Nossos velhos pais

Conforme nossos pais envelhecem, é comum que nos achemos mais capazes que eles. Mais inteligentes. Mais lúcidos. Até pode ser. Porém, comumente se estabelece um jogo emocional que os filhos não se dão conta: a vontade de descontar neles todas as dores antigas de rejeição, tratamento diferenciado entre irmãos, maus tratos, descasos… E sob o pretexto de que estamos fazendo o melhor para eles, passamos a desrespeitar suas opiniões, suas vontades e até suas incoerências, como se tivéssemos o direito de controlá-los. Tornamo-nos pais dos nossos pais, quer dizer, nos colocamos no lugar dos nossos avós.
Sistemicamente, o que ocorrerá? A mesma reação (às vezes inconsciente) que os pais tinham em relação aos avós será despejada contra os filhos. E o pior: os filhos, que gostariam de ver seus esforços valorizados, reconhecidos, sentir-se-ão menosprezados mais uma vez. Como nós estamos fora de lugar, nossos filhos também não nos respeitarão. O jogo do sofrimento se perpetuará, reacendendo mágoas antigas.
Claro que em casos de incapacidade mental, é diferente. Porém, a maioria das vezes observo somente birra e picuinhas desequilibrando a relação entre pais idosos e filhos.
Seria tão mais fácil dizer: sim papai! Sim mamãe! Vocês têm razão! E sorrir, mesmo que às vezes as decisões deles sejam meio incoerentes, até infantilizadas. Tudo bem! Eles têm o direito! Eles são os grandes. Nós, os pequenos.

 

Alex Possato


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Pais e filhos constelados

Os pais, ao olhar da constelação familiar sistêmica, deveriam sempre ter muito orgulho de serem pais. Mesmo que reconhecendo seus erros, suas deficiências, seus destemperos: fizeram o melhor pelos filhos, que cresceram e estão prontos para a vida. Darão certo? Terão sucesso? Isso não é mais assunto dos pais. Eles os liberam para que sigam o caminho, e possam transmitir o melhor deles em nome de todo o sistema familiar, de toda a ancestralidade.
E os filhos, ao contrário, mesmo reconhecendo que talvez tenha havido deficiências na educação, no trato, que muitas coisas doeram, entendem que os pais agiram da forma como agiram porque aprenderam com os avós a serem assim. E que carregam muitos traumas e dores – deles e do passado familiar, e não poderiam ter feito melhor. Reconhecem que os pais deram o que puderam para eles e não exigem mais nada. Seguem de peito erguido, confiantes, sabendo que atrás deles a força (simbólica) dos pais os sustentam. E caminham com gratidão, fazendo a vida do jeito que acham que é o correto. Estão livres para acertar, errar e crescer.

Assim são pais e filhos que estão em paz com o próprio passado.

Alex Possato

 

Por que os homens desaparecem

pai

Dias desses vi um video no Youtube que me chamou a atenção: um homem, filho de um pai que teve uma relação casual com a mãe, esta engravidou, e o cara pulou fora. E no video, entre pitadas de bom humor e cutucadas contra homens que não cuidam dos filhos, ficou a mensagem da necessidade de criar mecanismos que auxiliem a cuidar das crianças que crescem nesta situação. Sem pai.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer aos leitores deste texto de que escrevo a partir do olhar de um homem. Um menino que também não foi criado pelo pai. Nada contra as meninas, mas quero falar da minha experiência como homem, ok?

 

Então, prosseguindo… Se uma criança não tem pai, também não tem mãe. Pelo menos não totalmente. Por quê? Porque a mãe precisa se desdobrar para sustentar financeiramente a casa. Precisa dar conta da própria TPM, da variação de humor e emoções… Precisa namorar ou cuidar do trauma de ser uma mãe sem um homem ao lado. Precisa lidar com o seu tesão e com o medo de dar, e ser usada como objeto. Ou ainda com o seu jogo de usar os homens, e descartando-os… para fazê-los provar do próprio veneno. Precisa carregar o fardo de ser mãe sem, talvez, querer ter sido… Ou a culpa de querer ser melhor mãe do que dá conta de ser…

Não gosto de generalizações nem de levantar bandeiras. Vivemos momentos conturbados, onde homens, mulheres, pais, mães, filhos, ninguém sabe qual é o seu verdadeiro lugar. Acreditar que “se” houvesse uma família composta por pai, mãe e filhos, cachorro pulando no quintal ensolarado, a Santíssima Trindade tornada real no almoço do domingo, sob a tela do Faustão, garantiria a felicidade do universo é, apropriando-me da frase que ouvi de Bert Hellinger, um “pensamento mágico infantil”.

