Não podemos atender “vítimas”

Quando falamos em vítima, estamos falando de um jogo neurótico que permeia relações humanas, descrito por Eric Berne nos trabalhos de Análise Transacional. Berne esclarece que nestas relações doentias, duas pessoas (ou grupos) se revezam em papéis diferentes: o salvador – o perseguidor/acusador – a vítima.
Vou dar um exemplo, que pode se encaixar em tantas e tantas situações: você vê alguém sofrendo. Você faz seus maiores esforços em auxiliar esta pessoa. Você quer salvá-la – se transforma em “salvador”. Esta pessoa, em primeiro momento, se coloca como alguém que aceita ajuda. Conta a sua história difícil, quantas e quantas vezes tentou se recuperar, mas a vida foi cruel. A sorte nunca lhe sorriu. Ela é “a vítima”. Você faz, faz, faz, ela melhora um pouco, mas depois, piora. Você começa novamente a ajudar, dando a sua energia, tempo, conhecimento, dinheiro, etc. Ela melhora um pouco, e cai novamente. Você começa a se irritar. Acusa a pessoa de conformada. Fraca. Descomprometida. Você se transforma em “acusadora”. E a “vítima” pode continuar no seu papel. Em geral, o “acusador” verá desperto em si muita agressividade. A “vítima” também está escondendo muita raiva.
Bert Hellinger diz que a “vítima” não está em paz com seus pais. E desconta no mundo a frustração. Percebo que o “salvador”, que depois se transforma no “perseguidor/acusador” também tem sérios problemas com os pais. A única diferença é que aprendeu a operar na vida de uma forma reativa: já que meus pais não deram o que eu queria, da forma como eu queria, faço por mim mesmo.
Perceba se esses papéis existem em sua vida. Seja numa relação afetiva, ao cuidar de alguém, talvez no assistencialismo. Se existe, comece a olhar para a sua relação com seus pais. E para a raiva, inconformismo, mágoa, tristeza que ainda carrega. Trabalhe terapeuticamente isso em si, e você se aliviará de uma grande carga. E de quebra, deixará de jogar este jogo macabro que só leva ao sofrimento.

 

Alex Possato

O medo de subir na vida

Domingo de Carnaval, lá estava eu pendurado numa parede de escalada, uns 6 metros do chão. Para cima, mais 4 metros, que minha mente se recusou a encarar. Para baixo, nada demais, afinal, com o sistema de segurança do lugar, nada poderia acontecer, a não ser ficar pendurado, balançando, enquanto que o equipamento nos devolvia ao solo firme e seguro.

Quem me conhece mais intimamente, sabe que me defronto constantemente com o pânico de lugares altos. As mãos suam excessivamente, as pernas perdem a firmeza, em alguns casos fico com vertigem. Pânico é pânico. E ele frequentemente me visita, até porque eu sempre gosto de conversar com ele. Faço práticas de trekking e algumas experiências em altura, para que eu possa conhece-lo melhor. E cada vez entendo um pouquinho mais sobre meus mecanismos internos.

Desta vez, observei meticulosamente minha reação:

– subia bem até um determinado patamar;

– em certo ponto, os pensamentos diziam: aqui está bom! Chega!

– meu corpo, imediatamente, começava a apresentar sinais de desestabilização, perda de força nos membros;

– meu foco se perdia e eu não conseguia mais encontrar locais adequados para apoiar os pés e continuar subindo;

– então, eu desistia, e pedia pra descer.

Subindo na jornada da vida

Estou planejando uma jornada sistêmica em Israel (dá uma olhada no link com a descrição, está bem legal o projeto!). O grupo está se formando, porém, ainda temos várias etapas para vencer: aumentar o grupo é a principal, e para isso, fazer todos os movimentos de comunicação necessários, alianças, etc.

Este projeto, que possui desafios, está contido dentro de outro projeto maior, que tem a ver com o meu desenvolvimento profissional. Mais um tantão de desafios a serem transpostos. Estou sentindo um chamado para subir, indo a patamares antes não alcançados.  E aí posso fazer o paralelo das “mensagens da escalada”.

Existe uma parte dentro de mim que se recusa a prosseguir. Diz: aqui está bom! Chega! Pode descer! E da mesma forma que eu travo literalmente nos lugares altos, eu travo nas minhas atividades práticas, direcionados ao meu crescer profissional.

