Como lidar com a cobrança interna?
Por Alex Possato

Como lidar com a cobrança interna?

 

Se você é um ser humano do tipo – humano, deve lidar com uma voz interna que vive te cobrando. Sejam as coisas que você não conseguiu fazer. Ou aquilo que não fez bem feito. Ou se cobra pelo seu corpo, sua saúde. Quem sabe pela situação financeira que se encontra. Se cobra até por não estar mais em paz, depois de tanta busca terapêutica e espiritual. Bem-vindo ao time! Somos assim!

 

De onde vem a voz da cobrança?

Ahhh, Alex, vem da minha cabeça! Ok. Mas como que esses pensamentos repetitivos e torturantes foram parar dentro da sua cabeça? É simples:

  • Observando os adultos que se cobravam exageradamente ao seu lado, quando era criança
  • Sendo cobrado e exigido por melhores performances
  • Vendo irmãos ou colegas serem reconhecidos por feitos que você não conseguiu realizar
  • Quando você foi punido por algo que fez ou deixou de fazer
  • Ouvindo discursos morais ou religiosos que te fizeram acreditar que, do jeito como você era, não era bom o suficiente
  • Tentando alcançar notas na escola, performance nas aulas de educação física, dança, futebol, teatro ou seja lá o que for
  • Sendo criticado pelo seu jeito disperso, criativo, brincalhão, esquisito ou amuado
  • Quando você é ridicularizado pelo seu corpo, sua fala, suas feições, origens, etnia

Nós, quando crianças, não discriminamos. Não entendemos as “regras” dos adultos. Só sentimos que, de alguma forma, a atenção, o amor, o cuidado, a aprovação foram retirados. Alguém diz que foi por alguma coisa que há em nós, e acreditamos nisso! Veja quanta inocência! E então pensamos:

“Se eu fosse diferente, conseguisse isso ou aquilo, puder mudar meu corpo, meu jeito, etc., serei apoiado!”

Forma-se então um pacto interno, onde negamos aquilo que somos e que, até aquele momento, estava ok. Negar aquilo que acreditamos errado em nós torna-se um padrão cheio de raiva e tristeza.

O ponto mais importante, que poucos se dão conta é que: negar quem você é, se julgando e condenando, te mantém unido à situação original. É como se a criança interna ainda dissesse: “eu estou tentando de tudo, papai, mamãe. Vocês precisam me amar!”

A máscara do errado

Cheios de culpa e vergonha, nos sentimos pertencentes à família crítica, cobradora ou disfuncional, e que, em algum grau, deixou de dar o afeto que precisávamos. Adultos, enquanto que a mente racional quer que o mundo nos valorize pelo que somos, a mente inconsciente deseja ser vista pela única forma de reconhecimento que ela entende verdadeira: a culpa e a vergonha por não conseguir atingir o que nos propomos. É uma fidelidade ao passado de dor unida a um amor distorcido, que deseja se sentir pertencente, ainda que seja através do sofrimento.

Vestimos então a máscara do errado, fracassado, lutador derrotado, ou o nome que você queira dar. Costumo dizer que assumimos um personagem, cujo script já está escrito. O resultado da história é um círculo infinito de autocobrança, tentativa de sair dos problemas, fracasso, e mais autocobrança.

Como mudar?

Vou ter que ser franco com você: as vozes não irão sumir. Os pensamentos são gravações, que se repetem e se repetem na mente. Um primeiro e mais importante passo é:

  • Ouvir os pensamentos, olhar para eles com cuidado, mas observá-los sem se identificar. Há uma voz dizendo que você está errado. Você não “é” errado. Há uma voz dizendo que você está feio ou fora de forma. Você não “é feio” e seu corpo está bem do jeito que é.

Àqueles que acostumam-se a meditar, logo percebem que há um “observador” interno, uma parte da sua própria mente que ouve os pensamentos. Se há um “observador”, fica óbvio que “eu não sou os pensamentos”. Esse é o começo do despertar da consciência.

A partir disso, você pode até entender de onde vem os pensamentos, quem te ensinou, quais traumas estão marcados na sua psique… Mesmo assim, entender não irá aliviar. O segundo passo, pelo olhar sistêmico, é:

  • descobrir o padrão do seu “personagem”: como você age para manter esse “eu errado” vivo, atuando e provocando o seu próprio sofrimento.

Em geral, você perceberá que se guia para agradar os outros. Segue modelos para ser aceito. O olhar externo é tão forte, que você não consegue ser quem você é. Seus dons, talentos e criatividade ficam semiadormecidos, porque você tem medo de fazer do seu jeito e ser ignorado ou julgado.

A última ponte a ser cruzada

Por mais que alguém chegue para mim e diga “me sinto rejeitado por todos”, eu penso: quem mais rejeita, internamente, é você! A pessoa rejeita inclusive o fato de ter sido rejeitada. Vira uma bandeira, e ela precisa ser rejeitada para poder manter viva o personagem. Claro que isso provoca dor. E a última ponte a ser cruzada é:

  • amorosamente, mas com firmeza, deixar de dar valor às vozes de rejeição: externas e internas

Uma parte do ego ficará furiosa! Usará de todos os artifícios para impedir que você desista de ouvir a voz da rejeição. Irá te jogar para o vitimismo. Irá pegar todos os argumentos para provar que “sim, o mundo te rejeita!”. Cada não que alguém disser servirá de confirmação. Uma crítica em rede social ou uma palavra mal usada por alguém no whatsapp irá acender a fagulha da rejeição novamente. Então, volte para o passo 1. Observe. Se se perder nos pensamentos, quando puder, se centre novamente. Essas vozes não são reais. Seu pensamento não é quem você é. São ecos do passado.

Atravesse a ponte. Deixe o passado para trás. Olhe para frente e se pergunte:

– o que eu verdadeiramente quero fazer? Como desejo agir, a partir de agora? O que eu faria, se eu não tivesse freio? Como posso trazer felicidade para mim e para as pessoas, de um jeito que seja espontâneo?

Não olhe para trás. Se alguém quiser, que te acompanhe. Aqueles que realmente são importantes, estarão com você.

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