As crianças vivem um mundo dourado de fantasias. O menino olha o seu pai, e mesmo que ele seja o maníaco do parque, para ele, o pai é o herói. O homem mais belo do planeta. Mais forte. Mais inteligente. Até que, em algum momento, o santo despenca do altar.

Às vezes, nem há essa figura masculina para ser colocada no pedestal… O que não impede ao menino de fantasiar… Às vezes, a imagem deste homem é, mílimetro a milímetro, desfragmentada em milhares de cacos, porque ele bebe, ele fuma, ele não tem dinheiro suficiente, ele grita, ele não faz nada, ele bate, ele trai, ele mente, ele some… E em geral, a mãe tem grande colaboração na demonização do masculino: seja ativamente, ou passivamente. E o masculino tem grande responsabilidade em ser visto como uma porcaria… seja pela omissão. Seja pelo excesso de força.

 

Se olhamos com olhos de adultos, facilmente entendemos essa verdade: não há santos nesta história. Não há justos. Ou injustos. Estamos todos no mesmo barco e sofremos igualmente: sejamos pai, mãe, filhos… Mas como é difícil olhar para a própria história, como adulto, não é mesmo? Não se culpe. Robert Bly, autor do livro João de Ferro, um clássico sobre a transformação do papel do masculino na sociedade, já dizia ver, nos anos 70, uma fragilização do masculino exagerada… Homens que despertavam para o lado feminino de si, para o emocional, para a intuição, para a criatividade, a fluidez –  o que é muito bom! – mas ao mesmo tempo, não tinham energia vital. Pareciam mortos, zumbis, sem brilho no olhar, sem a faca nos dentes, sem masculinidade… começavam a falar de si e já entravam num chororô…

Eu diria que falta pai ao homem que se reconhece nesse estado. É o pai que irá dar força. E para encontrar o pai, dentro de si, é necessário olhar para a própria história. Reconhecer o próprio pai, toda a dor e todo o amor que você tem por ele.

 

Filho do homem invisível, precisa desaparecer

 

Tudo o que ocorre na nossa vida é exatamente aquilo que precisava ocorrer para que pudéssemos nos desenvolver como seres humanos. Sendo terapeuta, além das minhas próprias feridas, ouço e trabalho com as feridas de centenas de pessoas. E descobri uma coisa: o problema não é a história que ocorreu no nosso passado. O que nos causa grande sofrimento e perpetua a agonia é a não aceitação do que ocorreu na nossa história. O problema não é não ter pai. O problema é não aceitar que não tive um pai presente. E não aceitar a dor de não ter um homem, adulto, quando precisava de alguém para me defender. Não aceitar que não houve um homem, adulto, para me mostrar como me safar dos perigos da jornada. Não aceitar que não houve um homem para me mostrar como é que um homem procede na cama, como lida com a sexualidade… Não aceitar que não houve um homem na minha formatura, no momento de levantar a medalha do judô, no momento de mostrar a primeira namorada. Não aceitar que não houve esse homem, que me mostrasse o caminho do trabalho, da arte de ganhar dinheiro, de crescer profissionalmente… É não aceitar que não houvesse um homem que me mostrasse, de verdade, como é grandioso ser homem…

 

Tenho certeza de que muitos de vocês tiveram um pai mais próximo, fisicamente dizendo, mas ao mesmo tempo, muito do que escrevo acima faz parte da sua história. Se abandono fosse a causa de todos os males emocionais, eu não receberia clientes de terapia que tiveram pai e mãe dentro de casa. E isso não é verdade. Muitos, muitos mesmos, tiveram um pai em casa. Mas não tiveram. Se é que você me entende…

 

O que acontece, quando não aceitamos a história nossa? A constelação familiar sistêmica demonstra: repetimos. Às vezes, repetimos a história. Você, como homem, se vê compelido a abandonar suas parceiras. É como se uma força invísivel o atraísse para longe do relacionamento. Assim, você se torna igual ao seu pai. Um homem que desaparece. Ou, então, você se torna o homem invisível dentro de casa. Não está disponível para nada. Se esconde atrás do jogo de futebol, dos amigos, dos livros, da cultura, do cigarro, da pornografia, da cerveja, da política, do churrasco… evita o diálogo e não consegue expor uma verdade básica: você não está feliz na relação, com a mulher ao seu lado. Você não se sente bem como pai. Você não dá conta das responsabilidades de casa. Está de saco cheio!

