O Uber de Deus
Por Alex Possato

O Uber de Deus

Hoje acordei com pensamento louco: meu corpo é como um Uber. O motorista é minha mente racional, pensante. Pela vida, saio fazendo as corridas, deixando pessoas entrarem e saírem do meu carro. Elas me invadem, e deixam suas energias. Algumas, caladas, depressivas, cansadas. Outras falando sem necessidade, como se fossem caixas d’água que não comportam mais o conteúdo, e despejam o excedente sobre mim. Há aquelas pessoas good-vibes. Só de olhar para elas minha alma já sorri. E também há aquelas que vestem a máscara de felizes, enquanto que a nuvem de tristeza e decepção paira sobre a cabeça.

Me perco nas histórias. Nos lugares onde as pego, e onde as deixo. Ao final do dia, estou cansado, às vezes esgotado do trabalho. Com alguns trocados no bolso. Mas sabendo que amanhã começa tudo outra vez.

O Questionamento

Dias desses parei no acostamento da estrada. Era um entardecer. O aplicativo estava silencioso. Nenhuma chamada. E então eu me perguntei:

  • para que isso? Qual o sentido disso tudo? Até quando vou continuar rodando a cidade, desgastando meu carro, cansando minha mente, indo para lá e para cá, conhecendo pessoas que não ficam na minha vida? Tudo isso para ganhar algum dinheiro e pagar minhas contas?

O Encontro

Nesses devaneios, olhei pelo retrovisor e vi um homem. Levei um susto, e gritei:

  • saia já do meu carro! Vou chamar a polícia!

Enquanto isso o celular já estava nas minhas mãos trêmulas, tentando digitar 190.

Ele continuou impassivo. E disse:

  • se acalme. Nada vai acontecer.

Sua voz profunda e ao mesmo tempo acolhedora me fez respirar um pouco mais forte.

  • quem é você? Como você entrou?
  • eu já estava aqui. Mas você nunca me notou. Na realidade, eu já estava aqui antes de você ter esse carro… mas acho que você não irá entender isso.

Realmente não entendi. Como esse maluco está dentro do meu carro? – eu pensava.

  • E o que você quer? Está querendo ir para onde?
  • Eu vou para onde você for. Se você ficar aqui, eu fico com você. Se você andar, eu ando com você.

Pensei em abrir a porta e sair correndo. Mas então aquele doido iria roubar o meu carro.

  • Quando você deixar o seu carro, eu ainda continuarei aqui. E também estarei lá fora com você – disse ele, lendo meus pensamentos.

Comecei a ficar com medo. Era a situação mais estranha que eu já tive! E olha que já peguei bêbados, drogados, já expulsei gente que queria transar no banco traseiro do carro…

A Revelação

  • Ouça bem, querido – continuou ele. Você pode não ter percebido, mas você estava se perguntando: para que tudo isso? Para que eu vivo encontrando pessoas que irão embora? Para que eu vou para cima e para baixo, mas nenhum lugar é o destino final? Para que continuar? Só por causa de algum dinheiro na conta?

Eu estava aqui, te ouvindo. Assim como ouço tudo o que se passa na sua mente. Inclusive, por causa da sua mente que não para, você nunca me notou.

Resolvi me virar e olhá-lo de frente. Comecei a ficar curioso onde essa história iria me levar.

  • Perceba. Esse carro é seu veículo provisório. Uma hora ele não será mais seu. Mas você continuará. E assim como as pessoas que entram e saem do seu veículo, você também é um passageiro. Mesmo que pense que está dirigindo a sua vida. Você vai para os lugares onde as pessoas te chamam. E depois elas dizem o destino. Você segue. O melhor que pode fazer é conduzir o veículo de uma maneira segura. Nada mais. Até o dia em que fará a última corrida.
  • É só isso? – retruquei. E meus filhos? Minha esposa? E as contas para pagar?
  • Ahhhh… como você é tolo. Eles também são passageiros. E irão embora, um dia. As contas? São só contas. É o ônus da vida aqui nesse plano. Seus pais e avós também tiveram que pagar contas. E também eram passageiros. E já se foram, não é mesmo? O que ficou?

Pensei, refleti… e respondi:

  • A saudade. O vazio.
  • Pois é. Vazio porque você ficou preso aos corpos deles. Ao destino. Às roupas que eles usaram. Aquilo que eles falaram. Ao choro retido e as risadas. Você não notou que eu estava ao lado deles. E eles também não notaram isso.
  • Você está querendo dizer que você preenche esse vazio? Que você é o sentido da vida?
  • Bingo! Acertou. Sou eu quem preenche a sua existência. Até porque eu sou a única coisa que continua. Se você me vê, eu continuo. Se você não me vê, eu também continuo. Até se você perder a visão, a audição, a memória… aqui estarei. Que bom que você estava esgotado e resolveu parar. E se questionar. Porque então me notou. Olhe bem para meus olhos, agora. O que você vê?

A Experiência

Eu fixei meus olhos nele. E subitamente parece que fui transportado para uma outra dimensão: me vi bebê. Vi meu pai e minha mãe. Vi histórias ancestrais que passavam em segundos. Vi eu mesmo, sentado no banco traseiro do meu automóvel. Me vi fora do carro, velho, olhando para aquela cena. Me vi como se dissolvendo numa nuvem de vapor. Vi meus filhos, minha esposa. Vi tudo o que ganhei e tudo o que perdi. Vi o planeta, as estrelas, a lua e o sol… Minha mente foi se dissipando, e em poucos instantes, não havia mais “eu”.

Nesse sagrado segundo, eu era tudo isso, e ao mesmo tempo, nada disso importava. Amor e paz ressoavam. Lá no fundo, quase como uma música, uma voz ainda se ouviu:

  • Agora você chegou. É tudo isso. E muito mais. Experiencie a vida. Mas não fique preso às coisas que passam. O real não está fora.

O Retorno

Subitamente o som do aplicativo tocou alto e eu saí do transe. Abri os olhos e não vi ninguém mais no banco traseiro. Um cliente me chamava para uma boa corrida até a Lapa. Eu ri alto.

Desliguei o celular. E voltei para casa, para abraçar meus filhos e minha esposa.

 

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