Percebi uma falta de perseverança, fibra, constância e disciplina muito forte reinando no meu sistema interno. E então eu pedi – sim! Eu pedi! – para que Deus me mostrasse o que eu precisava ver… É gente, eu faço assim. Observo o trabalho acontecendo dentro de mim, e então peço orientação… E ela vem!

Passei o dia de ontem com muita raiva. Sentia a energia de raiva pulsando em mim. E ao dormir, sonhei. Sonhei bastante. Alguns sonhos bem desconfortáveis, mas o que mais me chamou atenção foi um sonho onde eu brigava com minha mãe. Eu queria fazer algo por ela, ela se recusou, e me deu algumas moedinhas para que eu voltasse para casa. Então, furioso, joguei todas as moedas no chão, dei-lhe as costas e fui embora, bufando. Acordei.

A criança vive para ser aprovada pela família

Esta cena das moedas, com detalhes um pouco diferentes, ocorreu comigo e minha avó, que cuidou de mim por oito anos. Não joguei literalmente as moedas no chão, porém, recusei o “presente” que ela queria me dar, porque eu estava puto. Ela me dominava completamente, e fazia de mim o que queria. E de vez em quando, dava um dinheirinho para que eu pudesse comprar um sorvete ou algo assim. E naquele dia, eu disse: NÃO!!!

Hoje, passado décadas deste episódio, como terapeuta, entendo que esta parte psíquica que está presa na dor da criança reprimida ainda está atuando no meu sistema. E de alguma forma, ela controla o meu movimento ascendente na vida. Inclusive, é uma parte capaz de recusar as moedas e jogá-las no chão. Coisa que fiz muito tempo na minha vida, através do descontrole financeiro e incapacidade de poupar.

Eu planejo, trabalho e tenho capacidade de adulto. Muita capacidade. Porém, existe um lado infantil, emocional, que está lutando contra o adulto. Está rebelado, não quer seguir as ordens e prefere bater o pé e fazer bico. Na verdade, eu nunca bati o pé verdadeiramente para a minha avó e para as pessoas que me oprimiram. Eu simplesmente ouvia, engolia, e quando dava a hora certa, as abandonava. Dava-lhe as costas. Bufando e com muita raiva.

Todo mundo tem o direito de dizer que está magoado, machucado, amedrontado devido às ações de alguém. Porém, uma criança não tem este direito. Pelo menos, da forma como eu fui criado. Assim, a dor fica reprimida, inconsciente. Existe uma grande vontade de dizer FODA-SE! Eu não aceito mais! E ela não consegue. Dá muito medo. Esta energia continua dentro dela, pedindo para ser vista. Em algum momento, é necessário olhá-la nos olhos. Olhar para os olhos apavorados daquela criança que precisa confrontar os próprios pais. Ela tem este direito!

Subindo como adulto

Estou com cinquenta e um anos de idade. E volta e meia me defronto com estes processos psicológicos. Convidando-me para regressar aos meus tempos de criança. Isso não quer dizer que sou uma pessoa infantilizada – somente que existem algumas partes infantis feridas para serem vistas. Este é o processo natural.

Por isso sempre convido você a olhar para si desta forma: não somos bons ou maus porque temos mais ou menos traumas e comportamentos distorcidos em nós. Tudo são programações. Nosso sistema funciona como um computador, mas nós podemos olhar a tudo distanciado, e portanto, com a possibilidade de ir se transformando. Aos poucos. De acordo com nossas metas e objetivos.

A questão não é atingir o topo. Mas aprender na caminhada. Descobrir-se, ver como é maravilhoso o processo do despertar para os próprios padrões inconscientes. Perceber as resistências, e ok! O que elas têm para me ensinar? E também olhar para além disso tudo. Para o lado desvinculado com o sucesso pessoal ou material. Eu diria: um lado mais sensível, energético, espiritual. Porque em algum momento, esta jornada acaba. E você, assim como eu, possivelmente deixará muitas metas, pessoas e sonhos para trás… Mas… e daí? Se estamos aprendendo aquilo que é possível durante a caminhada, acho que já está valendo muito a pena.