Talvez você não perceba, mas em algum nível, você faz o mesmo que papai. Inconscientemente, está dizendo: “papai, eu sofro o mesmo que você. Eu honro você na sua dor. Sofrendo a mesma dor. Porque eu te amo!”. Vagarosamente, você vai atraindo o destino: deixar ou ser deixado. Sentir-se não visto. Não validado. Não pertencente. Não realizado. Sem força. Sem motivação. E aquilo que você mais quer, que é unir-se a uma mulher e sentir-se verdadeiramente “uno no amor”, nunca ocorre. O vazio irá permanecer indefinidamente.

Até quando? Até o momento em que você, corajosamente, enfrentar a sua história. As suas dores. E aceitá-las. Com todo o fel e todo o mel que ela gerou, em seu fígado. Sim, papai me machucou muito. Machucou muito mamãe. Mas mamãe me machucou muito também. Me transformou numa “mocinha”. Me influenciou a demonizar papai. Esta história é deles. Essa relação foi a relação deles. Eu aceito isso como foi. Hoje, sou um adulto. E não mais aquela criança frágil, que tremia de medo ao soar dos primeiros gritos. E também tremia de medo ouvindo aquele silêncio sepulcral… papai de um lado, mamãe de outro. Ambos fingindo que estava tudo bem… mas eu sabia que não…Tremia só de pensar que papai iria deixar mamãe. Ou chorava porque eles não estavam mais juntos. Chorava de raiva. E disparava essa raiva na rua, no futebol, nas meninas, na desobediência, na indisciplina… Aquela criança que mal respirava, achando-se culpada dos problemas de papai e mamãe.

 

Isso já passou. Eu cresci. E aprendi com tudo isso.

 

Diga para si:

Hoje estou aqui. O homem visível. O homem presente. O homem maduro. Eu posso viver sem papai. E posso viver sem mamãe. Mas honro a ambos, em meu coração. E irei arriscar escrever uma outra história. Do meu próprio jeito. E me abrirei ao Amor. Ao verdadeiro Amor. Que inclui todas as dores. E também inclui todos os prazeres. Eu digo sim ao Pai. Eu digo sim ao Amor. Eu digo sim, à Mãe. Eu digo sim, à mim mesmo.

 

 

O homem sufocado pela mãe

libertando mamae

Eu te amo, mamãe. Mas eu cresci.
Sou um homem adulto, e preciso seguir a minha vida.
Do meu jeito.
Buscarei ser feliz, através das minhas escolhas. Em honra a você!
E em honra ao papai!
Continuarei sempre te amando!
Por favor, me abençoe
se eu fizer algo bom da minha vida!
Eu me liberto, mamãe. E eu te liberto…

 

Em breve estarei iniciando um trabalho com o masculino. Eu e meu amigo Antonio Tuco Gabriel iremos compartilhar questões, problemas e possíveis caminhos para essa masculinidade nossa de cada dia, algo tão estranho de se falar e de se entender. Nós, homens, dizemos que as mulheres são imprevisíveis e difíceis de entender. Mas é lógico que o “ser homem”, nestes tempos, também é uma incógnita. Tanto é que os relacionamentos afetivos passam por grandes transformações. Os modelos familiares, idem. A humanidade em geral está em busca de novos padrões, já que os antigos, já deram…

Por exemplo, recebo hoje mulheres que são mais ou igualmente provedoras que o homem. Até poucas décadas, este papel era fundamentalmente masculino. Assim como recebo homens que são “donos de casa” exemplares, e cuidam dos filhos com um espírito “materno” real e honesto. Vejo mulheres pragmáticas, dinâmicas, regidas por metas e prazos, guiadas por um senso de lógica e produtividade, enquanto sinto homens aéreos, poéticos, lunares, sentindo o fluxo, vivenciando as emoções em todas nuances, acessando a intuição e deixando-se levar pelo fluxo da vida. O que aconteceu para tantas mudanças?

