez esteja revivendo aquela criança que não quis ou não soube como reagir. Lá atrás… muito tempo atrás!

O passado não existe. É passado. Embora, para o cérebro humano, tudo aquilo que é relembrado, pensado, se transforma no aqui e agora. Vira presente. Ou seja: você só não consegue se libertar do passado porque ainda tem fatos não compreendidos e não aceitos dentro de si. Consciente e inconscientemente, sua mente dá vida a eles. Dá vida aos fantasmas. E estes fatos não desgrudam de si porque existem mágoas, cobranças, dores.

Sentimentos e emoções plenamente corretos, pois você viveu situações onde houve feridas. E só você pode saber o grau das feridas que possui. Porém, isso já faz muito tempo, não é mesmo? Por isso, mais do que pensar e justificar a sua vida atual devido às heranças dolorosas do passado, é necessário reviver estas mágoas e dores emocionais, compreendê-las, e libertá-las. Nada é possível fazer pelo passado. O passado não pode ser mudado. Por pior ou melhor que ele tenha sido, não há nada a fazer. Busque terapia. Vá atrás de terapeutas que o auxilie a reviver estas emoções, em ambiente seguro, e liberá-las. Talvez você não saiba, mas tudo o que você atrai na sua vida tem a ver com os sentimentos que carrega em si. Se sente-se abandonado, atrairá relações afetivas que irão abandoná-lo. Se sente-se impotente, atrairá situações profissionais e financeiras que trarão situações complicadas, demonstrando que você não tem poder sobre nada. Se imagina ser doente – fisicamente, emocionalmente, financeiramente… atrairá inúmeras formas de doenças: do corpo, do bolso, das relações, da mente…

E isso não é ruim. Ao contrário. É ótimo. Embora num primeiro olhar pareça complicado, tal qual aquela prova de álgebra ou equação do segundo grau que não conseguíamos resolver na escola, é a grande oportunidade de olhar para o estudo que ainda não compreendemos, estudar, e tirar a nota média para passar na prova.

Isso se chama inteligência emocional: aprender a lidar com nossas emoções reprimidas. Que se transformarão em força e sabedoria, após “passarmos na prova”. Imagine você sabendo lidar com o seu medo de abandono? Medo da pobreza? Sentimento de exclusão? Vitimismo? Sensação de dependência? Confusão interna? Medo da raiva? Ou da morte? Ou das perdas?

Tudo isso se faz vivenciando as emoções. Não existe caminho intelectual para saber lidar com as emoções. Você é um ser que pensa, mas principalmente, um ser sensível. A sensibilidade tem sido muito desprezada neste mundo masculinizado, mental, pragmático, focado em metas, prazos e resultados… Se, por um lado, esta fase foi importante para alavancar o conhecimento e modernizar nosso mundo, por outro lado, acabamos castrando nosso lado feminino, sensível, intuitivo e emocional que, quando saudável, sabe lidar perfeitamente com as emoções. Sabe se conectar com a sabedoria universal. E sabe sorrir e aguardar, quando a vida diz não.

Quem sabe esteja na hora de equilibrarmos nossas polaridades? Aprendendo a lidar tanto com a mente racional, como com a mente emocional? Para, então, caminharmos para além desta mente, entendendo que emoções e pensamentos são volúveis, mutáveis, instáveis… e que talvez possa existir algo além disso, infinito, presente, estável… nosso verdadeiro ser, onde o espírito repousa eternamente em si mesmo…

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