Alex Possato

O homem que não sabe relaxar

crianca sonhadora

 

Recebi uma missão difícil do meu terapeuta: olhar para o ócio. Olhar para o estado do “não fazer nada”. Recomendou-me até a leitura do Ócio Criativo, de Domenico De Masi, coisa que iniciei ontem mesmo, afinal, fazer é comigo mesmo! Até ler sobre o não-fazer está valendo! Não sei parar, e embora pare muitas vezes, estou sempre “fazendo” algo, mesmo que seja planejando minhas viagens na maionese. Tudo tem que ter um sentido: a volta no parque é para emagrecer. As viagens é para me inspirar. A meditação é para acalmar a mente. A oração é para falar com a espiritualidade. O que escrevo é para levar conteúdos aos leitores. O meu trabalho é uma missão. Tudo precisa ter um sentido!

Walfredo detectou, na minha fala, diversos adjetivos pesados, quando eu me referia ao estar neste lugar “do não-fazer”. Inútil. Sem sentido. Aborrecido. Desconfortável. E enquanto ele desfilava algumas possíveis razões para eu não saber lidar com este estado natural de relaxamento e prazer – relaxamento e prazer? Que é isso? – sentado na confortável poltrona do consultório, pulavam em minha mente imagens do Alex, pequenino, brincando no quintal da casa em Suzano. Horas e horas devaneando, mexendo com meus soldadinhos e o forte apache, conversando com o meu cachorro, olhando os movimentos das formigas no formigueiro e conversando com elas, sentindo o ar e a brisa no meu corpo, vivendo um mundo prazeroso, dentro de mim mesmo, e…

– Alexandre! Alexaaaaannnndreeeeee!!! Venha já pra dentro! Você não fez as lições? Limpou o banheiro? Já se arrumou? É uma lentidão, você, heim? Quanta indolência! Se apresse, mariquinha!

Vovó, com a gentileza que não lhe era característica, me tirava do estado de deslumbramento comigo e meus mundos, para jogar-me cruelmente no mundo daqueles que fazem alguma coisa. Limpar banheiro? Que merda! Lição… para quê? Trocar de roupa? Eu só estou com esta faz dois dias!

E eu lutava bravamente para permanecer no meu mundo interno. Sentava na mesa, abria o caderno e os livros, mas devaneava, devaneava, devaneava…

– Alexaaaannnndreeee!!!! Eu não aguento mais a sua preguiça!!! Você não vai jantar, enquanto não acabar estas lições!

Entre no sentimento desta cena…

Esta era a instrução de Walfredo, o terapeuta. Sentir? Sim!

Bem… sentia-me extremamente invadido. Talvez pela primeira vez eu validei que eu sentia PRAZER em estar neste lugar interno. Era muito bom! Eu viajava, era criativo, o melhor de mim aflorava nestes momentos. E não somente vovó, mas vovô e meu irmão, dia-a-dia, iam desconstruindo o menino sonhador e feliz que vivia dentro de mim.

– Vagabundo! Você é burro mesmo! Lerdo! Não aprende nada! Idiota! Você é estúpido!

Os adjetivos proferidos por eles eram rudes, duros… êpa, pera lá! Tão duros e semelhantes aos adjetivos que comecei a disparar, aos cinquenta anos de idade, ao me referir aos momentos de ócio. Essa fala não é minha. É deles! Eles mataram a minha criança sonhadora, e eu aceitei! Pelo menos é o que minha criança ferida diz.

– Vem uma tristeza profunda, Wal. Depois raiva, e sentimento de vingança. Um dia eles vão ver só! Sim! Lembro-me que aos 11 anos, parece que virou uma chavinha na minha mente, e eu resolvi mostrar o quanto eu podia ser aquilo que eles queriam que fosse… e muito melhor que eles, um bando de fracassados – dois velhos e um cara desequilibrado! Passei a perceber a lógica de tudo. Comecei a ganhar os jogos de xadrez do vovô e do meu irmão mais velho. Na escola, passei a me destacar. Não um gênio, mas bom em muitas coisas. E embora isso impactasse a minha família, continuei sentindo que não era validado. Por nenhum dos três: vovô, vovó e meu irmão. Eles pararam de me xingar, mas não vinha elogios… Quanto mais os anos passavam, mais ódio eu tinha. Lerdo?!? Vocês vão ver só….

Estava criado o pacto de vingança… Eu não posso mais relaxar, viajar nos meus mundos, ter prazer. Tenho que ser competitivo e fazer coisas com sentido. Para esfregar na fuça de vocês, que me humilharam…

“Foque na vergonha que você ainda tem de si mesmo. Por que você precisa ser tão importante? Porque você é inseguro. Por que você é inseguro? Porque existem partes de você que ainda não aceitou, e tem vergonha. Procure identificar essas partes que você ainda tem vergonha. Tenha coragem de se olhar no espelho. Aí você tem uma pista de onde você foi bloqueado. Onde a sua espontaneidade e a sua inocência foram bloqueadas. Onde houve uma cisão com o Eu divino.