Quero abordar este tema de forma muito prática, sem entrar em história, sociologia, política, antropologia, etc. Quero falar da psique do homem, e para isso, vou usar meu exemplo pessoal e também a experiência que tenho como terapeuta, certo?

O filhinho da mamãe

Fui dominado por mulheres na minha vida. Desde o início. A princípio, minha mãe, abandonada por meu pai, que arcou com a educação dos dois filhos. Passando por inúmeras dificuldades emocionais, cuidou do jeito que pôde, e tenho que dizer que a infância minha não foi nada fácil. Muita briga, muito abandono, muita irresponsabilidade, muitas fugas… sensação de medo constante. E nos primeiros anos, toda essa cena foi agravada pela disputa constante entre minha mãe e avó paterna, que desejava a todo custo tirar a guarda dela em relação a nós – eu e meu irmão mais velho, alegando maus tratos, distorções de comportamento moral, etc.

Onde estava meu pai? Onde estava a figura do masculino? Estava sempre em busca de outras mulheres e cuidando das próprias coisas. Tanto que, certo dia, um homem tocou a campainha de casa. Eu devia ter uns quatro anos de idade. Abri a porta. Não o reconheci. Era meu pai, mas para mim, era simplesmente um homem.

Finalmente, após anos brigando, fui morar com minha avó paterna. E avô. Vovó dominava a cena. Mandava e desmandava, e meu avô obedecia. Muitas vezes beirando à histeria, vovó tinha um jogo muito peculiar: fazia o que queria, gritava, dava as ordens, e se percebia algo que a contrariava, caía na cama, com dores de fígado e vitimismo profundo, evitando assim que alguém pudesse reagir contra sua autoridade.

Costumo dizer que as vítimas conseguem causar danos mais profundos que as pessoas agressivas, que batem, agridem fisicamente, simplesmente porque não há como reagir contra as vítimas. A vítima é socialmente aceita. Se alguém vê uma vítima apanhando na rua, não irá querer saber que esta vítima provocou o agressor durante vinte anos. Irá defende-la. Se esta vítima mora dentro da sua casa, é sua mãe, pai, avô, avó, marido, esposa ou filho – talvez você mesmo seja a vítima, em vários momentos – então, entende bem o que eu falo. A pessoa cai na cama, doente. Se faz de coitada. Dá um passo e na primeira derrota, justifica que o mundo é ruim. O presidente é culpado. A política econômica… a violência… etc., etc., etc.

Mas meu avô também, de certo modo, era vítima. Quando eu interpelava vovô a respeito dos comandos que achava injustos da vovó, ele dizia: não posso fazer nada! Ela é assim. Vovô era submisso à ela. Atraímos um mesmo modelo para a nossa vida, e todos estão amarrados neste modelo. Assim fui criado. Assim aprendi a ser homem.

Um homem fraco, subordinado às vontades muitas vezes absurdas das mulheres.

Bert Hellinger, o criador da terapia de constelação familiar sistêmica, diz: “A ordem do amor entre o homem e a mulher envolve também uma renúncia, que já começa na infância. O filho, para tornar-se homem, precisa renunciar à primeira mulher da sua vida, que é a sua mãe. E a filha, para tornar-se uma mulher, precisa renunciar ao primeiro homem da sua vida, que é o seu pai. Por essa razão, o filho precisa passar cedo da esfera da mãe para a do pai. E a filha precisa retornar cedo da esfera do pai para a da mãe. Permanecendo na esfera da mãe, frequentemente o filho só chega a ser um perpétuo adolescente e queridinho das mulheres, mas não um homem. E persistindo na esfera do pai, a filha muitas vezes só se torna uma perpétua menina e namoradinha dos homens, mas não uma mulher. Quando um filhinho da mamãe se casa com uma filhinha do papai, com frequência o homem busca uma substituta para a sua mãe e encontra na mulher, e a mulher busca um substituto para o seu pai e o encontro no marido.”