Eu estou falando de traumas e choques de exclusão, humilhação, abandono e rejeição. Esses sentimentos dos choques estão ali: o medo, a humilhação, revolta, mágoas… Ainda estão no seu corpo emocional. Por que eu estou afirmando que esses sentimentos ainda estão no seu corpo emocional? Por conta dos condicionamentos mentais que geram as repetições negativas”, diz Prem Baba, liderança espiritual que utiliza a psicologia para abrir caminhos em direção ao Eu real que habita a todos.

Qual repetição negativa está ocorrendo na minha vida, hoje? A dificuldade de relaxar e curtir a vida, como ela é. A sensação de que eu tenho sempre que fazer “algo importante”… e que não posso parar. Não posso relaxar. Não posso curtir as coisas como elas são, mesmo que eu não faça absolutamente nada.

Resgatando a criança sonhadora

Eu era feliz. Sim, eu era muito feliz! Não precisa de nada. Um formigueiro. Meia-dúzia de bonequinhos. Galhos, terra. Meu cachorro. O cantar dos pássaros. Minha Caloi. A bola de couro com as “orelhas” descoladas. Não queria a presença deles. Era só eu. Para que família, se eles são tão loucos e corrosivos? Eu me basto! E me bastava…

Talvez por isso criei aversão a estar muito profundamente ligado à família. Curto um pouco, dou uns sorrisinhos, e quero mais é ir embora. Mas estes anos todos, fugir não aliviou a minha dor de não curtir a vida. Bebi muito, fiz e faço muitas viagens, parti para o vício no trabalho e do fazer, fazer, fazer… e hoje descobri que todas as distrações e vícios foram colocados para anestesiar a dor do assassinato da minha criança sonhadora. E feliz. E quem a matou… fui eu!!!

“É fácil entender porque o ego interpreta a felicidade, o amor e a paz espiritual como seus inimigos: porque quando desfrutamos desses estados de ânimo, experimentamos nossa essência espiritual. Nesses momentos, vemos um mundo muito distinto daquele que nosso ego nos proporciona. Perdoar é fácil quando vemos o mundo através dos olhos do amor, na medida em que resulta claro que as respostas buscadas ao longo de toda nossa vida podem ser encontradas ali, e não, como supõem o ego, nas coisas externas”, explica Gerald Jampolsky, no livro El perdón.

Aquele Alex era feliz. E é feliz. Foi o que senti, enquanto ia, lentamente, me vendo brincando, sonhando, jogado ao nada, naquele quintal, nos fundos de casa.

O Alex que me transformei conquistou muito. Aprendeu, competindo, chegando longe, conseguindo adquirir coisas, a ser um bom cumpridor de tarefas. Aprendeu a fazer a lição de casa, a limpar o banheiro, manter as roupas arrumadas, como vovó queria. E hoje ele é muito competente nessas tarefas. E dezenas de outras. Mas vovó não poderá aprovar. Nem vovô. Nem meu irmão. Estão todos mortos.

Agora eu posso deixar a mesa da cozinha, e retornar ao quintal. Sozinho. Não há ninguém que vá me impedir. As lições estão feitas, a casa arrumada. Eu obedeci vocês, minha família. Conquistei um lugar ao sol. Sou um grande profissional. Tenho filhos. Uma esposa maravilhosa. Dívidas pagas, dinheiro guardado. Um caminho espiritual trilhado. Mas a minha felicidade não está nas minhas conquistas.

Saio pela porta da cozinha. O mato tomou o quintal. As paredes do muro, em ruínas, descascadas, quase não se seguram em pé. O cachorro não vem mais pulando ao meu encontro. Ele também morreu. Revolvo o mato. Sim! Há formigas! Elas não foram embora! Muitas delas… e algo meio esquisito, um torrão de barro disforme, me chama a atenção. Me abaixo, abro o mato que me atrapalha. Seguro esta… pedra? Não… A ponta de uma espada de plástico se mostra, saindo das placas de terra. O meu general Custer também está lá… Sento-me ao chão… Começo a limpar, devagar e carinhosamente, a terra endurecida, em volta do “meu comandante”… Piranga, meu cachorro collie, vem correndo, enorme e babando, e pula nas minhas costas…

Alex Possato