O casamento do filhinho da mamãe

Cresci, entrei na faculdade, larguei faltando alguns meses para concluí-la, fui morar no Japão por três anos e lá reencontrei minha autoestima, que estava bem derrubadinha. Ao retornar, durante uma viagem ao Peru, encontrei a mulher que seria minha esposa e mãe dos meus dois filhos. Uma alemã que eu via como uma pessoa com personalidade fortíssima, e aquilo me atraía. Naquele tempo, aos 27 anos de idade, não fazia terapia. Mas depois, muito tempo depois, fui percebendo que ela possuía características da minha mãe e da minha avó. Bert Hellinger tinha razão: o filhinho da mamãe casou-se com a filhinha do papai. E o que eu buscava na minha mamãe/esposa? Segurança. Carinho. Sexo. Proteção. E ela queria que eu provesse financeiramente o lar. Porém, recém chegado do Japão, sem saber muito bem o que fazer, as coisas não foram fáceis. E ela, alemã, num país estranho, entrou em crise. E muito cedo, poucos meses juntos, minha ex engravidou, da nossa primeira filha. Era o princípio do conflito. Ela exigindo segurança financeira que “o papai” não estava dando. Eu exigindo proteção maternal que “mamãe” não estava dando.

No fundo, estava eu repetindo a história da minha avó paterna. E da minha mãe. Mulheres que não tiveram a segurança financeira dos maridos. E eu, como o “homem” da história, sentindo-me inseguro, agredido, pressionado e abandonado pelas mulheres.

Dezessete anos durou o casamento. E posso dizer que foi um período extremamente difícil, mas extremamente rico em vários aspectos. O meu emocional foi totalmente moído e desfragmentado, e somente então pude ver o quanto eu era um homem frágil, adolescente e carente. E o quanto que isso impedia o meu sucesso profissional e minha capacidade de prosperar. Hoje eu sei: dinheiro? Eu não queria isso! Queria somente uma mamãe para cuidar de mim!

Estava começando a repetir a história do meu pai: ele rodou de mulher em mulher, para após estar destruído pela bebida, retornar à mamãe: minha avó paterna, viúva, que o recebeu de braços abertos. A única mulher na vida do meu pai. A mãe que o sufocou, e sufocou a mim e ao meu irmão. Dando o melhor que ela podia dar, sem dúvida. Vovó fora abandonada pelo pai, e inconscientemente, carregou muito ódio em relação ao masculino. E descontou nas figuras masculinas que passou ao seu lado, castrando-os da forma que pôde.

E isso foi ótimo para mim. Porque descobri, após o divórcio, a minha força. Voltei com tudo à vida, comecei a ser um homem como eu nunca fora. Em todos os aspectos. Acho que um carma foi extinto. Tenho hoje amizade e muita gratidão pela minha ex-esposa. E estou numa nova relação onde, embora tenhamos nuances da questão pai-filha e mãe-filho, sabemos lidar com isso, porque temos um diálogo aberto, e buscamos terapia, trabalhos interiores, etc. Temos muitas coisas a aprender – relacionamento nunca é fácil. Mas estamos atentos, e damos um passo por vez, conscientes de que cada um cuida do próprio nariz. Para construirmos uma vida de casal com consciência, liberdade, diversão e amorosidade. E um pouquinho de responsabilidade também.

No meu trabalho terapêutico, procuro sempre deixar bem clara a necessidade dos filhos afastarem-se (este é um movimento interno) definitivamente dos pais. Com respeito, carinho, mas decisão. E isso não se faz virando as costas – muitos largaram os pais por raiva ou descaso, mas continuam presos a eles: é necessário perceber claramente os jogos de manipulação que estamos envolvidos em relação aos nossos pais, e com muita consciência e sentimento de amor, saber sair disso. O que nos prende aos nossos pais está dentro de nós: são sentimentos e emoções do passado, mal resolvidas. E cabe a nós nos libertar. Porque os pais não fazem estes jogos por maldade, mas porque estão programados, pelos pais deles – seus avós… e os avós, pelos pais deles – os bisavós, e assim por diante. Um homem, para ser homem de verdade, precisa deixar sua mãe. Não deve viver nem confrontando ela, nem querendo ser aceito por ela, nem deixando-se ser manipulado, nem querendo cuidar e fazer tudo por ela. Pode, claro, cuidar financeiramente dela e das necessidades que ela tem, se puder e quiser fazer isso. Mas esse movimento é isento de culpa. De obrigação. É um gesto de absoluta gratidão e desprendimento, que não deve interferir na sua vida pessoal. Caso contrário, é importante buscar ajuda terapêutica. Para se libertar deste emaranhamento, e poder ser autônomo, e forte. Ser um homem de verdade, e não mais um menino mimado.